sexta-feira, 9 de julho de 2010

Os reforços

Novo texto de Luís Leite, que se agradece.

Junho e Julho, desportivamente, neste país, são os meses dos “reforços”. Tudo o resto passa a segundo plano. É uma questão de fé e com a fé não se brinca.
Entende-se por “reforço” a aquisição de um jogador de futebol por uma SAD portuguesa, sendo que na maioria dos casos o craque, normalmente sul-americano, é completamente desconhecido do público que compra jornais desportivos. Exceptuam-se a esta regra as transferências de jogadores portugueses.

Trata-se de uma actividade com um conjunto de particularidades:

1) É um bom negócio para o clube que o vende;
2) É um bom negócio para o próprio jogador;
3) É um óptimo negócio para o empresário que trata do negócio;
4) É um óptimo negócio para os jornais desportivos;
5) É um péssimo negócio para o País.

Já alguém se deu ao trabalho de fazer as contas de quanto é que sai por ano em divisas de Portugal para o estrangeiro? Eu confesso que não sei fazer estas contas, porque não disponho dos dados, mas julgo que a importação de jogadores de futebol estrangeiros é certamente, senão a primeira, pelo menos a segunda actividade económica que mais contribui para o desequilíbrio na balança comercial entre Portugal e os países sul-americanos, com particular realce para o Brasil, logo a seguir ao turismo (?).
É que deste lado compram-se muitas centenas todos os anos (mais os respectivos muitos milhões de euros em vencimentos) e do lado de lá não tenho conhecimento de uma única compra!

Seria interessante perceber como é que clubes/SADs tecnicamente falidos que têm dívidas de bem mais de 500 milhões de euros que não param de crescer todos os anos, conseguem obter o crédito (dinheiro não têm) para comprar mais do que vendem, gastando invariavelmente mais do que recebem. E os saldos negativos são de muitos milhões de euros!...
Como é que isto é possível? De onde vem o dinheiro? De direitos de transmissão televisiva hipotecados para 8/12 anos? E mesmo assim com o prejuízo sempre a aumentar?
Será que a crise não passa pelo Futebol?

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Federações desportivas e certificação da qualidade

Seja pela globalização dos mercados e consequente aumento concorrencial, seja pela maior consciencialização e exigência de qualidade dos serviços e produtos por parte dos consumidores/utentes, a realidade da certificação da qualidade de organizações, instalações e serviços está hoje de pedra e cal e com grande margem de progressão.
Para quem trabalha nos domínios da gestão não será novidade a referência ou a adopção de modelos ou sistemas de gestão de qualidade, tais como os da European Foundation for Quality Management - EFQM - ou da International Organization for Standardization - ISO - , assim como a utilização de diversas ferramentas de gestão aplicadas à qualidade e à estratégia como a análise SWOT ou o Balanced Scorecard (BSC).


Entre nós, surpresa ou novidade, será equacionar a aplicação daqueles modelos às organizações desportivas, ou então a criação de outros, para a respectiva certificação de qualidade.
Há dias, em solo catalão, assisti a uma palestra onde foi explanada a implementação de um programa de qualidade da gestão das entidades desportivas da Catalunha criado ex novo pela Generalitat de Catalunya e com aplicação apenas nesta região. Tal acção foi da iniciativa do Instituto Nacional de Educação Física da Catalunha (INEFC), instituição que merece destaque não apenas pelas suas magníficas instalações decorrentes dos Jogos Olímpicos de 1992, mas por representar o último resistente, tal qual os “irredutíveis gauleses”, do ensino superior da área da educação física que permanece na dependência do Governo Autonómico e não da Universidade neste caso a de Barcelona, apesar de parcerias com ela estabelecidas. Como tal, o INEFC é um cooperante activo da política do Governo da Catalunha e um exemplo muito interessante de conhecer e seguir para os portugueses que normalmente advogam a independência entre a Universidade e o poder político, ainda que a actuação de algumas destas instituições represente, por vezes, a continuidade e a ramificação desse mesmo poder político.


