sábado, 11 de maio de 2013
Tempos de Glória
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quinta-feira, 2 de maio de 2013
Subida à Glória, um património suado
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| Fonte - Eco DosSports, AnoI, n39,1926, gentilmente cedida pelo Museu Nacional do Desporto |
Em meados de Maio, acontece em Lisboa o Congresso Internacional da História do Ciclismo (ICHC 2013). No âmbito do programa desta Conferência vai realizar-se a corrida da Subida à Glória. Esta corrida foi uma "descoberta", um achado que é descrito na obra de Gil Moreira e cujas imagens já, em parte, se encontram destruídas porque na Biblioteca Nacional os jornais desportivos do início do século XX estão a desfazer-se, não foram a tempo digitalizados e já não podem ser consultados. No Museu Nacional do Desporto, o espólio existente debate-se igualmente com problemas de conservação, preservação e até de comunicação porque está, literalmente, enclausurado no interior do Palácio Foz, ali mesmo junto à Glória. Perguntam, porque é que uma conferência de história leva para a rua uma corrida? Porque a história de Lisboa tem de ser partilhada por todos, porque o património não pode ser destruído e, para ser sentido, nada melhor do que ser com o corpo vivido, suado!
Cem anos depois das primeiras corridas da Subida à Glória, o desafio celebra no presente o legado histórico do passado! Data de 1910 o primeiro registo cronometrado mas é em 1913 que a disputa se avoluma e depressa se torna numa das mais célebres corridas de Lisboa, na qual em 1926 Alfredo Luís Piedade ganha a Glória de um recorde de 55 segundos nunca, até hoje, batido.
A Subida à Glória é uma subida que Tristão da Silva tornou fado cantado, no qual não há glória merecida sem sacrifício suado e, perante esta sina, cabe ao ciclismo enfrentar e vencer a rampa de 265 metros com declive médio superior a 17%. Mas não há corrida sem festa nem euforia e eis que tamanha alegria é também prometida na Subida à Glória do próximo dia 17. Um frenesim que pode ser escutado na canção dos Rádio Macau dedicada ao elevador que liga a Baixa ao Bairro Alto, uma alegoria às ilusões da vida motivadas por subidas rápidas sem canseiras nem fadigas.
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terça-feira, 23 de abril de 2013
No campo de jogos, a sala de cirurgia
Na cirurgia, a equipa ataca muitas vezes quem não vê, faz um jogo de cabra-cega com bactérias, com o infinitamente pequeno que compõe o interior do nosso corpo. Ora, nestas circunstâncias, perder é fácil, aprender com essas derrotas é sabedoria. Por isso o paradigma da saúde valoriza os casos difíceis e o bom médico, o bom hospital é aquele supera as piores dores. Na educação todo este paradigma é subvertido e o que se valoriza é, pelo contrário, o colégio que, sem dores, escolhe e acolhe os melhores e sem grande desafio os prepara para as vitórias em exame. E, à margem desta glória vã, ficam aquelas escolas públicas que atacam vários males sociais que ninguém quer ver ou ter. São elas, com grande jogo de cintura, que cumprem o maior dos desafios: não só reparam nos erros e nos desvios como, mais importante, ajudam a reparar vários erros evitando muitos desvios. São estas escolas que, a prazo, nos aliviam de dores maiores porque é com o seu trabalho que se evita a exclusão e se produz solidariedade social.
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quarta-feira, 27 de junho de 2012
Qual corpo, qual mente...Rezo logo existo
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quinta-feira, 26 de abril de 2012
Sardinha de bicicleta nas Festas de Lisboa
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quinta-feira, 19 de abril de 2012
PT e Constantino guardador de vacas e de sonhos
Tenho períodos em que a necessidade de estar sentada a escrever durante muitos dias me faz pensar que a vida do hamster é muito mais excitante que a minha. É também nestas alturas que, tal como este bichinho, me apanho nas máquinas do ginásio a correr sem sair do lugar, produzindo e gastando energia, dando conta do desperdício que caracteriza o lado absurdo do modelo tecnológico. Olho à volta e imagino a energia de todos aqueles corpos, que ali passeiam e dão ao pedal, a ser aproveitada de modo a alimentar as próprias máquinas que, tontamente e ainda por cima, gastam electricidade. E é no ginásio que, alheados do mundo e de nós próprios, mandamos manguitos uns aos outros e, com um peso apertado na mão mais a acústica a envolver os ouvidos, nos fechamos publicamente no cuidar do nosso corpo.
