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sábado, 11 de maio de 2013

Tempos de Glória

Os tempos de publicação desta imagem da Glória são, aqui e agora, um avulso de possibilidades de entendimento da corrida que está para além da apresentação cronológica dos seus feitos e conquistas.  

Esta é a página da Revista Stadium publicada em 1926 sobre a corrida da Subida da Glória. Este é o registo de momentos de glória das corridas que em Lisboa se faziam nas primeiras décadas do século XX. No meio da multidão está Gil Moreira (1907- 1988) a quem esta corrida marca e lhe acentua o desejo de ser ciclista. É trabalhando como marçano que, com 11 anos vindo órfão para Lisboa, vence na vida e irá cumprir o sonho de ser ciclista e correr com os melhores da época. No ciclismo foi corredor, director técnico da equipa da Iluminante, um dos primeiros projectos de equipa empresarial existentes em Portugal, director desportivo do Águias de Alpiarça (1958), jornalista que acompanha os eventos de ciclismo, entre eles a Volta a França (1946), fundador da SIBAL (1947), escreveu em 1964 o ABC do Ciclismo, um ensaio pedagógico de técnica e táctica de ciclismo e, como epílogo de história de vida, a obra de referência chamada A História do Ciclismo Português. Pelo meio ficam outros escritos e são as narrativas publicadas na Bicicleta, no Tiro Civil e no Sport Nacional que o incentivam a contactar com familiares e ciclistas desse tempo que, prontos para darem o seu testemunho, lhe oferecem outras histórias que ele próprio colige e que anos mais tarde servirão também para ilustrar as suas próprias crónicas no Mundo Desportivo, no Diário de Notícias e no semanário O Debate.


Em 2006, seguindo as pistas de Gil Moreira num trabalho de exploração de fontes para entender a profissionalização do ciclismo português, encontro este registo fotográfico da subida e, cinco anos mais tarde, a imagem é publicada no livro sobre a Volta a Portugal em bicicleta. A imagem é refeita de significado e é evocada para ilustrar um texto sobre a génese do espectáculo desportivo e comercial e, na fotografia, para mostrar o valor da multidão no reforço emocional da mensagem transmitida. Fotografada, a multidão é também um espectáculo, impressiona visualmente, é a objectivação da causa, seja ela qual for. Uma ideia prenhe de significado na necessidade política da afirmação autoritária dos movimentos nacionalistas, que viram na multidão a possibilidade de tornar objectiva a ideia de comunidade, e no espectáculo que ela representa a celebração de si própria, estabelecendo um paralelo com o papel desempenhado pela liturgia na religião. Actualmente, explorada a ideia para a produção televisiva, não faltam exemplos de cenários criados nos quais, na celebração espectacular, o ambiente criado chega a ser mais importante que a causa em si.


Quando este ano se conseguiu, sob apoio da SEJD, realizar a ICHC no Museu do Desporto que agora reside no Palácio Foz, colado à calçada da Glória, veio de novo à memória a imagem anos antes publicada. Volto à BNL à procura desse mote e eis que dou com os jornais desportivos das primeiras décadas em muito mau estado, a desfazerem-se, interditos à leitura. À falta de melhor pega-se então na foto da página do livro e de novo se lhe altera o sentido e, em pouco tempo, é o mote perfeito para convencer os parceiros institucionais a dar apoio à ideia extravagante de, na calçada, repetir o feito da corrida.


E, dito e feito, de novo a imagem circula e pegando nela a Matilha Cycle Crew transformou-a no cartaz que agora anuncia a corrida de 2013. Um design que nos confunde porque a tecnologia criativa consegue o presente parecer passado; é, também por isso, uma obra prima porque consegue baralhar todos os tempos que na imagem se cruzam e misturam.
É este poster que ficará como memória futura, é esta imagem que detém o poder transformativo do tempo. E apesar de serem hoje outros tempos é a multidão que ditará o sucesso do evento e dará visibilidade à agenda em causa: levar para o espaço publico a reflexão histórica sobre o valor do património desportivo; dar visibilidade à causa da bicicleta para em Lisboa termos menos auto-estradas e mais ruas; e, ainda, devolver à cidade a festa do ciclismo menos ligado a quadros competitivos federados e mais a jeito de nos levar a todos à Glória! 


quinta-feira, 2 de maio de 2013

Subida à Glória, um património suado

Fonte - Eco DosSports, AnoI, n39,1926, gentilmente cedida pelo Museu Nacional do Desporto

Em meados de Maio, acontece em Lisboa o Congresso Internacional da História do Ciclismo (ICHC 2013). No âmbito do programa desta Conferência vai realizar-se a corrida da Subida à Glória. Esta corrida foi uma "descoberta", um achado que é descrito na obra de Gil Moreira e cujas imagens já, em parte, se encontram destruídas porque na Biblioteca Nacional os jornais desportivos do início do século XX estão a desfazer-se, não foram a tempo digitalizados e já não podem ser consultados. No Museu Nacional do Desporto, o espólio existente debate-se igualmente com problemas de conservação, preservação e até de comunicação porque está, literalmente, enclausurado no interior do Palácio Foz, ali mesmo junto à Glória. Perguntam, porque é que uma conferência de história leva para a rua uma corrida? Porque a história de Lisboa tem de ser partilhada por todos, porque o património não pode ser destruído e, para ser sentido, nada melhor do que ser com o corpo vivido, suado!

Cem anos depois das primeiras corridas da Subida à Glória, o desafio celebra no presente o legado histórico do passado! Data de 1910 o primeiro registo cronometrado mas é em 1913 que a disputa se avoluma e depressa se torna numa das mais célebres corridas de Lisboa, na qual em 1926 Alfredo Luís Piedade ganha a Glória de um recorde de 55 segundos nunca, até hoje, batido.
A Subida à Glória é uma subida que Tristão da Silva tornou fado cantado, no qual não há glória merecida sem sacrifício suado e, perante esta sina, cabe ao ciclismo enfrentar e vencer a rampa de 265 metros com declive médio superior a 17%. Mas não há corrida sem festa nem euforia e eis que tamanha alegria é também prometida na Subida à Glória do próximo dia 17. Um frenesim que pode ser escutado na canção dos Rádio Macau dedicada ao elevador que liga a Baixa ao Bairro Alto, uma alegoria às ilusões da vida motivadas por subidas rápidas sem canseiras nem fadigas.


Reviver de modo festivo a história da corrida é também uma forma de chamar a atenção para os problemas da cidade no presente. Ora, nas corridas há uma mise en scéne do esforço, da conquista do território, demonstrando que não há na cidade rampas que resistam à glória da bicicleta. Mas, no dia-a-dia, a bicicleta promete melhoria de vida sem tanta canseira e, por isso, as políticas públicas têm de promover formas de mobilidade combinada com os transportes públicos. Em rampas com esta, não basta ao elevador ser Monumento até porque servindo a cidade transforma e transforma-se perante as suas necessidades. Parado, o elevador assiste à corrida histórica, um evento no qual só os mais aptos correm. Mas a história do elevador é feita de movimento, tem de adaptar-se aos tempos e transportar bicicletas para, na rotina, nos levar a todos à Glória!


Figura convite da corrida de 2013 Subida à Glória. Design da autoria da Matilha Cycle Crew



terça-feira, 23 de abril de 2013

No campo de jogos, a sala de cirurgia




Se tivesse de expor uma "instalação" sobre o valor das aulas de EF, sobre o valor da prática desportiva, colocaria no meio de um campo de jogos o equipamento de uma sala de cirurgia.

E esta ideia não é nenhuma aberração porque, reparem bem, tanto o espaço como o equipamento escolhidos evocam a dor! Não há ninguém que se gabe de poder escapar à dor e, por isso, é uma experiência por todos nós sentida. Logo, a sala de cirurgia é o lugar ideal para se avaliar o investimento feito nos ginásios e campos de jogos  porque é na situação extrema, no limiar entre a vida e a morte, que empiricamente se observa a eficácia do treino para resistir às dores ali partilhadas.

São várias as questões que se colocam, tanto do lado de quem opera como da parte do operado. Como é que o médico lida com o cansaço de tantas horas em pé e mantém  sem tremer, a sua motricidade fina? Como é que consegue, ao mesmo tempo, liderar e manter solidária toda a sua equipa? Como é que o doente aguenta, resiste e supera as suas dores?

Para ponderar estas questões temos de analisar a relação entre o campo de jogos e a sala de cirurgia. Na sala de cirurgia há tempos e decisões que nos lembram, numa equipa, a diferença entre ter e não ter a bola e, num jogo, a complementaridade entre ataque e defesa. Quem tem a bola tem o poder de, em segundos, decidir a sorte da equipa. Qualquer falha na decisão conduz a uma dor que está tão presente e é tão frequente que dela não falamos, só a sentimos, refiro-me à dor da humilhação!   