Voltemos às políticas do Governo da Catalunha para a melhoria da qualidade das entidades desportivas da região e ao respectivo modelo de certificação de qualidade de gestão. Ainda que a intencionalidade política seja a de abranger as entidades desportivas, as infra-estruturas e equipamentos desportivos e os produtos e serviços, nesta fase apenas se encontra em implementação a que respeita às federações desportivas. Processo este que no nas palavras de Anna Pruna, Secretária-Geral do Desporto visa incentivar o conjunto de Federações a adoptarem sistemas de gestão baseados em critérios de excelência organizativa e de qualidade e que se centrem principalmente nas acções que realizam para definir, planificar e dirigir as estruturas de trabalho e sistemas organizativos. Para tal, os requisitos básicos que as federações têm de cumprir para obter a certificação nada têm de transcendente: implementação de mecanismos que permitam a melhoria contínua da gestão da organização, o estabelecimento de resultados mensuráveis com base em dados objectivos, e dispor de um plano de futuro da federação inovador e liderado pela respectiva direcção.
O que mais me impressionou foi a tentativa de desburocratizar, a cooperação na preparação de todo o processo entre a administração pública e as federações desportivas e o consequente financiamento para um período de 3 anos, findo o qual voltam a rever tudo. Desde o início do processo efectuam reuniões conjuntas com protagonistas de diferentes funções e níveis hierárquicos para efectuar o diagnóstico e planear os programas e acções a desenvolver (ver o guia para a certificação de qualidade das federações desportivas). Não se cinge a uma relação administrativista, como a que transparece da realidade portuguesa, tantas vezes relatada pelos nossos dirigentes e bem demonstrativa para quem consulta o Diário da Republica (são às dezenas e dezenas os contratos-programa de desenvolvimento desportivo que se repetem sucessivamente, seja para os cumprimento dos duodécimos, seja para a publicitação do contrato anual. Quantos recursos dispendidos todos os anos em prol de uma administrativização pouco promotora da qualidade dos processos gestionários internos federativos).

Em suma, as federações desportivas catalãs que queiram obter a acreditação de qualidade de gestão desportiva apresentam a solicitação ao Conselho Catalão de Desporto, juntando documentação de uma entidade de avaliação que certifique o cumprimento dos requisitos e parâmetros de qualidade estabelecidos na norma de aplicação e aguardará a avaliação por uma comissão especializada e a ulterior deliberação do Conselho acima referido.
Transpondo para a nossa realidade, será exigir muito que as nossas organizações desportivas, designadamente as de maior dimensão e complexidade organizativa como as federações desportivas, comecem a trabalhar respeitando e cumprindo critérios de qualidade da sua organização e dos seus serviços, e não apenas respeitando a estrita execução burocrática de relatórios e mais relatórios, de contratualizações e mais contratualizações tipo?