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sexta-feira, 30 de março de 2012
Por aí, no tempo, de bicicleta




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quinta-feira, 22 de março de 2012
A Eusébio basta ser e, Sendo, é património

O amor à camisola, ao Benfica, nem sempre foi fácil de aguentar dada a angústia sentida por nem o libertarem nem o aumentarem. Em 1969, no fim de um contrato de três anos, o desentendimento entre Eusébio e o Benfica é tornado público pela edição da revista Século Ilustrado que lhe chama O Ca$o Eu$ébio. O índice da mesma abre com o ponto “Eusébio – polémica e reivindicação”, num artigo intitulado Eusébio: “estou desiludido não voltarei a ser ingénuo”. Mas foi Silva Resende, seu advogado, quem deu o "corpo às balas" numa entrevista onde conta também as ameaças sofridas por ajudar Eusébio nesta querela:
“(...) _ Os regulamentos futebolísticos são sempre feitos sem se obter o acordo dos jogadores, aos quais não são dadas explicações. (...) Isto, porque se o jogador pretender ir para uma colectividade estrangeira só o conseguirá desde que o seu clube o permita. _ Isso quer dizer... _... que o Benfica pode pedir a quantia que muito bem entender pelo «passe» de Eusébio sem lhe dar satisfações. Dessa forma, se um clube italiano, por exemplo, oferecer 10 ou 15 mil contos (é do conhecimento geral que há quem lhe desse 20 mil) por Eusébio, este vê o seu possível contrato prejudicado, uma vez que o Benfica pode dizer simplesmente isto: «Eusébio é inegociável». Por outro lado só lhe oferecem 3 mil contos para ele continuar. Em que ficamos? Que género de moralidade é esta?
A célebre frase de Salazar nem nesta quezília é "lembrada" ou sequer alguma vez referida e, por incrível que pareça, um elogio tão bonito e tão estrondoso não teve eco em nenhuma notícia de jornal e nem sequer é digna de registo na legenda do cromo na colecção a que esta foto que se segue pertence.

Colecção de cromos Portugal no Mundial de Futebol de 1966. “121 - O Senhor Presidente do Conselho recebeu a selecção, após brilhante proeza conseguida em Inglaterra. Demorou-se a conversar com Eusébio, grande embaixador de Portugal no mais apaixonante dos Desportos”.
Mas, décadas mais tarde, Malheiro, bom leitor de lábios, sabiamente interpreta toda esta história e, no seu livro Obrigada Eusébio, escreve que Salazar o considerou património de Estado em 1962 e, dúvidas houvesse, ilustra a máxima com esta mesma foto de 1966. Malheiro, como bom gatekeeper que é, não necessita de fontes, é ele quem conta o conto, é ele quem acrescenta os pontos que quiser. Não é que Malheiro seja um criativo ou um artista mas, mutatis mutandis, pensem agora na Pietà, de Miguel Angelo, para verem como se captam aspectos intangíveis do património. Nesta obra, Cristo e Nossa Senhora são sujeitos a uma operação estética e, seguindo os preceitos da antiga Grécia, em vez de um corpo magro, fustigado e sacrificado pela tortura, temos um jovem atlético e musculado, de 33 anos, caído no colo da sua mãe que, tiradas as rugas dos seus quase 50 anos, com face muito jovem nos seus braços o carrega.
Voltando ao "tempo do Eusébio", sim, porque é neste termo que reside o modus operandi que por vezes escapa à estética biográfica, o importante é ser ele um marcador do tempo, quer seja da nossa vida pessoal quer seja da história de um povo por inteiro. E, nesse seu tempo, era Américo Tomás quem seguia os seus desafios e, também, quem apreciava por todo o lado viajar. Contrariamente, Salazar nunca se terá afastado muito do eixo Lisboa - Santa Comba Dão e, presumo, só veria no futebol o caos, a incerteza e a desordem que ele tanto se esforçava por negar quando não conseguia, por inteiro, anular. A ginástica, sim, teria a sua admiração, com uma estética simétrica, exigente na disciplina do corpo, escultora do carácter e da feição e, quando feita por grandes massas de atletas, um espectáculo digno que serve a inauguração do estádio nacional .
