quarta-feira, 30 de junho de 2010

Mais futebol e menos conversa

Por vezes somos tentados – incluindo-me naturalmente no colectivo – a olhar a localização do futebol no todo desportivo nacional como algo que, em alguma medida, só nos afecta.
Em meu abono devo dizer que, em todas as matérias, sempre vou adiantando – particularmente aos alunos – que a nossa vivência não é positiva mas (sempre este mas) não estamos isolados e o vírus percorre um número bem significativo de sociedades e países.
As peripécias nacionalistas deste Campeonato do Mundo de Futebol têm tido contornos quase esquizofrénicos.
De todo o modo, há algo que deve ser dito, em abono de uma verdade (?) sociológica: é assim que as pessoas o sentem, quer queiramos, quer não, e os políticos acabam por reforçar esse sentir.

Por cá, o responsável (?) governamental pelo desporto tem acompanhado intensamente a performance da selecção.
A respeito das declarações de Deco sobre as opções tácticas e técnicas do seleccionador, foi lesto a ditar: «Mais futebol e menos conversa».
Intervenção decisiva para a nossa robusta vitória sobre a Coreia do Norte.
Já antes tinha adiantado que o resultado do primeiro jogo tinha «sabido a pouco».
E rematou: “os portugueses têm que confiar no trabalho do Sr. Queirós e dos 23 jogadores que ele escolheu para representar o país neste grande certame internacional”.
Para ontem o mote estava dado por Laurentino Dias: Cristiano Ronaldo é o maior trunfo da selecção portuguesa e, por outro lado, espera que Portugal e Espanha façam “um grande jogo de futebol” na próxima terça-feira, até porque concorrem juntos à organização do Mundial2018.

A verdade é que a «participação no jogo» de Laurentino fica muito aquém do que se passou (e ainda se passa) em França.
Nesse país, o Mundial é – literal e materialmente – assunto de Estado.
Nicolas Sarkozy recebe Henry, de urgência, no retorno a França (o jogador deixou o aeroporto num carro da presidência). Para garantir a audiência, Sarkozy cancelou mesmo uma reunião com as organizações não governamentais (ONG) que tinha sido convocada para debater as posições francesas nas reuniões do G8 e do G20. Foi de imediato criticado por dar "mais importância" ao futebol do que à "situação de três mil milhões de pobres nos países em desenvolvimento".

O presidente exige responsabilidades e anunciou “uma futura reflexão mais profunda e completa sobre o futebol na França”.
Exigiu ao seu executivo "garantias aos ministros para que os responsáveis assumam rapidamente as consequências pelo desastre". O presidente da federação francesa já se demitiu.
Haverá uma reflexão conjunta sobre o futebol francês – mais Estados Gerais – e a partir das conclusões, o Governo empreenderá uma reflexão mais geral sobre a governança das federações desportivas (porquê de todas?).

E em Itália?
Berlusconi, conhecido treinado da AC Milan, parece estar mais calmo. Numa conferência de imprensa, durante a reunião do G-8 (grupo dos países mais industrializados do mundo), no Canadá, afirmou que “ninguém ousou” falar no G-8 sobre derrota da Itália.
Mas, sem demoras, o Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Tarcisio Bertone, falou sobre a eliminação da Itália:"agora há muitos acusadores, mas nós devemos procurar uma nova equipa e um novo treinador".

Parece-me difícil negar a força do poder do futebol, em particular, restringindo-nos à Europa, nos países do sul.
Tal poder, convivendo com os outros (o político, o económico e o dos media), assume uma natureza transversal e, dessa forma, redobrando o seu vigor, vai determinando parte substancial da nossa vida colectiva.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Lugares comuns

