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sexta-feira, 6 de maio de 2011

Clubes, SADs e equipas: o equívoco português

Um novo contributo de Luís Leite, que a Colectividade agradece.


Nos últimos anos o futebol português tem sido invadido por milhares de jogadores estrangeiros, quase todos sul-americanos, sendo a maioria brasileiros.
Portugal gasta anualmente muitas dezenas de milhões de euros na aquisição de futebolistas estrangeiros.
Curiosamente, tanto a comunicação social como todos os que escrevem ou falam sobre o futebol português, promovem um equívoco que, objectivamente, dá muito jeito.
Confundem-se os conceitos de Clube, SAD e Equipa.

Se meditarmos um pouco concluiremos, naturalmente, o seguinte:
Um “Clube” é uma instituição desportiva formada por sócios pagantes, na quase totalidade portugueses. Tem emblema português e foi fundado em território português. Podemos dizer que os clubes em Portugal que satisfazem estas condições são “clubes portugueses”.
Uma “SAD” (Sociedade Anónima Desportiva) é uma empresa com um determinado capital, materializado em acções, por vezes com cotação na Bolsa. Quem manda numa SAD é quem tem a maioria do capital. Podem ser pessoas, bancos, empresas, etc., portugueses ou estrangeiros. Há SADs como a do Chelsea (de um russo) ou a da A.S. Roma (de americanos) que não estão na mão de nacionais do país a que pertence o Clube. Uma SAD pode não ser propriedade de entidades do mesmo país que o respectivo Clube.
Uma “Equipa” é um conjunto de jogadores (11 mais os suplentes), que entram em campo para disputar um determinado jogo, utilizando um equipamento representativo do Clube, que ostenta o respectivo emblema no peito. Após a Lei Bosman, existe livre circulação de jogadores profissionais de futebol, desde que contratados de acordo com a legislação e regulamentação em vigor. Esses jogadores tanto podem ser do mesmo país do Clube, como podem ser estrangeiros, total ou parcialmente.

Será que é correcto dizer ou escrever que as equipas do SLB (que joga em média com 1 ou 2 portugueses), do FCP (que joga em média com 2 ou 3 portugueses) e do SCB (que joga em média com 2 ou 3 portugueses) são “equipas portuguesas”? Ou serão mais sul-americanas?
Será correcto falar-se em grande sucesso das “equipas portuguesas” e do “futebol português” nas competições europeias, quando estas 3 equipas jogam com 75% a 90% de jogadores estrangeiros, maioritariamente sul-americanos?

Clubes portugueses, equipas maioritariamente estrangeiras, futebol multinacional.
Por muito mérito que tenham os Clubes e respectivas SADs, os seus dirigentes, assessores, técnicos, equipa médica, etc., aquelas equipas actualmente não são portuguesas. Ainda poderia admitir essa designação se mais de metade dos jogadores fossem portugueses. Assim, só estamos a enganar-nos e a prejudicar o verdadeiro futebol português, aquele que é jogado por portugueses.

domingo, 6 de março de 2011

Os efeitos pigmaleões de José Couceiro

Não sou do tempo de José Couceiro enquanto jogador. Conheci-o quando ele deambulava uns dias pela Faculdade de Motricidade Humana. Conheci-o enquanto um misto de gestor desportivo, director do Alverca FC, enquanto a figura mais próxima que existe em Inglaterra, de Manager.

Era e é uma figura moderna na óptica de um gestor desportivo. Continuará a ser um exemplo enquanto gestor desportivo. E por isso não se consegue perceber como alguém que possui a posição dele (não falo de clubes, apenas de responsabilidades transversais e competências que lhe são reconhecidas) quando vem dizer que interessa que a Liga esteja nivelada por baixo. Que a competividade não interessa aos outros clubes. Que não é na adversidade que se evolui. Que a competição entre mais clubes qualitativos não consegue proporcionar melhoria. Que interessa ao Benfica e Porto que o Sporting continue por baixo para não competir? A única liga que se assemelha a isso é a Escocesa e os dois clubes grandes passam a vida a querer sair porque Liga competitiva equivale a mais receitas e vem José Couceiro defender que se quer isso por parte do Benfica e Porto?

Para alguém como José Couceiro ou outro qualquer dirigente que se encontra na posição dele, parece-me que fomentar a mediocridade como o nível desejado para que não se tenha de evoluir é estranho. Menos estranho é verificar que estas declarações apenas aparecem enquanto treinador. Enquanto director esteve sempre isento nestas 'polémicas'.

Parece que quando se chega ao papel de treinador, o que esperamos deles é mais forte do que os seus hábitos. É um saco, onde cabe este ou aquele. Triste que se fomente o clubismo assim. Dizia Covey que quando se considera que o problema são os outros, esse em si é o grande problema.

Gostaria que José Couceiro fizesse parte das soluções, não apenas no seu clube, mas em todo o desporto/futebol nacional. Esperemos que ainda se consiga preservar.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Os melhores do Mundo

Quando Jorge Mendes afirmou, momentos antes de ser eleito o melhor Agente FIFA do ano de 2010, que Cristiano Ronaldo e José Mourinho iriam ser considerados o melhor jogador e treinador de futebol de todos os tempos, quem terá beliscado, o Maradona jogador ou até mesmo o Maradona treinador?

Aparentemente nenhum deles.

Em 24 de Fevereiro, os jornais desportivos Record e A Bola davam conta de que Diego Maradona, em entrevista ao jornal Marca, tinha afirmado que sendo ele o Presidente do Boca Juniors, ou de outro grande clube, Contratava Mourinho em vez de Guardiola.

Aparentemente, tal afirmação teria tanto de inocente como de descomprometimento, não fosse surgir no dia seguinte a notícia de que a Gestifute, empresa detida por Jorge Mendes, e que representa José Mourinho (a par de C. Ronaldo), passaria a representar Maradona na Europa.

Tanto quanto foi avançado na comunicação social, esta ligação teria começado com a visita de Maradona a Valdebebas, após a qual, José Mourinho, Jorge Mendes, Diego Maradona e C. Ronaldo se reuniram em casa do treinador português para alinhavar a nova “contratação” da equipe Gestifute, como consta da edição impressa do jornal Record de dia 25 de Fevereiro.

Se por um lado Jorge Mendes ganha um enorme aliado no “recrutamento” das jovens pérolas argentinas, adiantando-se aos demais Agentes FIFA, por outro, fica-se a perceber que a Team Gestifute é bastante vasta, fixando-se um pouco por todo o lado, com orientações bem definidas e em que nada parece suceder por acaso.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Sporting C. P., um caso que merece ser estudado

Independentemente da preferência do clube, o Sporting C.P. merece ser estudado e analisado ao pormenor, tentando perceber (se possível) o que se passou, passa e passará, até porque pode ser considerado um exemplo de gestão (expectativas? financeira? desportiva?) que pode servir de aprendizagem para que outros não repitam alguns dos seus erros.

O clube é mais do que simplesmente Futebol, mas à imagem do País, não lhe valem as vitórias noutras modalidades como o Futsal, Andebol na Europa, Atletismo e outras modalidades. Os problemas do Futebol são sempre prioritários e nem o bom trabalho desenvolvido na formação acalma os adeptos, pese embora a alteração estratégica de quase despachar muitos dos atletas que eram produtos da Academia esta época desportiva.