A ideia de património aceita-se quando tudo nele e por ele se discute. Eusébio é o caso, é o herói fundador que a televisão filmou, cujas vitórias tanto ilustram a ideia do sucesso da comunidade multi-racial e multi-continental que serve de suporte à manutenção do colonialismo como, muitos anos mais tarde, a fantasia conciliatória com esse mesmo passado obscuro. E, mal pára de jogar, Eusébio nem tem de falar porque dada a densidade da sua múltipla identidade - benfiquista, português e moçambicano - terá sempre nele e por ele muitas vozes a erguerem-se e a erguerem-no. A Eusébio basta ser e, Sendo, ele é património.
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domingo, 18 de março de 2012
Domingo na ciclovia do Guincho
Hoje é Domingo! Hoje é na ciclovia e na estrada do Guincho que encontramos a malta toda, famílias inteiras com crianças ou sem elas, com cães de trela ou sem ela, com patins de batons ou sem eles, com bicicletas de rodinhas ou sem elas. Todos juntos e, se possível, depois das dez! É este o lema que nos une, uns atrás dos outros, ora nas filas da A5 a caminho do trabalho, ora no lazer das estradas e nas ciclovias da moda. Alienação? Não, o termo já nem se usa, os corpos que ao Domingo no Guincho arejam são concordantes no mesmo estilo de vida e não só.
É ao Domingo que a emoção se adensa porque, na estrada, ao tráfego da "voltinha para fazer a digestão" se junta o motard que só chega à Roca com espectáculo de velocidade e em contramão. E, sem paredes meias ou qualquer divisão de protecção, na ciclovia "todos berram e todos têm razão" porque aos muitos que nela marcham se juntam alguns mais atléticos a correr, uns poucos mais audazes a patinar e, como se não bastassem, uns muitos convencidos que ali vão andar de bicicleta. Na estrada, o espaço é mais largo, é o lugar dos automobilizados, refiro-me aos da digestão do feijão e aos motards da contramão que, perante o conflito dos outros, se movem velozes sem alarido apesar do barulho e da poluição. É graças ao carro que muitos chegam ao Guincho para admirar o mar e, alguns mais arrojados, chegam mesmo a sair do dito para na praia passear. Bendito seja o nosso carro que nos leva a escapar à inércia física a que os malditos dos carros dos outros nos condenaram!
O carro dá-nos vida, torna-se as nossas pernas e nele, dado o conforto quase divino, sentimos a máxima "sento-me logo existo". A vida moderna é então muito mais moderna que vida, é passada no sofá, quer no emprego quer frente à tv. Neste contexto, a ciclovia desentorpece as pernas e areja o pulmão de muitos destes e, ao lado, a estrada serve os mais viciados do assento mantendo-os imóveis. De carro nem a janela se pode abrir por causa do vento do Guincho. O ar livre tem muitos imponderáveis que só mesmo o carro resolve já que, sempre pronto, protege do sol ou de uma aragem mais fresca e, sem locomoção, evita a fadiga. De modo exemplar a magnitude da vida reproduz-se no "oh, filho anda cá, não corras que te cansas!"
A estrada favorece o culto do sofá e é, por isso, um espaço exclusivo de interioridade, individualidade e, sem músculo mexer, de velocidade. Comparada com a estrada, a ciclovia do Guincho é muito estreita para o elevado número de pessoas que ao Domingo ali resolve passear. Como o nome indica, ciclovia faz crer que é um espaço destinado a bicicletas mas, claramente, é um equívoco assim pensar porque o piso liso é excelente e, se feitas ao lado do passeio, é por lá que dá gosto andar. Ora, concorrente, a calçada portuguesa só dá mesmo conforto ao olhar porque a irregularidade faz tropeçar e quando molhada faz escorregar, logo a ciclovia é vista como a alternativa a todas essas armadilhas. O colorido da ciclovia é atraente e, nela, só apetece andar, seja de salto seja de bengala e, sem postes e outros emplastros, serve também a mobilidade dos carros de bébé. Dada a ambiguidade da sua nomeação, o conflito na ciclovia existe e, paradoxalmente, deve-se ao sucesso e à diversidade da sua utilização.
Então que fazer às bicicletas? Ora, como é óbvio, o lugar das bicicletas nas cidades e nas vilas, é na estrada! Mas, nas estradas em geral e na do Guincho em particular, os carros superam os limites da velocidade e não há meios de os controlar ou deter. Então, se calhar, a solução passa por mudar a cor da estrada do Guincho e das estradas dos bairros onde moramos para, assim, se confundirem com ciclovias e serem pensadas como um espaço seguro partilhado por todos. E, para começar, tomar já o rumo dos corpos discordantes, daqueles ciclistas que vão pela estrada para não atropelar ninguém que, a seu modo, subvertem a ordem dada e, plurais, se tornam agentes de mudança.
