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terça-feira, 28 de agosto de 2012

O efeito limite

É comum à generalidade dos países discutir os resultados que cada nação alcança na edição quadrienal dos Jogos Olímpicos. E multiplicarem-se os estudos e os critérios de avaliação obedecendo aos mais diversos indicadores. E o tema, como é próprio dos temas de elevado grau de mediatização, suscita a escrita e o debate de imensas pessoas. Umas preparadas, outras menos preparadas e outras claramente impreparadas. Mas, repito, isso não é exclusivo desta temática, mas algo comum a temas que num determinado momento marcam as agendas mediáticas. Sabemos também que este frenesim é passageiro e que rapidamente o assunto regressa a águas mornas ocupado que seja por temas e debates de outra natureza.
Portugal não escapa a este afã e todos quantos estão ligados ao desporto são sensíveis aos resultados que os atletas nacionais alcançam. E aos debates e polémicas suscitadas a esse propósito. É natural que sobre o ocorrido surjam várias leituras. Uma dessas leituras remete até para um simplismo explicativo: qualquer êxito alcançado seria mérito dos atletas e qualquer insucesso culpa da política desportiva, do Governo, dos dirigentes desportivos ou de qualquer outra causa que prejudica o trabalho de participação e representação desportivas dos atletas. Não quero polemizar sobre este assunto mas chamar atenção que a matéria pedirá uma outra dimensão para a reflexão.
O desporto de alto rendimento ( e por arrasto uma preparação olímpica) são atividades de custos muitos elevados. Operando num contexto internacional a competitividade atingida pelo alto rendimento é muito determinada pelas economias dos respetivos países e o que elas libertam para a respetiva preparação desportiva. Não existe determinismo entre o valor da competitividade das nações e a sua riqueza ou poderio económico mas é um fator condicionante. A consulta a qualquer relatório sobre as despesas dos Estados (publicas e/ou privadas) comprova-o. E permite verificar que há países que gastam com uma modalidade o que outros gastam com toda a preparação olímpica. O que Portugal gasta é comparativamente a outros uma ninharia. Mas é o que a economia e a riqueza do pais e as opções políticas possibilitam. Pelo que o centro da reflexão se deveria centrar mais em saber se pode ou não o desporto português progredir e alcançar um outro plano de excelência-nacional e internacional- compatível com os recursos que o país pode dispensar. E nesse caso se as limitações existentes esgotaram o potencial de crescimento desportivo do país. Ou, pelo contrário, ainda é possível, com o mesmo nível de recursos fazer melhor.
O que temos dito e escrito sobre a matéria é que o potencial de crescimento do desporto nacional não atingiu o seu limite. Porque existem desperdícios que podem ser evitados. Se houver melhor concentração de meios. Mas isso obrigaria ao preenchimento de três quesitos: a definição de prioridades em matéria de política desportiva e de competitividade externa; a concentração prioritária de meios à volta desses objetivos; a definição do efeito limite sobre o nível desportivo do país imposto pela sua realidade concreta em matéria de recursos disponíveis (económicos,financeiros,oragnizacionais,demográficos,culturais,etc.).
A definição anterior não dispensa uma outra reflexão: a de saber se com todas as limitações existentes os resultados não poderiam ser outros se o modelo organizacional e de funcionamento fosse distinto. Alguns participantes neste espaço de opinião têm defendido essa solução. O assunto merece reflexão. A obsessão normativista que tem modelado o sistema desportivo nacional criou mecanismos de relacionamento entre o Estado e os entes privados e associativos que bloqueiam muita iniciativa. A cultura do Estado no modo como monitoriza os apoios que concede estrangula e complica. E a necessária sinergia entre o governo, o poder local e o movimento associativo no sentido de uma atuação estratégica e concertada em matéria de políticas de promoção e desenvolvimento desportivo está longe de ser devidamente aproveitada. A atuação sinérgica, ou melhor a sua ausência é um dos males crónicos do sistema desportivo português.Com recursos escassos, os ganhos só podem vir do lado das poupanças. Limitando o que sendo oneroso não acrescenta valor. E maximizando as economias de escala que a colaboração sinérgica permite obter.



domingo, 19 de agosto de 2012

Pedido:período de nojo

Antes quem falava de desporto, particularmente de futebol e hóquei em patins, eram os funileiros, latoeiros, barbeiros, serralheiros e pedreiros, os operários, funcionários e artesãos dos mais variados misteres e ofícios. Falavam e discutiam sobre o assunto de modo apaixonante, encantatório e incandescente.
Os pseudointelectuais queriam-se distantes do fórum desportivo; rotulavam-no de ópio e alienação do povo. Mas os tempos mudaram e, aos poucos, descobriram que é muito rentável arengar e perorar acerca dele, usando o dialeto do ‘futebolês’: não custa nada, ninguém lhes pede responsabilidades e estão garantidos ganhos de grande notoriedade. E então vieram às carradas, por grosso e atacado, empinados como papagaios de pirata. Foi um ver se te avias! Cineastas, cirurgiões, musicólogos, sociólogos, professores feitos a martelo e à pressa e não sei quantos mais doutores na mestria do verbo fácil e da língua afiada entregaram-se a transformar o desporto em pantomina e gaudio circense.
Como se estes não bastassem, a toda a hora arribam ao espaço mediático nomes sonantes das mais diversas cátedras, incluindo até a da sexologia, quiçá ávidos de exibir presteza a fazer filhos em mulher alheia.
O que é que leva tais ‘sumidades’ a aceitar o convite para serem comentadores de uma área em que não são especialistas? Admitiriam elas que alguém cometesse a imprudência de se arriscar a dar palpites sobre a matéria em que são reconhecidos como peritos? O que é que move a eminente gente a engrossar e formatar a vox populi com estereótipos do senso comum? Terão tão ilustres e sapientes personalidades pelo desporto o respeito que a relevância social e humana deste fenómeno exige? Terão verdadeira consciência do papel que estão a cumprir, ao acumularem uma função para cujo desempenho nobilitante lhes falta conhecimento bastante?
Quem responder a estas perguntas e puser ao léu as razões e motivações de uma situação deveras aberrante e estapafúrdia fará simultaneamente um diagnóstico sobre o estado do nosso desporto.
É provável que, nos próximos tempos, esta estirpe de comentadores se mostre lesta e felina a cavalgar a onda do descontentamento doméstico; e queira encharcar os ouvidos e olhos da opinião pública com análises vulgares do comportamento lusitano nos Jogos Olímpicos findos e com uma ementa de receitas para os próximos.
Se têm alguma réstia de apreço pelo desporto e pelo nosso País, atendam este pedido: Os Jogos Olímpicos são uma ‘coisa’ sublime e maravilhosa; ninguém se deve masturbar à custa deles. Urge guardar um período de nojo e não proceder a balanços levianos daquilo que se passou em Londres, nem tecer malhas puídas no tocante aos Jogos do Rio.
Mais, o nosso futuro como nação independente não será longo, se não for suportado por uma estreita conexão com o Brasil. Os mastros das duas bandeiras devem estar cada vez mais juntos. Por isso mesmo a participação nos Jogos do Rio é parte de um amplo desígnio nacional, patriótico e político, devidamente concebido e assumido; não é para ser entregue a lucubrações de pacotilha.
A observância de um período de nojo recomenda-se também aos dirigentes, técnicos e atletas envolvidos no projeto londrino. Por favor, deixem baixar a poeira! Não deem bola a quem tudo sabe de todas as coisas e para elas debita sentenças, leis e certezas feitas, como um deus omnisciente sentado no pináculo da sua infinita sabedoria. Essa gente deve ficar a falar sozinha.
Haja bom senso! A conjuntura pede que a discrição dos que pensam, refletem e agem em profundidade, seriedade e serenidade se sobreponha ao diletantismo e prosápia dos que falam e se agitam por jactância, superficialidade e vaidade.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A Lázaro o que é de Lázaro (*)

Texto da autoria de Gustavo Pires, cuja autorização de publicação se agradece.