JEB foi quase sempre contestado. E atenção porque ganhou as eleições com 90% dos votos e passado alguns dias já era alvo de acusações. Costinha, que em Dezembro de 2009 tinha sido vetado pelo ex-futuro treinador dos verdes que acabou por ir para o Porto, assumiu a pasta do Futebol e, sendo verdade que sem dinheiro é mais difícil, acabou por falhar na gestão das contratações e saídas de jogadores.

Passaram demasiados Directores Desportivos ou do Futebol nos últimos anos. Pedro Barbosa, Sá Pinto, Costinha, etc...Muitos para tão poucos resultados. Diria mesmo que o melhor elemento, quer se goste quer não se goste, que passou nos últimos anos pelo Futebol Profissional do clube foi o agora seleccionador nacional. Ganhou pouco, mas ganhou algo. O clube assumiu uma fixação pelo desequilíbrio e desnorte que de x em x tempo volta ao local do crime e mesmo após as vitórias, há sempre uma temática que faz desalinhar o clube como organização total.


O clube no Futebol terá de assumir as suas forças e fraquezas, e uma delas - sempre na comparação com o Benfica e Porto - é que a capacidade financeira é menor e com isto, exige uma ponderação melhor na política de contratações. E acima de tudo, o que parece que poucos querem admitir publicamente mas o vão fazendo indirectamente, a gestão de expectativas. Das suas próprias expectativas e que são transmitidas para os seus adeptos.

Convém não esquecer que o clube e a sua estrutura do Futebol foi pioneira em Portugal, um exemplo de sucesso na área da formação de jovens, SAD, Academia, exemplos de gestão, exemplos que faziam que os estudantes de Gestão de Desporto gostassem de os estudar, falar e visitar os locais. Com o tempo, foi perdendo capacidade de agregar a sua massa adepta e começa a ser difícil explicar a tão pouca fraca adesão dos adeptos nos jogos em casa (pois fora, se exceptuarmos as claques, poucos acompanham a equipa).

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Alternativas crediveis

Um dia, para memória do futebol português, alguém se dedicará a escrever sobre o intrincado processo de relacionamento entre o Estado, a máquina fiscal, os jogos sociais e os clubes na regularização das suas dívidas. Até lá vão-se recolhendo contributos em algumas obras que, en passant, abordam o tema, ou em peças jornalísticas.
A ultima das quais, assinada por Paulo Curado e João Ramos de Almeida ontem no Público, faz uma interessante síntese deste tema. O balanço actual no que respeita ao pagamento das dívidas é, segundo a notícia, claramente prejudicial para o Estado:

O Governo aceitou prescindir, desde 2006, de receitas dos jogos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) para reduzir as dívidas fiscais de clubes de futebol. Essa decisão mata, sem se dar conhecimento público, o acordo fechado em 1999 entre o Estado e os clubes de futebol para usar as receitas do Totobola para pagar as suas dívidas fiscais, conhecido por "totonegócio". Só de 2006 a 2010, os clubes terão recebido 27 milhões de euros, contra 6 milhões caso se aplicasse o acordo

Tal como noutros domínios da vida deste país - alguns bem na ordem do dia -, foram as receitas públicas, neste caso provenientes dos jogos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que financiaram o pagamento das dívidas.

Poder-se-à sustentar que as receitas do jogo provinham do justo retorno de um jogo que só existia devido aos nomes dos clubes, o Totobola, apesar de haver jurisprudência da época que não corrobora aqueles que seguem este entendimento. No entanto, o cenário alterou-se em 2006, e desde essa data “as dívidas fiscais do futebol estão a ser pagas através de uma parcela de 0,48 por cento da totalidade dos jogos, transferida para o Instituto do Desporto de Portugal, destinadas - segundo o diploma - para a promoção e desenvolvimento do futebol

Quer isto dizer, a fazer fé nas fontes oficiais que a noticia cita, que dos 0,6% de receita que o diploma consigna (art.º 3.º, n.º4, al. c)) para a “promoção e desenvolvimento do futebol” apenas 0,12% se destina realmente àquele objectivo, algo que, por força da suspensão da UPD à FPF, ficou reduzido a zero.

A vida tem destas coisas e o mesmo Estado que há décadas legisla para impedir que os clubes desportivos participantes em competições de natureza profissional possam beneficiar de comparticipações públicas, encontra-se, desde 2006, a pagar as suas dívidas fiscais com receitas destinadas à promoção e desenvolvimento do futebol através do Instituto do Desporto de Portugal.

Em cima da mesa estão, neste momento, alternativas credíveis de aporte fiscal para o Estado salvar a face neste processo sem comprometer outros interesses legítimos. Oxalá nelas bem reflicta.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

A competitividade das competições

Saiu ontem no jornal 'A Bola' um artigo do Prof. Doutor Pedro Mil Homens sobre competitividade (parte I, informa-se). Interessante o artigo, debatendo ideias que mesmo os menos afortunados academicamente, já lançaram para o debate. Há muito tempo, reforçamos!

Coloca ideias e factos passados noutros países que contribuem para uma maior competitividade em diversas modalidades, embora com enfoque no Futebol, e nos escalões mais jovens. A história de que mesmo nos escalões jovens, deve-se exigir rigor e competição em todas as situações dos torneios, competições e até ao final do jogo, competição, treino, etc, como factor que desequilibra para que alguns países apresentem hoje modelos mais consistentes e que são sustentados pela maior preocupação que as respectivas Federações nas mais diferentes modalidades apresentam.

Ideias de competitividade que devem ser transversais para outros modelos da sociedade. Discussão essa que já vai longa e sem grandes resultados, pois continua a não existir qualquer consenso entre os treinadores dos escalões mais jovens e das Federações. Modelos esse que não promove a competição ou a participação de todos ou desmoralizam os menos fortes ou não criam suficiente motivação para os mais fortes ou que não preenchem todo o ano competitivo ou muitos etcs. E aqui se insere um dos principais obstáculos para chegar a um qualquer consenso.

Ideias que foram lançadas quer por catedráticos quer por treinadores que até possuem pouca formação. É demais evidente que os modelos não funcionam e vão proporcionando poucas sinergias entre os vários segmentos que colaboram para um resultado final. Resultado final que vai proporcionando alguns talentos mais por ‘calorice’ de alguns agentes desportivos que propriamente o sistema competitivo.

No Futebol têm existido mais talentos. Mais por adesão de uma grande percentagem de ‘miúdos’ do que propriamente de uma filtragem de qualidade. Noutras modalidades colectivas os modelos vão sofrendo ainda mais dificuldades. Para não falar dos escalões jovens no género feminino!

Esperam-se alterações (para quando? E com a iniciativa de quem? Com a intervenção do IDP? Estado?). Com eleições previstas para a FPF, que prioridade terá a formação, competição jovem nestas guerrinhas que temos assistido?

Aproveitar para desejar a todos um Bom Natal e um Excelente 2011!

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A dimensão do desporto profissional americano

Um texto de Luís Leite.

Em Portugal criou-se há muito a ideia de que o futebol é a modalidade com mais interesse a nível mundial e que movimenta mais dinheiro.
Uma pesquisa na Internet levou-me à descoberta dos jogadores mais bem pagos do mundo nas modalidades colectivas em 2010.
Trata-se aqui apenas de vencimentos, não estando incluídos prémios ou contratos publicitários.
Cristiano Ronaldo, o futebolista mais bem pago do mundo, é apenas o 33º da lista, que diz respeito, unicamente, a modalidades colectivas.