Uma das afirmações que inunda as teorias da gestão (… e da politica) é a de que uma má decisão é sempre preferível a uma não decisão. Mas não é verdade. Um má decisão pode ter efeitos mais negativos que o seu adiamento. E não é preciso ir buscar exemplos. Mas a afirmação contém um outro problema: eleva o praticismo a critério de mérito.
Nos momentos de crise, de impasse ede crispação é natural que a impaciência se instale. E a impaciência só se sacia com resultados imediatos. O voluntarismo e a pressão podem empurrar para soluções imediatistas do tipo “devagar nunca se chega ao longe”. É neste terreno que crescem os práticos ou os desenrascados, como também são conhecidos.
O desenrascanso é, muitas vezes, sintoma de pouco rigor. De fazer por fazer. De idolatria pelo lado prático sem cuidar do resultado. Tal conduta não é necessariamente um mérito. O activismo pode esconder a ausência de conhecimento ou de estratégia sobre o melhor modo de enfrentar um problema. E pode não ser a melhor solução para esse problema.
O activismo nada tem a ver com o pragmatismo. É o oposto. O pragmatismo resulta da experiência e do conhecimento acumulados. O saber que não basta fazer. Que é preciso fazer bem. Mas que fazer bem é distinto de fazer muito bem. E que é preferível fazer bem, do que, por vezes, aguardar as condições óptimas para fazer muito bem.
O activismo revê-se apenas na acção independentemente do seu resultado. É forma sem conteúdo. O pragmatismo focaliza-se no resultado. É conteúdo sem descurar a forma.
A vida desportiva é um terreno fértil ao desenrascanso. Está dominada pelo imediato e pelos resultados. E convive mal com o insucesso. Mas o insucesso existe mesmo antes que os meios de comunicação reparem nele. E persiste quando já lhes deixaram de dar atenção. Viver a tirania do presente é aceitar a irresponsabilidade organizada. E é disso que se alimenta o desenrascanso.
Uma casa demora sempre mais tempo a construir que a demolir. E com as pessoas e as organizações passa-se o mesmo. Uma instituição desportiva é como uma mata: demora anos a crescer. Mas pode desaparecer em breves momentos.
A expressão competitiva de um talento não é imediata. A obtenção de resultados duráveis requer a construção de uma base de sustentação que demora vários anos. Mas a sua queda ou perda de qualidade pode ser brusca e instantânea.
Nas pessoas e nas organizações a pressa é inimiga do sucesso. Não é possível colher amanhã o que se semeou ontem. Quem assim pretenda está a enganar-se.
As organizações e as pessoas que crescem num ambiente de constantes adaptações normativas ou de regras de procedimento têm mais dificuldades em obter sucesso. Estar sempre a mudar não é positivo. A ausência de estabilidade e de rotina não são favoráveis. As crises e as mudanças bruscas só são janelas de oportunidade para poucos. A maioria fica pelo caminho. Mas é também aqui que reside o paradoxo.
Uma política desportiva é, como toda a política, a passagem do conhecimento rudimentar ao elaborado. Exige tempo e mediações. Objectivos claros, prioridades e meios de avaliação. E não pode ser de vistas curtas e viver apenas do imediato, do presente. O caminho de fazer por fazer, ou de repetir o já feito, deixar-nos -à permanentemente insatisfeitos. Mas o mudar por mudar não garante que o resultado seja diferente. Este estado de coisas e esta ambivalência esconde, afinal, em muitas circunstâncias, a ausência de visão e de estratégia.
A nossa vulnerabilidade está menos em apreciar leis, normas e diplomas e mais em definir uma politica de oportunidades que leve em linha de conta as necessidades, as capacidades e os recursos. O jeitinho especial para a “política fingida”- deixar os acontecimentos seguir normalmente e depois falar sobre eles de acordo com os estados emocionais criados pela comunicação social - também não ajuda.
O movimento desportivo vive em hemodiálise: sobrevive dependente das políticas públicas. As políticas públicas transformaram-se aos poucos numa penosa administração de trivialidades. Presta atenção excessiva a acontecimentos - como a modernização legislativa -com baixa probabilidade de alterarem a realidade desportiva nacional e menospreza acontecimentos que de forma rotineira marcarão o nosso futuro desportivo: o modo como se trabalha no desporto.

domingo, 27 de junho de 2010

Gestão e Direitos Desportivos

Podia-se ler ontem no jornal diário "A Bola" e também por alguns sitios da internet que equipas do distrito de Bragança na modalidade de Futebol de 11 tinham ganho o direito dentro de campo de subir do Campeonato Distrital à 3.ª divisão Nacional, mas por razões relacionadas com opções de gestão e estratégias, tinham recusado, preferindo manter-se nos distritais. Aliás...tanto quanto é possível averiguar, não tinha sido apenas uma equipas, mas quatro.

O jornal 'A Bola' incluia ainda que razões relacionadas com as deslocações e as despesas que isso implica tinham estado também na base da decisão.

A notícia pode não ser virgem, nem ficará por aqui em termos de seguidores. Na verdade, em outras modalidades colectivas já tinha acontecido o mesmo, especialmente na Liga Profissional de Basquetebol onde não se tratava apenas de direitos desportivos mas também requisitos económicos.

A particularidade da notícia poderá estar em saber nas próximas temporadas desportivas quantos casos irão suceder em moldes semelhantes. É verdade que o distrito de Bragança tem maus acessos e a deslocação a um outro local acresce em muito despesas com combustível, tempo e outros custos. Os clubes, associações ou outro tipo de entidades do distrito de Bragança queixam-se das dificuldades diárias, quer em encontrarem apoios quer na capacidade de auto-sustentar a sua actividade.

O desporto não é um caso isolado. Longe disso mesmo. Não se tratam de suposições, mas tudo caminha para que os efeitos colaterais e até bastante directos da crise social, económica e financeira afecta cada vez mais hábitos desportivos, quer ao nível de decisões quer ao nível de um futuro a curto-médio prazo.

Como tudo, as crises podem ser uma boa oportunidade para algo. Neste caso, as decisões quando tomadas com base em decisões de gestão ou estratégia de sobrevivência pressupõem que alguém dedicou um x tempo para tal. Quase com uma pontinha de ironia, diria se estes exemplos chegam a alguns clube profissionais, poderemos ter um desporto melhor no futuro, mais real. A aprendizagem de algumas ferramentas sempre foram fundamentais para um desporto melhor. A necessidade pode criar hábitos, neste caso, bastante positivos.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Fica o aviso

Os montantes e a complexidade da circulação dos fluxos financeiros envolvidos nas actividades de intermediação, representação e agenciamento de atletas propiciam o florescimento de práticas ilegais e negócios desportivos pouco transparentes. Neste processo o agente ou empresário desportivo ocupa um lugar central.