A implantação da República em Portugal havia ocorrido há pouco mais de um ano quando o Comité Organizador dos Jogos Olímpicos (JO) de Estocolmo (1912), à semelhança daquilo que fez com os demais países, convidou os portugueses a participarem endereçando um convite ao Ministério dos Estrangeiros. Este enviou uma cópia para o Ministério da Instrução Pública que, sobre o assunto, nada fez. Depois, perante a insistência de Estocolmo tudo se passou da mesma maneira. Não fossem alguns jornais, como relata “Os Sports Ilustrados” (edição de 13/1/1912), o convite para que Portugal, pela primeira vez, participasse nos JO teria ficado esquecido no meio da burocracia da administração pública e nas confusões da República.
Aos olhos do mundo, os JO eram o maior acontecimento dos tempos modernos onde as nações, de uma forma pacífica, iam medir forças através da competição desportiva. Segundo Duarte Rodrigues diretor técnico da revista “Tiro e Sport” (edição de 31/7/1912) os JO não eram um mero certame desportivo mas “um pretexto poderoso para cada povo, cada raça, poder mostrar o quilate physico e moral de que se deve exortar perante a civilisação e o progresso”. Eram um processo de rejuvenescimento das raças pelo qual todo o homem moderno se devia interessar.
Em Portugal, em finais do século XIX princípios do século XX, os jovens de uma certa burguesia citadina praticavam diversas atividades desportivas segundo o modelo inglês. Eram, “os janotinhas do passeio público” como lhes chamou José Pontes, ou os “janotas diletantes” na expressão de José Maria da Silveira. Eles “estacionavam” à frente dos café-clube, como o Sete Portas no Arco do Bandeira ou o Marrare no Chiado, pegavam touros, corriam lebres, remavam e velejavam em canoas no Tejo, eram bombeiros destemidos, dedicavam-se ao jogo do pau, à ginástica dos aparelhos, das acrobacias e dos trapézios dos voos à Léotard. Foram estes “sportsmen”, diletantes e bem aperaltados, que se moviam tão bem entre a fina flor da sociedade mas, também, no meio dos artistas dos circos Price, Diaz, e Aragon e dos saraus de ginástica no Coliseu dos Recreios que, em moldes relativamente democráticos, protagonizaram o arranque do desporto em Portugal onde competiam atletas como Francisco Lázaro provenientes de meios sociais completamente diferentes.
E, perante o desinteresse da República bem como da Sociedade Promotora da Educação Física Nacional mais interessada nas questões corporativas da ginástica sueca do que nas competições interpaíses dos JO, foi com um sentido de urgência que um grupo de dirigentes desportivos de seu nome Penha Garcia, Jayme Mauperrin Santos, António Lancastre, Carlos Bleck, Manuel Egreja, José Pontes, Armando Machado, Duarte Rodrigues, Aníbal Pinheiro, António Osório, Álvaro de Lacerda, Fernando Correia, Sá e Oliveira, Guilherme Pinto Bastos, Pinto de Miranda, Daniel Queiroz dos Santos, José Manuel da Cunha e Meneses, Pedro Del Negro, a 30 de abril de 1912, fundaram o Comité Olímpico Português. Este acontecimento que teve uma intervenção indireta do próprio Pierre de Coubertin, permitiu que um grupo de seis atletas de seu nome António Pereira, António Stromp, Armando Cortesão, Fernando Correia, Francisco Lázaro e Joaquim Vital pudesse representar Portugal nos JO que se iam realizar em Estocolmo.
Muito embora a representação nacional, como referem os jornais da época, tivesse tido uma participação meritória, ao trigésimo quilómetro da corrida da Maratona, Francisco Lázaro colapsou. Num sofrimento atroz, acabou por morrer no dia seguinte, a 15 de julho de 1912, no Hospital Serafina em Estocolmo. Esta morte foi considerada com tendo sido igual à de um qualquer soldado caído no campo de batalha.
Cem anos depois, o Comité Olímpico de Portugal (COP) insiste em comemorar o seu aniversário numa data apócrifa. Faz mal. O dia 30 de abril de 1912 é uma data sagrada. A história é aquilo que, na verdade, aconteceu e não aquilo que alguns dirigentes do COP pretendem que tivesse acontecido. A Lázaro o que é de Lázaro.

(*) A partir do livro: “Francisco Lázaro o Homem da Maratona”, Lisboa: Prime Books.

Publicado na edição do Diário de Notícias de 14/08/2012.




terça-feira, 14 de agosto de 2012

O importante é participar ou Portugal ao nível do Chipre,Gabão ,Guatemala e Montenegro


Texto da autoria de Luís Leite ,cujo envio se agradece

Nada de novo. Mais uma “participação digna”, seja lá isso o que for.
O desporto Olímpico português reforçou a sua média de uma medalha por participação em Jogos Olímpicos.23 em 23.
Número de medalhas conquistadas por países europeus com população igual ou inferior à de Portugal:
Hungria 17, Bielorrússia 13, Azerbeijão 10, Rep. Checa, 10, Dinamarca 9, Suécia 8, Geórgia 7, Irlanda 5, Lituânia 5, Croácia 4, Eslováquia 4, Eslovénia 4, Noruega 4, Suíça 4, Arménia 3, Bélgica 3, Finlândia 3, Sérvia 3, Bulgária 2, Estónia 2, Letónia 2, Moldova 2, Chipre 1, Montenegro 1.
Portugal na cauda da Europa, só à frente da Albânia e de alguns micro-estados.
Com uma medalha de prata, de mão dada com as potências desportivas Chipre, Gabão, Guatemala e Montenegro.
Não vos maço com estatísticas comparativas relativa à média das medalhas por participação olímpica, porque seria confrangedor e até traumatizante.
Concordo com Alfredo Silva quando escreveu que não adianta atirar dinheiro para cima do Comité Olímpico.
Até porque não há.
Só valeria a pena se em vez dos 15 milhões fossem 1500 milhões.
Ou “Ir buscar uns 10 africanos”.
Não há volta a dar-lhe.
Não liguemos mais a esta história dos Jogos Olímpicos.
O que é preciso é estar presente.
Basta levar um homem e uma mulher com alguns dirigentes olímpicos, como fazem tantos países.
Dediquemo-nos pois aos REFORÇOS dos nossos grandes clubes da bola e às questões da arbitragem.
Esqueçamos os Jogos Olímpicos.
Não somos capazes.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O outro lado da festa

