quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Um novo mérito

Jacques Rogge veio afirmar em conferência de imprensa que a desclassificação de Marion Jones, por doping, não levará a um arranjo automático das classificações dos Jogos Olímpicos de Sydney 2000.

“Não haverá uma reclassificação automática. Cada atleta potencialmente reclassificável será escrutinado tendo em conta o seu mérito. Queremos premiar atletas que sabemos estarem absolutamente limpos”

Estas declarações prendem-se com o facto da segunda classificada na prova dos 100 metros de Sidney ser Ekaterini Thanouk, também ela envolvida em fortes suspeitas de dopagem e violação das regras antidopagem, com sucessivas fugas a controlo surpresa.

Ficámos pois a saber que o COI vai proceder a reclassificações de atletas em função do seu mérito. Eu só conheço um mérito. O mérito desportivo!

Será interessante aguardar pelos próximos episódios desta novela para saber como o COI irá proceder à reclassificação das atletas daquela prova. Poderá vir a ser um método de secretaria inovador, a fazer escola e doutrina...

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Profissionalização - Que rumo?

As minhas atribuições na gestão de um complexo desportivo possibilitam-me o contacto regular, há vários anos, com um clube de futebol profissional e com os árbitros de 1.ª categoria dessa modalidade que treinam nestas instalações.

As diferenças no apoio técnico e logístico no planeamento das sessões de treino e durante a sua realização são enormes entre estes dois utentes, com natural vantagem para o clube, repetindo-se todos os anos esta decalage, apesar de permanentes mudanças anunciadas na comunicação social para a arbitragem no inicio de cada época desportiva.

Muito se tem falado em profissionalização da arbitragem. Questiono-me quais os objectivos e a valorização desportiva gerada pela profissionalização se as condições de treino e apoio técnico aos árbitros se mantiver nas condições que semanalmente presencio.

Quais os objectivos da profissionalização? Baseado em que diagnóstico? Qual a estratégia a implementar? Quem avalia este processo? Que resultados e impactos se prevêem para a melhoria da qualidade do futebol? Que condições de treino, formação e suporte técnico estão previstas para os árbitros? Quais os agentes envolvidos e de que forma o fazem? Qual a metodologia e etapas de implementação? Com que estrutura? Coordenada e financiada por quem? São algumas questões que me ocorrem

Não estaremos a queimar etapas e a construir a casa pelo telhado? Deixo a palavra aos entendidos…

Mérito internacional

“A Faculdade do Desporto da Universidade do Porto tem a melhor formação superior de treinadores de futebol da Europa e provavelmente do Mundo”.Esta afirmação ouvia, ontem, numa reunião no centro de treinos do Manchester United e foi testemunhada por mais dois portugueses que me acompanhavam. Na circunstância relataram-me os contactos regulares que alguns dos mais importantes treinadores de futebol têm com professores daquela faculdade tendo-me mesmo sido referido o nome do Professor Vítor Frade. Não pude deixar de pensar que, tal como sucede em vários outros domínios da vida pública e de personalidades portuguesas, é mais fácil de obter o reconhecimento internacional das nossas qualidades e capacidades que o reconhecimento no próprio país.