De acordo com um estudo recente da Comissão estima-se existirem mais de 6000 agentes desportivos em exercício no território europeu a operarem em 32 modalidades desportivas, sendo que 95% estão ligados às quatro modalidades com maior relevância comercial na Europa - futebol, basquetebol, râguebi e atletismo. O impacto económico desta actividade, só no futebol, cifra-se num valor de 200 milhões de euros anuais em comissões de transferência.

Nestes termos, e tendo em consideração o árduo e longo percurso trilhado pela FIFA junto da Comissão e do Tribunal para implementar um quadro regulador compatível com o direito comunitário, no firme propósito de controlar práticas fraudulentas através de um sistema de licenciamento para os seus agentes; o anúncio da FIFA se afastar do actual regime de licenças e liberalizar, a partir de 2012, a intermediação de jogadores num processo “free for all” - gerido por clube e atleta, no qual escolhem livremente o seu agente, não carecendo este de estar licenciado, e se assumem responsáveis por conduzir a transferência no cumprimento das normas legais - representa um rotundo fracasso das federações nacionais em fiscalizarem a aplicação dos seus regulamentos, uma vez que apenas 25% das transacções eram efectuadas por um agente devidamente licenciado.

É evidente que os alarmes soaram bem alto. Não apenas nas associações representantes de agentes e das ligas europeias de futebol, mas também do poder político. Recorde-se aqui que também a União Europeia tinha considerado “...que a actual realidade económica em torno dos agentes dos jogadores impõe que os órgãos dirigentes do futebol, a todos os níveis, e após consulta à Comissão, melhorem as regras aplicáveis aos referidos empresários; a este respeito, exorta a Comissão a apoiar os esforços da UEFA no sentido de regulamentar a actividade dos agentes dos jogadores, se necessário, mediante a apresentação de uma proposta de Directiva relativa a esta categoria profissional” (§44).

Manifesta a incapacidade das federações em auto-regularem nesta área - em parte devido aos condicionamentos na supervisão e sanção, civil ou penal, para o controlo efectivo de uma actividade económica, que afecta direitos fundamentais, e se encontra na incumbência das autoridades públicas -, mas tendo também em equação a pluralidade de soluções nos ordenamentos jurídicos de cada Estado membro (Portugal é um caso minoritário de legislação específica neste domínio, e com casos levados às instâncias judiciais) sobre uma actividade com uma forte incidência na gestão transfronteiriça de recursos, o Parlamento Europeu ciente de que “afastar o actual sistema de licenças da FIFA para os agentes de desportistas sem estabelecer um sistema alternativo robusto não seria a forma adequada de tratar dos problemas que rodeiam os agentes dos jogadores no futebol” votou favoravelmente no passado dia 17 uma proposta de resolução na qual, preto no branco, sustenta uma “abordagem coerente” e uma via harmonizadora para o conjunto da UE, instando a uma iniciativa da Comissão para introdução de um sistema europeu de licenciamento de agentes.

E não se trata de uma proposta vaga ou difusa. O ponto 18 entra, sem prévia genuflexão, na sacrossanta reserva de autonomia do movimento desportivo e define claramente as regras. O aviso fica lançado: Quando os principais responsáveis pela regulamentação desportiva falharem a UE não se limitará à difusão de boas práticas, a coordenar e estimular a convergência em torno de posições comuns ou a promover o diálogo, mas irá assumir sem hesitação as suas competências de regulação sempre que tal for necessário.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Memorial de um povo


A maior homenagem à língua portuguesa e à alma lusitana está, porventura, contida no romance Comboio Nocturno para Lisboa, escrito por Pascal Mercier, pseudónimo literário de Peter Bieri, um suíço, Professor de Filosofia, residente em Berlim (o livro é editado em Portugal pelas Publicações Dom Quixote). O escritor encanta-se com a ductilidade, leveza, graciosidade e sonoridade, com a doçura e suavidade da língua portuguesa e com o seu poder para nos tornar arqueólogos de nós mesmos. No fundo, maravilha-se com uma língua dotada da propensão para instalar no desassossego e mistério, na meditação e reflexão, na melancolia e saudade, na inquietude, interrogação e indagação, na dúvida, na errância e no misticismo, na pergunta e procura permanentes do que não somos nem temos, para projectar, criar e desvendar irrealidades que tanta falta nos fazem. Uma língua que é um modo de dar sentido e forma verbal e sentimental a um viver em profundidade e autenticidade a existência humana.