A festa é um franchisado cujos direitos de propriedade pertencem ao Comité Olímpico Internacional. Que os vende após avaliar quem melhor os paga. E quadrienalmente a festa sobe ao palco. Um palco acerrimamente conquistado numa competição difícil, entre cidades, em que se gasta muito dinheiro. Os que ganham, mas também os que perdem. Tudo para a glorificação dos atletas. Mas também para que marcas e patrocinadores façam as contas ao que investiram. E os países contabilizem as medalhas. De pouco vale a carta olímpica afirmar que os Jogos são uma competição entre atletas que não entre países. Os Jogos Olímpicos são a melhor competição desportiva à escala mundial para conduzir a uma leitura política dos resultados desportivos. Sempre assim foi. Pelas modalidades que envolvem. Pela mediatização a que estão sujeitos. Pelo carater planetário que os envolve e contempla.
Pierre de Coubertin, o renovador dos Jogos Olímpicos da era moderna, incutiu ao seu empreendimento uma dimensão sagrada. Indo buscar muito do ritual e da liturgia aos jogos da Antiga Grécia, mas aproveitando para popularizar a própria ideia de desporto. Entre aquilo que ele dizia que queria e aquilo que realmente ocorreu, há uma grande diferença. Os tempos são outros e tudo mudou. Os tempos e a vida.
Bastará assistir ao desfile de abertura da cerimónia inaugural para perceber que a festa é outra. Começa muito tempo antes com as disputas entre as cidades candidatas a sede dos Jogos. As cidades e quem as apoia. E continua com a preparação e realização dos Jogos no cumprimento de um pesado caderno de encargos negociado com o Comité Olímpico Internacional.
Os resultados e as competições, as estrelas e os casos, os sucessos e as derrotas sobem à agenda mediática e percorrem mundo. Os bastidores do evento ficam no conhecimento restrito da nomenclatura: um desporto mercantilizado, numa igreja sem ideologias, e onde os apóstolos cumprem um pacto de silêncio. Que ninguém lhes pede, mas que todos sabem que devem manter. Porque há coisas que se aprendem, mesmo que ninguém as ensine!
Numa saudação dirigida em 1927 à juventude desportiva de todas as nações Pierre de Coubertin afirmava: ”nós não trabalhamos, os meus amigos e eu, para transformar os Jogos Olímpicos numa peça de museu ou de cinema, nem para que os interesses comerciais ou políticos o condicionem”. Somos hoje forçados a reconhecer que a festa só é o que é, porque sacrificou três dos seus mitos fundadores: a democracia, a política e o dinheiro.
A democracia patente na direção do movimento olímpico. Uma estrutura pesada de autorreprodução do poder e onde habitam práticas, usos e costumes próprios de organizações fechadas e elitistas. É certo que a atual liderança de Jacques Rogge introduziu regras e práticas mais abertas e transparentes. Mas não podia alterar rotinas e hábitos de muitos anos de poder autocrático.
A política traduzida na crescente instrumentalização quer dos Jogos, quer dos resultados desportivos. A utilização da participação olímpica como forma de afirmação e legitimação políticas. Sempre assim foi. Dificilmente seria possível ser de outro modo. Mas existe um custo que importa ter presente.
O dinheiro porque criou um pequeno grupo de instituições desportivas submetidas a lógicas comerciais tornando difícil perceber onde acaba a governação mundial do desporto e começa o da empresa mundial do espetáculo desportivo. A configuração de uma macro organização, o Comité Olímpico Internacional, muito forte economicamente e dotado de uma legislação e de um funcionamento jurídico independente dos Estados nacionais, mas muito influenciado e dependente das principais potências desportivas mundiais que também o são no plano económico, político e militar.
A festa é também, como elemento aglutinador de muitos interesses e gerador de fluxos financeiros significativos, um pretexto para os barões do desporto surgirem no espaço público em nome dos valores altruístas e culturais do desporto controlando e espetáculo desportivo e gerirem um complexa rede de negócios e de relações políticas.
A competição não decorre apenas nos espaço desportivo. Ela inicia-se antes na tribuna VIP.É um local tão disputado como o espaço desportivo. Por ela transitam antigas glórias do olimpismo e se passeia a nomenclatura olímpica e política. É um local para se ver e ser visto. É um território de ostentação e de poder. Um verdadeiro laboratório social.
A festa é isto tudo. Mas é sobretudo o resultado da cooperação silenciosa entre multinacionais desportivas, média e autoridades desportivas com o beneplácito das autoridades políticas. Dificilmente poderia ser de outro modo. Reconhecê-lo permite perceber o que é a festa. Lembrando o que um dia escreveu José Maria Cagigal: que a comercialização do espetáculo desportivo não é perigosa porque atenta contra valores do desporto mas porque se converteu num produto que necessariamente precisa de ser consumido para ser rentável.

Texto publicado no jornal Diário de Notícias em 1 Agosto 2012

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Endireitar as veredas para a "mudança de paradigma"

 "We cannot solve our problems with the same thinking we used when we created them." 
Albert Einstein


Mesmo diante dos indicadores desportivos, nos mais diversos níveis de prática, que nos colocam no fundo de qualquer ranking, podemos sempre invocar elementos que denotam evolução ou crescimento, ainda que sendo uma evolução na mediocridade. Quando não se definem objectivos ou metas propicia-se o exercício da teoria do copo meio cheio ou meio vazio, consomem-se páginas e páginas alinhando argumentos em favor de cada uma das perspectivas, em contraciclo com um valor elementar do desporto, a superação, onde existe sempre um resultado, uma medida, uma fasquia, ou uma distância a ultrapassar. 

Em tempos escrevi aqui que qualquer agente desportivo é avaliado, com excepção do dirigente. Assim, confesso que após Pequim saturei de alinhar neste exercício por rapidamente se tornar intelectualmente confrangedor mediante as comparações que se trazem a terreiro, as quais, amiúde, classificam-nos num outro ranking quiçá menos objectivo, mas porventura mais decisivo para o desenvolvimento desportivo deste país. O ranking da cultura desportiva.

Neste ranking, ainda sem ter terminado a participação olímpica em Londres começam a surgir resultados de alto nível, os quais, certamente, não ficarão por aqui, à medida que proliferarem as declarações sobre a falta de política desportiva, de orientações estratégicas, planeamento, desinvestimento na educação física e no desporto na escola, etc. 

Como a memória é curta tende-se a esquecer que neste país houve um PROIID, houve Opções Estratégicas para o Desenvolvimento Desportivo Nacional (2003-2013), houve um assinalável trabalho neste domínio para que as coisas fossem diferentes. Todos tiveram o mesmo destino.

Perante isto, das duas umas, ou se delimita a raiz do problema a montante, diluindo ilusões, e se assume que um processo de planeamento e uma politica pública, qualquer que elas sejam, não são planos mecânicos e guiões de uma peça, mas processos sociais evolutivos que dependem do quadro de valores de quem neles se envolve e executa para tornar efectivo aquilo que está no papel, ou mantem-se o sistema com os mesmos protagonistas a replicarem as mesmas declarações e o mesmo quadro de referência. E aí, ainda que um dia haja alguém capaz de implementar uma política desportiva efectiva, ou retocar aquelas que foram deixadas na gaveta, as eventuais vantagens serão sempre circunstanciais.

Entretanto, no contexto político e económico actual, com a cultura desportiva que a cada dia se expressa nas palavras e na conduta de dirigentes políticos e desportivos deste país, reproduzidas e amplificadas na grande maioria dos órgãos de comunicação social e do "jornalismo" que se faz neste domínio, estão reunidas as condições propícias para se continuar a privilegiar um modelo de gestão em detrimento de uma verdadeira política, nivelando o desporto pelo mais baixo denominador comum. Até daqui a quatro anos. 



sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Deslize ou intencional?