terça-feira, 6 de julho de 2010

A precariedade comum do que se gasta

Está tudo ao contrário. Nos escaparates das livrarias os espaços de vendas de livros estão cheios de títulos sobre o modo como obter sucesso. Mas são raros os que tratam do modo como enfrentar o fracasso. E nos primeiros sucedem-se as mil maneiras de ganhar dinheiro. Mesmo quando o mais importante é saber poupá-lo.
Antigamente a economia ensinava que o dinheiro, um bem escasso, carecia de uma cuidada utilização. Mas quando aquele bem escasso passou estar à guarda dos bancos e estes, subordinados à lógica dos mercados financeiros, se transformaram em casinos, tudo se alterou. De tal maneira que os economistas passaram a tarólogos. As suas previsões nem sempre batem certo. Mas há uma previsão que é infalível: depois de uma crise a calma regressará. Valha-nos isso.
Especialistas à parte o certo é que o futuro se joga num quadro de incerteza. E num cenário de escassez. Tal não obsta que o governo faça como Luís Filipe Vieira: se for preciso ainda nos vamos endividar mais. Keysianismos à parte o “nos” – em Vieira e no governo - é retórico. Quem se endivida não são os autores da acção. Não são capitais próprios que estão em risco. É dinheiro dos outros.
É provavelmente o que explica que, num quadro de escassez de recursos, se multipliquem os eventos desportivos internacionais e as candidaturas não abrandem. Não comungo a ideia de uma espécie de abstinência ou dieta forçada ao acolhimento e/ou participação em grandes eventos desportivos internacionais. Mas a situação financeira do país não exigiria uma definição de prioridades? É tudo igual? Para o país o acolhimento a um evento internacional do ciclismo tem a mesma importância que um de Judo? O atletismo tem a mesma a importância que o basquetebol? A orientação “vale” o mesmo que o motociclismo? E o andebol esse sempiterno depredador de recursos cujo sucesso internacional é como os amanhãs que cantam?
Bem sei que colocadas as coisa assim não é bonito. Afinal todas as modalidades são importantes. Mas só para elas. Porque a verdade é que são diferentes os seus interesses, e componentes comerciais. É distinta a importância e valor desportivos. É diferente o contributo económico. Por tudo isso o interesse público não pode ser o mesmo. Ou pelo menos o posicionamento das entidades públicas não deve tratar como igual o que é diferente.
É muito interessante ouvir dizer que o país não pode parar. Que não podemos ter uma atitude de permanente pessimismo e de derrotismo. Que é preciso puxar pela pátria. Acompanho com interesse os casos notáveis de empreendorismo que vão surgindo. Sobretudo aqueles que o são sem a ajuda protectora do dinheiros dos contribuintes ou do amigo ou camarada no aparelho de estado. Os que arriscam o que têm. Mas desconfio de uma lógica que arrisca sempre com o dinheiro dos outros. Dos negócios que são feitos à custa do suposto interesse publico. Das avaliações à “bdo” com interesses claros no aparelho de estado e onde não há qualquer pudor de incompatibilidades com a respectiva carteira de negócios.
Num quadro de escassez de recursos a ausência de planeamento nas escolhas públicas vai determinar uma opção não selectiva. Passa a valer quem mais pode influenciar os centros de decisão. Existem dúvidas. Consultem-se os relatórios de execução orçamental. E o modo como são canalizados os recursos públicos para os “eventos”. Qual é a lógica? Qual é o sentido de interesse público? Que relação existe entre o que se faz e o propósito governamental de “reforçar a aposta nos eventos desportivos que promovam Portugal, qualifiquem o desporto nacional e incentivem os cidadãos à prática desportiva, em cooperação com a estratégia do turismo e da economia” ?
Podem criar leis, normas, programas, orientações e o que mais houver. O problema persistirá. Ele reside no modo como os titulares de cargos públicos gerem os recursos que têm à sua disposição. E as justificações que (não) apresentam para o gastar como gastam.
E.T.A leitura do Diário da República de hoje actualiza este post.Um milhão de euros é quanto a administração pública desportiva passa para a Parkalgar.É obra!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

À flor da pele

Durante os últimos meses fiz um longo e aturado exercício de silêncio e uma saudável cura de contenção e renúncia. Por motu proprio, exilei-me e pus-me a salvo da vozearia delirante, ensurdecedora, imbecilizante e entontecedora que se abateu sobre a vida da nação. Ou seja, cuidei de evitar o contágio da fétida e lamacenta torrente que se apoderou dos programas televisivos e de não poucas páginas de jornais consagrados à participação portuguesa no Campeonato Mundial de Futebol.

1. Gosto imensamente do futebol e dos símbolos, significados e valores que ele, enquanto desporto, encerra, promove e exalta. Por isso mesmo não alinho e pactuo com o panorama mediático que à volta dele se instalou em Portugal, asfixiando e deixando na ignorância e abandono o teor cultural e civilizacional do jogo.
De tudo quanto é lura saem figuras do jet set postas em bicos de pés; encontram nos media as portas escancaradas de par em par, para se entregarem à bitaitada mais estapafúrdia e à irracionalidade mais absurda. É um fartar vilanagem! Salvo raríssimas excepções, não têm obra de vulto ou méritos reconhecidos no seu campo de origem (economia, cinema, artes, direito etc.), mas os media oferecem-lhes o pasto alimentício do auto-convencimento, da inflamação de egos sem consistência, da proclamação das suas insustentáveis ambições e da sublimação das suas pesadas frustrações. Vidas ocas, rasas e vazias são apresentadas como culminâncias de virtudes e fontes de admiração e inspiração. Num ápice, por obra de uma qualquer varinha ou poção mágica, tornam-se peritos no futebolês. Não têm noção do ridículo, nem eles nem quem os acoita. Adulam-se e incensam-se uns aos outros, tomam-se a sério e julgam-se a si mesmos sábios na comédia burlesca de traçar cenários e tácticas, debitar conselhos e estratégias, proferir sentenças e vaticínios, lavrar censuras e despedimentos.
O Mundial da África do Sul tornou, uma vez mais, claro que ex-jogadores sem preparação intelectual para a função não podem ser técnicos. A lição vale igualmente para esta espécie de analistas e escribas de pacotilha e para os seus anfitriões e compadres; mas eles recusam-se a aprendê-la, não é para eles. São ‘sabichões’ da bazófia e empáfia, emplumados e inchados de generalidades, superficialidades e vulgaridades, sempre disponíveis para escrevinhar, discorrer e falar acerca de qualquer coisa, sobretudo acerca do que desconhecem.
Promovidos a figuras públicas, estes sujeitos são-nos impingidos a toda a hora, de um modo tão ardiloso e cavernoso que os cidadãos comuns se deixam alienar, anestesiar e sujeitar à necessidade da sua existência e presença. Já não se passa sem eles, ignorando que custam dinheiro – e muito! Implanta-se assim também nos meandros do futebol o estilo de vida fácil, com ampla aceitação, difusão e prática em todo o contexto nacional. Há uma elite artificial e mediaticamente criada e imposta em todos os sectores. Vive à vara larga, à lauta e à francesa, de maneira escandalosa, imoral e nababesca. Sai muito caro sustentá-la! Todavia a maioria das pessoas arca com mais esse fardo sobre os seus ombros, sem se dar conta disso, tão natural e espontaneamente como respira.