A dor remete não para o certo, para a norma, mas para o errado e para o desvio. A dor é um aviso e é, também, um castigo ao desvio daquilo que se espera ser uma boa decisão, uma boa actuação. Há por trás de cada dor uma moralidade associada. Um treino muito duro provoca dores e, com uma certa violência, se ensina aquele corpo a ter prudência, a dosear o esforço no jogo, na corrida, na vida. Mas, paradoxal ou nem por isso, o engenho inventivo decorre de desvios, de erros, de muitas dores já sentidas. As vitórias são uma bebedeira que entorpece os sentidos e, levados no ar, seguimos o soma e segue. As derrotas doem tanto que nos prendem ao chão e, parados, dão-nos tempo para pensar e reflectir.

Na cirurgia, a equipa ataca muitas vezes quem não vê, faz um jogo de cabra-cega com bactérias, com o infinitamente pequeno que compõe o interior do nosso corpo. Ora, nestas circunstâncias, perder é fácil, aprender com essas derrotas é sabedoria. Por isso o paradigma da saúde valoriza os casos difíceis e o bom médico, o bom hospital é aquele supera as piores dores. Na educação todo este paradigma é subvertido e o que se valoriza é, pelo contrário, o colégio que, sem dores, escolhe e acolhe os melhores e sem grande desafio os prepara para as vitórias em exame. E, à margem desta glória vã, ficam aquelas escolas públicas que atacam vários males sociais que ninguém quer ver ou ter. São elas, com grande jogo de cintura, que cumprem o maior dos desafios: não só reparam nos erros e nos desvios como, mais importante, ajudam a reparar vários erros evitando muitos desvios. São estas escolas que, a prazo, nos aliviam de dores maiores porque é com o seu trabalho que se evita a exclusão e se produz solidariedade social.

É no campo de jogos que nas primeiras décadas da nossa vida aprendemos o significado e o valor da dor. Pelo campo de jogos passam todos, jovens comuns e atletas olímpicos, os possíveis doentes e também os médicos. Pela escola pública passam todos, os poucos com posses para contratar especialistas que preparam os filhos para entender o busílis do GAVE e os muitos outros sem posses para enfrentar esse desígnio. A escola é o lugar onde todas as dores são mais sentidas e para as conseguir escutar precisa de sossego, de decisões políticas mais lúcidas que fomentem a justiça social. E quando o campo de jogos é o espaço de ataques políticos cirúrgicos, a prazo, aumenta-se a dor na sala de cirurgia! 



NF: Este texto é inspirado pelos resultados de um estudo realizado pelo grupo de EF, da EB 2,3 Gaspar Correia, sobre o valor da avaliação dos alunos na EF. Grata pelo convite e a todos os que estiveram presentes na sessão. 

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Qual corpo, qual mente...Rezo logo existo




Entendo que, nas escolas, se reduza a carga horária da E.F. pois só assim se preserva a melancolia dos alunos e da comunidade por inteiro. Aliás a historicidade das sucessivas reformas dão-nos a todos cansaço que baste, uma depressividade contrária a toda e qualquer actividade.  A tomada de novos poderes sobre a escola pública parece ser sempre feita pela via do ressentimento e, por causa disso, a escola tornou-se o cemitério de todos os entusiasmos, nela jazem todos os projectos, maior parte dos quais incompletos.

A formação que aposta na variedade de performances cria corpos que sabiamente dominam a leitura de jogos que, no campo, na tela, no palco ou no papel, artisticamente se reinventam. Escolas com este tipo de formação almejam um espaço de vitalidade que não só de moralidade, são um território de incitamento, resolvem inibições e, mais do que olhar para trás, estes lugares dão visão e preparam para o futuro. Contrariamente, se a aposta é numa formação que desvaloriza o próprio corpo então vamos tornar todos os jovens herdeiros das nossas frustrações mal vividas, das partes doidas da nossa história colectiva. E, loucura insana, vamos desde já mostrar-lhes que são herdeiros de coisa nenhuma porque nas ansias de tudo querer melhorar reside  a incapacidade de aceitar a parte da equação já resolvida. Este eterno retorno, de tudo apagar até do rascunho, é também um modelo de rebeldia pueril caracterizado pela vontade de vingar por via do esquecimento criador.

E em prol de um iluminismo ressuscitado, que nos mostra uma ciência triste, vamos então todos imaginar que, num esforço colectivo bem sucedido, criamos uma nova elite de sucesso na matemática. Ora, para que necessitam estes génios de EF no seu currículo se para resolver a função lhes basta dúzia e meia de neurónios mal medidos? A mesma questão se aplica ao cirurgião que, na neurologia, dá um apertão a estes neurónios ou ao engenheiro que concebe tão sofisticada aparelhagem usada na operação. Indo mais longe, ao fulcro da questão, pergunto para que necessitam eles do corpo por inteiro se apenas com a mente até prego enfiam na parede? A resposta a todas estas questões encontra-se na fé, à qual qualquer um deles recorre mal seja o sujeito a operar.  E, aí sim, conscientes da falta das rédeas no destino, todos rezam para que a mão do médico não trema, rezam para que este tenha resistência e aguente o stress e o cansaço, rezam para que este consiga gerar em torno do seu acto cirurgico uma energia emocional e uma grande solidariedade por parte de toda a equipa que lidera. É nestes momentos de profunda inquietação que todos descobrem o corpo que são!

Perante a crença disparatada na dualidade “mente sã em corpo são” que tão só alimenta a dúvida sobre o corpo uno que somos, também  pouco mais nos resta do que ter fé. Rezemos então para que a democracia aguente a estalada dada pela elite criada que, impulsionada pelos trampolins privados suportados pelos capitais familiares, é munida de performances polivalentes e, tendo passado com excelência em todos os exames, emigra! E, embalados, rezemos também pela democracia e não nos deixemos cair na tentação  de pensar que são só os que têm maior sucesso nos exames que politicamente nos servem e/ou governam. A tradição sempre foi o que era e, para mandarim, basta nas hostes do partido parecê-lo – esperto – já não tem sequer de sê-lo!

E, pejados de fé, vamos todos a Fátima em procissão rezar por todas as famílias que não têm dinheiro para pagar o inglês do Instituto, a música e/ou o teatro da Academia, as actividades do Clube ou do Heath Club e, com isso, não têm os filhos agraciados com as performances requeridas nas agências de emigração de talentos. Nesta procissão, com andor aos ombros todos nós penitentes que não temos orçamento para explicações e nem esperança no ensino individualizado por causa do aumento de alunos por turma. Este aumento vem alegrar o fulgor e o desassossego da idade, ao qual sempre se junta  o mimo dado por progenitores mal amanhados e, por via disto tudo, dar animo ao tempo  doido gasto no mandar calar ou no exaspero gritado do “já p’ra rua!”.

Oremos também pelos alunos oriundos de famílias descapitalizadas de academia e de economia que rapidamente da escola, reprodutora de desigualdades,  são “postos a mexer”. Evoquemos também aquelas escolas que se empenham a gerar mecanismos de combate ao abandono escolar e, nunca bem colocadas nos rankings do mérito de exame, garantem a inclusão dos desfavorecidos e são exemplo de solidariedade social. Sem preces, deixemos o elogio pronto dado a colégios afamados que, como a equipa do Real Madrid, escolhem aqueles que lhes garantem os melhores resultados marginalizando todos aqueles que têm ou dão chatices.

Rezemos também um terço em prol do crescimento quantitativo das Associações de Mães, Pais e EE, para que os 4 ou 5 (em geral familiares dos melhores alunos a matemática e piores a EF) que, dada a automaticidade democrática, acabam por representar os 300 ou 400 que nunca participam e /ou querem saber (em geral familiares dos alunos pouco dados a matemática mas que muito apreciam EF). Rezemos uma novena por inteiro para que se restrinja o número de mandatos nas cúpulas das respectivas Confederações para, na televisão, aparecerem caras novas com discursos inovadores.

Rezemos, então, pelo retirar da escola pública de quocientes da fé!

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Sardinha de bicicleta nas Festas de Lisboa


É esta a sardinha que ganhou o concurso das Festas de Lisboa, parabéns à Matilha que a criou e que, com todas estas cores, a retirou da estrita relação com o omega-3.  Já basta de tanta preocupação com os ácidos gordos quando a saúde pública e o exercício dependem, muito mais, do comportamento social do que dos poli-insaturados baptizados com nomes estranhos. Sobre estes pode escrever-se tudo e mais uma teoria porque não é por isso que eles alteram um milímetro da sua actuação, daí o conforto deste tipo de investigação pois nunca os estudados questionam a subjectividade da interpretação dada aos números pelos respectivos estudiosos. Ora as pessoas são mais difíceis de estudar porque o seu comportamento não funciona como um mero organismo, porque é na interacção com o outro  que se gera a emoção promotora de iniciativa e entusiasmo, mesmo que estruturalmente constrangidas, ou então não.