O ponto de partida é dado por uma cena, em Berna, na qual uma mulher agradece ao protagonista um gesto de socorro, numa língua que ele não entende. Por isso pergunta que idioma era aquele. Ao ouvir, como resposta, ‘português’, esta palavra gera nele uma “claridade crescente” e sussurra nos seus ouvidos uma melodia que “perdurou muito mais tempo do que na realidade e que ele simplesmente gostaria de ter escutado durante todo o resto do dia”. Vai daí, dirige-se de imediato a uma livraria, indagando se haverá ali, por acaso, algum livro em português. O gerente descobre um com este título sugestivo: O ourives das palavras. O cliente pede-lhe que traduza algumas passagens. O encantamento é instantâneo: nessa mesma noite apanha um trem para Lisboa, tentando descobrir o rasto e as circunstâncias do autor.
Aquilo que descobre, na sua deambulação e peregrinação por Lisboa e pelos meandros da inquietação tão tipicamente lusitana, convida-o a interrogar: “Como é que podemos ser felizes sem a curiosidade, sem as perguntas, dúvidas e argumentos? Sem o prazer de pensar?” E, depois de melhorar o conhecimento da nossa intimidade e da nossa maneira de ser e estar, chega a esta conclusão: “Sabes que mais, o pensar é a segunda coisa mais bela. A mais bela é a poesia. Se existisse o pensar poético e a poesia pensante, podes crer que isso seria o Paraíso”.

Pascal Mercier parece eleger especialmente Fernando Pessoa como ‘o ourives das palavras’, que perfazem ‘o pensar poético e a poesia pensante’. Mas essa avaliação contempla igualmente a vasta plêiade de nomes insignes em que a literatura de língua portuguesa tem sido fértil. E não será exagero afirmar que José Saramago é o artífice que congrega em si – e em nível elevadíssimo, esplendoroso, excelso, magnífico e fulgurante – a arte que tantos ourives da nossa língua elevaram ao expoente máximo nos últimos 150 anos: Eça de Queirós, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Raul Brandão, Teixeira de Pascoaes, Guimarães Rosa, Vergílio Ferreira, Carlos Drummond de Andrade, Miguel Torga, Jorge Amado e tantos outros.

Na esteira deles e indo mais atrás ao Padre António Vieira, José Saramago, inflamado pelo telurismo de um génio barroco, recriou a língua portuguesa como uma delicada e finíssima filigrana; creditou-lhe um estatuto com dimensão e respeitabilidade universais. Mais ainda, com esforço titânico recriou, no plano mundial, o romance, isto é, o género da literatura que, há alguns anos, se apagava em agonia e muitos especialistas de renome internacional julgavam condenado à extinção. Para tanto Saramago, neto e filho de camponeses analfabetos, introduziu no romance o questionamento histórico e filosófico. Logo ele que não chegou a concluir a escola secundária!
Saramago reinventou e redimiu, sobretudo, Portugal. Trouxe-o de novo para a vanguarda dos que sonham um futuro melhor para o mundo. Com 23 letras escreveu palavras, frases e livros que nos arrebatam para o sublime e revelam a idiossincrasia de um país constituído por ‘levantados do chão’, por amanhadores da terra, por auto-didactas, por indivíduos sem ofícios ensinados mas com todos aprendidos, por gente animada de uma inigualável transcendência espiritual e anímica. São essas criaturas simples que habitam dentro dele, vivem nos seus textos e ele leva comprometida e ternamente pela mão até ao fim.
Sim, ele representa e renova, com a sua vida, com os seus escritos e personagens, a trajectória de um povo desmedido, messiânico, misterioso e sebastianista, que se alimenta de lendas, de mitos, utopias e ânsias de milagres e condensa em si os vários heterónimos e rostos, as aspirações e agruras, as nobrezas e torpezas, os gigantes e anões, os altos e baixos, os feitos e defeitos de toda a Humanidade. Um povo ligado à terra de uma maneira visceral e que, não obstante isso, assume arrojada e convictamente uma vocação e missão aladas e as transforma em mensagem, derramada por todo o orbe numa ingente e transumana epopeia marítima.

Temos que fazer jus ao nosso nome, levantar-nos do chão, lamber as feridas como um ‘cão de lágrimas’, romper o cerco da cegueira com a luz dos sonhos, servir-nos de uma jangada de pedra para fugirmos às forças da alienação e exploração e nos juntarmos aos humildes tornados nossos iguais, empreender a viagem do elefante sem medo das intermitências da morte, libertar-nos da condenação ao fado de Caim e subir no céu como morteiros impulsionados pela pólvora do espírito e ousadia, para escrevermos, com a tinta do compromisso e decência, um manual de caligrafia da existência e deixarmos de nós um memorial do impossível.

Saramago aviva-nos a esperança e a fé numa Humanidade de astronautas determinados a seguir a vidente Blimunda (Memorial do Convento), a engarrafar vontades, o combustível apropriado para que a ‘passarola’ do Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão e os humanos se arranquem do chão da sujeição e levantem voo em direcção ao infinito. Incita-nos a sermos aprendizes do ofício de transformar o mundo com a alegria e a beleza durante toda a vida, a procurá-las, reverenciá-las e vivê-las com o fervor de uma oração.

Saramago acaba de passar para a outra margem e nós ficamos órfãos de um hermeneuta que enfrentou dogmas, reinterpretou evangelhos, rasgou a escuridão e deu livre curso à inteligência, à lucidez, à razão e rectidão. Foi-se embora um obreiro maior do tempo em que o Homem está absolutamente só, por sua conta e risco, obrigado a concluir o projecto da obra imperfeita, a ser o visionário, o arquitecto, o sujeito e o realizador do oitavo dia da criação. Intimado a fazer-se em grandeza, em ética e estética, em excelência e espiritualidade.
Calou-se a palavra e apagou-se a luz que, através de parábolas, da ironia, do desassombro, da compaixão e tomada de partido, nos mostraram a cegueira de uma realidade ilusória e profundamente anti-humana. Estamos mais sós, desencantados e perplexos; porventura abandonados ao desatino e à avidez descarada dos donos desta era suja, torpe, inestética e imunda.