(valores em USD)
1 Alex Rodriguez 33.000.000 Baseball
2 Philip Rivers 25.556.630 American Football
3 Kobe Bryant 24.806.250 Basketball
4 CC Sabathia 24.300.000 Baseball
5 Derek Jeter 22.600.000 Baseball
6 Jay Cutler 22.044.090 American Football
7 Mark Teixeira 20.600.000 Baseball
8 Rashard Lewis 20.514.000 Basketball
9 Eli Manning 20.500.000 American Football
10 Johan Santana 20.144.708 Baseball
11 Miguel Cabrera 20.000.000 Baseball
12 Carlos Beltran 19.401.571 Baseball
13 Kurt Warner 19.004.680 American Football
14 Alfonso Soriano 19.000.000 Baseball
15 Carlos Lee 19.000.000 Baseball
16 Ryan Howard 19.000.000 Baseball
17 Carlos Zambrano 18.875.000 Baseball
18 Ichiro Suzuki 18.000.000 Baseball
19 Kevin Garnett 18.800.000 Basketball
20 Tim Duncan 18.700.000 Basketball
21 John Lackey 18.700.000 Baseball
22 Manny Ramirez 18.695.007 Baseball
23 Barry Zito 18.500.000 Baseball
24 Torii Hunter 18.500.000 Baseball
25 Michael Redd 18.300.000 Basketball
26 Magglio Ordonez 17.825.976 Baseball
27 Pau Gasol 17.822.187 Basketball
28 Andrei Kirilenko 17.822.187 Basketball
29 Todd Helton 17.775.000 Baseball
30 Gilbert Arenas 17.730.694 Basketball
31 Yao Ming 17.686.100 Basketball
32 Kelvin Hayden 17.480.000 American Football
33 Cristiano Ronaldo 17.420.000 Futebol

O clube que paga mais em ordenados de jogadores é, a grande distância, os New York Yankees (Baseball) com 206.333.339 USD (153.718.337,56 Euros).
A MLB (Liga profissional americana de Baseball), com 30 clubes, paga este ano 2.730.601.585 USD (2.047.951.188,75 Euros) só em ordenados de jogadores.
A NBA (Liga profissional americana de Basquetebol), com 30 clubes, paga este ano 2.010.189.550 USD (1.497.591.214,75 Euros) também só em ordenados de jogadores, mas não passa da 3ª Liga que mais gasta em vencimentos, atrás da NFL (Futebol Americano), com 32 clubes, cujo valor exacto não foi possível apurar, por várias razões, mas anda à volta dos 2.500.000.000 USD.
Nos Estados Unidos estes valores são mesmo reais e não há hipótese de fuga aos impostos.
Quanto ao futebol, os dados não estão disponíveis na Internet, por razões óbvias.

domingo, 14 de novembro de 2010

Quem manda numa SAD?

Permitam-me os associados e visitantes desta nossa colectividade que hoje dedique algumas palavras ao futebol na sua expressão mais imediatista, o que não é meu hábito.
O jornal desportivo “A Bola”, logo na primeira página e com amplo espaço em página interior, olha – diria em termos muito peculiares – o ocorrido no último treino da equipa do Benfica (ontem de manhã no Seixal).

Na primeira página titula-se: “Foi Jesus quem autorizou a entrada dos adeptos no Seixal”. Segue o jornal afirmando que o treino da manhã foi “marcado pelo diálogo entre o técnico encarnado e uma centena de jovens que o questionaram sobre a goleada sofrida no Dragão”.
Terá sido mesmo assim?
Claro que não e o jornalista, no interior, não consegue corroborar as chamadas de primeira página.

O grupo de adeptos – uma boa parte dos quais (pelo menos) pertencentes aos No Name Boys) – “juntou-se em frente à entrada principal do complexo encarnado e ameaçou entrar a bem ou mal”.
Depois de entrarem – pelos vistos com o beneplácito do treinador, pois, caso contrário, entravam a mal –, deslocaram-se “directamente para o relvado”, o que conduziu à interrupção do treino.
Lá foi o treinador ouvir as «queixas» da claque.

“O momento foi de elevada tensão, mas não houve qualquer tipo de violência física, apenas verbal, nomeadamente insultos. Jorge Jesus foi o principal alvo, mas também vários jogadores foram interpelados”.
“O plantel foi completamente apanhado de surpresa e o incidente impressionou negativamente alguns jogadores, em particular os que chegaram esta época ao clube.”
“Mas mesmo para os mais antigos da casa, uma confrontação como esta, em pleno treino, foi algo de inédito.”
“ Jorge Jesus ainda pensou, depois, retomar o treino, mas entendeu que não estavam reunidas condições para o fazer.”

O que se passou ontem no Seixal junta-se a outros episódios que no passado – e no futuro será também assim – tiveram lugar em treinos do Sporting e do FC do Porto, só para citar os «grandes» (?) e dá perfeita conta do peso das claques nos destinos de uma equipa de futebol.

Mas como diriam todos os administradores das SAD’S, membros dos corpos policiais, sociólogos «politicamente correctos», o Conselho Nacional do Desporto e membros do Governo, elas, legalizadas (?) ou nã0, fazem parte da «grande festa que é o futebol.
Assim seja, se assim o querem.
Mas, depois, não vertam, como sempre, lágrimas de crocodilo.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O recrutamento e a gestão de plantéis

A silly season (termo utilizado para definir o período em que os clubes - neste caso de Futebol - podem adquirir jogadores) está para os agentes de jogadores de Futebol como o verão está para a hotelaria no Algarve.

É natural então perceber algumas das suas acções durante este período que termina amanhã, 31 de Agosto, pois o resto da temporada futebolística pode ser um marasmo – tirando o mês de Janeiro – onde a capacidade de investir por parte dos clubes é muito menor do que nos períodos do Verão, a chamada pré-época.

O que trago para a discussão do blog é a capacidade dos clubes resistirem à pressão que poderá ser feita de forma directa e indirecta por parte dos empresários, dado que estes combatem qualquer tipo de recrutamento ou planeamento de construção das equipas, ao impingirem jogadores aos pacotes, sejam eles resposta às lacunas das equipas ou não.

Não quero com isto impor algum tipo de culpa aos empresários pela desorganização que por vezes é bem visível na construção de um plantel das equipas, sejam elas grandes, médias ou de pequena dimensão. Porque por muita força, pressão ou desinformação que os empresários lancem, a última palavra será sempre a dos clubes, sejam eles representados pelos Presidentes ou Directores Desportivos e/ou para o Futebol. Para isso, e apesar da satisfação que a contratação de José Mourinho causou em Madrid, existem já algumas correntes contra o poder que um empresário português tem na actual equipa com a centralização de contratações por parte desse empresário.