Esta sardinha é fruto dessa tal iniciativa e entusiasmo  porque é pela acção vivida que a matilha reclama políticas públicas que contemplem a sua opção de vida, que neste país protejam a bicicleta na mobilidade urbana. A que se deverá, a este nível, a nossa diferença face aos nórdicos,  tendo nós tão bom tempo e tantos dias de solinho? Será que, fruto da insolação, queimámos o neurónio responsável pela decisão da qualidade de vida citadina que os nórdicos têm e nós não? Passemos agora à variável da nutrição para aventar novas hipóteses, partindo da constatação que nós até comemos mais sardinha (os mais cientistas leiam ómega-3), das duas uma, porque é por demais paradoxal, se a sardinha é responsável pela esperteza como explicar que sejam os holandeses a ter um código que dá primazia ao peão, depois ao ciclista e, por último e sempre sem razão no caso de acidente, ao automobilista. E, numa outra perspectiva, se é grande a esperteza dada pela sardinha vingará em Portugal a do tipo saloia, daquela que acredita que se o problema não é proteico-molecular então não necessita de ser estudado e, vai daí, investe em estruturas, leiam ciclovias e ciclo-faixas e outras segregações do género sem rede lógica pensada a partir dos percursos das pessoas e, a montante, sem a criação de normas, regras e multas sérias para acabar com a velocidade nas cidades. Agora que temos hipóteses de causa-efeito para alimentar vários PhD deixo-vos, a título exploratório, o link para uns slides que vos mostram que na Holanda, contrariando crenças infundadas, no interior das vilas e cidades são poucas as ciclovias; estas existem, sim, para ligar bairros mais afastados aos centros de vitalidade comercial e universitária ou para ligar vilas entre si. É caso para dizer que os holandeses não se perdem, bailarico sim mas não uma vez por ano, festa sim e todos os dias mas a "horas de gente" que no dia seguinte trabalha porque, por suposto, é no convívio regular e quotidiano que reside o segredo da boa vida e da coesão social.

A matilha fez o inédito, pega na sardinha e traz à baila das festividades uma reflexão sobre a mobilidade e o modo de vida da cidade, sobre a falta de opções a que todos estamos sujeitos. Reparem nesta loucura, na escolha forçada a que todos somos submetidos quando nos concentram o comércio em Shoppings como o de Cascais no cimo de um planalto cuja acessibilidade de nível existe mas é uma auto-estrada, quando nos colocam o Hospital Amadora-Sintra num ermo a que só se chega de carro, quando as pessoas que moram em casas mais em conta da margem Sul têm de trabalhar no Tagus Park e, do outro lado, quando moram no Estoril têm trabalhar ou estudar na FCT do Monte da Caparica, quando moram em Queluz e no Cacém têm de estudar na Cruz Quebrada ou, pior, no pólo do Alto da Ajuda. Pergunto, há transportes públicos pensados para todas estas situações? É claro que não, os transportes existem mas não foram pensados para dar resposta a esta complexidade e doidice urbanística, na qual as mudanças estruturais acontecem de modo pontual mais ligadas ao poder do político do que ao poder das políticas e, claramente, isto lixa qualquer suposto sistema ou suposta organicidade.

Até o nosso organismo, que é de si muito complexo, jamais suportaria tal leviandade porque, motivo simples, não contempla clientelismos, cada orgão tem a sua especificidade e seu modo de funcionamento mas, qual hierarquia cerebral qual quê, todos têm de contribuir para o mesmo fim, sem cunhas nem queijos pelo meio. Qualquer greve intestinal nos deixa amarelinhos e se teimar em prolongar-se não tenham dúvidas que o destino final, do corpo por inteiro, é o jardim das tabuletas. Ora, ao nível social também os camionistas testaram a teimosia de Sócrates e provaram que facilmente nos colocavam a todos a andar de bicicleta e a semear batatas mas nunca no cemitério. Topam a diferença, as pessoas adaptam-se, reagem à greve, mudam de comportamento perante as dificuldades até porque, mesmo sem petróleo, temos para trás uma história com séculos de existência. Claro que a consciência colectiva dos camionistas apareceu muito por obra e graça dos respectivos patrões, ou seja, para além da subjectividade inerente à (inter)acção humana ainda temos estes "piquenos nadas" que explicam o sucesso desta greve sobre a dos professores por exemplo, uma coisa é estar em greve abraçado ao patrão contra o Estado cuja face é um tipo que em geral poucos suportam, outra é ser funcionário desse Estado que não lhe paga os dias de greve. E toda esta confusão entre deveres e direitos da cidadania acontece porque nem nas escolas a Educação Cívica é bem servida e a sardinhada é de tal ordem que nem  o primordial vem à baila: que o ESTADO não era o Sócrates nem agora é o Passos mas SOMOS TODOS NÓS.

E, nesta senda da valorização cívica, Sócrates depois da experiência vivida concluiu que só mesmo um investimento na educação, e não é à toa a Filosofia e não a Biologia, lhe faria perceber tudo o que não entendeu.  E, político que só é político, sem Paris nem Filosofia, não anda na matilha porque é raposa velha. E, dominando a sua lenda, esta raposa perante as uvas apetitosas, leiam estas belas sardinhas com biclas e sem carros, incapaz de agilidade para dar cabo da latada sorri com lata e diz: estão verdes! E, contente de si, sai veloz pela via-verde decidido a construir mais estradas e túneis que acabem com a visão destas malditas uvas e eis que, aos poucos, enlouquece e só lhe apetece dar cabo daquelas latas que, nas filas por todo o lado, a impedem de chegar na bisga a qualquer saída. E nesta bisga transformadora de ruas em estradas de fórmula 1, a sardinha enlatada vive em desassossego e com medo: sente que a lata a protege  e por isso paga as estradas,as portagens e as respectivas manutenções; fechadas em si nas grossas filas de espera inventam programas de rádio que as animam; investem mais de metade do mês de trabalho no pagamento das prestações da lata; refugiam-se na crença e na procissão que aos santos pede chuva para arrefecer o efeito estufa criado pelas suas latas; põem as suas petingas frente ao ecrã que as acalma com jogos enervantes e consultam psicólogos para resolver uma hiperactividade que no interior da lata não se aguenta; investem em mestrados e acabam em motoristas das suas petingas que, dados os perigos, necessitam da lata para ir de casa à escola ou ao pão e também à natação; os logistas da tradição governam-se a enlatados porque o produto fresco pertence agora ao hipermercado que dispõe de lugar para cliente com lata. E, todos, investimos na formação de sardinhas cientistas e nutricionistas para, sem nos tirar da gordura da lata, nos fazer mexer e reduzir o peso ou, quietos, nos emagrecer com depuralina. E, perante esta espiral determinista que, com grandes festas, nos embriaga nesta valente sardinhada, ainda nos fazem pensar que não estamos nada entalados, que isto é o ciclo natural da vida, que somos como o ovo e a galinha dos quais ninguém sonha quem nasceu primeiro. Desculpem a franqueza mas este argumento em que andamos todos metidos não lembra nem ao Bruno Bettelheim (autor da psicanálise do conto de fadas).

Com esta sardinha social a matilha mostra que tanto a vida como o turismo na cidade estão a mudar, que o significado patrimonial se alterou, que o ícone da cidade já não é o embasbacado frente ao palácio mas, sim, a estética ligada com o movimento e a interacção social, o turismo activo. Ora, se a matilha já sobrevive  com este modo de vida alternativo ao modo enlatado então significa que é possível fazer vingar esta sardinha menos proteica mas mais social. Este DIY (do it yourself) da matilha mostra que a alternativa se constrói não pela segregação de uns face aos outros mas pelo juntar do saber de todos. Necessitamos assim do efeito circular sabiamente gerado pela raposa, ie, juntar todos os aventureiros para, em cardume, dar segurança a todos aqueles que já desejam sair da lata e só o medo os impede. Cabe às sardinhas interessadas na mudança investir no DIY e, no interior dos seus municípios, universidades, ateliers, oficinas e afins, não recear as infra-estruturas onde as raposas se movem e nas quais estamos todos metidos, instigar as super-estruturas  para dar visibilidade à solução porque é assim que se ganha consciência do problema colectivo e, ainda cheios de lata, construir e/ou exigir estruturas que nos coloquem a saúde pública bem lá no alto de modo a olhar de cima raposas mota-engilosas que contrariadas pela nossa maturidade  diriam "estão verdes"!
Seguindo a Matilha Cycle Crew, cuja maturidade admiro, também eu irei de bicicleta à Festa porque, na sardinhada de Lisboa, é o meio mais rápido para chegar lá primeiro!  

quinta-feira, 19 de abril de 2012

PT e Constantino guardador de vacas e de sonhos



Tenho períodos em que a necessidade de estar sentada a escrever durante muitos dias me faz pensar que a vida do hamster é muito mais excitante que a minha. É também nestas alturas que, tal como este bichinho, me apanho nas máquinas do ginásio a correr sem sair do lugar, produzindo e gastando energia, dando conta do desperdício que caracteriza o lado absurdo do modelo tecnológico. Olho à volta e imagino a energia de todos aqueles corpos, que ali passeiam e dão ao pedal, a ser aproveitada de modo a alimentar as próprias máquinas que, tontamente e ainda por cima, gastam electricidade. E é no ginásio que, alheados do mundo e de nós próprios, mandamos manguitos uns aos outros e, com um peso apertado na mão mais a acústica a envolver os ouvidos, nos fechamos publicamente no cuidar do nosso corpo.