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quinta-feira, 8 de março de 2012
As Mulheres FAZEM-SE!
Nas obras que li de Gonçalo M. Tavares cabe aos homens a escultura do destino e às mulheres a limpeza das aparas sendo estas, de todas as maneiras, muitas vezes violadas e, imaginamos nós pela força de frases como "vais fazê-la comigo a ver", relativa à iniciação sexual do filho com a criadita, violentamente vilipendiadas. São eles que na guerra, na viagem à Índia, na medicina e na política apresentam o know how do conhecimento da vida, o sobressalto das grandes questões existenciais e, também, da maldade, da brutalidade e da preversidade .
Quando exemplo há, vem de cima, de um homem, do pai. E, citando o autor, é à filha a quem cabe crescer para dar continuidade à família, construir e, nesta divisão funcional, ao filho cabe vingar o pai, destruir. Ora, já na ordem do valor patrimonial, sobre a construção social pouco há a contar e para a história fica tão só o sujeito do conflito, aquele que destrói. Pratos limpos, para elas restam os panos, elas não fazem história porque quem as faz a elas são eles, quer por violação quer por expiação ou, quer ainda, por obra divina do Espírito Santo.
Saltando da literatura para um outro campo qualquer, em tudo isto só vejo competição e, ironia do destino, o pavor de se notar que nem mesmo para jogar futebol é preciso pila pois basta o pé! Ora, talvez o receio explique a necessidade de tanta visibilidade e, ao serão na rádio e na televisão, é sobre o futebol, que poucos perdem, que todos querem falar, fazer parte dessa pouca história que é o jogo em si, desde político a engenheiro e agora também, dada a similitude com a sexualidade das tabernas, o Machado Vaz.
Nestas conversas de homens, coitado daquele que jogue mal porque é de imediato chamado menina e, ao contrário, se é ela quem joga bem então, sim, parece um homem. E este é só um exemplo parco da versatilidade da construção da diferença entre o masculino e o feminino!
A mulher quer-se no busto da fantasia, na figura da República, algo irreal. Fora deste registo, o da incorporação do fémino no ideário da nação, eis as mulheres de carne e osso, sem ligar muito ao pecado nem à crença de que a acção é um obstáculo à procriação, a convencer que é passado esse conflito de papéis entre o "ser mulher" e o "ser atleta, pianista, escritora, engenheira, arquitecta, etc". E, no desporto, as mulheres que correm, que saltam, que jogam e batem recordes, contrariam teimosamente a falta de visibilidade do seu protagonismo e fazem elas a sua própria história. Ora, feitas as contas ao oblívio, para a história destas vitórias nunca há papel de sobra mas o pano não falha e, na pista, na volta da consagração, é grande a bandeira que as enrola!
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sexta-feira, 2 de março de 2012
Por aí de bicicleta... à conversa com Isaltino
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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
A bicicleta questiona desequilíbrios
Decorreu no passado dia 15 de Fevereiro, na FMH-UTL, um dia dedicado à Bicicleta para questionar (des)equilíbrios dos modos de vida , do corpo (exercício e saúde), da relação homem – natureza, da energia e economia sustentada . Em dívida para todos os que participaram decidi não fazer um resumo que seria sempre pobre face à riqueza das intervenções mas, ao invés disso, uma crónica inspirada pelas ideias deste dia.
Vou então começar, seguindo o mote de Joaquim Pais de Brito, pelo objecto físico, a bicicleta em si, agarrando o momento crucial da sua própria génese histórica que foi a invenção da corrente (em inglês o termo é mais bonito – the chain). Foi a corrente que permitiu dar velocidade ao movimento, criando uma cadeia de transmissão de força potenciando e impelindo a invenção das mudanças. Do mesmo modo, a conferência impeliu-nos, como a corrente, a pensar a bicicleta como lugar de invenção e mudança social. E o professor de antropologia mostrou como é que a bicicleta induz efeitos na mudança de mentalidades pela forma como nela nos tendemos a equilibrar e a comunicar uns com os outros.