O Presidente do Instituto Português do Desporto e da Juventude, Augusto Baganha, é, pelo que conheço, uma pessoa experiente e ponderada. Alguém que alia à sua experiência profissional um relevante passado como desportista. Antes de exercer funções no atual governo, foi designado pelo anterior para acompanhar junto do COP a preparação olímpica. Na atual equipa governativa do desporto, é, a larga distância, a pessoa melhor preparada. Para além destas qualidades é uma pessoa discreta e que não procura a exposição pública. Se possível até a evita. Pelo que as declarações que fez a propósito dos apoios do Estado aos judocas presentes nos Jogos Olímpicos são uma surpresa. Não tanto pela matéria de facto, mas pela oportunidade. E não correspondendo ao perfil de alguém que gosta da exposição pública, essa estranheza é ainda maior. Deslize ou ato intencional?
Os atletas, os treinadores, os dirigentes, as famílias, sofrem com o insucesso e a frustração dos resultados não alcançados. Derramar em cima desta situação o que o Estado vai fazer aos atletas é no mínimo revelador da mais elevada insensibilidade à situação. Há um momento para tudo. E não é o facto de o Estado ter protocolado certo tipo de compromissos com as federações desportivas, e que importa fazer respeitar, que o desobriga de ter sentimentos. Por muita razão que assista ao Presidente do IPDJ espera-se, como titular de um cargo público, ponderação entre os interesses do Estado e o estado daqueles que serviram Portugal. E não é o facto de os resultados alcançados não serem os expectáveis que se deve perder o sentido de respeito pela dignidade daqueles que estão a viver um momento difícil nas suas carreiras desportivas.
Ignoro se as declarações o foram por vontade própria ou por orientação superior. Ou apenas por um impulso perante o pedido de esclarecimento da comunicação social. Mas independentemente da motivação, as palavras e o contexto em que são proferidas – em plena realização dos Jogos Olímpicos - não atingem apenas os judocas cuja competição terminou, mas todos os atletas, os que já competiram e os que ainda o vão fazer.
Governar é também saber usar as palavras. O exercício de funções públicas exige sempre sobriedade. E adequada ponderação. Lançar, neste momento, o tema dos apoios do Estado é escolher a pior altura para o fazer. Terminados os Jogos e feita a respetiva avaliação há tempo para se adotar os procedimentos que se considerem adequados. Agora é hora de nos concentrarmos na competição e procurar os melhores resultados. Distrair as atenções para outras questões é correr o risco do incendiar o debate público e, com isso, aumentar potencialmente as probabilidades de conflito. O desporto perde e perdendo o desporto não sei o que ganha o Estado com isso.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Em tempo de férias

Em todas as gerações existe uma cultura de nostalgia. Que conduz, muitas vezes, a uma espécie de lamentação do tempo presente. E à invocação de que antigamente as coisas não eram assim. Querendo com isso dizer que eram melhor. O que, é mais um estado de alma que uma verdade que possa ser sustentada em factos.
A minha geração vive, por norma, uma melhor situação económica que a dos seus pais. E tendo vivido em dois regimes políticos diferentes ditadura/democracia é óbvio que os ganhos de qualidade de vida e de cidadania são hoje muito maiores. O risco de que esse progresso possa estar a perder-se coloca em causa não apenas os ganhos atingidos, mas uma das crenças políticas que mais nos marcaram e que tem a ver com a prognose de que a história caminharia inexoravelmente no sentido do progresso e que este seria ininterrupto.
Este esquema mental e vivencial, prisioneiro de uma conceção otimista da natureza humana e de um sentido finalista da história que, no limite, anunciaria a possibilidade da construção de uma sociedade perfeita, foi posto em causa pelo insucesso histórico das conceções construtivistas e de criação do homem novo das sociedades comunistas e pelo fundamentalismo religioso. E está hoje abalado pelo capitalismo de casino através da captura da política por parte do capital financeiro.
Abandonada essa crença, e sem que o lugar seja ocupado por uma dimensão pessimista, resta-nos perceber que a natureza humana e a organização das sociedades concretas é bem mais complexa que aquilo que imaginávamos e que há hoje questões que nos interrogam e para as quais não temos respostas seguras. E o desporto cuja evolução desde finais do seculo XIX tem sido constante não está fora deste raciocínio. Aumentam os fatores de desregulação e as soluções apresentadas estão longe de trazer respostas sustentáveis.
Escolhendo, por exemplo, a formação desportiva dos jovens não temos quaisquer dúvidas que, atualmente, o conhecimento disponível é maior e o modo como se trabalha bem melhor. Subsiste no entanto um divórcio entre o que deveria ser essa formação (no plano das aquisições técnicas e de competências específicas) e o que é. E se multiplicarmos essa avaliação pela educação física escolar, pelos quadros competitivos dos jovens em prática federada, para transição/mobilidade para os escalões superiores, pelo abandono desportivo precoce concluiremos que anos de pregação sobre a matéria jazem nos textos sem qualquer relevância para a situação real. Certamente que há mais jovens a praticar desporto, o que é positivo. Que a qualificação dos técnicos é maior. Que as condições de trabalho evoluíram. Mas muito dessa prática enferma de conceções que sempre se procuraram corrigir/alterar o que não tem sido possível. Para quem entende que o desporto não é apenas um modo de dispêndio energético e de avaliação de rendimento em contexto de competição não pode deixar de se inquietar com tal situação. Uma situação que num contexto de degradação das condições de vida tende a agravar-se.
De há muito a esta parte que defendemos que muitas das respostas aos problemas do desporto não estão na sua dimensão financeira, mas na sua perspetiva cultural. E embora este entendimento esteja permanente em toda a história do desporto moderno é em momentos de maiores dificuldades que a sua importância se torna relevante.
À porta de mais uns Jogos Olímpicos, que a respetiva carta olímpica estipula ser uma competição entre atletas de todo mundo, e que a realpolitik transformou numa competição entre Estados, reler o que sobre esta matéria e a da formação desportiva dos jovens a doutrina oficial do Olimpismo tem escrito é comprovar que o mais difícil nunca esteve na construção da doutrina, mas na sua aplicação.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Expetativas Olímpicas de Portugal em Londres 2012

Um texto de Luís Leite que se agradece.


A pouco mais de 15 dias do início dos Jogos Olímpicos, já é possível fazer algumas previsões tão realistas quanto possível, dada a eventualidade, sempre provável, de surpresas positivas e negativas.

Este exercício tem sobretudo por objetivo apresentar às pessoas que se interessam verdadeiramente por Desporto algo que ninguém tem coragem de fazer utilizando processos de análise racionais, baseados fundamentalmente nos rankings mundiais em cada modalidade e nas classificações obtidas internacionalmente nos últimos doze meses, dando maior importância àquelas obtidas nos últimos 4 meses.

 
É fundamental começar por chamar a atenção para que o simples facto de um desportista conseguir estar presente nos Jogos Olímpicos por ter cumprido os respetivos mínimos, é merecedor de grande respeito e consideração desportiva e pessoal. Aqui não há favores. Há mérito e há anos de luta, abnegação, muito trabalho e persistência com o objetivo de conseguir estar lá, entre os melhores dos melhores. Não só dos desportistas, mas também dos seus treinadores e de equipas de apoio diversificado mas fundamental, sem as quais nada seria possível. E que merecem não ser menosprezadas, antes dignificadas e valorizadas.

 
A História do Olimpismo português, numa avaliação apenas global, não é brilhante nem sequer razoável. É fraca, ou mesmo muito fraca.

É um problema cultural e complexo.

 
Em 22 participações, Portugal conseguiu unicamente 22 medalhas, o que dá a média de uma medalha por edição de Jogos de Verão.

Se tomarmos em consideração apenas os países europeus com população idêntica à nossa ou até metade da nossa, somos o último, ou seja, o mais fraco, em todos os indicadores de resultados olímpicos, a distância considerável dos que nos antecedem, com exceção da Irlanda, um país com menos de metade da nossa população, que tem uma média de 1,2 medalhas por edição.

 
A análise cuidada de uma grande quantidade de dados estatísticos relativos aos países europeus com uma população entre os 8 e os 12 milhões de habitantes, o número médio de medalhas por participação varia entre as 3,4 da Áustria e as 19,1 da Hungria, passando pelas 19 da Suécia, 16 da Bielorrússia, 8,3 da República Checa, 5,8 da Bélgica e 4,2 da Grécia.

Em relação aos resultados obtidos em Pequim só a Bélgica conseguiu como nós apenas 2 medalhas, a Áustria 3, e a Grécia e a Finlândia ambas 4, todos abaixo ou muito abaixo da respetiva média por edição.

 
O intervalo de medalhas conquistadas por Portugal nas suas participações varia entre ZERO e TRÊS medalhas, sendo que as 3 medalhas apenas foram conseguidas em Los Angeles 1984 e Atenas 2004.