Mas, no ginásio, a figura que mais me impressiona é o PT -  Personal Trainer - que, dito em inglês, tem aquela credibilidade ancestral já expressa na admiração da minha avó pelo político que na televisão falava tão bem que não se percebia nada. O importante é nunca traduzir nenhuma dessas expressões para não vivermos o ridículo de cantar "todos nós vivemos num submarino amarelo, num submarino amarelo" e, dos escolhos deste ímpeto, sobrar a vontade de tornar património imaterial o "indo eu, indo eu, a caminho de Viseu".

No dito PT o que nos prende é o olhar com que fixa, suponho, o tónus muscular da pessoa que está ao seu cuidado. Em pé, parado, de olhar fixo focado nas repetições do outro lembra-me, mutatis mutandis, o olhar com que o pastor atentamente segue o movimento do rebanho pelo prado. Na atitude só o cajado os distingue mas, seguramente, ao PT também este pau daria jeito até para, de vez em quando, dar umas bordoadas à perna ou ao braço que teima desviar-se do rumo pré-definido pela máquina que os estica, estira e encolhe.

O PT lembrou-me, nem sei explicar porquê, o Constantino guardador de vacas e de sonhos, um livro de Alves Redol cuja leitura era obrigatória no meu tempo de liceu. Olhando as vacas, Constantino sonha os moldes do mundo. Já o PT molda corpos que sonham, através de ganhos de perfeição e suavidade Barbieana, resistir à morte e afirmarem a diferença pelo querer muito ser igual a todos que, como as maças calibradas, têm o IMC ideal. É ao PT que cabe entender e decifrar o significado deste tipo de acrónimos que, pela capacidade de interpretar os números do IMC, estabelece com todos nós uma distinção vertical, com ele no topo do saber de ponta, e com as velhinhas da minha aldeia que de cor sabem os valores dos triglicéridos e do colesterol uma distinção horizontal, com ele e elas no topo do saber de monta. 

No prado, ao Constantino falta-lhe o espelho, ou talvez não, porque, dada a natureza tão real e natural, o rio que de certo o atravessa possibilita esse mirar de si e também do mundo de pobreza e de trabalho que o rodeia, mormemente das lavadeiras e de todas as canseiras que, nos textos de Alves Redol, sobrevivem pueris e romanceadas. Já no ginásio isto não é bem assim, a canseira é propositada, não se confunde com pobreza e, obviamente, o espelho é fundamental até para dar conta do espectro de si e do sonho que o outro, um qualquer bem delineado e opíparo de si, representa. O PT resguarda os corpos de quem cuida, de quem sonha tornar-se um Adónis e o seu olhar fixo, leiam sapiente e científico, perante esse outro ao seu cuidado é, por si só, uma garantia de sucesso a esse desafio estóico.

O Constantino é, ingenuamente, um ser único que nos faz pensar um estilo literário e também os tempos de pobreza e da estreiteza do sonho vivido em Portugal. Sobre o PT sobram-me incertezas para a frase de impacto e de síntese final porque neste solipsismo o grande umbigo dá conta do corpo por inteiro e, com a mente formatada pela boa forma, falha o sonho de boa vida social bem como o sentido a dar a Portugal.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Por aí, no tempo, de bicicleta


As quatro imagens remetem para ideários distintos e épocas diferentes. Transporte pessoal, lazer e aventura, corridas de competição e, claro, os media que propagam e também produzem estas dimensões de produção de significado da bicicleta.

Quem não tem uma história sobre a bicicleta? Mesmo que a história seja nunca ter consigo aprender a andar não deixa, por isso mesmo, de ser uma singularidade biográfica. Largar as rodinhas ou a mão que nos ampara o selim é um acto que tem tanto de libertação como de fé. Este afastar do controlo familiar é a antevisão de outros momentos de independência pessoal na qual, perante a incerteza no domínio do caos, a dúvida é o grande desafio no salto para o desconhecido e, anos mais tarde, não só rimos daquilo que para nós foi um grande feito como ainda comparamos a bicicleta à própria vida e citamos Einstein “para mantermos o equilíbrio temos de continuar em movimento!”.

A bicicleta começa também por ser um objecto de recreação quando inventada há pouco mais de cem anos para, já no fim do séc. XIX, ser considerada uma alegoria aos valores do progresso acoplados ao desenvolvimento da ciência. Comparada com o cavalo, a bicicleta realiza a súmula de valores sociais como a ordem e a limpeza, de virtudes de carácter como a elegância, o silêncio, a subtileza e a diligência e, ainda, de qualidades do corpo como a força, a ligeireza e os músculos de aço. O selim sintetiza também toda a relação de partilha de vocabulário, vestuário, regras e regulamentos desportivos entre o hipismo e o ciclismo.

A bicicleta vai para além do utilitário, fertiliza imaginários de aventura e preenche a visão personalizada e emocional romantica de frequentação da paisagem pelos passeios de cicloturismo. Nos hipódromos é uma inovação e serve a distinção de classe, no velódromo com guiador rebaixado que curva o corpo para ganhar mais velocidade é dada a quem tem mais força. Esta postura, contrária ao porte aristocrático de cabeça erguida promovida pelo hipismo, é associada ao trabalho da forja, ao trabalho do operário na fábrica. A bicicleta populariza-se e o espectáculo da corrida também, o hipódromo e o hipismo reforçam a distinção social e a bicicleta, neste contexto de afirmação bacoca, é considerada o "cavalo dos pobres".

É o grande Tour de bicicleta que, em 1903, mostra como uma corrida de bicicletas na relação com o território apresenta versões nacionalizadas da cultura de um povo e, ao mesmo tempo, divulga novos modos de acelerar a mobilidade e de contactar com o outro que lhe era distante. É também este Tour que hoje celebra a abertura das fronteiras e festeja o poder da topografia da centralidade geográfica da França. E, qualquer que seja a escala de visibilidade mediática da corrida de bicicletas, o pódio é sempre a síntese de hierarquias sociais de poder político, económico e, também, desportivo.

É no pódio que a história da bicicleta dá sinais da sua vitalidade revelando, primeiro, o sucesso da produção artesanal a patrocinar a grande corrida e, depois no período de entre-guerras, automatiza-se para responder à produção de grande escala inspirando-se no fordismo e na “gestão científica” de recursos taylorista; até meados da década de 60 o uso da bicicleta floresce, especialmente ao nível utilitário da mobilidade pessoal. E, em menos de duas décadas, o automóvel sucede a bicicleta ainda com mais sucesso que a mota Famel.

A década de 80 convive com o aumento exponencial do automóvel enquanto assiste à emergência do ambientalismo e à produção marginal do imaginário de aventura com a invenção de um modelo robusto de bicicleta que se adapte ao re-encontro com a natureza. É na montanha a bicicleta se "salva" e, literalmente, se afasta do significado utilitário no uso da mobilidade urbana. Depois de um século de existência a bicicleta cumpriu um ciclo, oriunda do lazer aristocrático está agora no lazer de massas lutando para ocupar o lugar que já teve na mobilidade pessoal. É também na margem que a inovação acontece e se produzem modelos versáteis como a bicicleta Brompton (nas imagens cimeiras) que desdobra o campo da adaptabilidade da bicicleta e de produção de novas culturas de entendimento dos usos da bicicleta.

quinta-feira, 22 de março de 2012

A Eusébio basta ser e, Sendo, é património

Eusébio é património, não por causa de Salazar que, supostamente, perante o herói popular do Mundial de 66 o terá elogiado com o epíteto de património nacional ou património de estado, já ninguém se lembra e, para o efeito, tanto faz. O que sobrou dessa situação foi um bom equívoco que, entre outras benesses, serviu para consolidar o matrimónio com o Benfica. Este, sim, duro de aguentar até ao fim dado o interesse manifestado por outros clubes que, já na época, avançavam quantias bem melhores pelo dote.