Perceber contratações sem qualquer tipo de trabalho antecedente e depois observar jogadores que custam fortunas (grandes percentagens dos orçamentos para uma época) a serem facilmente descartados como aconteceu durante este fim-de-semana com um clube português despachou o 2.º jogador mais caro da sua história, quer por verbas irrisórias, quer por empréstimos, é de questionar toda a estratégia (?) ao nível da gestão quer desportiva quer financeira que os clubes possuem. Se possuem…

É de lembrar já há algum tempo quando o jogador português Paulo Sousa foi para a Juventus, o Director Desportivo da equipa italiana afirmou que já o ‘seguia’ e estudava os seus hábitos de vida há algum tempo de forma a diminuir ao máximo o risco de má adaptação e não corresponder às necessidades da equipa e do plantel. Como perceber nos tempos actuais que as regras mais simples de construção de equipas de trabalho e desportivas sejam deturpadas com entradas de jogadores, muitas vezes, contratados à lupa de DVD’s, jogos FM’s, e que durante o mesmo período entrem diversos jogadores para as mesmas posições, apenas porque o próximo será sempre melhor do que aquele que foi contratado há 1 ou 2 semanas?

Quantas histórias são conhecidas de contratações feitas com processos rocambolescos? E por mais incrível que possa parecer, continuam a acontecer? Pode-se entender que se seja surpreendido com a saída de um elemento da nossa equipa e não ter alternativas para o lugar? Talvez! Pode-se compreender que se dispense jogadores e depois não ter alternativas? Considero que não!

De que vale a pena falar em gestão desportiva, gestão de algo, quando os plantéis são construídos da forma que percebemos que o são? Acredito que hoje e amanhã hajam diversas pessoas dinâmicas…é abrir os links dos jornais desportivos para ver a quantidade de nomes novos que aparecem hora a hora? Um Director de um jornal diário desportivo dizia que nesta altura recebiam em média uns 50 telefonemas diários de empresários a ‘incutir’ diversos nomes para os clubes a ou b!

Como iniciei, a questão é saber quem gere o quê e quem faz de facto a gestão desportiva de um plantel!

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Pobres teses

Há uma tese que insistentemente se acolhe em mentes bem pensantes: a de que o futebol seria uma espécie de refúgio de todos os males da sociedade. Mas no pólo oposto há uma outra que nada fica a dever aquela: a de que o futebol pode exercer uma função catártica sobre a sociedade e os seus problemas servindo de exemplo de sucesso, elevando a auto estima de um povo e puxando por um país.
Com o mundial de futebol, uma e outra das teses renovaram os seus espaços de interpretação e afirmação. Os homens do futebol refugiando-se na melopeia do “futebol” como excepção num país deprimido. Os outros com o futebol como “escola de defeitos”, concentrador de “activos tóxicos” que manipulam e adormecem as consciências. A overdose comunicacional a que fomos sujeitos através de um jornalismo a princípio épico - como se o futuro da pátria se jogasse em África e os jogadores fossem uma réplica dos navegadores dos tempos modernos - rapidamente descambou para um jornalismo de casos. Como é próprio de uma agenda que vive sem memória, sem densidade intelectual e virada para o sensacionalismo.
Tenho como adquirido que não é possível compreender a importância da dimensão social futebol sem primeiro compreender o modo como os meios de comunicação o tratam e constroem.
Exceptuando situações e vivências pessoais, o que nós sabemos do futebol (..e do mundo), sabemo-lo pelos meios de comunicação. São eles que nos sintonizam com essa realidade. Fazem-no do modo que querem. Pelo que a nossa percepção da realidade é construída através de uma relação mediada pela comunicação social. È sempre parcial. Pode ser isenta e neutra, matérias em si muito discutíveis. Mas é sempre uma parte da realidade. Pela natureza óbvia do processo comunicacional.
Em tempos, houve um programa radiofónico Bancada Central que valia por mil livros e outra tantas teses ou conferências. E aqueles programas que semanalmente os canais de televisão apresentam com um comentador por cada um dos três principais clubes deveriam ser de visionamento obrigatório para quem pretenda estudar e compreender o futebol para além do jogo. Sei que é um castigo duro mas o estudo exige trabalho!
A questão central é esta: os meios de comunicação escolhem os temas, as pessoas e a maneira de os tratar. O que nos chega não é a realidade. É a realidade tratada pelos jornalistas e pelos comentadores escolhidos pelos jornalistas. O que recebemos não é original. É em segunda mão. Os meios de comunicação não nos dão do futebol um conhecimento sobre o que acontece. Mas do que acontece, o que acham que é importante. E fazem-no de um modo dúplice: aparentemente crítico mas nunca distanciado. Por uma óbvia razão explicada singelamente por um antigo jornalista de desporto, Jacques Marchand :ninguém cospe na sopa que é o seu ganha pão. E o futebol é o ganha-pão dos jornalistas de desporto.
Na véspera do Portugal/Espanha um diário desportivo trazia em primeira página Ronaldo, de camisola na mão, ensaiando um passe de toureio sobre uma Espanha representada por um touro. Dias depois o mesmo jornal dissertava sobre o comportamento do jogador após a competição. Se cuspiu, e para quem, e se devia ter dito o que disse. Amnésia ética? As regras de civismo que se aplicam ao jogador não se aplicam ao jornal?
O jornalismo do futebol não prescinde do conflitual, do escandaloso, do novo. É um dispositivo profissional que não deontológico. Mac Luhmann dizia que aquilo que “nós sabemos acerca da nossa sociedade e até do mundo em que vivemos, sabemo-lo pelos meios de comunicação social”.Mas há uma parte que ignoramos, que não conhecemos. Não porque não exista.Mas porque não é apetecível para os meios de comunicação social. O futebol não escapa. E o nosso sentido de pertença ou de não pertença a essa realidade vive duma irrealidade: a realidade filtrada dos meios de comunicação social. E como tal a opinião pública é uma “opinião”configurada e difícil de descolar da opinião publicada. E essa opinião que veicula as ideias de um futebol como regenerador ou como síntese dos pecados socais. São apenas formas particulares de olhar o fenómeno. Que o não esgotam.
Em Barcelona, horas antes da final do campeonato do mundo realizou-se a maior manifestação de sempre da história democrática da Catalunha. Mais de um milhão de catalães vieram para rua em defesa do estatuto autonómico referendado em 2006.A Espanha foi campeã do mundo. Houve festa por todo o lado. Mas alguém acredita que o futebol vai desviar a atenção das pessoas da defesa do que consideram os seus interesses como alvitravam com satisfação alguns dos intervenientes do Dia Seguinte?

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Os reforços

Novo texto de Luís Leite, que se agradece.

Junho e Julho, desportivamente, neste país, são os meses dos “reforços”. Tudo o resto passa a segundo plano. É uma questão de fé e com a fé não se brinca.
Entende-se por “reforço” a aquisição de um jogador de futebol por uma SAD portuguesa, sendo que na maioria dos casos o craque, normalmente sul-americano, é completamente desconhecido do público que compra jornais desportivos. Exceptuam-se a esta regra as transferências de jogadores portugueses.

Trata-se de uma actividade com um conjunto de particularidades:

1) É um bom negócio para o clube que o vende;
2) É um bom negócio para o próprio jogador;
3) É um óptimo negócio para o empresário que trata do negócio;
4) É um óptimo negócio para os jornais desportivos;
5) É um péssimo negócio para o País.

