Que o primeiro-ministro tenha esta ou aquela opinião sobre um jornalista e o seu trabalho e o comente com os que lhe são próximos é natural. Que fale ao telefone e use termos e expressões impróprias para uma conversa pública é possível. Os governantes não são anjos, nem santos. São pessoas normais, iguais a cada um de nós. Mas são pessoas que pelas funções públicas que exercem têm de ter uma conduta privada cautelosa. E, em certa medida, com condicionamentos. Como são pessoas que exercem funções públicas a sua vida é muito escrutinada. E nesse escrutínio cabe tudo: o que é do foro público e do privado. É cruel, mas é assim.
Não é preciso viver no interior de uma redacção, para conhecer os telefonemas entre jornalistas ou escutar as conversas ao almoço para perceber a estima que os jornalistas têm pelos políticos e o modo como a eles se referem. E como preparam as suas campanhas de descredibilzação em nome do direito à informação.
Não existem dois países. E duas linguagens: uma para o poder político. Outra para o poder mediático. Somos o mesmo país e o mesmo povo. E as qualidades, virtudes e defeitos estão igualmente distribuídas. Pelo que temos de cultivar algum distanciamento perante a recente polémica do caso “Mário Crespo”. O problema é outro.
Em nenhuma democracia é fácil a um governo passar de uma maioria absoluta para uma maioria relativa. Pior quando a governação em maioria absoluta o foi com um estilo autoritário, desprezo pela minoria e apoucando quem a criticava.Há muita gente a quem o poder subiu à cabeça E nem precisamos de ir muito longe para buscar exemplos.
Se recuarmos no tempo e consultarmos o histórico deste blogue, que em termos políticos tem pouca relevância, encontramos quem, a coberto do anonimato, tenha usado o insulto e a calúnia como arma do debate político . Num estilo que fez escola em muitos intelectuais orgânicos do “socratismo” -o socialismo democrático é apesar de tudo uma outra coisa - e em muitos assessores em gabinetes do governo. Mais ainda: procurou-se denegrir as opiniões alheias aviltando e descredibilizando o carácter e a idoneidade dos seus autores ou encontrando neles contradições que revelariam a seu baixo compromisso com a verdade.
Este tipo de comportamento inundou o espaço da blogosfera, revelou um padrão de comportamento obsessivo e marcou uma cultura politica da maioria absoluta de onde os responsáveis governamentais não fizeram nada para descolar. O efeito não poderia ser pior do que aquele que está a acontecer. Agravado por, nos tempos actuais, a política se não circunscrever aos seus actores tradicionais mas envolver gente do negócio das “agências de comunicação” e da publicidade politica ”travestida” de jornalismo. De um lado e do outro há muito quem queira acertar contas.
As campanhas de descrédito têm sempre a possibilidade de retornar aos seus autores. E com efeitos mais devastadores. Começam pelas opiniões que se expressam informalmente e acabam nos actos de governação. Começam por conversas de corredor e acabam no computador deste ou daquele jornalista que decide ir investigar o que se ouve dizer. E aí o mundo parece começar a desabar.
Em parte o governo está a ficar refém na cama que ajudou a fazer. Costuma-se dizer que as pessoas inteligentes são aquelas que aprendem com os próprios erros e que os muito inteligentes são aqueles que aprendem com os erros dos outros. Como classificar aqueles que nem aprendem com os erros próprios, nem com os dos outros? Cheira-me que a coisa não vai acabar bem.