 
Olhando para os resultados de Pequim 2008, evento no qual participei com responsabilidades, Portugal conseguiu 2 medalhas (uma de ouro e uma de prata), 7 diplomas de finalista (classificações até ao 8º lugar) e 15 classificações até ao 16º lugar (semi-finalista), num total de 79 participações.

 
Para Londres 2012, as aspirações nacionais a medalhas ou classificações honrosas são, como habitualmente, muito modestas, tendo como padrão comparativo os países europeus com população semelhante.

 
Assim, são de esperar, na minha opinião, 0 a 1 medalha, 4 a 6 diplomas de finalista e mais 10 a 14 classificações até ao 16º lugar.

Tudo quanto seja acima disto será para mim surpreendente, tendo em atenção a realidade atual.

 
Devemos pois honrar e valorizar especialmente todos os olímpicos portugueses que consigam medalhas ou diplomas de finalista, já que tais conquistas são extremamente difíceis para desportistas portugueses.

domingo, 1 de julho de 2012

Cristiano Ronaldo porta-estandarte em Londres

Texto publicado no Público no dia 1 de Julho de 2012.

1. Tenho plena consciência - gosto deste início - que compete a V. Ex.ª, Senhor Chefe de Missão aos Jogos Olímpicos de Londres de 2012, a escolha do atleta que terá a honra de ser o porta-estandarte nos Jogos Olímpicos. Não interprete mal, pois, este meu escrito. Todavia - há sempre um todavia, mas, porém, ou outro sinónimo "word" -, tendo estado recentemente em terras da Polónia e da Ucrânia, um dos temas que se revelou incontornável (também adoro esta) foi a participação de Cristiano Ronaldo no Euro 2012.
Foi-me, ainda enfatizado o conjunto de qualidades do atleta e o que significaria para Portugal, mas também para a Polónia, Ucrânia, a Europa e o Mundo, e para a conquista da Bola de Ouro, que essa honra coubesse a esse atleta. Não veja nesta minha iniciativa, repito e espero que acredite na minha absoluta sinceridade, uma qualquer forma, mais ou menos indireta, de influenciar a sua decisão. Trata-se, tão-só, de lhe fazer chegar o querer de outros e partilhar com V. Ex.ª o testemunho que me foi transmitido.

 
2. Tinha acabado de endereçar este meu pedido - ups! - quando tomei conhecimento no jornal "O Jogo" que, no passado dia 13 de Junho, alguém se tinha adiantado.

Na verdade, o Governo (?) deste infeliz país, na pessoa do secretário de Estado Mestre Picanço, enviou uma missiva ao Chefe de Missão aos Jogos Olímpicos - e presidente da Federação Portuguesa de Canoagem - transmitindo todo o sentir da Região Autónoma da Madeira no sentido de um seu atleta ser o porta-estandarte.
Tendo tido a oportunidade e o privilégio de se deslocar àquela região autónoma, veio de lá "carregado" de boa vontade em transmitir o desejo - também em nome de "uma excelente oportunidade para a promoção desportiva e turística" da região autónoma - de todo um conjunto de entidades e personalidades, em ver o seu atleta como porta-estandarte.

 
3. E escreveu: "Estou bem ciente de que a escolha do "porta-estandarte" é uma competência exclusiva, pessoal, de V. Ex.ª, ademais, como é público, de há muito que sou um convicto defensor da autonomia do movimento associativo. Nesse sentido, não vou, naturalmente, procurar interferir na referida escolha. Em todo o caso, não quis deixar de, por esta via, partilhar com V. Ex.ª o testemunho que me foi transmitido".

 
4. Desta carta foi dado conhecimento ao Senhor Presidente do Governo Regional da Mdeira, Dr. Alberto João Jardim.

 
5. Acho que o meu pedido não tem hipóteses.

 
6. Palavras para quê? É um governante (?) português

terça-feira, 24 de abril de 2012

No Olimpo os deuses devem estar loucos

Os Jogos Olímpicos de Londres são daqui a três meses. E seria expectável que a atenção dos que trabalham no Comité Olímpico de Portugal estivesse focalizada na tarefa de garantir a melhor prestação possível à delegação nacional. Mas não. O secretário- geral do COP, que continua em exercício de funções, entendeu contactar algumas federações desportivas e anunciar que decidiu ser candidato à liderança do organismo. Entretanto, o líder de uma outra organização – a Confederação do Desporto de Portugal-cujo mandato para que foi eleito ainda não terminou, já anuncia que não descarta a hipótese de se candidatar ao COP.E, embora reconheça que este não é o momento próprio para abordar o tema, lá vai desfilando os motivos curriculares que, segundo o próprio, justificam que admita essa possibilidade.
As eleições são em 2013. E tudo tem o seu tempo. O frenesim de ocupar espaço e a agitação agora manifestada não augura nada de bom. Qualquer destas atitudes revela a ausência de elementar prudência e respeito. Prudência, porque neste momento de preparação para os Jogos se dispensa o contar de espingardas, o desgaste da contabilidade dos apoios e o alinhamento por esta ou aquela candidatura. E de respeito por quem atualmente lidera o COP e que vê na praça pública a sua liderança já estar a ser disputada. Quem é que gosta de dirigir um organismo, ter importantes tarefas pela frente e saber que ao lado já há quem se prepara, a tão grande distância, para o substituir? Mesmo no relacionamento institucional esta atitude retira-lhe força e fragilizam-no. Agravado num dos casos, por partir de alguém que exercendo uma tarefa de particular importância no relacionamento com as federações desportivas o faz, a partir de agora, não apenas como secretário-geral, função que não suspendeu, mas também como candidato a futuro presidente do COP.
Não está em causa, naturalmente, o perfil dos candidatos e bem assim o direito que lhes assiste de pretenderem ocupar o lugar de Vicente Moura. Está em causa, isso sim, o respeito por quem ainda exerce essa função e tem pela frente, repito, importantes desafios e que naturalmente não pode ser insensível ao que se movimenta em seu redor. Mas está também em causa o respeito pelas federações desportivas, técnicos e atletas envolvidos nos trabalhos olímpicos e que, agora são chamados a prestar atenção a algo que tem um momento próprio para ser apreciado e discutido.
Estas atitudes, e outras que porventura ocorram em contexto semelhante, só podem surgir por uma incontrolável necessidade de aparecer e garantir algo que escapa à lógica de serviço desinteressado à causa olímpica e desportiva. É um posicionamento que não está muito longe daquele que é habitual na competição política. Não é que daí venha grande mal ao mundo. Mas deita por terra muito da ideologia do dirigente olímpico, feita de dedicação, sacrifício e entrega a valores de altruísmo e inspiração coubertiana. Bem o sabemos que poder é poder. E não é preciso reler os clássicos para se perceber que é uma espécie de parafuso sem fim pouco compatível com certo tipo de valores. Só que, por vezes, engana: por muito que se enrosque não aperta.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Rumo a Londres 2012

Um texto de Luís Leite, que se agradece.


A 4 meses dos Jogos Olímpicos de Verão, julgo ser interessante fazer uma retrospetiva das participações portuguesas, com o objetivo de se poderem tirar algumas conclusões.
No final, julgo ser possível fazer uma previsão das expetativas aceitáveis para os Jogos que se avizinham.

Portugal participou até agora em 22 edições dos Jogos Olímpicos de Verão, entre 1912 e 2008.
Nessas 22 participações ganhou 22 medalhas, o que dá uma média de uma medalha por participação.
Foram conquistadas 4 medalhas de ouro (todas do Atletismo), 7 de prata e 11 de bronze.
Das 22 medalhas, 10 foram conseguidas pelo Atletismo.