Continuaremos a peregrinar sem saber quanto de Abel e Caim há em nós. E sem conhecer verdadeiramente o cornaca que se senta no nosso dorso de elefante. Mas…, enquanto tivermos memória, o nome de José Saramago constará do registo do nosso caderno e diário de bordo, a lembrar-nos a obrigação de nos mantermos sempre em estado de palavra.
Não esqueçamos que Saramago elegeu ‘NÃO’ como a palavra mais importante. Tenhamos, como ele, a coragem de a pronunciar contra o veneno insidioso do supérfluo e negligente, sempre que a dignidade humana é aviltada e ferida. Não aceitemos as verdades feitas e oficiais que, a toda a hora, nos querem impingir. Saibamos reagir como ele: “a dúvida é o privilégio de quem viveu muito, será por isso que não conseguiste convencer-me a aceitar como certezas o que para mim mais se parece a falsidades.” (José Saramago: CAIM, p. 49, Editorial Caminho, Lisboa, 2009).

A nossa resistência, aqui e agora, na arena e nas ameias da aventura existencial, há-de ser um contributo para a afirmação da necessidade e possibilidade de outra condição humana, de outra vida e forma de a cumprir. Para irmos ao encontro de José Saramago que, ao comemorar os seus 85 anos, apelou às “pessoas boas” e aos “amantes da beleza” para reagirem “contra a barbárie”, para não aceitarmos calados, resignados, abúlicos, viscosos e submissos um destino de ignomínia e anomia do distintivo humano. Estaremos vivos sempre e onde as nossas palavras forem o nome correcto e justo das coisas e dos factos. Ademais, lembra Mário Soares, “só é vencido quem desiste de lutar”.
José Saramago adverte-nos: “ao final, almocreves somos e pela estrada andamos. Todos, tanto os sábios como os ignorantes” (obra cit. p. 50). Todavia ele, no dia da sua morte, refulgiu nas alturas como uma estrela ainda mais cintilante, com uma auréola de perenidade, semelhante à imortalidades dos deuses.



terça-feira, 22 de junho de 2010

Olhar para dentro da própria casa

António Barreto, no discurso comemorativo do 10 de Junho, enalteceu as virtudes do exemplo. Da necessidade da moralização da vida pública ser feita pelos bons exemplos e não pela retórica e o beatismo das grandes proclamações. Das palavras e dos discursos terem habitualmente muita propaganda e darem origem a pouca acção. José Sócrates e o seu pessoal de apoio não devem ter gostado do que ouviram. Quando as coisas são ditas por alguém que não é propriamente de “direita” a ferida é maior. E as restantes esquerdas?
Essas receberam as palavras de António Barreto em silêncio. Como o país em geral. Compreende-se. António Barreto faz parte daquele pequeno grupo de pessoas que não pode ser atacado pelo carácter ou pela incoerência. Convém que sobre o que diz se não alimentem grandes polémicas. Para que o efeito passe depressa. E se há questão com que a esquerda lida mal é com o exemplo. Historicamente foi sempre por aí que a doutrina se fragilizou. E que os ideais se esvaneceram. A questão é devastadora.
Mas com uma parte da esquerda “socrática” o problema é de outra natureza. E mais grave. É uma esquerda de pressas. E de ajustes de contas. Ressentida, arrogante, ressabiada e cheia de azedumes. Julga-se possuída de uma superioridade ética e de uma inteligência que só ela tem. O mistério é saber porque assim pensa. Porque não teve escola? Porque nunca leu Antero ou Sérgio? Porque dominar o aparelho do Estado cega? Tudo parece funcionar em função de um único objectivo: o poder. E, embora o não aceite, é profundamente conservadora. Purifica o seu progressismo nas causas fracturantes. Uma parte dela nunca soube o que era lutar pela liberdade. E por isso gosta de prescutar, como no passado, tudo o que há para saber sobre as pessoas. E, qual big brother, de colocar etiquetas. Defende a liberdade de expressão. Mas odeia a responsabilidade cívica do uso da liberdade. E, por isso, quando é preciso, ataca em regime de anonimato. Deseja ter tudo controlado. Adora as soluções de engenharia social. O fracasso é o seu tabu. E não lhe peçam bons exemplos. É uma afronta. É uma esquerda que só pelo facto de assim se apresentar dispensa qualquer outra prova. Julga-se possuída de dom divino.
É esta esquerda que, supostamente, seria republicana e socialista (?), que é capaz de em qualquer gabinete, de endireitar o desporto. É um propósito sempre renovado quando chega ao poder. E chega tantas vezes que se vê obrigada a ter uma amnésia selectiva. Melhor dito :a programar a memória. De tal maneira que cada vez que regressa é como se fosse a primeira. E acredita piamente nesse calendário. Faz diariamente a sua prece. Com muito copy past à mistura. Sobretudo francófono. E com um tema de eleição: as federações e os dirigentes desportivos. O busílis é mesmo os dirigentes. Excepção feita aos períodos e campanhas eleitorais, em que os dirigentes são precisos para aumentar as listas de apoiantes, colocá-los na ordem faz parte do menu principal. Não fossem os dirigentes desportivos e outro galo cantaria!
Esta esquerda teima em não perceber que o seu reactivismo - aos dirigentes e às federações - é do mesmo tipo que uma parte significativa das pessoas tem em relação aos políticos e aos partidos.Com um problema. Sobra em retórica o que falta em bons exemplos. E aqui reside o verdadeiro problema. Á legitimidade política de controlo dos recursos públicos não corresponde uma exemplaridade moral no respectivo uso.
Os males de que padece o dirigismo desportivo, no uso dos chamados “dinheiros públicos” e outro tipo de recursos são comuns aos agentes políticos. Não há uma massa distinta. E também se não dividem entre os bons à esquerda e os maus à direita. Não há uns- os dirigentes políticos- a gastar bem e os outros - os desportivos- a gastar mal. Não existem os primeiros com elevado sentido da causa pública. E os outros a servirem-se dela. As engenharias financeiras a que se entregam muitos dos organismos desportivos são idênticas às da administração pública e dos gabinetes ministeriais. É uma ilusão pensar que nestas instâncias a gestão da coisa pública é feita sem truques, sem opacidade e às claras. Que não existe um peculato disfarçado de serviço público. Que existe parcimónia nas despesas de representação. Nas ajudas de custo. Nas despesas apresentadas. Nos fundos permanentes. Nos almoços, que são sempre de trabalho. Nas aquisições de serviços que nunca são às empresas amigas. Nos camaradas que se vão colocando na administração pública. Na valorização do mérito que é sempre exclusivo dos “nossos”
O silêncio e a cumplicidade políticas querem fazer passar os outros por parvos. E é sempre fácil culpar os dirigentes desportivos pelo mau uso dos recursos públicos. Mas o mal não ocorre dentro da própria casa? Ou o que é mal nos outros é em nós virtude?