A corrente devolveu à bicicleta o equilíbrio essencial ao deslocamento veloz, destronando o modelo de roda alta que literalmente, pelas quedas provocadas, tanta dor de cabeça deu. Vejam nesta alteração o valor, ainda que alegórico, de como a velocidade conseguida à custa do aumento de uma das rodas é tão perigoso. Pensem na China e na sorte do planeta caso a opção política siga o exemplo português e a cada chinês dê um carrinho. Foi também destes desequílibrios que Carlos Neto falou quando mostrou parques infantis fofos, afastados das casas das crianças que os utilizam de modo a que estas tenham sempre por perto o olhar dos pais e, ao cair, ter logo alguém para as amparar de modo a não rasparem os joelhos. E, depois, vamos querer que estas crianças andem de bicicleta? Mas isso cansaria os miúdos! Já para não falar do calor e do frio, coitadinhas das crianças e dos jovens. Vamos então, de imediato, dar-lhes já um carrito aos 16 anos. E a questão é se vamos todos, em uníssono, ajudar a crescer a roda da mobilidade automóvel e reduzir o mais possível a roda da mobilidade sustentada que, entre outros pormenores, até salva da queda o planeta por inteiro?
Voltando à história, a velocidade accionada pela corrente retira a bicicleta do espaço exclusivo da bizarria e do divertimento dos elegantes e vai ser dada a quem tem mais força para a mover, não que a intenção provenha de alguma democracia até porque este baixar de tronco e de cabeça na corrida, que evoca a postura do corpo operário fabril, levará a bicicleta a ser chamada de cavalo do pobres. Foi também sobre a pobreza que Joaquim Pais de Brito falou, algo endémico que vem desta distinção bacoca que, digo eu, procura no hipódromo e, logo depois, no autódromo uma identidade ansiada inspirada, primeiro, nas capas das revistas estrangeiras a que poucos tinham acesso e, nas últimas décadas, no variado e multiplicado escaparate de qualquer quiosque mostrando que não há herói, até desportivo, que não se espete numa curva da vida com o seu belo carrinho. O desequilíbrio entre os poucos ricos e os muito pobres que marcou gerações com memórias de fome passada na infância conduziu muitos portugueses mundo fora, numa mobilidade territorial de necessidade de sobrevivência mas também de afirmação. Na volta, ao país ou tão só da cidade às suas terras,os seus corpos excessivamente bem nutridos anunciam prosperidade e, como calculam, nada melhor que uma grande casa para condignamente mostrar e, nela, um espaço pequeno, até pode ser a garagem, para aconchegadamente viver. E, não esqueci, o carro para a aldeia atravessar pois todos os que nela ficaram também não se perderam nesta competição e já nem ao café vão a pé!
No equilíbrio promovido, a corrente ofereceu à bicicleta o território por inteiro pois já não há caminho que não percorra. Foi esta descoberta do território que Pais de Brito evocou para lembrar como, interpreto eu, o paradigma do turismo se alterou e o ícone, o móbil da visita, não é o arquitetado mas o vivido, são os corpos que atravessam as ruas, as relações de proximidade e convivência que atrai o turismo. Então, alertava o professor, há um grande trabalho a fazer não só da parte das autarquias mas também da academia com a arquitetura, a engenharia e o urbanismo a projectarem outras e novas alternativas. Aliás, como Mário Alves mostrou, muitas delas já pensadas e, como o “ovo de Colombo”, cuja implementação seria bem mais barata que as obras que sobem o nível dos passeios tornando as estradas verdadeiros fossos onde só faltam crocodilos, ou talvez não.
A história da bicicleta é fundamental para mostrar que as mudanças só aparecem depois desta articulação entre os vários elos, depois de criada a corrente. Foi a corrente que impulsionou a mobilidade humana e, do mesmo modo, é a junção de todas estas perspectivas e diferentes ideias que inspiram soluções para o incremento do uso da bicicleta. Foi a corrente que fez a bicicleta sair do espaço fechado do velódromo, do espectáculo de si, e a levou, estrada fora, para o imaginário da viagem, da volta ao mundo. E, desfecho, reforço a ideia de Pais de Brito, lembrando a necessidade de exploração por parte das escolas, das academias, das autarquias e das agências de turismo na busca inventiva de soluções para recuperar a energia gerada por estes corpos que pedalam de modo a usá-la na re-invenção do território tornando-o uma dimensão de brio da identidade local e pessoal.
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sábado, 18 de fevereiro de 2012
De bicicleta, por aí... a ver montras!