Além do Atletismo, mais sete modalidades conseguiram medalhas: Vela (4), Equestre (3), Ciclismo (1), Esgrima (1), Judo (1), Tiro – Fosso Olímpico (1) e Triatlo (1).

Em termos de medalhas, o máximo que Portugal conseguiu numa edição foram 3, em apenas duas edições: 1984 (Los Angeles) e 2004 (Atenas).
Em 9 edições, Portugal não conseguiu qualquer medalha.

Se considerarmos as medalhas e o número de pontos obtidos (do 1º ao 8º lugar), sendo 8 para o 1º e 1 para o 8º, vejamos as melhores participações:

Atenas 2004: 3 medalhas, 42 pontos;
Los Angeles 1984: 3 medalhas, 26 pontos;
Atlanta 1996: 2 medalhas, 33 pontos;
Sydney 2000: 2 medalhas, 30 pontos;
Pequim 2008: 2 medalhas, 28 pontos;
Montreal 1976: 2 medalhas, 19 pontos;
Londres 1948: 2 medalhas, 17 pontos.

As piores participações, com 0 medalhas:

Estocolmo 1912: 0 pontos;
México 1968: 0 pontos;
Moscovo 1980: 0 pontos;
Munique 1972: 3 pontos;
Antuérpia 1920: 5 pontos;
Tóquio 1964; 5 pontos;
Los Angeles 1932: 6 pontos;
Melbourne 1956: 7 pontos;
Barcelona 1992: 8 pontos.

Modalidades que conseguiram mais pontos:

Atletismo: 98;
Vela: 79;
Equestre: 42;
Esgrima : 19;
Judo: 14;
Vólei de Praia: 10.

Atendendo ao número de medalhas e pontos e o número de participações, Portugal é o país mais fraco da Europa em resultados olímpicos, com população superior a 3 milhões de habitantes e apenas devido à Albânia, pois de resto só está acima dos microestados com menos de 500 mil.

Tomando como base os resultados obtidos no passado e a fraca tradição desportiva nacional e tendo em consideração o panorama atual das modalidades e atletas já qualificados e eventualmente a qualificar, é possível fazer um prognóstico global quanto a expetativas realistas:

Dificilmente Portugal ganhará uma medalha e é improvável que ultrapasse os 15 pontos.

Esta previsão reflete o desinteresse com que o país sempre olhou e olha para os Jogos Olímpicos, revelando uma enorme incapacidade de organização profissional e responsável, salvo raríssimas exceções.

A nível governamental, reina o desconhecimento sobre a matéria e a profunda crise financeira que o país atravessa será invocada para justificar uma crescente decadência do desporto olímpico.

A população desportiva, nessa altura, estará preocupada com o Europeu de Futebol e com a aquisição de reforços futebolísticos.

domingo, 4 de março de 2012

De quantas éticas se faz o desporto?

Artigo publicado hoje no Público.


1. O ministro Relvas e o secretário Mestre Picanço entenderam presentear o país com um Plano Nacional para a Ética no Desporto (PNED) para "durar quatro anos", numa operação de cosmética política e de hipocrisia ilimitada. A única coisa que se lamenta é o esforço dedicado daqueles que são colocados a prestar serviço às derivas do poder político.

2. Logo na pomposa cerimónia de apresentação do PNED, o ministro Relvas, "irritado" com as referências a insultos racistas no jogo FC Porto-Manchester City, foi peremptório: "Se há país que não recebe lições de ninguém em matéria de racismo ou xenofobia, é Portugal. Não podemos permitir insinuações de outros povos que não têm a frontalidade de assumir a aproximação cultural e a nossa tradição universalista." E acrescentou: "Portugal pede meças a todos os outros povos do mundo no que toca a fenómenos de violência e corrupção no desporto." Peremptória, perigosa e "criminosa" ignorância.

3. Prosseguindo. Aquele que quer ficar na história como uma espécie de Pierre de Coubertin português, o secretário Mestre Picanço, lá foi adiantando: "[O PNED] é um documento de todos nós, com vista ao fomento da cidadania e respeito, no que o desporto é paladino, sendo portador de valores humanísticos e sentido ético, além dos valores morais associados e que convergem para práticas multidisciplinares."

E, para concretizar este desígnio nacional, Mestre Coubertin tem uma Comissão de Honra e Embaixadores da Ética Desportiva. Tem até um Provedor da Ética no Desporto. E quem é esse provedor? Nem mais nem menos que um dos candidatos à presidência do Sporting nas últimas eleições. Adivinhem quem se encontrava na sua lista? Mestre Coubertin, pois claro.

4. Omnipresente, verdadeira musa de Mestre Coubertin, lá está o presidente do Comité Olímpico de Portugal e de tantas outras coisas. Entre essas, naturalmente, o Conselho para a Ética e Segurança no Desporto, secção do Conselho Nacional do Desporto. Ora, recentemente, com a chancela da Secretaria de Estado, Vicente Moura distribuiu, para análise, a algumas entidades, um "Modelo de Regulamento da Prevenção da Violência". Todo o texto é digno de ser lido. Agora, porém, pelo seu "elevado sentido ético", transcreva-se parte do seu artigo 3.º (Princípios) "As pessoas referidas no artigo anterior [todo o universo desportivo e para além dele] devem pautar a sua conduta, tanto na actividade desportiva, como na vida quotidiana, por um conjunto de princípios. E, de entre eles, o da neutralidade política e o do olimpismo." Como é que é, falsos arautos da ética? Na vida quotidiana?

5. Desejamos que a página do PNED nos dê conta da lista dos Embaixadores da Ética Desportiva. Não é difícil adivinhar, contudo, que lá encontraremos presidentes de federações desportivas e, seria uma injustiça de bradar aos céus, o chefe da Missão Olímpica Londres 2012, o presidente da Federação Portuguesa de Canoagem.

Portugal tem em Fernando Pimenta uma das afirmações de excelência desportiva internacional. O atleta há muito tempo que aguarda uma decisão de um recurso que apresentou junto do Conselho de Justiça dessa federação. Um destes dias, como manifesta forma de controlar, amordaçar e quebrar a personalidade e a dignidade do atleta, a poucos meses dos Jogos, Fernando Pimenta recebeu uma nota de culpa onde se invocam pretensas infracções disciplinares cometidas em 2009. 2009!

6. Cito Millôr Fernandes e com ele concordo em absoluto: precisamos de um código de falta de ética.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

"Quando não se sabe para onde vamos, qualquer caminho serve"

Sobre a representação olímpica em Pequim e os rocambolescos episódios ocorridos antes, durante e após o evento já muito se falou e escreveu.

Foi também nesta colectividade desportiva um tema candente, analisado sob diversos ângulos no tempo próprio. Não se pretende voltar a ele, nem tão-pouco recensear posições pró e contra a definição de objectivos desportivos, mas tão só relembrar os ensinamentos recolhidos por quem mais activamente participou na contratualização com o Estado da participação portuguesa em Pequim 2008 e, neste ano, em Londres 2012:

«Depois do fracasso em Pequim2008 quanto às metas traçadas para a conquista de quatro a cinco medalhas -- o que chegou a estar escrito e contratualizado com o Instituto do Desporto de Portugal -- Vicente Moura diz que já não comete o mesmo erro.
“Desta vez isso não acontece: o programa que assumi com o governo não prevê lugares de pódio, prevê boa representação, condigna, etc... mais atletas, talvez mais modalidades, mas não mais do que isso”, justificou o presidente do COP.
O passado foi pedagógico e Vicente Moura referiu que não cairá no mesmo erro, depois da experiência em Pequim, onde acabou por ver apenas Nélson Évora (medalha de ouro no triplo salto) e Vanessa Fernandes (prata no Triatlo) conquistar medalhas.»