domingo, 20 de junho de 2010

Alto rendimento ou alto compromisso?

No passado dia 16 o Diário da República ofereceu-nos três textos relacionados com a prática desportiva de alto rendimento.
Assim, a Portaria nº 325/2010 veio definir os critérios gerais que permitam qualificar como sendo de elevado nível certas competições desportivas para efeitos de integração no nível C (o mais baixo) dos praticantes de alto rendimento que nelas participam.
Todavia, vai bem mais longe o regulamento.
Por um lado, o artigo 5º vem adiantar algo sobre outros níveis de praticantes: para as modalidades e disciplinas com competições que não integrem campeonatos do mundo ou da Europa são definidos, no primeiro ano de cada ciclo olímpico, por despacho do membro do Governo responsável pela área do desporto, após solicitação das respectivas federações, resultados desportivos relevantes ou posicionamentos nos rankings das modalidades para efeitos da integração dos seus praticantes nos níveis A a C.
E, como convém “à certeza das normas e da sua aplicação”, o artigo 8º vem enquadrar os casos excepcionais: para além das competições e resultados referidos nos artigos anteriores, mediante requerimento fundamentado da respectiva federação desportiva, ouvido o Instituto do Desporto de Portugal, I. P., e o Conselho Nacional do Desporto, poderão ainda ser considerados, para efeitos da presente portaria, outras competições desportivas ou resultados que como tal vierem a ser considerados por despacho do membro do Governo que tutela a área do desporto.

Depois contamos com o Despacho n.º 10125/2010, de 9 de Junho, do Secretário de Estado da Juventude e do Desporto que determina os critérios de qualificação (de alto rendimento) para os praticantes de ténis. Vale a pena conhecer o regime verdadeiramente excepcional que o Governo estabeleceu para esta modalidade desportiva. Há quem goste muito de ténis.

Por fim, temos o Despacho n.º 10124/2010, de 9 de Junho, do Secretário de Estado da Juventude e do Desporto, que aprovou o modelo-tipo de contrato a outorgar com os praticantes desportivos de alto rendimento.
Os contratos são outorgados entre o praticante, o Instituto
do Desporto de Portugal e a federação da respectiva modalidade ou, no caso dos praticantes integrantes dos Projectos Olímpico ou Paralímpico, com os respectivos Comités Olímpico ou Paralímpico, respectivamente, com as necessárias adaptações.
Este modelo pode ser completado com outras cláusulas propostas pela respectiva federação (ou, nos casos em que tal deva suceder, pelos Comités Olímpico ou Paralímpico), desde que tais cláusulas não alterem a letra ou o espírito das que constam deste modelo-tipo.

O contrato tem três partes, mas dir-se-ia, que de um lado está o IDP e a federação e, do outro lado, o praticante.
As obrigações do IDP são, por assim dizer, as naturais, pois decorrem das suas incumbências legais. Obriga-se a fazer aquilo que a lei o obriga a fazer. O mesmo se pode adiantar quanto às obrigações da federação, embora seja de não esquecer um segmento da alínea f) cláusula 4ª: assegurar o exercício dos direitos do praticante.
No que concerne ao praticante, nada se me afigura especialmente de registar.