O amor à camisola, ao Benfica, nem sempre foi fácil de aguentar dada a angústia sentida por nem o libertarem nem o aumentarem. Em 1969, no fim de um contrato de três anos, o desentendimento entre Eusébio e o Benfica é tornado público pela edição da revista Século Ilustrado que lhe chama O Ca$o Eu$ébio. O índice da mesma abre com o ponto “Eusébio – polémica e reivindicação”, num artigo intitulado Eusébio: “estou desiludido não voltarei a ser ingénuo”. Mas foi Silva Resende, seu advogado, quem deu o "corpo às balas" numa entrevista onde conta também as ameaças sofridas por ajudar Eusébio nesta querela:


“(...) _ Os regulamentos futebolísticos são sempre feitos sem se obter o acordo dos jogadores, aos quais não são dadas explicações. (...) Isto, porque se o jogador pretender ir para uma colectividade estrangeira só o conseguirá desde que o seu clube o permita. _ Isso quer dizer... _... que o Benfica pode pedir a quantia que muito bem entender pelo «passe» de Eusébio sem lhe dar satisfações. Dessa forma, se um clube italiano, por exemplo, oferecer 10 ou 15 mil contos (é do conhecimento geral que há quem lhe desse 20 mil) por Eusébio, este vê o seu possível contrato prejudicado, uma vez que o Benfica pode dizer simplesmente isto: «Eusébio é inegociável». Por outro lado só lhe oferecem 3 mil contos para ele continuar. Em que ficamos? Que género de moralidade é esta?

(...) Consta que a reacção dos sócios tem sido até certo ponto negativa. Como analisa essa tomada de posição?_ (...) Recebi centenas de cartas e telefonemas anónimos. Todos me insultam. Porquê? Eu sou advogado, defendo os interesses dos meus constituintes e como «cronista» da «Bola» defendo os meus pontos de vista à face da lei que é um pormenor muito esquecido pelos indivíduos que aproveitam o anonimato para o insulto."

Século Ilustrado nº 1650 de 16 de Agosto de 1969


A célebre frase de Salazar nem nesta quezília é "lembrada" ou sequer alguma vez referida e, por incrível que pareça, um elogio tão bonito e tão estrondoso não teve eco em nenhuma notícia de jornal e nem sequer é digna de registo na legenda do cromo na colecção a que esta foto que se segue pertence.


Colecção de cromos Portugal no Mundial de Futebol de 1966. “121 - O Senhor Presidente do Conselho recebeu a selecção, após brilhante proeza conseguida em Inglaterra. Demorou-se a conversar com Eusébio, grande embaixador de Portugal no mais apaixonante dos Desportos”.


Mas, décadas mais tarde, Malheiro, bom leitor de lábios, sabiamente interpreta toda esta história e, no seu livro Obrigada Eusébio, escreve que Salazar o considerou património de Estado em 1962 e, dúvidas houvesse, ilustra a máxima com esta mesma foto de 1966. Malheiro, como bom gatekeeper que é, não necessita de fontes, é ele quem conta o conto, é ele quem acrescenta os pontos que quiser. Não é que Malheiro seja um criativo ou um artista mas, mutatis mutandis, pensem agora na Pietà, de Miguel Angelo, para verem como se captam aspectos intangíveis do património. Nesta obra, Cristo e Nossa Senhora são sujeitos a uma operação estética e, seguindo os preceitos da antiga Grécia, em vez de um corpo magro, fustigado e sacrificado pela tortura, temos um jovem atlético e musculado, de 33 anos, caído no colo da sua mãe que, tiradas as rugas dos seus quase 50 anos, com face muito jovem nos seus braços o carrega.


Voltando ao "tempo do Eusébio", sim, porque é neste termo que reside o modus operandi que por vezes escapa à estética biográfica, o importante é ser ele um marcador do tempo, quer seja da nossa vida pessoal quer seja da história de um povo por inteiro. E, nesse seu tempo, era Américo Tomás quem seguia os seus desafios e, também, quem apreciava por todo o lado viajar. Contrariamente, Salazar nunca se terá afastado muito do eixo Lisboa - Santa Comba Dão e, presumo, só veria no futebol o caos, a incerteza e a desordem que ele tanto se esforçava por negar quando não conseguia, por inteiro, anular. A ginástica, sim, teria a sua admiração, com uma estética simétrica, exigente na disciplina do corpo, escultora do carácter e da feição e, quando feita por grandes massas de atletas, um espectáculo digno que serve a inauguração do estádio nacional .


A ideia de património aceita-se quando tudo nele e por ele se discute. Eusébio é o caso, é o herói fundador que a televisão filmou, cujas vitórias tanto ilustram a ideia do sucesso da comunidade multi-racial e multi-continental que serve de suporte à manutenção do colonialismo como, muitos anos mais tarde, a fantasia conciliatória com esse mesmo passado obscuro. E, mal pára de jogar, Eusébio nem tem de falar porque dada a densidade da sua múltipla identidade - benfiquista, português e moçambicano - terá sempre nele e por ele muitas vozes a erguerem-se e a erguerem-no. A Eusébio basta ser e, Sendo, ele é património.



domingo, 18 de março de 2012

Domingo na ciclovia do Guincho

Hoje é Domingo! Hoje é na ciclovia e na estrada do Guincho que encontramos a malta toda, famílias inteiras com crianças ou sem elas, com cães de trela ou sem ela, com patins de batons ou sem eles, com bicicletas de rodinhas ou sem elas. Todos juntos e, se possível, depois das dez! É este o lema que nos une, uns atrás dos outros, ora nas filas da A5 a caminho do trabalho, ora no lazer das estradas e nas ciclovias da moda. Alienação? Não, o termo já nem se usa, os corpos que ao Domingo no Guincho arejam são concordantes no mesmo estilo de vida e não só.


É ao Domingo que a emoção se adensa porque, na estrada, ao tráfego da "voltinha para fazer a digestão" se junta o motard que só chega à Roca com espectáculo de velocidade e em contramão. E, sem paredes meias ou qualquer divisão de protecção, na ciclovia "todos berram e todos têm razão" porque aos muitos que nela marcham se juntam alguns mais atléticos a correr, uns poucos mais audazes a patinar e, como se não bastassem, uns muitos convencidos que ali vão andar de bicicleta. Na estrada, o espaço é mais largo, é o lugar dos automobilizados, refiro-me aos da digestão do feijão e aos motards da contramão que, perante o conflito dos outros, se movem velozes sem alarido apesar do barulho e da poluição. É graças ao carro que muitos chegam ao Guincho para admirar o mar e, alguns mais arrojados, chegam mesmo a sair do dito para na praia passear. Bendito seja o nosso carro que nos leva a escapar à inércia física a que os malditos dos carros dos outros nos condenaram!


O carro dá-nos vida, torna-se as nossas pernas e nele, dado o conforto quase divino, sentimos a máxima "sento-me logo existo". A vida moderna é então muito mais moderna que vida, é passada no sofá, quer no emprego quer frente à tv. Neste contexto, a ciclovia desentorpece as pernas e areja o pulmão de muitos destes e, ao lado, a estrada serve os mais viciados do assento mantendo-os imóveis. De carro nem a janela se pode abrir por causa do vento do Guincho. O ar livre tem muitos imponderáveis que só mesmo o carro resolve já que, sempre pronto, protege do sol ou de uma aragem mais fresca e, sem locomoção, evita a fadiga. De modo exemplar a magnitude da vida reproduz-se no "oh, filho anda cá, não corras que te cansas!"


A estrada favorece o culto do sofá e é, por isso, um espaço exclusivo de interioridade, individualidade e, sem músculo mexer, de velocidade. Comparada com a estrada, a ciclovia do Guincho é muito estreita para o elevado número de pessoas que ao Domingo ali resolve passear. Como o nome indica, ciclovia faz crer que é um espaço destinado a bicicletas mas, claramente, é um equívoco assim pensar porque o piso liso é excelente e, se feitas ao lado do passeio, é por lá que dá gosto andar. Ora, concorrente, a calçada portuguesa só dá mesmo conforto ao olhar porque a irregularidade faz tropeçar e quando molhada faz escorregar, logo a ciclovia é vista como a alternativa a todas essas armadilhas. O colorido da ciclovia é atraente e, nela, só apetece andar, seja de salto seja de bengala e, sem postes e outros emplastros, serve também a mobilidade dos carros de bébé. Dada a ambiguidade da sua nomeação, o conflito na ciclovia existe e, paradoxalmente, deve-se ao sucesso e à diversidade da sua utilização.


Então que fazer às bicicletas? Ora, como é óbvio, o lugar das bicicletas nas cidades e nas vilas, é na estrada! Mas, nas estradas em geral e na do Guincho em particular, os carros superam os limites da velocidade e não há meios de os controlar ou deter. Então, se calhar, a solução passa por mudar a cor da estrada do Guincho e das estradas dos bairros onde moramos para, assim, se confundirem com ciclovias e serem pensadas como um espaço seguro partilhado por todos. E, para começar, tomar já o rumo dos corpos discordantes, daqueles ciclistas que vão pela estrada para não atropelar ninguém que, a seu modo, subvertem a ordem dada e, plurais, se tornam agentes de mudança.

quinta-feira, 8 de março de 2012

As Mulheres FAZEM-SE!