As palavras prudentes parecem reter a aprendizagem dos tempos vividos. Não repetir o mesmo erro (!?). Não mais falar em medalhas ou qualquer outro objectivo desportivo. Apenas uma “representação condigna”. Foi esse o compromisso assumido com o Estado português num valor global de 14,6 milhões de euros.

Quando não se sabe para onde vamos, qualquer caminho serve”.

Este célebre adágio popular não é qualquer critica sobre uma aprendizagem que tende a renunciar a objectivos desportivos precisos sobre a nossa participação em Londres, antes consta da recente proposta de um Plano Integrado de Desenvolvimento Desportivo 2012 -2022 apresentada ao Governo.

Nela se pode ler:

Este desiderato estratégico deve constituir o eixo central da política desportiva para a legislatura, implicando o envolvimento colectivo de diversas entidades intervenientes no sector ou com este relacionadas, desde federações desportivas aos Municípios e ao Sistema Educativo, a fim de promover estudos técnicos que garantam um verdadeiro e credível diagnóstico da realidade actual e estabeleçam objectivos de médio e longo prazo para aproximar Portugal da vanguarda do conhecimento e do valor ambicionados pela comunidade

Continua assertivamente:

Nestas circunstâncias, anima-nos a convicção segundo a qual é decisivo que o Governo assuma o compromisso de encetar estudos e alocar os recursos susceptíveis de enformarem os objectivos do desporto português para a próxima década”.

Concluindo firme:

Estabelecido o Plano Integrado do Desenvolvimento Desportivo 2012-2022, onde se encontrassem vertidos os objectivos gerais e intermédios, dando-lhes ampla divulgação junto da opinião pública, importaria que todos os intervenientes assumissem o compromisso de concretizar as metas traçadas

Ah! Esta proposta, por certo fruto de uma profícua aprendizagem com os erros do passado, foi apresentada ao Governo Português pelo COP, e assinada por alguém que em tempos formalizou um compromisso com o Estado de concretizar os objectivos desportivos expressos num contrato programa, e que, não repetindo duas vezes o mesmo erro, define agora para metas em Londres 2012 a objectivável “representação condigna”.

De facto, “quando não se sabe para onde vamos, qualquer caminho serve”…

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Se me derem dinheiro, eu apoio

Foi hoje publicado no Diário da República, um contrato programa de “desenvolvimento desportivo” (?), ainda celebrado pelo IDP, que concede ao Comité Olímpico de Portugal uma comparticipação financeira de € 5.400. Uma migalha, dirão alguns, em particular quando se tem presente o dinheiro público que é canalizado para essa organização desportiva.
Porque razão, então, este meu registo?

Prende-se com o objecto do contrato.
A verba destina-se a executar um “programa de apoio ao funcionamento do Gabinete de Apoio ao Atleta Olímpico”.

Como nasceu a «coisa»?
Lê-se nos considerandos do contrato que a Comissão de Atletas Olímpicos (CAO), propôs ao Comité Olímpico de Portugal (COP) a criação desse gabinete, com o objectivo de cumprir o “objecto estatutário” que se prende com a “defesa dos interesses e a melhoria das condições de exercício da actividade dos atletas olímpicos”

Por outro lado, adita-se, a CAO integra o COP, “e embora goze de autonomia relativa à prossecução da missão estatutária do Comité, não detém personalidade jurídica, estando, no entanto, representada na Assembleia Plenária do Comité Olímpico de Portugal e tendo também o seu presidente direito participar nas reuniões da Comissão Executiva do Comité Olímpico de Portugal quando sejam tratados assuntos específicos para os atletas olímpicos”.

Em bom rigor, assim o julgamos (mas estamos, totalmente errados), que sentido faz o Estado financiar o COP nesta matéria?
Ao invés, não caberia ao COP tomar de peito aberto este encargo magnânimo?
Imagino só o esforço que os atletas não devem ter tido para chegar aqui.

Mas nem tudo são rosas para o COP neste contrato.
Com efeito, pode haver cancelamento desta comparticipação financeira no caso de incumprimento pelo COP, da legislação sobre a violência no desporto (em sentido lato) e do regime jurídico relativo ao acesso e exercício da actividade de treinador de desporto (?).
Valha-nos isso.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

A cidadania como negócio

A Colectividade Desportiva tem contado com contributos que reflectem sob a natureza nacional de equipas e que, em última instância, se focalizam na afirmação de uma certa falsidade no apresentar do desporto nacional, em particular dos seus êxitos.
A oportunidade de um período de menor labor, conduziu-nos à leitura – e muito dela andávamos afastados – de um artigo de Ayelet Shachar, professor da University of Toronto Faculty of Law, publicado recentemente na prestigiada The Yale Law Journal.

“Picking Winners: Olympic Citizenship and the Global Race for Talent” é o bem sugestivo título do texto.
O autor, neste extenso artigo, coloca-nos, de forma simples, perante um conjunto de «evidências» que vão brotando do mundo do desporto, pegando na cidadania olímpica – isto é, num dos requisitos de elegibilidade dos atletas para participar nos Jogos (ser nacional de um país) –, como um dos exemplos mais expressivos da actual transformação da noção de cidadania: a cidadania (ou a «oferta» da cidadania) como elemento de recrutamento de pessoas e factor fundamental na competitividade entre países.

Citando um outro investigador, o autor adianta que o elemento essencial da competitividade a nível global não é mais a troca de bens e serviços ou os fluxos de capitais, mas a competitividade “for people”.
Os Estados Unidos da América são um dos mais enérgicos exemplos na «troca» de passaportes por medalhas olímpicas.

Mas o que cativa uma pessoa do Direito ou uma pessoa do Desporto, é a postura do autor que vê na cidadania olímpica – ou mesmo na cidadania desportiva – um campo de análise preferencial para o estudo do futuro da cidadania num mundo globalizado e interconectado.

Somente como uma «deixa» para aguçar o apetite pelo excelente texto, refira-se o grande paradoxo registado por Ayelet Shachar:

“É em nome do sentimento de orgulho nacional e da reputação nacional que os funcionários governamentais agilizam a aquisição da cidadania àqueles dotados de talento excepcional. Esta prática leva a situações potenciais em que indivíduos servem como embaixadores desportivos de uma nação relativamente à qual não têm se não ténues ligações e em certos casos, em cujo território nunca colocaram o pé”.
Todavia, esta erosão da cidadania como parte de uma comunidade, via esperança de um país, é levada a cabo em nome da promoção do interesse nacional do país recrutador.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Participação olímpica e objectivos desportivos