As poderosas e o meu pesadelo…

Ontem, pela manhã, ao actualizar a informação da estrutura orgânica do desporto nos governos dos países vizinhos deparei-me com uma Ministra espanhola a tutelar o Ministério da Educação e Ciência, no qual se localiza o desporto, e uma Ministra francesa responsável pelo Ministério da Saúde, da Juventude e dos Desportos. Quando regressava do almoço fui acompanhada no percurso até ao trabalho pela nossa campeã Naide Gomes em entrevista na TSF. Logo me ocorreram outras tantas heroínas desportivas, como a Susana Feitor, a Telma Monteiro, a Rosa Mota, a Leila Marques, a Fernanda Ribeiro, a Ticha Penicheiro, a Vanessa Fernandes, a Aurora Cunha, etc., que representam autênticas pérolas num quadro deveras cinzento da representatividade das mulheres nos diversos níveis de participação no desporto pátrio.
Devido às competições europeias, acabei o dia a jantar com amigos doentes pelo futebol, os quais me informaram, sem se coibirem de revelar o seu espanto, que o Roma que defrontará o Sporting tem como administradora uma mulher de armas e que outras áreas, entre as quais, a das finanças, a da comunicação e do marketing, são igualmente lideradas por mulheres. Claro que algumas das mulheres presentes, logo atacaram com imensas “poderosas”, como Angela Merkel ou Benazir Bhutto, até que alguém finalizou esta conversa parafraseando o “baixinho” – Habituem-se
Quando me deitei, o meu inconsciente, provavelmente por ter sido enxofrado todo o dia por “tanto poder feminino”, levou-me para um sonho cómico: a primeira reunião do Conselho Nacional do Desporto composta pelos seguintes elementos:
30 Mulheres e 2 Homens, designadamente:
.A Secretária de Estado da Juventude e do Desporto (a presidir);
.A Presidenta do IDP;
.Oito mulheres representantes de Ministérios, das Regiões Autónomas e da Associação Nacional de Municípios Portugueses;
.A Presidenta do Comité Olímpico de Portugal;
.A Presidenta da Confederação do Desporto de Portugal;
.A …
.A …
.O Presidente da Associação Nacional de Adeptos (provavelmente por ter sido uma das poucas entidades presididas por homens que foi olvidada para a composição deste Conselho);
.Um elemento de reconhecido mérito no âmbito da actividade desportiva (Ricardo Araújo Pereira, insigne colunista desportivo).
7h, UFA! Acordei do pesadelo… e ainda um pouco estremunhada tentei imaginar o cenário. Impossível tarefa face ao nosso modelo organizacional desportivo, ainda na fase da pré-história.
Enfim, estamos salvas/os…! E hoje é um outro dia…

Nota: Desejo, sinceramente, bom trabalho para as duas mulheres que integram o CND.

domingo, 4 de novembro de 2007

As eleições para a FPF

Numa modalidade desportiva que tenha as características de um produto de forte componente comercial, ou seja, para ser mais claro, onde há negócio, as eleições para a direcção de um organismo de topo não se confinam, apenas, ao interesse daqueles que têm capacidade eleitoral. Mobiliza e interessa aqueles que têm, legítima ou ilegitimamente não interessa ao caso, interesses comerciais. Quem os representa procura preparar, definir ou influenciar o resultado final. É assim em qualquer parte do mundo. Reconhecê-lo não significa legitimá-lo. Significa apenas que o mundo é o que é, e, nem sempre, o que gostaríamos que fosse. O desporto e o espectáculo desportivo que lhe está associado não seriam o que são à escala global se não tivessem associado o negócio que os gerou e, de algum modo, os configurou. E como negócio, mal ou bem, são geridos. O assunto está suficientemente discutido e abundantemente documentado. No COI, na FIFA ,na AMA, na UEFA ou em qualquer federação desportiva internacional. Os princípios, os valores, as causas e a ideia de um desporto limpo da materialidade -económica, politica, social - que lhe está associada é apenas retórica que qualquer estudo sério e conhecedor rebaterá com facilidade. No meio deste desporto, que é realidade do mundo globalizado, por que razão as eleições para a Federação Portuguesa de Futebol haviam de ser diferentes?

sábado, 3 de novembro de 2007

Dopagem: meios e fins

O Público de ontem incluia uma interessante peça jornalística sobre uma "possível revolução do desporto", a propósito das intenções de um advogado belga contestar - mesmo junto do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, do Conselho da Europa - alguns dos dados adquiridos na luta contra a dopagem levada a cabo pelo movimento olímpico, pelas federações desportivas internacionais e nacionais e pelos Estados. Com efeito, é útil sublinhar que determinadas normas são hoje um património público e privado, e não só fruto das organizações desportivas.
Tal é o caso, por exemplo, das obrigações endereçadas aos atletas no âmbito dos controlos extra competição (controlos-surpresas) que incluem a comunicação às entidades desportivas de um conjunto de informação sobre a sua localização, locais de treino, etc., numa frase, que consubstanciam uma apertada vigilância sobre alguns aspectos da vida dos atletas.
Chegados aqui, adiantam-se, por ora, três observações.
A primeira, para sublinhar que, nesta sociedade prenhe de acelerada mutação tecnológica, seus valores e desvalores, o alcançar de fins tidos por legítimos briga, muitas vezes, com as dinâmicas próprias da protecção de direitos fundamentais e da dignidade da pessoa humana. Trata-se de todo um estado de vivência social que, como é bom de ver, vai bem para além do desporto - o debate (?) sobre as escutas telefónicas está aí para o confirmar -, mas que nele também necessariamente se projecta, como facto social.
Uma segunda, para dar conta que, muito recentemente - 8 de Outubro - um tribunal superior espanhol veio afirmar - embora lateralmente para o desfecho do caso concreto - que muitas daquelas normas de conduta impostas aos atletas - no caso ciclistas - são manifesta e ostensivamente violadoras de direitos fundamentais consagrados na lei constitucional espanhola (e, aditamos, de igual modo na portuguesa).
A derradeira, respeita ao facto de a imprensa recolher (e ainda bem) as intenções de um advogado belga e descurar, em boa medida, o que se passa em Portugal.
Com efeito, é conhecida a queixa de associação de ciclistas portugueses, junto da Comissão Nacional de Protecção de Dados, sobre as mesmas normas que, nas mãos do advogado belga, "podem revolucionar o desporto". E outros registos, no mesmo sentido, também já se podem referir.
O futuro próximo dirá se a "revolução" começa em Estrasburgo ou em Lisboa.