Nas obras que li de Gonçalo M. Tavares cabe aos homens a escultura do destino e às mulheres a limpeza das aparas sendo estas, de todas as maneiras, muitas vezes violadas e, imaginamos nós pela força de frases como "vais fazê-la comigo a ver", relativa à iniciação sexual do filho com a criadita, violentamente vilipendiadas. São eles que na guerra, na viagem à Índia, na medicina e na política apresentam o know how do conhecimento da vida, o sobressalto das grandes questões existenciais e, também, da maldade, da brutalidade e da preversidade .


Quando exemplo há, vem de cima, de um homem, do pai. E, citando o autor, é à filha a quem cabe crescer para dar continuidade à família, construir e, nesta divisão funcional, ao filho cabe vingar o pai, destruir. Ora, já na ordem do valor patrimonial, sobre a construção social pouco há a contar e para a história fica tão só o sujeito do conflito, aquele que destrói. Pratos limpos, para elas restam os panos, elas não fazem história porque quem as faz a elas são eles, quer por violação quer por expiação ou, quer ainda, por obra divina do Espírito Santo.


Saltando da literatura para um outro campo qualquer, em tudo isto só vejo competição e, ironia do destino, o pavor de se notar que nem mesmo para jogar futebol é preciso pila pois basta o pé! Ora, talvez o receio explique a necessidade de tanta visibilidade e, ao serão na rádio e na televisão, é sobre o futebol, que poucos perdem, que todos querem falar, fazer parte dessa pouca história que é o jogo em si, desde político a engenheiro e agora também, dada a similitude com a sexualidade das tabernas, o Machado Vaz.


Nestas conversas de homens, coitado daquele que jogue mal porque é de imediato chamado menina e, ao contrário, se é ela quem joga bem então, sim, parece um homem. E este é só um exemplo parco da versatilidade da construção da diferença entre o masculino e o feminino!


A mulher quer-se no busto da fantasia, na figura da República, algo irreal. Fora deste registo, o da incorporação do fémino no ideário da nação, eis as mulheres de carne e osso, sem ligar muito ao pecado nem à crença de que a acção é um obstáculo à procriação, a convencer que é passado esse conflito de papéis entre o "ser mulher" e o "ser atleta, pianista, escritora, engenheira, arquitecta, etc". E, no desporto, as mulheres que correm, que saltam, que jogam e batem recordes, contrariam teimosamente a falta de visibilidade do seu protagonismo e fazem elas a sua própria história. Ora, feitas as contas ao oblívio, para a história destas vitórias nunca há papel de sobra mas o pano não falha e, na pista, na volta da consagração, é grande a bandeira que as enrola!

sexta-feira, 2 de março de 2012

Por aí de bicicleta... à conversa com Isaltino

Ontem, de bicicleta logo depois de atravessar a marginal, encontrei Isaltino Morais, Presidente da Câmara de Oeiras, que andava a ver as obras na estrada do complexo do Jamor e, logo, aproveitei o ensejo para trocar ideias sobre aquela estrada cujo desenho escapou, com pena minha, ao conceito "shared space". Nem um minuto tinha passado e já a estrada estava a ser definida como uma acessibilidade ao grande parque de lazer. Ora uma estrada não é um mero acesso a "coisa alguma" mas fundamentalmente um espaço de relação, ou então não!

A "acessibilidade" tal como está concebida segue a ideia da segregação, aquela que nos faz pensar que a estrada é para os carros do mesmo modo que o zoológico é para as feras. E tanto um espaço como o outro nos mostra como somos exemplares, leiam cómicos, porque quando damos a cada macaco o seu galho rapidamente prendemos girafas e elefantes em Sete Rios e, com idêntico júbilo, soltamos carros de corrida em savanas e desertos.

Ora o Jamor não é o deserto e bastava dar valor ao método para alterar toda a leitura daquela área fazendo, para o efeito, rebater passeios, alterar a textura e/ou a cor da estrada, colocar arbustos e outros canteiros que retiram linearidade e velocidade a todo o percurso. Assim, como está, é mais uma via rápida de união da A5 à Marginal. Assim, como fica, continua a exigir o gradeamento de cadeia em torno de todo o espaço, até para evitar que as crianças ganhem alguma autonomia face aos progenitores e, nestes, fazer vingar aquela espécie que grita aos filhos "não corras que transpiras". Assim, como será, a estrada terá o custo acrescido da vedação e, mais ainda, da sinalética de inibição à aceleração. Assim é, enfim, a estrada do progresso.

Progresso é o conceito de movimento através do qual se expressa toda a ética cinética do nosso tempo. E, no Jamor, cumpre-se a utopia cinética em todo o seu esplendor tendo, por um lado, os Centros de Alto Rendimento, áreas vedadas destinadas à guerra pacífica de rebentar recordes e, por outro lado, em seu redor, os espaços de baixo rendimento para dar curso ao movimento humano. Pelo meio, para todos, ficam as vias para carregar no pedal. E tanto o movimento dos atletas, até aqui deixado a treinadores e médicos desportivos, como o movimento das estradas, até aqui largado ao cuidado dos engenheiros, se revelam grandezas morais e sociais que questionam o tal progresso.

A ideia de progresso caiu na ratoeira motorizada e eis o movimento humano preso/pensado/medido a partir dos tubos dos gases - o de CO2 para o baixo rendimento e do VO2 para o alto rendimento. Todos estes tubos são iniciativas morais que, em boa consciência, se inventaram segundo a ética da razão iluminista. Há que entender o corpo, não como um dado divino mas, sim, como algo mais moldado à vontade humana, algo que uma vez treinado negue a sua própria natureza e, nas pistas ou nas estradas, não fique preso a limites. Com o tempo todo o movimento acelera, ganha vida própria e, na estrada, o corpo estoura não só os limites da velocidade como a sua integridade por inteiro contra uma árvore ou um candeeiro e, na pista, o atleta estica a moral e rebenta com a saúde corporal.

Todo o movimento é afinal prenhe de moralidade e, por isso, o espanto do Presidente da Câmara quando em frente dele parei, sem plano de fazer história, leiam reunião agendada, a querer refletir sobre o movimento, leiam sobre uma estrada tão arranjada. Ali estava uma mulher na sua bicicleta, como se tivesse voltado à infância, dupla aberração portanto, a opiniar sobre um assunto de homens, de especialistas, enfim! Ali mesmo naquela estrada nem o alto passeio a fez ver que se dirigia ao topo da hierarquia da decisão municipal e, tal é o mundo, tudo parecia uma derradeira democracia ou, mais corriqueira porque junto estava um tipo sempre a tirar fotografias, uma entrevista para um qualquer jornal.

Andar a pé e de bicicleta tem destes perigos, ficamos mais expostos ao contacto, à conversa informal, perdemos o título com que nos governamos e sentimos com mais intensidade o desmazelo e a desarrumação a que deixados os (des)governados fora do alcatrão. Fechado e servido por boas acessibilidades, o espaço do Jamor é, feitas as contas com a calculadora do progresso, como o de Sete Rios, um parque protegido ao qual chegam feras ao volante que, soltas e por via do baixo ou alto rendimento, durante um tempo amansam e renovam a energia. De volta a outros parques da vida, residenciais ou profissionais, já fechados no automóvel deixam de pensar no território e na sua geografia porque o que conta é o terreno mental percorrido, sem inter-relação e muitas vezes vivido como uma fantasia louca que coloca no volante as mãos e também a fúria da falta de beijos na boca. São estes últimos que naquela estrada muito apitam quebrando, noutros, o acto solidão em que envolvidos. Um susto! Sim, as acessibilidades metem medo mas as estradas que promovem inter-relação Não!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A bicicleta questiona desequilíbrios


Decorreu no passado dia 15 de Fevereiro, na FMH-UTL, um dia dedicado à Bicicleta para questionar (des)equilíbrios dos modos de vida , do corpo (exercício e saúde), da relação homem – natureza, da energia e economia sustentada . Em dívida para todos os que participaram decidi não fazer um resumo que seria sempre pobre face à riqueza das intervenções mas, ao invés disso, uma crónica inspirada pelas ideias deste dia.

Vou então começar, seguindo o mote de Joaquim Pais de Brito, pelo objecto físico, a bicicleta em si, agarrando o momento crucial da sua própria génese histórica que foi a invenção da corrente (em inglês o termo é mais bonito – the chain). Foi a corrente que permitiu dar velocidade ao movimento, criando uma cadeia de transmissão de força potenciando e impelindo a invenção das mudanças. Do mesmo modo, a conferência impeliu-nos, como a corrente, a pensar a bicicleta como lugar de invenção e mudança social. E o professor de antropologia mostrou como é que a bicicleta induz efeitos na mudança de mentalidades pela forma como nela nos tendemos a equilibrar e a comunicar uns com os outros.