A preparação desportiva não se faz sem objectivos. E a participação olímpica não é excepção. O contrário, o não haver objectivos desportivos, é que seria de admirar e de censurar. As federações desportivas, os treinadores e os atletas que estão integrados numa participação olímpica definem, por isso, os respectivos objectivos. A natureza desses objectivos é distinta em função do histórico desportivo de cada atleta. É perfeitamente expectável que alguns atletas nacionais e respectivos treinadores preparem essa participação de modo a poderem obter lugares de pódio.
Quem define e quem conhece esses objectivos são as modalidades, os atletas e respectivos treinadores. Os objectivos não são um palpite, uma presunção, nem a manifestação de um desejo. Atentas as circunstâncias concretas são um sentido para qual os atletas se preparam. Se depois, é ou não alcançado é uma outra questão. Em toda a preparação/participação desportivas há objectivos que são alcançados e outros que o não são. E, por vezes, são alcançados objectivos que não foram previstos e outros cuja previsibilidade de acontecer era elevada e afinal não aconteceram. A natureza de uma competição desportiva comporta um certo grau de imprevisibilidade. A única maneira de o evitar é o de não ter objectivos ou, tendo-os, não os divulgar. A primeira solução é inaceitável. A outra só seria aceitável num contexto em que não tivessem em causa razões de afirmação externa em que se depositam expectativas e recursos públicos que não devem ser elencados e afectos a lógicas de preparação desportiva sem objectivos.
Quem deve definir os objectivos de uma participação olímpica? Deverá se o respectivo comité olímpico após trabalhar esses objectivos com as federações das modalidades participantes, desejavelmente num quadro de discussão e avaliação técnicas. A decisão sobre os objectivos desportivos não é uma matéria natureza institucional, no sentido de poder ser uma decisão à revelia das federações desportivas envolvidas. A sua definição, determinação e quantificação não podem ser da responsabilidade de uma instância administrativa. Trata-se de uma matéria do foro técnico e é nesse ambiente que o assunto tem de ser definido. Excluir as modalidades e os técnicos dessa discussão é um absurdo. Não tem qualquer sentido. É não entender o papel dos técnicos e dos atletas Porque são eles que sabem, que conhecem, aquilo para que estão a trabalhar .
Colocar o problema nestes termos é tratar com um mínimo de rigor e objectividade uma qualquer preparação desportiva que visa a participação nuns jogos olímpicos. Sem dramatismos e com algum sentido pedagógico, designadamente explicando junto da opinião pública os objectivos desportivos que se perseguem, mas também o carácter aleatório e de imprevisibilidade que rodeia o seu sucesso desportivo. É preferível esta opção a uma outra em que se arredonda o discurso em termos de objectivos vagos e imprecisos. A primeira é uma atitude responsável. A outra uma demissão de responsabilidades
De resto, se consultarmos programas de preparação desportiva com vista á participação olímpica em outros países, constatamos que existem objectivos, que estão quantificados e que permitem no final, avaliar, se sim, ou não, esses objectivos foram atingidos. Sem queixumes. Com elevação.E sentido de responsabilidade.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Londres 2012: Uma competição sem importância

Um texto de Luís Leite.


Este país está cada vez mais futebolizado.
A cultura desportiva, em vez de crescer e melhorar, é cada vez mais frágil.
O interesse da população em geral no que respeita ao desporto, ao que parece, limita-se à vida de José Mourinho, Cristiano Ronaldo, e ao momento dos 3 grandes (FCP, SLB e SCP), a que se juntaram agora os vários clubes estrangeiros em que militam jogadores portugueses.
O resto, praticamente não tem qualquer relevância.
O Comité Olímpico de Portugal limita-se a distribuir bolsas de preparação olímpica aos atletas que vão sendo integrados.
Entretanto, o recém-nomeado Chefe de Missão Olímpica, declarou, um mês depois da sua nomeação, que já tem definido o perfil do seu adjunto. Bravo!
A pouco mais de ano e meio dos Jogos de Londres, a preparação da Missão Olímpica está no ponto de partida.
É o desinteresse total.
Dos Jogos só se falará, nos Órgãos de Comunicação Social, nas vésperas da partida para Londres.
Para onde enviarão, outra vez, jornalistas completamente ignorantes sobre aquelas estranhas modalidades.
Vicente Moura agora já não arrisca previsões.
O Governo não revela a menor preocupação. O que tinha interessado mesmo era a organização do Mundial de Futebol.
Eu arrisco uma previsão:
Dado o estado actual do Desporto Português, em plano inclinado, arriscamo-nos a sair de Londres sem qualquer medalha.
O que nos colocará, definitivamente, no grupo dos mais atrasados da Europa, com a companhia exclusiva dos micro-estados.
Com a população que temos, deveríamos apontar para 5 a 7 medalhas, o que significaria ter 15 a 21 medalháveis.
Mas ninguém se importa.
Pois se podemos ter dezenas de medalhas nos Paralímpicos…
O que interessa, para já, são os eventuais reforços futebolísticos de Inverno.
Em Agosto de 2012, após os Jogos, alguém irá culpar a crise financeira pelos maus resultados olímpicos.
De que se falará durante uma semana, no máximo, em simultâneo com os eventuais “reforços” dos 3 grandes para 2012/2013, que continuarão a encher as capas dos jornais desportivos, diariamente, com nomes de jogadores sul-americanos desconhecidos.
E o Benfica e o Porto deixarão de jogar com 9/10 estrangeiros. Passarão a jogar com 11.
É a paixão pelo Futebol…

sábado, 20 de novembro de 2010

A candidatura

Um texto de Luís Leite.

O que pode trazer de bom para Portugal uma eventual atribuição da organização pela FIFA do Mundial de Futebol de 2018 ou 2022?
Portugal é, actualmente, o país mais fraco da Europa em Desporto, com excepção dos micro-estados, seja qual for a perspectiva racional em que o tema seja abordado. É fácil prová-lo.
Em termos de cultura desportiva, para a quase totalidade da população, desporto é futebol, clubite, e Cristiano Ronaldo.
Os pivots da RTP, nos Telejornais, quando falam em Selecção já nem dizem a que modalidade se estão a referir. É só futebol.
A haver grandes investimentos governamentais em Desporto, tendo em atenção o verdadeiro interesse nacional e a mudança de mentalidades, deviam ser dirigidos para a criação de condições para uma progressiva afirmação nas modalidades olímpicas, com uma estratégia clara de desenvolvimento, pensando sobretudo nos Jogos Olímpicos, essa sim, a grande montra mundial do desenvolvimento desportivo.
Mas não.
Para além do mexa-se e caminhadas, a aposta vai para a organização, a meias com a Espanha, já que o nosso passado desportivo é, comparativamente com os outros países europeus uma desgraça, de um evento que só vai trazer para Portugal:

1) A possibilidade de recuperar e actualizar tecnologicamente alguns dos Estádios do Euro 2004, então já com 14 ou 18 anos;
2) Dar visibilidade a personagens que são autênticas nulidades e que são responsáveis pelo atraso do desporto português;
3) Em época de crise, com um endividamento externo incomportável, encomendar prejuízos de centenas de milhões de euros, que o povo terá também um dia de pagar.

Sejamos contra este inacreditável desígnio nacional, mais uma machadada asfixiante no desporto olímpico português em favor da futebolite.
Revoltemo-nos e sejamos capazes de fazer ouvir a nossa revolta!

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Preparação olímpica?

Um texto de Luís Leite.


Os próximos Jogos Olímpicos vão realizar-se em Londres no Verão de 2012.
Em finais de Setembro de 2010, ou seja, pouco mais de um ano e meio antes do início dos Jogos, o Comité Olímpico de Portugal escolheu o Chefe de Missão Olímpica.
O Chefe de Missão Olímpica é o responsável máximo pela representação nacional e coordenador de todas as actividades relacionadas com a preparação e com a presença em Londres.
Será também o autor do relatório final, após os Jogos.
Como se explica que um país do mundo dito civilizado e membro da União Europeia só decida escolher o Chefe de Missão quando já passou mais de metade da Olimpíada, ou se preferirem do ciclo olímpico?
Nada tenho contra a pessoa escolhida.
Mas não será estranho que, no acto de posse, tenha afirmado que a equipa que irá escolher (será ainda este ano?) terá que ser uma equipa profissional, composta por pessoas capazes e experientes?
O que é que isto significa?
Será que quando os outros países já estão a entrar na fase decisiva da preparação para os Jogos, Portugal só agora é que vai começar a pensar nisso a sério?
Olhando para o panorama actual do Desporto português e tendo em consideração que o máximo que conseguimos foram 3 medalhas em Los Angeles e Atenas e a média geral das participações portuguesas é de 1 medalha, as expectativas para Londres são, digo eu, muito más.
Dificilmente ultrapassaremos o intervalo habitual (0 a 3 medalhas), que nos atirará ainda mais, no medalheiro geral, para a cauda dos países europeus, à frente apenas apenas dos micro-estados.