Iniciei a colaboração neste blogue no dia 8 de Março do ano passado com um texto de elegia à relação de género tal foi o impacto da leitura do livro de Lodge “Um Almoço Nunca é de Graça”. Ora serve este mote para, de novo, voltar ao blogue porque senti que os dois textos que na época escrevi nunca pagaram o convite que me haviam feito. Eu saí do editorial quando, após a segunda crónica, senti falta de rumo para a minha própria escrita porque não dizer para a minha própria vida. Tomei então a decisão radical de trocar o carro pela bicicleta e andar por aí a ver montras buscando a inspiração.
Louca, sim, e sendo mulher, ao quadrado, mas pensem na vantagem que é poder parar a qualquer instante para ver as montras. Nesta mobilidade prazenteira descobri mais tempo de leitura, outras pessoas que nunca tinha escutado como o Mário Alves que, logo, me alertou para a vitória estatística das mulheres nas mortes por atropelamento. Ora, pensei eu, mudar sim mas pila nunca terei, até porque sempre me senti confortável no corpo de mulher; ora, só os átomos é que se mantêm “na sua” alheios às leis da física e à tabela periódica em que enfiados depois de julgados. É, de facto, um problema de método pensar que se podem estudar pessoas como se estudam os átomos e eu sou a prova disso porque na estrada sou agora um homem a quem outros homens assobiam. Bizarro, a situação faz lembrar um pouco as tabernas da aldeia onde os homens se juntam assiduamente numa proximidade corporal de cuspe a salgar orelha mas que na hora do aperto, leiam falar de homossexualidade, se rebelam e gritam “eu cá gosto é de mulheres”. Deixo a dúvida com as mulheres com quem vivem!
Voltando a mim, a minha masculinidade traduz-se por interpretar um código de estrada que me esqueceu enquanto ciclista e tem “a lata” de me proteger enquanto motorista. Foi com o César Marques que descobri que na cabeça eu só devia enfiar a ideia de que o capacete é uma falsa protecção porque este excesso de equipamento, motivador de muitas possibilidades de negócio e de consumo, induz todos pensarmos que o ciclista, assim protegido, fica em pé de igualdade com o motorista quando, na realidade, nem se trata de David contra Golias porque, no carro, pouco nos sobra de humanidade! Resumindo, se um carro me bater “estou feita” mas, depois desta experiência de quase um ano, descobri que sem capacete e de blazer não há motorista que não me admire e, ao mesmo tempo, se assuste com os movimentos nervosos que muitas vezes faço para mostrar a instabilidade da minha Brompton, uma bicicleta que se encolhe e quase se mete no bolso na hora de andar de comboio, de metro ou até à boleia de carro com amigos.
Vivi na Holanda no início dos anos 90 e tinha, como todos, uma bicicleta velha para não ser roubada. Andar de bicicleta nesse tempo e nesse espaço nem sequer dava uma crónica destas porque é tão corriqueiro que não haveria mote para a animar. Ah, mas a Holanda é plana enquanto que Lisboa tem sete colinas. Não vos critico por estarem enganados porque eu há mais de 40 anos que digo que sou da Beira Alta até alguém me lembrar que Oliveira do Hospital é do distrito de Coimbra e, por isso mesmo, sou da Beira Litoral. Doeu, não o facto de ser de outra Beira mas, sim, o engano, o convencer-me de algo que jamais questionei. Ora, oiçam o Paulo Guerra dos Santos que, antes de mim, resolveu buscar rumo ao curso de engenharia de estradas e resolveu fazer 100 dias em Lisboa de bicicleta e, depois, 100 dias numa enorme volta a Portugal para descobrir e a todos nós lembrar que não só as estradas são óptimas para andar de bicicleta como a geografia não é nenhum empecilho. Da parte que me toca é tudo verdade porque eu moro não muito longe de Cascais e trabalho na Cruz Quebrada, lugares bem servidos de estradas e sem relevo de monta para a minha idade. Então afinal quantos são os portugueses que vivem no Castelo e trabalham na Praça do Comércio? E, desses abençoados, quantos se lembrariam de fazer esse percurso de carro? Ora, experimentem e vejam que o problema da mobilidade para além de estar no imobilismo das nossas ideias também reside, a montante, na vontade ináudita de transformar o Cacém, Loures, Torres Vedras, Cascais e outros afins em lugares parecidos aos filmes americanos, nos quais os carros são a lenha que alimenta o fogo da velocidade da acção do Arnold. E, de modo não muito inteligente, criámos nós próprios o nosso filme passando boa parte da nossa vida fechados dentro do carro, um espaço limpo à custa de mandar toda a porcaria borda fora, uma sala ambulante à qual já nem a TV-Vídeo falta, um sofá espantoso no qual repousamos e com o qual competimos, sem esforço porque basta carregar no pedal. Com grande bisga chegamos à próxima fila e nunca ao Colorado anunciado pela marca. Com grande velocidade nos pomos em casa e cheios de vontade reparamos, de repente, que nos falta o papel higiénico e nesse momento, olhando a sanita como grande invenção da história da humanidade, amaldiçoamos a falência da mercearia do Sr. Arnaldo que ficava mesmo ali na esquina onde se poderia mandar o puto comprar o dito, enquanto calmamente se tratava do harvest na Farmville.