Já alguém se deu ao trabalho de fazer as contas de quanto é que sai por ano em divisas de Portugal para o estrangeiro? Eu confesso que não sei fazer estas contas, porque não disponho dos dados, mas julgo que a importação de jogadores de futebol estrangeiros é certamente, senão a primeira, pelo menos a segunda actividade económica que mais contribui para o desequilíbrio na balança comercial entre Portugal e os países sul-americanos, com particular realce para o Brasil, logo a seguir ao turismo (?).
É que deste lado compram-se muitas centenas todos os anos (mais os respectivos muitos milhões de euros em vencimentos) e do lado de lá não tenho conhecimento de uma única compra!

Seria interessante perceber como é que clubes/SADs tecnicamente falidos que têm dívidas de bem mais de 500 milhões de euros que não param de crescer todos os anos, conseguem obter o crédito (dinheiro não têm) para comprar mais do que vendem, gastando invariavelmente mais do que recebem. E os saldos negativos são de muitos milhões de euros!...
Como é que isto é possível? De onde vem o dinheiro? De direitos de transmissão televisiva hipotecados para 8/12 anos? E mesmo assim com o prejuízo sempre a aumentar?
Será que a crise não passa pelo Futebol?

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Questões de timbre

Os indicadores que regularmente têm vindo a lume sobre a saúde financeira do futebol profissional na Europa são tudo menos animadores: Com 65% das receitas destinadas a salários e prejuízos globais de 578 milhões de euros, num total de 5,5 mil milhões de euros, de acordo com a UEFA 47% dos principais clubes europeus têm prejuízos declarados. Só a Premier League inglesa representa 56% das dívidas totais.

No actual contexto não surpreende que o Comité Executivo do organismo máximo de governação do futebol europeu tenha reforçado o sistema de licenciamento das suas competições com um novo quadro regulamentar de medidas de fair-play financeiro aprovado no passado dia 28 de Maio - há longa data anunciadas, e bem acolhidas pela UE em diversos documentos de política desportiva -, as quais assentam em três pilares:

  • Requisito de equilíbrio financeiro segundo o qual os clubes não podem gastar mais do que as receitas que geram ao longo de um período de tempo;
  • Inexistência de dividas vencidas por pagar durante a época (em relação a outros clubes, empregados e/ou autoridades fiscais e de segurança social);
  • Fornecer à UEFA informações financeiras necessárias para o efeito: de modo a garantir que os clubes possam cumprir as suas obrigações futuras.

Cumprirá ao Painel Independente de Controlo Financeiro dos Clubes, presidido pelo deputado europeu e antigo primeiro-ministro belga Jean-Luc Dehaene, monitorizar e avaliar todo o processo, e definir o regime sancionatório, a apurar caso a caso, podendo os clubes ser impedidos de participar em competições como a Liga Europa ou a Liga dos Campeões, ainda que a elas tenham acedido por mérito desportivo. Relembre-se que no passado 49 clubes nestas condições não foram admitidos nas competições da UEFA por incumprimento dos critérios de licenciamento.

Tendo como objectivo primordial garantir maior sustentabilidade nas opções financeiras ao nível do futebol profissional e estancar a acumulação de dívidas, os investimentos em infra-estruturas e formação desportiva caiem fora deste âmbito, o que limita as verbas disponíveis para o mercado de transferências em despesas de curto prazo e incentiva o investimento em programas de desenvolvimento ao nível da formação, ainda que susceptível de apontamentos críticos, nomeadamente em relação às infra-estruturas, como repararam os deputados na apresentação feita no Parlamento Europeu.

O perigo de eventuais abusos de posição dominante e de comprometimento das competições abertas baseadas no mérito desportivo – pilar essencial do modelo europeu de desporto, que habilmente o mundo do futebol gere como instrumento político para reclamar a especificidade do desporto –, suscita necessárias cautelas na abordagem a ter com estas medidas, em particular quando o registo da UEFA neste domínio em nada abona a sua autoridade, dado o histórico de desequilíbrios financeiros gerados pelas opções que tomou na repartição de receitas das suas competições, cuja reforma na Liga dos Campeões é o exemplo acabado.

A falta de competência para impor estas regras a nível das ligas nacionais e o facto das receitas televisivas advirem fundamentalmente das competições internas do que das competições europeias, carece de uma resposta no plano interno, a nível político e desportivo. Com efeito, tem-se assistido a diversos estudos e debates com propostas para a reforma do desporto profissional e dos seus mecanismos de financiamento em países como a França, a Espanha (onde se empossou uma Subcomissão parlamentar para o efeito), o Reino Unido e outros.

Por cá o “saneamento financeiro” tem sido uma prioridade das diversas direcções da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, com os resultados que são conhecidos… Questões como a regulação do mercado de apostas desportiva online, dos direitos de propriedade intelectual dos organizadores de competições desportivas e da venda de direitos televisivos (caso Espanha siga a actual inclinação do seu Congresso para um modelo colectivo Portugal será o único país onde a negociação destes direitos é feita individualmente pelos clubes) permanecem uma miragem no horizonte, sem um diagnóstico sério e rigoroso sobre as opções a tomar.

Por certo a nova direcção da Liga, que também se comprometeu com aquela prioridade, está ciente da necessidade de adoptar atitude díspar da que tem marcado a actuação política nesta vertente – bem mais preocupada com o nobre tema da “verdade desportiva” por via electrónica –, caso queira liderar uma agenda reguladora do futebol profissional sem ficar refém de uma concepção normativista, cujo timbre tem sido a mera replicação de soluções adoptadas noutros ordenamentos jurídico-desportivos. Um timbre frequentemente intempestivo e desajustado da estrutura e dinâmica do nosso sistema desportivo.

sábado, 6 de março de 2010

De novo, os municípios e o desporto profissional

Esperarmos que os municípios adoptem regras de conduta comuns de forma a responderem uniformemente à questão do financiamento público ao desporto profissional, será o mesmo que esperarmos um contacto marciano em noite de lua cheia.
Pensar-se que “a autonomia e independência do poder autárquico nas opções políticas, no actual enquadramento jurídico, prevalece sempre” no que respeita ao financiamento dos clubes profissionais, é desconhecer a realidade normativa que interdita o apoio financeiro das autarquias locais aos clubes desportivos participantes em competições desportivas de natureza profissional (n.º 2 do art.º 46.º da LBAFD e princípio consagrado igualmente no diploma dos contratos-programa de desenvolvimento desportivo).
Pressupormos que a problemática da legalidade ou ilegalidade do apoio público é exclusivo do desporto profissional pátrio é voltar as costas a diversas realidades internacionais.

A diferença é que em vários países esta é uma questão reflectida e debatida por muitos e há muitos anos. Quem não sabe dos vários recenseamentos em cidades americanas a propósito do suporte financeiro a instalações desportivas de privados ou dos inúmeros debates e estudos acerca do apoio financeiro das autarquias territoriais francesas ao desporto profissional (nos últimos anos mais acentuado em modalidades como o rugby, o andebol, o voleibol ou o basquetebol e menos no futebol)?
O Estado português poderia, precisamente, atender à realidade regulativa francesa que sumariamente se caracteriza por permitir a celebração de convenções entre as autarquias territoriais e as associações ou sociedades que elas constituam, no que respeita a subvenções públicas ao desporto profissional. Estas estão fixadas com montantes máximos devidamente regulamentados e são admitidas em duas vertentes: missões de interesse geral (formação, o aperfeiçoamento e a inserção escolar ou profissional dos jovens desportistas integrados em centros de formação certificados pela tutela do desporto, assim como a participação da associação ou sociedade em acções de educação, de integração e coesão social) e prestações de serviços (entre outros, compra de lugares, compra de espaços publicitários).