Onde as coisas se desequilibram por inteiro, seguindo a lógica de um contrato, é nas sanções previstas (e também inexistentes) em caso de «incumprimento» do clausulado. Deste modelo-tipo e ainda, o que se revela mais perigoso, das cláusulas que venham a ser propostas e adoptadas pelas federações desportivas.
Com efeito, a cláusula 10ª só prevê sanções para o praticante desportivo.
Nem uma palavra para o que resulta de eventual incumprimento por parte dos outros outorgantes.
Bem vistas as coisas, estamos mais perante um regulamento, coberto com uma vertente sancionatória, do que um verdadeiro acordo.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago



“O fim duma viagem é apenas o começo de outra.

É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que já se viu no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava.

É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e traçar caminhos novos ao lado deles.

É preciso recomeçar a viagem. Sempre.

O viajante volta já.”

José Saramago (1922-2010), in Viagem a Portugal

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Dos defeitos do corpo

Tem tanta pressa o corpo! E já passou, quando um de nós ou quando o amor chegou.

Jorge de Sena, 1919-1978

As férias na praia já não são o que eram. Pouco a pouco, a praia vai perdendo clientes, como resultado de mutações no grau de satisfação com o corpo. Vou procurar explicar-me melhor.
A praia foi durante muito tempo um lugar da liturgia do encontro e da admiração, facilitador de integração e interacção social. Um palco privilegiado de exibição do macho latino, de ombros largos, de musculatura hipertrofiada e de órgãos genitais a porem à prova a elasticidade dos calções. E foi ainda a passarela de desfile das louraças, feitas de água oxigenada e com peitos confeccionados sem ajuda de silicone, que nos deixavam com cara de basbaque e a escorrer baba e ranho. No areal de atracções e aproximações travavam-se cotejos e conhecimentos e iniciavam-se namoros que favoreceram o incremento dos correios e telefones e, não raras vezes, acabaram em casamentos.

Hoje já não é mais assim. A estupidez ganhou novos disfarces e versões e não são apenas as loiras que têm falta de neurónios. Os padrões de beleza correntes, patrocinados pela moda e pela publicidade, assumem cada vez mais a função de marcadores sócio-culturais, tornando-se, em medida crescente, agentes de discriminação e de empobrecimento do contacto social. Ao imporem e universalizarem o ideal da beleza esguia, para não dizer escanzelada, famélica e esquelética, originam uma onda de insatisfação e de descontentamento em face dos desvios das bitolas em voga. Ou seja, levam as pessoas a descobrir defeitos no seu corpo e a ficar seriamente afectadas com isso, a ponto de desenvolverem sentimentos de culpa, de inferioridade e vergonha.
Talvez seja também por isso que a frequência da praia vai perdendo atracção. Às razões e advertências de ordem ambiental somam-se agora receios e complexos de natureza psicológica a recomendarem restrições na exposição da nudez corporal, sobretudo quando esta se desdobra em abundâncias e protuberâncias adiposas e é pobre em cabedais, tecidos e courelas musculares. A hora parece ser de esconder o corpo e não tanto de o mostrar, pelo menos quando antes não se procurou fazê-lo ou modificá-lo segundo a severidade das exigências vigentes.

A gordura está nitidamente fora de moda e encontra-se diabolizada. Os modelos de outrora não resistiram ao avanço dos tempos. O conceito de santidade, representado nas estátuas de um Buda deitado ou sentado com banhas de bonomia e docilidade, há muito que foi suplantado por exercícios castigadores e expiadores das culpas do corpo, vinculados ao culto da ascese corporal. E o lema de que "gordura é formosura", bem expresso nos quadros de pintores famosos (como a Madona de Miguel Ângelo), não vigora mais; valeu outrora e apenas para noivos incautos e gananciosos e ficou circunscrito a tempos de míngua, miséria e fome (que estão de volta).
Perante isto nem sei bem o que lhe diga, caro leitor. Eu continuo a ir à praia, embora já não o faça com o fervor, com o alvoroço e com a frequência de antigamente. Nem coisa que se pareça! Gosto das praias do ‘meu’ querido Brasil, onde a água é quente e a extensão dos areais me permitem caminhadas a preceito.
Porém mentiria se lhe dissesse que não ligo às normas de beleza e que não olho de soslaio para o meu corpo. Reconheço, sem custo, que ele me inquieta e provoca algum desconforto. Realmente não tenho o morfotipo que gostaria de patentear; falta-me sobretudo a musculatura peitoral ideal, aquela dos artistas de cinema, que me daria tanto jeito para poses de masculinidade e para encher bem as camisas do meu tamanho, já que me são justas no pescoço e me sobram nos ombros.
Mas que hei-de eu fazer? Ir para ginásios de musculação, à procura do que me falta e para não deixar adormecer e amolecer o sistema de músculos, tendões, ossos e articulações?! Eu sei que devia ir e que esse era o passo certo. Mas não vou; e por três óbvias razões. Em primeiro lugar, porque há quem diga que ao exagero muscular corresponde algo de castração funcional. Logo não me parece sensato deitar fora uma coisa tão estimável e que é motivo de franco e tão sentido orgulho. Em segundo lugar, porque não creio que, na minha madura e sábia idade, os defeitos possam ser eliminados e os ganhos compensem a dureza nua e crua do investimento. Em terceiro lugar – e é aí que bate o ponto! -, porque toda aquela parafernália de máquinas me lembra uma câmara de tortura. Quando lá vou – faço-o algumas vezes! – aqueles exercícios dóiem até dizer chega. Ora não me parece feliz corolário de uma vida continuar a macerá-la, isto é, a marcá-la com o esforço, com a falta de prazer e até com a dor. Já bastam os pesadelos de terror, que me invadem nas horas acordadas, quando me lembro (apesar dos anos que já lá vão!) do sofrimento que foi fazer a cadeira de ginástica no curso do INEF.