Neste filme há algo louco, uma (des)organização urbana que é um paradoxo, andamos sempre de e um lado para o outro, mal nos mexemos, é certo, mas temos a vida toda presa a lugares como Freixo Sem Espada Nem Cinta numa casinha paga a prestações ao banco e à oficina do Sr. Vítor. Ah, pois é, tendemos ao oblívio deste tipo de despesa, falo das revisões a que o desgaste do carro obriga e, feitas as contas, andamos quase metade do mês a trabalhar para pagar o deslocamento para o trabalho. Corei porque também eu, tarde, fiz essas contas. E nesta separação de tudo e de todos até os putos ficaram sem área para brincar por causa do lugar para o carro. O carro passa 80% do tempo de vida parado ocupando um espaço que podia ser utilizado de outro modo mas, venha lá o Duarte Mata (arquicteto paisagista que trabalha na CML) propor um espaço em cada bairro para as crianças e, aí sim, verão o que é motim! Austeridade, troikas e coisecas dessas ainda “vá que não vá” mas tocar nos direitos dados aos carros por políticas públicas tão jeitosas é revoltante e mesmo paradoxal. E, deste modo, os putos têm mesmo de olhar para a playstation em vez de meter o punho no olho do filho da vizinha que, de tão mimado, mal cresça e lhe coloquem um carro nas unhas vira um tirano, desses que na estrada acelera sem ter medo.
A velocidade da minha bicicleta não mete medo a ninguém e é tão atraente que puxa conversa com muitos desconhecidos. A principio, a medo, ainda andei sobre os passeios mas farta de tanto carro encontrar vi que era na estrada que me sobrava mais lugar. O salto que dei para a estrada foi um salto de fé, e o medo face a este mundo familiar mas desconhecido era tanto que me lembrou o momento ímpar em que o meu pai tirou de vez a mão que me segurava o selim. Estava por conta própria e foi uma alegria, tinha vencido o medo que mais não era do que vencer o desconhecido. Depois de 400 km por mês, com o desenho das estradas de Cascais nos gémeos, já digo como o outro: “o medo é uma cena que não me assiste”.
Em suma, andar de bicicleta deu-me mais tempo para ver montras, ie, inspiração para colaborar neste blogue com uma linha editorial política, deliberadamente assumida, porque tenciono escrever sobre a estrada desta minha nova vida. E, para exorcizar a desigualdade de poder que diariamente nela vivo, vou mensalmente à Massa Crítica de Lisboa - todas as últimas 6ª feiras de cada mês no Marquês de Pombal às 18h. A Massa Crítica é uma manifestação festiva, muitos dirão um pequeno Carnaval porque já junta três centenas de pessoas, repito, mensalmente. E, para quem nem sonha, o Carnaval preserva a ordem estabelecida porque é uma data de escape que permite, numa agenda marcada que escapa aos acasos mas não ao controlo, o excesso e a inversão de valores e de poderes revelando, desse modo e publicamente, as hierarquias que perturbam a mudança social. Foi tendo a bicicleta como mote para pensar os desequilíbrios da vida que organizei um encontro na FMH julgando eu que, desse modo, saldaria uma dívida para com toda esta Massa Crítica da qual já faço parte mas, como todos sabem, dívidas atraem dívidas e sobraram para mim os juros do lucro arrecadado por uma discussão plural sobre a potencialidade contida na conjunção “mobilidade e lazer”. Será então sobre essa montra que a seguir escreverei.
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domingo, 20 de março de 2011
O tempo esse grande corredor
Todos nós corremos contra o tempo e, claro, todos nós perdemos, mesmo aqueles que sobem ao pódio.