A corrente devolveu à bicicleta o equilíbrio essencial ao deslocamento veloz, destronando o modelo de roda alta que literalmente, pelas quedas provocadas, tanta dor de cabeça deu. Vejam nesta alteração o valor, ainda que alegórico, de como a velocidade conseguida à custa do aumento de uma das rodas é tão perigoso. Pensem na China e na sorte do planeta caso a opção política siga o exemplo português e a cada chinês dê um carrinho. Foi também destes desequílibrios que Carlos Neto falou quando mostrou parques infantis fofos, afastados das casas das crianças que os utilizam de modo a que estas tenham sempre por perto o olhar dos pais e, ao cair, ter logo alguém para as amparar de modo a não rasparem os joelhos. E, depois, vamos querer que estas crianças andem de bicicleta? Mas isso cansaria os miúdos! Já para não falar do calor e do frio, coitadinhas das crianças e dos jovens. Vamos então, de imediato, dar-lhes já um carrito aos 16 anos. E a questão é se vamos todos, em uníssono, ajudar a crescer a roda da mobilidade automóvel e reduzir o mais possível a roda da mobilidade sustentada que, entre outros pormenores, até salva da queda o planeta por inteiro?

Voltando à história, a velocidade accionada pela corrente retira a bicicleta do espaço exclusivo da bizarria e do divertimento dos elegantes e vai ser dada a quem tem mais força para a mover, não que a intenção provenha de alguma democracia até porque este baixar de tronco e de cabeça na corrida, que evoca a postura do corpo operário fabril, levará a bicicleta a ser chamada de cavalo do pobres. Foi também sobre a pobreza que Joaquim Pais de Brito falou, algo endémico que vem desta distinção bacoca que, digo eu, procura no hipódromo e, logo depois, no autódromo uma identidade ansiada inspirada, primeiro, nas capas das revistas estrangeiras a que poucos tinham acesso e, nas últimas décadas, no variado e multiplicado escaparate de qualquer quiosque mostrando que não há herói, até desportivo, que não se espete numa curva da vida com o seu belo carrinho. O desequilíbrio entre os poucos ricos e os muito pobres que marcou gerações com memórias de fome passada na infância conduziu muitos portugueses mundo fora, numa mobilidade territorial de necessidade de sobrevivência mas também de afirmação. Na volta, ao país ou tão só da cidade às suas terras,os seus corpos excessivamente bem nutridos anunciam prosperidade e, como calculam, nada melhor que uma grande casa para condignamente mostrar e, nela, um espaço pequeno, até pode ser a garagem, para aconchegadamente viver. E, não esqueci, o carro para a aldeia atravessar pois todos os que nela ficaram também não se perderam nesta competição e já nem ao café vão a pé!

No equilíbrio promovido, a corrente ofereceu à bicicleta o território por inteiro pois já não há caminho que não percorra. Foi esta descoberta do território que Pais de Brito evocou para lembrar como, interpreto eu, o paradigma do turismo se alterou e o ícone, o móbil da visita, não é o arquitetado mas o vivido, são os corpos que atravessam as ruas, as relações de proximidade e convivência que atrai o turismo. Então, alertava o professor, há um grande trabalho a fazer não só da parte das autarquias mas também da academia com a arquitetura, a engenharia e o urbanismo a projectarem outras e novas alternativas. Aliás, como Mário Alves mostrou, muitas delas já pensadas e, como o “ovo de Colombo”, cuja implementação seria bem mais barata que as obras que sobem o nível dos passeios tornando as estradas verdadeiros fossos onde só faltam crocodilos, ou talvez não.

A história da bicicleta é fundamental para mostrar que as mudanças só aparecem depois desta articulação entre os vários elos, depois de criada a corrente. Foi a corrente que impulsionou a mobilidade humana e, do mesmo modo, é a junção de todas estas perspectivas e diferentes ideias que inspiram soluções para o incremento do uso da bicicleta. Foi a corrente que fez a bicicleta sair do espaço fechado do velódromo, do espectáculo de si, e a levou, estrada fora, para o imaginário da viagem, da volta ao mundo. E, desfecho, reforço a ideia de Pais de Brito, lembrando a necessidade de exploração por parte das escolas, das academias, das autarquias e das agências de turismo na busca inventiva de soluções para recuperar a energia gerada por estes corpos que pedalam de modo a usá-la na re-invenção do território tornando-o uma dimensão de brio da identidade local e pessoal.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

De bicicleta, por aí... a ver montras!

Iniciei a colaboração neste blogue no dia 8 de Março do ano passado com um texto de elegia à relação de género tal foi o impacto da leitura do livro de Lodge “Um Almoço Nunca é de Graça”. Ora serve este mote para, de novo, voltar ao blogue porque senti que os dois textos que na época escrevi nunca pagaram o convite que me haviam feito. Eu saí do editorial quando, após a segunda crónica, senti falta de rumo para a minha própria escrita porque não dizer para a minha própria vida. Tomei então a decisão radical de trocar o carro pela bicicleta e andar por aí a ver montras buscando a inspiração.


Louca, sim, e sendo mulher, ao quadrado, mas pensem na vantagem que é poder parar a qualquer instante para ver as montras. Nesta mobilidade prazenteira descobri mais tempo de leitura, outras pessoas que nunca tinha escutado como o Mário Alves que, logo, me alertou para a vitória estatística das mulheres nas mortes por atropelamento. Ora, pensei eu, mudar sim mas pila nunca terei, até porque sempre me senti confortável no corpo de mulher; ora, só os átomos é que se mantêm “na sua” alheios às leis da física e à tabela periódica em que enfiados depois de julgados. É, de facto, um problema de método pensar que se podem estudar pessoas como se estudam os átomos e eu sou a prova disso porque na estrada sou agora um homem a quem outros homens assobiam. Bizarro, a situação faz lembrar um pouco as tabernas da aldeia onde os homens se juntam assiduamente numa proximidade corporal de cuspe a salgar orelha mas que na hora do aperto, leiam falar de homossexualidade, se rebelam e gritam “eu cá gosto é de mulheres”. Deixo a dúvida com as mulheres com quem vivem!


Voltando a mim, a minha masculinidade traduz-se por interpretar um código de estrada que me esqueceu enquanto ciclista e tem “a lata” de me proteger enquanto motorista. Foi com o César Marques que descobri que na cabeça eu só devia enfiar a ideia de que o capacete é uma falsa protecção porque este excesso de equipamento, motivador de muitas possibilidades de negócio e de consumo, induz todos pensarmos que o ciclista, assim protegido, fica em pé de igualdade com o motorista quando, na realidade, nem se trata de David contra Golias porque, no carro, pouco nos sobra de humanidade! Resumindo, se um carro me bater “estou feita” mas, depois desta experiência de quase um ano, descobri que sem capacete e de blazer não há motorista que não me admire e, ao mesmo tempo, se assuste com os movimentos nervosos que muitas vezes faço para mostrar a instabilidade da minha Brompton, uma bicicleta que se encolhe e quase se mete no bolso na hora de andar de comboio, de metro ou até à boleia de carro com amigos.


Vivi na Holanda no início dos anos 90 e tinha, como todos, uma bicicleta velha para não ser roubada. Andar de bicicleta nesse tempo e nesse espaço nem sequer dava uma crónica destas porque é tão corriqueiro que não haveria mote para a animar. Ah, mas a Holanda é plana enquanto que Lisboa tem sete colinas. Não vos critico por estarem enganados porque eu há mais de 40 anos que digo que sou da Beira Alta até alguém me lembrar que Oliveira do Hospital é do distrito de Coimbra e, por isso mesmo, sou da Beira Litoral. Doeu, não o facto de ser de outra Beira mas, sim, o engano, o convencer-me de algo que jamais questionei. Ora, oiçam o Paulo Guerra dos Santos que, antes de mim, resolveu buscar rumo ao curso de engenharia de estradas e resolveu fazer 100 dias em Lisboa de bicicleta e, depois, 100 dias numa enorme volta a Portugal para descobrir e a todos nós lembrar que não só as estradas são óptimas para andar de bicicleta como a geografia não é nenhum empecilho. Da parte que me toca é tudo verdade porque eu moro não muito longe de Cascais e trabalho na Cruz Quebrada, lugares bem servidos de estradas e sem relevo de monta para a minha idade. Então afinal quantos são os portugueses que vivem no Castelo e trabalham na Praça do Comércio? E, desses abençoados, quantos se lembrariam de fazer esse percurso de carro? Ora, experimentem e vejam que o problema da mobilidade para além de estar no imobilismo das nossas ideias também reside, a montante, na vontade ináudita de transformar o Cacém, Loures, Torres Vedras, Cascais e outros afins em lugares parecidos aos filmes americanos, nos quais os carros são a lenha que alimenta o fogo da velocidade da acção do Arnold. E, de modo não muito inteligente, criámos nós próprios o nosso filme passando boa parte da nossa vida fechados dentro do carro, um espaço limpo à custa de mandar toda a porcaria borda fora, uma sala ambulante à qual já nem a TV-Vídeo falta, um sofá espantoso no qual repousamos e com o qual competimos, sem esforço porque basta carregar no pedal. Com grande bisga chegamos à próxima fila e nunca ao Colorado anunciado pela marca. Com grande velocidade nos pomos em casa e cheios de vontade reparamos, de repente, que nos falta o papel higiénico e nesse momento, olhando a sanita como grande invenção da história da humanidade, amaldiçoamos a falência da mercearia do Sr. Arnaldo que ficava mesmo ali na esquina onde se poderia mandar o puto comprar o dito, enquanto calmamente se tratava do harvest na Farmville.