Claro que não deixo de me exercitar. Privilegio os exercícios que metem corrida, como é o caso do futebol (em que se joga e afia a língua). E assim alcanço uma boa dose de compensação: é certo que o sex-appeal não me favorece no peito, mas transborda a olhos vistos nas pernas. Como não ir à praia mostrá-las?! E depois há também os braços que, embora não dando nas vistas pela grossura da massa muscular, irradiam fluidos de carícias, sobretudo pela insinuação que se desprende das mãos ágeis, leves e delgadas. Para não falar nos olhos, de uma mescla de tons de verde e azul, carregados de mensagens e promessas de amor e felicidade em cenários de romantismo!
Vejo-me, pois, entre Édipo e Narciso, a descontar nos defeitos do corpo. Concluo que eles não se notam, nem me oprimem sobremaneira, em comparação com a riqueza e a expressividade dos sonhos, desejos e imaginários que o corpo desencadeia. No fundo todos temos alguma coisa de belo e de interessante para exibir e para ser cobiçado. Por isso irei à praia nestas férias e continuarei a ir nas outras que ainda estão por vir.

terça-feira, 15 de junho de 2010

As paredes não são de vidro

Existe o direito do Direito impor limitações aos mandatos dos presidentes das federações desportivas? É admissível que defina um limite às remunerações dos respectivos órgãos sociais?
O Estado, tratando-se de entidades que têm delegação de competências públicas e que, em certas situações, dependem em larga medida do financiamento público não pode ignorar as matérias que pela sua importância requerem um regulação/intervenção pública. A duração dos mandatos e as remunerações dos dirigentes incluem-se nesse lote de matérias? Parece que sim, atendendo a que se legislou nesse sentido.
Mas se em relação a cada uma das questões o governo entendeu que a situação carecia de uma regulação pública só ganharia em a explicitar. Devia dizer porque o que fazia. A dimensão que o problema assumia. Expor os motivos de interesse público que justificavam a intervenção. E porque apostava pela via normativa e não em outra.
Podemos colocar na discussão uma questão prévia: porque intervém em relação ao desporto e o não o faz em relação a certo tipo de outras entidades que têm problema similares (ipss, organizações culturais, juvenis, fundações, clubes desportivos, etc. ) e até a entidades dele directamente dependentes. E porquê só aos dirigentes? Que anátema existe? Mas isso não responde à questão de fundo.
A via normativa era uma das medidas que estava ao alcance do governo. Mas não era a única. Mas foi a primeira. Poderia sobre o assunto ter optado por previamente exercer alguma magistratura de moderação. De ter emitido uma censura pública. De marcar uma posição política. De ajudar a criar um escrutínio público e uma pressão ou censura social que condicionasse os comportamentos dos dirigentes. Optou pela via da norma. Porventura porque face ao fim em vista considera ser o meio mais eficiente. E outra eventual via, pura perda de tempo. Só que abriu um precedente. É um caminho que não tem fim. E em que se não pode começar e depois parar, sob pena de incoerência. A tendência será sempre a de verter norma sobre norma.
Hoje são os dirigentes, amanhã serão os técnicos, a seguir os seleccionadores e depois as viagens, as acumulações, as ajudas de custo, os telemóveis, as viaturas, os motoristas e tudo quanto consome recursos públicos. Naturalmente que isto só ocorre porque, em muitas organizações desportivas, não há capacidade de regulação. Nem bom senso. A limitação de mandatos poderia estar estatutariamente previsto. A fixação de remunerações ser clara, transparente e não auto-determinada (embora aqui não seja diferente do que ocorre em empresas públicas ou privadas mesmo as que têm comissões de remunerações). Mas a obsessão normativa da actual equipa governamental é uma crença. Assim pensam endireitar o desporto. E as federações e os dirigentes desportivos são um dos temas de eleição.
As organizações desportivas aceitam, em silêncio, estes “puxões de orelhas”. Porque o respeitinho é uma coisa muito bonita. E porque, porventura, receiam abordar matérias que, em termos públicos, não sabem, por responsabilidade própria, como lidar. Quando até não era muito difícil. Bastaria, em matéria de transparência, isenção e bom uso de recursos e património públicos, usar o exemplo do legislador. E comparar. E depois concluir o modo como se definem as prioridades. Que o são para uns e o não são para outros.
O problema é que temos em excesso de legislação e regulação o que nos falta em bons exemplos. Que, como se costume dizer, devem vir de cima. E é deles que o país carece.