O tempo do pódio é um tempo síntese, breve e intenso como aquele que Youcernar concede a Adriano no leito de morte. É nessa réstia de vida que Adriano conta as suas Memórias, uma obra que demora à autora 10 anos a escrever e mais 20 para alcançar o reconhecimento por parte da Academia francesa mas que, hoje, seria tão só uma linha no currículo. Anos de consulta de fontes, de reflexão, de treino e ensaio da escrita, tal como é necessário treinar muito tempo e correr quilómetros para ganhar os 100 metros. É este tempo, essencial à reflexão, que a academia agora recusa e, por via disso, finta com nome colocado em escrito alheio dando ciência ao ditado do “meter o nariz onde não é chamado”. São estes tempos de treino que o deslumbre do pódio também parece negar.
Adriano teve uma vida plena de acção e não teve, por isso, tempo para escrever um diário ou, como o fazem os atletas a meio da vida, uma biografia. Adriano é, ou nesse fim de vida talvez não, um Imperador a quem a autora concede todo um escrito sobre as suas Memórias. Contrário ao tempo longo da autora, o tempo estrito de meditação de Adriano não deixa de fazer dele um visionário do mundo e de si próprio porque ele narra o que viveu. É pela descrição da dor, do desfazer do seu corpo, que sentimos o seu tempo esgotar-se. E, como o atleta, aspira com esse tempo breve, de narrativa e memória, de subida ao pódio, alcançar um outro tempo maior, o da eternidade.
O quê, a eternidade? Este é o título de outra obra de Yourcenar, uma questão premente já discutida na interpretação das fontes que a inspiram a escrever sobre Adriano. Nesta luta contra o tempo a autora recusa o suícidio do Imperador, descrito nas fontes, e faz de Adriano um modelo de humanidade que aceita os limites do seu corpo e, até ao fim, despreza o desespero e, com igual serenidade, a esperança. Adriano sente o corpo no seu fim e sabe que as suas Memórias só serão eternas enquanto existir alguém para as lembrar!
É dessa relação com o outro, que nem sempre nos entende ou lembra, que trata A obra ao negro. Esta obra retrata Zenão, um homem que vive a época medieval com um conhecimento e uma liberdade de espírito pouco plausível com o obscurantismo que ele acha que o rodeia. Ele é um herói criado pela autora, sem vitórias conhecidas porque a ele lhe resta apenas a clarividência do mundo que o rodeia, dos perigos que corre por dizer não e, também, por dizer sim! Este herói do quotidiano não espera pela hora da morte para refletir sobre a sua condição. Sem o poder de Adriano ele é obrigado a sobreviver no contexto adverso de um mundo que não sente seu e que, não obstante a sua tolerância face ao desconhecimento dos outros, ninguém lhe tolera uma outra visão, um outro modo de ver a estátua que, digo eu, sobre Adriano se ergueu. Eu colocaria Zenão a refletir sobre todos aqueles que durante horas e anos correm e que, apesar desse esforço inaudito, nunca ao pódio sobem. É também nesses outros anónimos que a comunidade se revê e por isso lhes ergue a estátua, ora dedicada ao soldado desconhecido ora, como na de Alpiarça, dedicada aos ciclistas, ao “Primeiro entre os primeiros”, lembrando que o mérito de ser primeiro é diferente de ser o único.
Em o tempo esse grande escultor Yourcenar mostra como até uma estátua, perene e inerte, se altera aos olhos que quem a vê, tal como a vitória desportiva que este fim de século inflamou e sobre os atletas uma forte pressão instalou, como se o mundo, ou a vida deles, apenas dependesse desse mísero instante. São estas vitórias, mais as que Adriano teve na construção de todo o Império, que Zenão questiona. Zenão é homem, alquimista, anatomista, viajante entre outros atributos que fazem dele uma múltipla identidade, aparentemente um ser como todos nós. E nenhum de nós, mesmo o atleta mais afamado, não deixa de ser filho e, quando pai, será também motorista, cozinheiro, arrumadeiro, conselheiro e contará até 100 antes de erguer a mão a um filho por causa de uma petulante e chocante observação sobre um seu ensinamento da vida. Por parte dessa nova geração, que nos desafia e nos questiona na razão que julgamos dominar, esperamos a recriação, e porque não a invenção, de um novo olhar sobre a estátua e, já agora, sobre o desporto de competição e o significado das suas vitórias.
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Ana Santos
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