O nosso sistema jurídico-desportivo mantém, há quase 20 anos, o princípio da interdição do apoio financeiro das autarquias locais ao desporto profissional, sem que, efectivamente, a realidade demonstre a aceitação e o respeito por tal princípio. Como tal, urge a criação de um quadro jurídico renovado que permita maior clarificação e transparência deste patrocínio público auxiliando a tomada de decisão dos políticos e a acção dos dirigentes que solicitem tais apoios.
A realidade, nua e crua, tem demonstrado que não é possível a existência de desporto profissional sem o apoio do poder público, e que o poder público o encara com benefícios e externalidades que justificam tal apoio. Frequentemente são invocados alguns deles que passam pela promoção da imagem local, pelo reforço da coesão e integração social, pelas contrapartidas económicas geradas no comércio local, pela perspectiva de carreira profissional que pode desencadear nos jovens atletas enquadrados em centros de formação qualificados, ou simplesmente pelo reflexo e influência que pode gerar no desenvolvimento do restante desporto nacional.

Contudo, existe pouca doutrina acerca desta matéria entre nós, a reflexão e discussão públicas são nulas, e a intervenção política tem-se pautado como um pau de dois bicos: por um lado interdita legalmente o financiamento público ao desporto profissional, mas por um lado vive numa cumplicidade permanente e íntima com os seus agentes e as suas organizações.
Vejamos se o relatório sobre “Competições Profissionais no Sistema Desportivo Português” a ser apreciado no próximo dia 16 em reunião do Conselho Nacional do Desporto comporta algum acrescento, não só para o esclarecimento do que são competições profissionais e de qual é a sua verdadeira realidade, mas também para a elucidação das suas fontes de financiamento.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Municípios e desporto profissional

Se existem temas que têm percorrido a Colectividade Desportiva com habitualidade, eles são o do financiamento do desporto, em particular do desporto profissional, e o do posicionamento das entidades públicas a esse respeito, designadamente dos municípios.
Recentemente o Público, no seu caderno Cidades, de 7 de Fevereiro passado, compilou algo que já era conhecido de muitos e pressentido por quase todos: seis municípios gastam 20 milhões de euros por ano nos estádios do EURO 2004.
Esta notícia adicionou-se à leitura de dois artigos publicados no último número da Revue juridique et économique du sport (nº 93, Dezembro de 2009): “Sport professionnel et aides publiques. L’exemple des Conseils Géneraux”, de Pierre Chaix e “Les relations entre les clubs sportifs professionnels et les collectivités territoriales (État des lieux et perspectives)”, de Charles Dudognon.

Devo confessar que as minhas intransigências quanto apoio público municipal ao desporto profissional – não olhando agora a questão jurídica – se vão-se enfraquecendo. Continuo preconceituoso, mas algo parece mudar.
Quando sou confrontado, mais do que uma vez, com o facto de os municípios terem sido as vítimas do EURO 2004 e, com isso, despenderem durante anos verbas bem significativas, a faltar em outros sectores vitais da vida dos seus munícipes, pergunto-me se não teria melhores resultados uma política desportiva local – regulada e transparente – de apoio aos clubes profissionais.

Eis alguns dados franceses que o segundo dos estudos mencionados adianta:
· Em causa estão 5 modalidades desportivas: andebol, basquetebol, futebol, rugby e voleibol;
· O universo é de 130 entidades, com diferentes formas jurídicas (associações e sociedades);
· Na época desportiva 2007/2008, o total das subvenções locais cifrou-se em 111 milhões de euros;
· Este montante representa pouco mais que 1% da despesa desportiva local;
· Em alguns casos, particularmente no andebol, basquetebol e voleibol, a dependência do financiamento público local é bem significativa.

Para além das subvenções públicas há ainda a considerar outros tipos de apoio, como sejam a sponsorização e mesmo a aquisição de entradas para os espectáculos – situação também vivida entre nós – e a disponibilização de infra-estruturas desportivas e recurso humanos.

A finalizar, deixo uma questão: não seria tempo de os municípios, de uma forma conjunta, dotarem-se de regras de conduta – ou de outro tipo –, procurando oferecer uma resposta uniforme a esta questão, contribuindo, dessa forma, para uma concorrência sã, transparente e regulada desses apoios e das próprias competições desportivas?

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A Petição por Álvaro Parente


A sociedade civil portuguesa acordou para as Petições!
Praticamente todas as semanas surgem pelo correio electrónico pedidos muito diferenciados a solicitar signatários para causas relacionadas com regras de acesso ao subsídio de desemprego, com questões de gestão de água, com a responsabilização dos pais pela educação dos filhos, com a “verdade desportiva”, enfim um rol enorme de preocupações sociais que suscitam maior consciencialização e intervenção dos cidadãos. Obviamente, nada a opor, bem pelo contrário!

Vem este assunto a propósito de uma outra Petição, que me chegou por mais do que uma via, reivindicando o apoio público ao atleta português, piloto de testes da Virgin Racing, Álvaro Parente.
O pedido em causa logo me remeteu a memória para os 2 milhões de euros atribuídos pela Secretaria de Estado da Juventude e do Desporto em 2008 a um outro piloto português e que mereceu a nossa reflexão neste espaço.
Após este controverso apoio financeiro a revogação do regime jurídico do contrato programa legitima o patrocínio público a agentes desportivos que projectem o nome de Portugal no estrangeiro. Tal medida, como bem relevou Alfredo Silva, parece ter sido implementada à imagem e à medida de novos “Tiago Monteiro”.

Contudo, Álvaro Parente vê as negociações para a sua carreira em 2010 paradas devido ao 'chumbo' que o Estado decidiu aplicar ao apoio que o Turismo de Portugal pretendia dar ao piloto.

Que motivações terão estado na base de tal decisão política?
A crise económica, mãe de todos os males e restrições que norteiam o quotidiano?
O menor poder negocial do lobby afecto a este piloto?
Ou simplesmente o parecer do Tribunal de Contas que indiciou a ilegalidade do apoio público concedido a Tiago Monteiro?

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Impacto Comunicacional

Com menor ou maior impacto, com menos ou mais experiência, sabemos que existem naturais dificuldades comunicacionais entre as pessoas, nas associações, nos grupos, nas equipas, nas organizações, etc.

Possivelmente, nem todos nós temos a consciência da quantidade de informação contida numa mensagem que se ‘perde’ ou ganha outros significados desde do primeiro momento de um acto comunicacional até ao seu término, considerando que passa pela mensagem ser processada por um emissor.

Dividindo o acto comunicacional em seis pequenos passos:
- O que se quer dizer;
- O que se diz;
- O que o outro quer ouvir;
- O que o outro escuta;
- O que o outro compreende;
- O que o outro retém.

os exemplos que tivemos esta semana com a intervenção do Presidente do Comissão de Arbitragem
Vítor Pereira, são notórios, talvez num primeiro nível, da clara má intenção que o ser humano pode atingir, em segundo lugar, do baixo nível que o dirigismo português nesta modalidade possui nos mais diversos cargos e hierarquias.