Doping e direitos humanos

Luc Misson, advogado belga envolvido no caso Bosman volta, segundo notícia o jornal Público de ontem, a assumir a defesa de um caso que pode vir a abalar o desporto europeu.

Misson foi contratado por Andrei Kaschechkin, ciclista russo, acusado de dopagem num controlo extracompetição que a União Ciclista Internacional (UCI) submeteu ao atleta em 1 de Agosto

O advogado está disposto a levar o caso até ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, contestando a legitimidade da UCI para realizar controlos antidoping, defendendo que só as autoridades públicas o podem fazer, e que os testes devem ser “livremente aceites por quem é visado”.

Para Misson “ as análises sanguíneas e os controlos surpresa constituem atentados à vida privada dos ciclistas” O causídico considera que as deliberações das comissões disciplinares das federações desportivas que emitem punições por doping violam o princípio de direito a um processo justo num “tribunal independente”.

Após os alertas sobre o respeito pelo direito da concorrência em questões de doping levantados pelo caso Meca-Medina, e das posições das autoridades desportivas sobre o perigo que a jurisprudência do Tribunal de Justiça das Comunidades trouxe, neste caso, para a especificidade do desporto e do seu modelo europeu de organização (v. http://pt.uefa.com/MultimediaFiles/Download/uefa/KeyTopics/480391_DOWNLOAD.pdf) volta a alertar os poderes desportivos para o respeito, nos seus regulamentos e decisões, pelas liberdades fundamentais definidas nas normas comunitárias.

Os tribunais europeus têm vindo a refrear os intentos das autoridades desportivas e das instâncias políticas comunitárias de, ao abrigo da especificidade do desporto, regularem e disciplinarem esta actividade, muitas vezes de uma forma desproporcionada, à margem dos princípios gerais do direito comunitário e das liberdades que fundaram as bases do mercado único europeu.

Fica o aviso que o caminho da especificidade, consagrado no Tratado de Lisboa, está a ser acompanhado pelos tribunais europeus, mesmo quando se recorre a um tipo de justiça privada, como é o caso do desporto, em particular do doping.

Reflectir sobre o doping passa por enquadrar mecanismos de controlo que garantam uma monitorização eficaz dos atletas (onde os controlos extra competição e o sistema de localização são instrumentos importantes) com o respeito pela liberdade no exercício da profissão e pelos direitos laborais dos atletas, nomeadamente a sua privacidade.

As notícias recorrentes sobre redes de cumplicidade e influências politicas entre o Sr Pound, o COI e os interesses de laboratórios farmacêuticos, bem como acusações de forte politização do movimento desportivo aquando da retirada da candidatura do antigo ministro dos desporto gaulês Jean-François Lamour à presidência da Agência Mundial Antidopagem (AMA), para suceder a Richard Pound, não auguram nada de bom para a transparência e eficácia na luta contra a dopagem.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Pobre país!

Um jovem de 14 anos, praticante de futebol num clube da região de Lisboa, dizia-me que alguns dos seus colegas da selecção distrital de Lisboa já tinham “agente”. E que sem “agente” seria muito difícil de progredir nos escalões de topo do futebol juvenil. Lembrei-me da conversa tida com um pai que me dava conta das ofertas de relógios e de telemóveis topo de gama que um pretendente a “agente” do seu filho (então júnior) lhe queria fazer. Liguei esse relato a jovens como Nani (ou Cristiano Ronaldo, ou Manuel Fernandes ou Miguel). Muito talento desportivo mas uma escola por concluir, abandono precoce da família, muitas horas no cabeleireiro e nas tatuagens. Dinheiro pela frente como nunca se imaginou mas, muitas vezes , um padrão de comportamento social de acordo com o baixo nível da maturidade que possuem. São estes exemplos que os jovens tentam copiar. Coisas que não preocupam os “agentes” porque vêem o mundo através dos cifrões. Mas os agentes não estão sós. Têm a companhia de muitas famílias, que vem no eventual sucesso dos seus filhos no mundo de futebol um meio de ascensão social e para quem a possibilidade de frequentar as luzes da ribalta tudo justifica. Têm a companhia das estruturas federativas pouco dadas a valores e a formação. Para quem frequenta os campos de futebol dos escalões de formação e assiste aos comportamentos de alguns pais e mães, de treinadores e dirigentes nada disto é novidade. E este é o nosso verdadeiro drama. O do governo e das suas políticas uma mera extensão.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