Neste filme há algo louco, uma (des)organização urbana que é um paradoxo, andamos sempre de e um lado para o outro, mal nos mexemos, é certo, mas temos a vida toda presa a lugares como Freixo Sem Espada Nem Cinta numa casinha paga a prestações ao banco e à oficina do Sr. Vítor. Ah, pois é, tendemos ao oblívio deste tipo de despesa, falo das revisões a que o desgaste do carro obriga e, feitas as contas, andamos quase metade do mês a trabalhar para pagar o deslocamento para o trabalho. Corei porque também eu, tarde, fiz essas contas. E nesta separação de tudo e de todos até os putos ficaram sem área para brincar por causa do lugar para o carro. O carro passa 80% do tempo de vida parado ocupando um espaço que podia ser utilizado de outro modo mas, venha lá o Duarte Mata (arquicteto paisagista que trabalha na CML) propor um espaço em cada bairro para as crianças e, aí sim, verão o que é motim! Austeridade, troikas e coisecas dessas ainda “vá que não vá” mas tocar nos direitos dados aos carros por políticas públicas tão jeitosas é revoltante e mesmo paradoxal. E, deste modo, os putos têm mesmo de olhar para a playstation em vez de meter o punho no olho do filho da vizinha que, de tão mimado, mal cresça e lhe coloquem um carro nas unhas vira um tirano, desses que na estrada acelera sem ter medo.


A velocidade da minha bicicleta não mete medo a ninguém e é tão atraente que puxa conversa com muitos desconhecidos. A principio, a medo, ainda andei sobre os passeios mas farta de tanto carro encontrar vi que era na estrada que me sobrava mais lugar. O salto que dei para a estrada foi um salto de fé, e o medo face a este mundo familiar mas desconhecido era tanto que me lembrou o momento ímpar em que o meu pai tirou de vez a mão que me segurava o selim. Estava por conta própria e foi uma alegria, tinha vencido o medo que mais não era do que vencer o desconhecido. Depois de 400 km por mês, com o desenho das estradas de Cascais nos gémeos, já digo como o outro: “o medo é uma cena que não me assiste”.


Em suma, andar de bicicleta deu-me mais tempo para ver montras, ie, inspiração para colaborar neste blogue com uma linha editorial política, deliberadamente assumida, porque tenciono escrever sobre a estrada desta minha nova vida. E, para exorcizar a desigualdade de poder que diariamente nela vivo, vou mensalmente à Massa Crítica de Lisboa - todas as últimas 6ª feiras de cada mês no Marquês de Pombal às 18h. A Massa Crítica é uma manifestação festiva, muitos dirão um pequeno Carnaval porque já junta três centenas de pessoas, repito, mensalmente. E, para quem nem sonha, o Carnaval preserva a ordem estabelecida porque é uma data de escape que permite, numa agenda marcada que escapa aos acasos mas não ao controlo, o excesso e a inversão de valores e de poderes revelando, desse modo e publicamente, as hierarquias que perturbam a mudança social. Foi tendo a bicicleta como mote para pensar os desequilíbrios da vida que organizei um encontro na FMH julgando eu que, desse modo, saldaria uma dívida para com toda esta Massa Crítica da qual já faço parte mas, como todos sabem, dívidas atraem dívidas e sobraram para mim os juros do lucro arrecadado por uma discussão plural sobre a potencialidade contida na conjunção “mobilidade e lazer”. Será então sobre essa montra que a seguir escreverei.




domingo, 20 de março de 2011

O tempo esse grande corredor

Todos nós corremos contra o tempo e, claro, todos nós perdemos, mesmo aqueles que sobem ao pódio.
O tempo do pódio é um tempo síntese, breve e intenso como aquele que Youcernar concede a Adriano no leito de morte. É nessa réstia de vida que Adriano conta as suas Memórias, uma obra que demora à autora 10 anos a escrever e mais 20 para alcançar o reconhecimento por parte da Academia francesa mas que, hoje, seria tão só uma linha no currículo. Anos de consulta de fontes, de reflexão, de treino e ensaio da escrita, tal como é necessário treinar muito tempo e correr quilómetros para ganhar os 100 metros. É este tempo, essencial à reflexão, que a academia agora recusa e, por via disso, finta com nome colocado em escrito alheio dando ciência ao ditado do “meter o nariz onde não é chamado”. São estes tempos de treino que o deslumbre do pódio também parece negar.
Adriano teve uma vida plena de acção e não teve, por isso, tempo para escrever um diário ou, como o fazem os atletas a meio da vida, uma biografia. Adriano é, ou nesse fim de vida talvez não, um Imperador a quem a autora concede todo um escrito sobre as suas Memórias. Contrário ao tempo longo da autora, o tempo estrito de meditação de Adriano não deixa de fazer dele um visionário do mundo e de si próprio porque ele narra o que viveu. É pela descrição da dor, do desfazer do seu corpo, que sentimos o seu tempo esgotar-se. E, como o atleta, aspira com esse tempo breve, de narrativa e memória, de subida ao pódio, alcançar um outro tempo maior, o da eternidade.
O quê, a eternidade? Este é o título de outra obra de Yourcenar, uma questão premente já discutida na interpretação das fontes que a inspiram a escrever sobre Adriano. Nesta luta contra o tempo a autora recusa o suícidio do Imperador, descrito nas fontes, e faz de Adriano um modelo de humanidade que aceita os limites do seu corpo e, até ao fim, despreza o desespero e, com igual serenidade, a esperança. Adriano sente o corpo no seu fim e sabe que as suas Memórias só serão eternas enquanto existir alguém para as lembrar!
É dessa relação com o outro, que nem sempre nos entende ou lembra, que trata A obra ao negro. Esta obra retrata Zenão, um homem que vive a época medieval com um conhecimento e uma liberdade de espírito pouco plausível com o obscurantismo que ele acha que o rodeia. Ele é um herói criado pela autora, sem vitórias conhecidas porque a ele lhe resta apenas a clarividência do mundo que o rodeia, dos perigos que corre por dizer não e, também, por dizer sim! Este herói do quotidiano não espera pela hora da morte para refletir sobre a sua condição. Sem o poder de Adriano ele é obrigado a sobreviver no contexto adverso de um mundo que não sente seu e que, não obstante a sua tolerância face ao desconhecimento dos outros, ninguém lhe tolera uma outra visão, um outro modo de ver a estátua que, digo eu, sobre Adriano se ergueu. Eu colocaria Zenão a refletir sobre todos aqueles que durante horas e anos correm e que, apesar desse esforço inaudito, nunca ao pódio sobem. É também nesses outros anónimos que a comunidade se revê e por isso lhes ergue a estátua, ora dedicada ao soldado desconhecido ora, como na de Alpiarça, dedicada aos ciclistas, ao “Primeiro entre os primeiros”, lembrando que o mérito de ser primeiro é diferente de ser o único.
Em o tempo esse grande escultor Yourcenar mostra como até uma estátua, perene e inerte, se altera aos olhos que quem a vê, tal como a vitória desportiva que este fim de século inflamou e sobre os atletas uma forte pressão instalou, como se o mundo, ou a vida deles, apenas dependesse desse mísero instante. São estas vitórias, mais as que Adriano teve na construção de todo o Império, que Zenão questiona. Zenão é homem, alquimista, anatomista, viajante entre outros atributos que fazem dele uma múltipla identidade, aparentemente um ser como todos nós. E nenhum de nós, mesmo o atleta mais afamado, não deixa de ser filho e, quando pai, será também motorista, cozinheiro, arrumadeiro, conselheiro e contará até 100 antes de erguer a mão a um filho por causa de uma petulante e chocante observação sobre um seu ensinamento da vida. Por parte dessa nova geração, que nos desafia e nos questiona na razão que julgamos dominar, esperamos a recriação, e porque não a invenção, de um novo olhar sobre a estátua e, já agora, sobre o desporto de competição e o significado das suas vitórias.