A partir do momento que um árbitro ou juiz erra, considerando que o faz involuntariamente (dispensa-se qualquer outro tipo de cenários), está claramente a ser imparcial, pois na sua análise condicionou injustamente um atleta ou uma equipa por outrem na tentativa de obtenção de um melhor resultado. O que se tem de fazer para combater esta ‘imparcialidade’ será outra ‘discussão’, como a formação, melhor treino, profissionalismo, maior capacidade de escolha, etc.

Devido à parca qualidade dos dirigentes e outros agentes desportivos, especialmente ao nível das competências softs, que se movimentam melhor na desorganização e num estilo de liderança que tenta dividir para reinar, aproveitaram-se de declarações com pouco ruído para o dimensionar. É caso para afirmar “Precisa-se de empatia. Urgente!”

Por muito que se invista em cimento, em formação ao metro para dirigentes, em receitas copiadas de um sítio para o outro, enquanto não existir o bom senso e a capacidade do dirigente em tentar no mínimo escutar as outras partes, seremos um país cheio de pessoas que preferem ser consideradas interessantes do que interessadas em criar valor.

Prefere-se uma soma negativa ou nula em qualquer abordagem sobre uma opinião ou fundamentação, do que uma perspectiva de construir. Arrisca-se a perder o pouco que se constrói e que se avança, porque o atrito é enorme. Infelizmente, é mais um exemplo de como a evolução é um passo complexo.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Ganhar mais de 600.000 euros? Nem pensar…


Na vizinha Espanha a famosa e denominada, para muitos, “Lei Beckham”, implementada em 2004, consignava um regime fiscal beneficiador para os trabalhadores estrangeiros com residência fiscal no país, isto é, sobre os seus rendimentos incidiria uma taxa de apenas 24% enquanto para os demais trabalhadores seria de 43% durante um período de 6 anos.
Considerado um regime injusto para com a restante população, o governo espanhol, graças a fortes pressões políticas, decidiu ao fim de cinco anos revogar tal regime, porém, o arrojo foi fraco face à ameaça de greve por parte da Liga de Futebol Profissional Espanhola que alegava a incapacidade financeira dos clubes para cobrir a redução que os seus jogadores iriam ter nos seus salários.

E a intenção de revogação rapidamente passou a uma pequena alteração do regime. Assim, a partir de 1 de Janeiro de 2010, apenas os jogadores que aufiram mais de 600.000 Euros mensais (7,2 milhões Euros anuais) passarão a estar sujeitos à taxa de 43%, mantendo-se para os restantes jogadores estrangeiros a de 24%.

Poder-se-á contar com os dedos de uma mão os jogadores que auferem mais do que aquele montante astronómico (provavelmente C.Ronaldo, Messi, Ibrahimovic, Kaká e Henry) e claro está que a Liga Espanhola continuará a ser uma das ligas europeias com vantagem negocial no mercado de jogadores estrangeiros e a dar-se muito bem com esta política, já que a importação de tantos jogadores estrangeiros nem sequer impediu o progresso da selecção espanhola, campeã europeia em 2008.

Veremos se tal matéria será regulada, e em que moldes, na Lei do Desporto Profissional, cuja preparação há muito se ventila em Espanha. Contudo, os mais de cem milhões de euros evocados pelo Presidente da Liga espanhola como a factura que os clubes teriam de pagar caso vingasse a aplicação da taxa de 43% para todos os jogadores, não representará um apoio, ainda que indirecto, e bem significativo por parte do Estado ao desporto profissional? Por onde pairam as preocupações e interdições da União Europeia a este respeito?

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Com o Benfica à venda, quem o compraria?

Publica-se, agradecendo, mais um texto de Fernando Tenreiro.

O futebol português, por má gestão, é susceptível a tragédias de que os projectos mencionados neste texto são exemplo
Dada a imagem do futebol português, os investidores guardam distâncias mas poderia ser diferente caso o futebol português e o clube fossem um modelo de gestão. Se a estrutura accionista e a governance do clube fossem semelhantes ao Barcelona, um clube sem finalidade lucrativa e uma imagem ética mundial, chegariam os empresários internacionais e os maiores nacionais.
O desporto é um bem económico reconhecido pelas externalidades que produz, mas não como um bem comum que depende da gestão sustentável. Assume-se neste artigo que as duas características tornam o futebol português, por má gestão, susceptível a tragédias de que os projectos seguintes são exemplo.

O projecto Carlos Queiroz levou os juniores a campeões dos mundiais de 1989 e 1991. O treinador foi corrido e Portugal eclipsou-se. A nossa geração era de chumbo, com os espanhóis a aprenderem a lição, ganham o Euro 2008 e a sua geração de ouro distingue-se para a África do Sul.
Foi prometido pelo lóbi do Euro 2004 que o desporto e o futebol português não voltariam a ser os mesmos. Será difícil identificar como activos de uma boa promessa concretizada, os jogos do campeonato com os estádios vazios, os salários em atraso, a falência de inúmeros clubes históricos, o défice continuado dos clubes, as compras, vendas e o camartelo de infra-estruturas desportivas, que alimentam a gestão liberal dos clubes para captura de lucros no mercado de trabalho dos jogadores profissionais. Nos estádios, a média de espectadores é menor, como se vê no quadro dos 50 maiores clubes que neste texto se reproduz.
Países Clubes 2008-2009:

Escócia (2) 53.450
Alemanha (13) 50.302
Espanha (7) 47.990
Média (50) 45.509
Inglaterra (12) 43.688
Itália (6) 43.664
Holanda (3) 42.114
França (4) 39.657
Portugal (2) 37.230
Turquia (1) 33.030

Na Europa, a Escócia é a excelência da gestão dos espectáculos de futebol e estamos com a Turquia. A comparação com a França e a Holanda é enganadora, dado que os seus clubes beneficiam de condições de governance e regulação pública ausentes do contexto nacional.
O projecto da arbitragem profissional foi um projecto de Hermínio Loureiro que foi buscar Vitor Pereira, o melhor árbitro português reconhecido pela FIFA e pela UEFA, para o liderar. O projecto correspondia nos domínios técnico e no económico aos quesitos europeus. Na sua apresentação, o projecto foi morto politicamente. Este acto teve duas consequências. A primeira foi que a arbitragem passou a ser considerada como o projecto inicial e foi tratado 24 horas por dia numa "dezena" de canais televisivos, em directo e por cabo, como se fosse possível a qualquer um trabalhar com televisões por cima do ombro a verter ácido. A segunda consequência foi a Liga intuir que novos projectos arriscariam ataques prejudiciais ao futebol, num meio sensível como a primeira liga. Sem consensos, a Liga congelou a inovação.
É sintomática a saída do presidente da Liga para uma câmara, de uma presidência que na Europa teria outra relevância. Acentua o lugar de passagem dos cargos do futebol a quem sucedeu serenamente ao major Valentim Loureiro.
O projecto do Mundial de Futebol com a Espanha leva o caminho do Euro 2004.
O último projecto é o da pretensão do Benfica ser tratado de forma diferenciada dos restantes clubes quanto à venda dos direitos televisivos. O SLB só pode estar a usar uma medida nacional e outra internacional. Na primeira quer benefícios diferentes porque "é o maior", na segunda vai querer ser igual ao Manchester e ao Real Madrid. Os outros clubes aguardam a sua vez de captura dos valores comuns do futebol nacional. Quanto às goleadas de Jorge Jesus, também José Mourinho passou pelo Porto e o resto está igual.
O futebol profissional sem os grandes empresários portugueses e sem a concorrência de capitais internacionais, tem resultados esporádicos. A selecção, a prazo, será liquidada porque os clubes vivem das compras e vendas além-fronteiras e não há condições de vida aos viveiros de bairro e aos campeonatos amadores para sustentar o liberalismo do topo profissional. Esperam-se milagres de S. Queiroz, para tudo ficar na mesma. Consomem-se as actividades amadoras, que são a essência do futebol profissional moderno. O futebol profissional vive de líderes que pelo mérito, no Porto, pela força, no Benfica, ou pela razão, no Sporting, potenciam o seu produto privado. Os grandes empresários portugueses deveriam ser enfeitiçados pelo futebol e acarinhados pelo Governo para investirem no futebol, indo buscar ao mercado financeiro o músculo necessário para o aplicar onde é necessário. O risco de pegar num clube pequeno e assegurar-lhe uma missão desportiva e social é um risco a proteger pelo Estado. Com a demissão de Paulo Bento, o Sporting demonstra como os clubes se transformam em poços de contradições onde as direcções tentam salvar a vida e os clubes são condenados.