gestão sem orçamento

João Florêncio demitiu-se de treinador da equipa principal de andebol do Belenenses, alegando "um vazio enorme na organização do andebol do Belenenses".
Mais afirma que não recebeu qualquer ordenado referente a esta época desportiva. Nas suas palavras: "Chegou o dia 25 não se falou com ninguém. Ninguém assume as responsabilidades. Este é o ponto principal"

Os atropelos à regulamentação sobre competições desportivas profissionais, ou às obrigações contratuais para com atletas profissionais, não são nada de novo neste país, como amiude se dá conta com a abertura de qualquer jornal. Se a isto acrescer o ambiente tenso em que vive a organização do andebol nacional...

Inovador é saber, pelas palavras do treinador, que o clube não tem um orçamento!!!

Sem entrar em pormenores jurídicos sobre este facto, detenho-me apenas nas questões de gestão desportiva.

Um orçamento é uma previsão de receitas e despesas para um determinado período de tempo, de preferência uma época desportiva. Constitui o documento básico da gestão financeira de qualquer organização, profissional ou associativa.
É, assim, a estrutura base para o planeamento financeiro, e por consequência, para toda a gestão desportiva de um clube.
Hoje fiquei a saber que é possivel gerir uma equipa desportiva profissional sem um orçamento. E há quem ainda diga que o desporto português não consegue inovar...

O ocaso do basquetebol profissional

“Se um miúdo me perguntasse, neste momento, se deveria seguir a carreira de basquetebolista profissional, dizia-lhe logo que não”. Esta foi a afirmação categórica de Alexandre Pires, presidente da Associação de Jogadores de Basquetebol, quando, há uma semana, denunciava em conferência de imprensa os atropelos aos regulamentos por parte das entidades que gerem o Basquetebol profissional e não profissional.
Já anteriormente tínhamos assistido a trocas de mimos entre a Federação Portuguesa de Basquetebol (FPB) e a Liga de Clubes de Basquetebol (LCB) e até a revelações do presidente da LCB de que iria denunciar junto de várias entidades públicas irregularidades e abusos de poder da FPB. Não foi a isto que o basquetebol nos habituou ao longo dos tempos, sendo até considerada modalidade de referência pelas demais.
Pois claro, sempre e sempre o PODER! E não creio que a Lei de Bases da Actividade Física e do Desporto, ao ter atribuído maiores competências às federações, nomeadamente ao nível da arbitragem e da disciplina das competições profissionais, vá solucionar as eventuais querelas resultantes da conflitualidade latente entre as ligas e respectivas federações desportivas.
Enquanto as organizações desportivas não se conseguirem distanciar dos valores tradicionais do modelo europeu de desporto e não substituírem a hierarquia pela heterarquia, a autoridade directa pela conexão comunicativa, a dominação central pela composição policêntrica e a regulação unilateral pelas directrizes policontextuais, de nada serve fazerem regulamentos e mais regulamentos para depois os infringirem.
O modelo europeu de desporto está a rebentar pelas costuras e os nossos dirigentes não revelam suficiente cultura organizacional para superarem os problemas no interior da modalidade. Assistimos há bem pouco tempo à prolongada história do desassossego vivida no andebol entre a federação e a liga profissional com nefastas consequências para a modalidade. É a repetição desse cenário que pretendem as gentes do basquetebol?
Em vez de clamarem e andarem com sucessivas queixinhas para o Secretário de Estado do Desporto, façam o brainstorming necessário com todos os agentes envolvidos na solução do problema e deixem-se de preservar as quintinhas próprias. Talvez fosse proveitoso também passar umas horitas com David Stern para conseguirem perceber a magia sublime da persistência da NBA que esta semana iniciou a 62.ª época desportiva. É obra!!