Haverá em Portugal e no estrangeiro empresários interessados em investir no futebol português? A resposta será positiva se os princípios desportivos, económicos e sociais forem aplicados e todos, amadores e profissionais, com e sem finalidade lucrativa, beneficiarem.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Viver acima das possibilidades


Quem na altura da construção dos estádios de futebol para o Euro 2004 teve a curiosidade de acompanhar os relatórios de auditoria do Tribunal de Contas relativos à fase de concepção/construção das infra-estruturas (estádios, estacionamentos e acessibilidades), teve a oportunidade de analisar as observações específicas a cada promotor auditado.
Recordei-me, por estes dias, de algumas informações que deles retirei e que me parece bem oportuno trazê-las à luz do dia, face à nossa candidatura conjunta ao Mundial de futebol de 2018 e sobretudo, face à ânsia dos responsáveis das Câmaras de Braga e de Faro na reestruturação dos seus estádios para poderem ser cidades acolhedores de tal competição. Eis, por conseguinte, alguns montantes que devem merecer a nossa reflexão. Contudo, dado o espaço disponível, apenas registarei aqueles relativos à realidade da CMBraga:

CMBraga

Custo de Referência do Estádio
29.927.874 €

Custo Final do Estádio
108.094.387 €

Acréscimo do custo de Referência do Estádio
361,18%

Endividamento Bancário
89.867.769 €

Custo Final Estimado/Orçamento do Município para 2004
155,07%

Permitam-me ainda salientar aqui algumas conclusões retiradas da análise dos relatórios mencionados:
- o investimento de referência, considerado para efeitos da comparticipação da Administração Central nos empreendimentos, revelou-se substancialmente mais baixo do que o custo final, já que este atingiu um montante de 2,3 vezes maior que a previsão inicial ultrapassando os 323 milhões de euros.
- de uma análise mais particularizada ao custo final de cada um dos 6 estádios destaca-se claramente o E.M. Braga por ter apresentado o maior custo efectivo, investimento este que representou 1/3 do montante total referente à construção dos estádios.
- considerando que o custo de referência teve como regra de que cada lugar a remodelar custaria cerca de 350 euros e cada lugar novo (quer num estádio novo ou remodelado) custaria quase 998 euros, é bem notório os elevados desvios apresentados no estádio de Braga, no qual o custo efectivo por lugar se cifrou nos cerca de 3500 euros o que significa um impressivo desvio em relação à estimativa inicial de mais de 360%.

Depois de todas as derrapagens ocorridas na construção do estádio do Braga, e com os encargos financeiros decorrentes dessa obra a serem pagos nos 20 anos seguintes, fico atónita com o querer dos autarcas de Braga em prosseguirem na senda do endividamento.
Depois disto, haverá moralidade de vir algum dirigente político ou desportivo, implicado neste tipo de decisões, dizer que vivemos constantemente acima das nossas possibilidades?

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Tranquilo à superfície,mas com agueiros no fundo

O futebol goza de uma exposição pública que poucas actividades do país merecem. O número de pessoas que o comentam é elevado; a imprensa especializada e generalista tem sobre o futebol uma cobertura muito superior a países com indicadores de desenvolvimento da modalidade mais elevados. Especialistas e não especialistas, profissionais do ramo e outros escalpelizam ao pormenor as diferentes peripécias da modalidade. Como é que com tanta gente a escrever, a falar e a discutir o futebol ainda existe um ónus de credibilidade a resgatar perante uma parte do país? Ora o problema começa precisamente por aqui. O facto de o futebol gozar de uma enorme exposição pública fragiliza-o em vez de o fortalecer. Mostra muitas das suas debilidades. E gere uma tendência não selectiva que leve a que se escreva ou comente tudo, incluindo o que nele é menor.
Talvez esse facto ajude a perceber como o número dos que gostam de futebol, mas não gostam do modo como o futebol “vive” ser provavelmente muito superior aos que pura e simplesmente não gostam de futebol. A afirmação é meramente especulativa. Não tenho como a confirmar. É uma intuição. Mas a ser verdadeira dá que pensar.
É que alguns dos que dirigem o futebol, queixam-se da incompreensão que, em sectores da sociedade portuguesa, existe relativamente à modalidade. E apresentam números que pretendem provar o contributo que a modalidade dá ao desenvolvimento do país e indicadores de sucesso internacional. Mesmo ficando por saber quanto o futebol recebe dos contribuintes -os que gostam e os que não gostam de futebol -, contas que ninguém faz, a questão verdadeiramente importante é outra: saber o que faz o futebol e aqueles que o dirigem para melhorar a imagem que está na origem do referido capital de queixa.
Se tomarmos como amostragem o que se passa nos espectáculos desportivos da modalidade o balanço não é propriamente o melhor. Nos escalões jovens a qualidade do espectáculo é na generalidade dos casos baixa e está longe de estar garantida a idoneidade etária e organizativa que empreste seriedade às competições. Nos escalões seniores joga-se pouco e mal e prevalece uma situação financeira grave. As intervenções dos protagonistas - dirigentes, árbitros, treinadores e jogadores - estão longe de serem um factor de valorização do próprio futebol. O espectáculo, mesmo nos campeonatos de topo, é pobre e não melhora com umas meninas a mostrar as pernas e o rabo mesmo quando esses atributos, como sucede ma maioria dos casos, sejam generosos.
Não deverá o futebol queixar-se dele próprio? Fará tudo quanto está ao seu alcance para melhorar a imagem que sobre ele se criou? É certo que em algumas instâncias superiores da modalidade existe um esforço de reformulação e regeneração da modalidade. Que existem sinais de mudança. Mas o que muitas vezes se constata é que os movimentos que perspectivam essas mudanças são insuficientes para as impor. Que uma espécie de “velha ordem” mantém uma força superior à renovação. Que, pesem embora os diagnósticos críticos existentes, a modalidade está num beco sem saída no plano financeiro, e que está longe de querer criar as condições basilares de sustentabilidade.
O país esta a férias e o futebol retoma o seu serviço já no próximo fim – de – semana. Aparentemente esta como o mar de verão quando a nortada não sopra: tranquilo à superfície, mas com muitos agueiros no fundo.