2. A aventura da nossa selecção na África do Sul chegou ao fim, antes do tempo que todos desejávamos. Não vou perorar sobre o fundamento das expectativas, nem sobre o terreno movediço das ilusões. Fomos tão longe quanto nos foi possível, tal como os outros concorrentes.
Ganhar num palco que concita as atenções e olhares de todo o mundo é uma rara e doce iguaria ou sobremesa que, por isso mesmo, só vai à mesa dos privilegiados e sortudos - e em dias de comemoração especial. Pelo contrário, perder é como levar um violento sopapo no estômago; dói muito se somos nós os atingidos, mas não nos lembramos disso quando a dor é alheia.
É, pois, desejável e possível temperar os excessos e as feridas da paixão com uma aconselhada pitada de razão. Se assim não for, ganhar pode ser uma forma de vir a perder. Ao invés, se assim for, perder converte-se num método e começo de aprender.
Se compararmos o aspecto, a cara e o ar dos nossos futebolistas de ontem e de hoje, verificamos de imediato diferenças notórias. Os de agora parecem fedelhos, acabados de sair dos cueiros, sem rugas num rosto infantil, protegido por creme e pó de arroz, com a pele recoberta de tatuagens e com brincos a brilhar nas orelhas. No entanto são iguais aos seus predecessores no desejo e no gozo de vencer, na festa e orgulho da vitória, na tristeza e no acabrunhamento da derrota.
Não confundamos as coisas: as estrelas actuais ganham muito mais do que as de antanho, algumas são pagas a peso de oiro, extraído na fundura do nosso aparentemente irremediável desconserto passional. Contudo os sentimentos equivalem-se, face ao desfecho do jogo.

3. Não é fácil encarar e digerir o panorama da derrota, com as bandeiras enroladas, os ajuntamentos desfeitos, o nacionalismo e o patriotismo murchos, as exaltações destroçadas e as gargantas caladas. (Para piorar o ambiente também o ‘nosso’ Brasil foi atirado pela borda fora). Porém o país e os seus problemas continuam aí, sem tirar nem pôr, reclamando um redobrar da nossa atenção, dedicação e compromisso. Ao nosso redor multiplicam-se os olhares de aflição e amargura, os dramas e as expressões do desespero.
Isto deve levar-nos a acordar para a realidade e a adquirir a convicção e (porque não?) certeza de que um campeonato do mundo de futebol, por mais que nos empolgue e absorva, não supera a importância da vida e a competição pela sua dignidade. A curto prazo teremos a oportunidade de disputar outro campeonato. No quadro quotidiano da existência não nos faltam desafios para enfrentar, já hoje, aqui e agora.
Os governantes, os políticos, os interesses, os poderes e os comentadores de plantão querem roubar-nos qualquer réstia de alegria. Deus – ou alguém em Seu nome – mandou escrever que não nascemos apenas para trabalhar; ordenou que houvesse Domingos e dias santos destinados ao lazer e ao ócio, à recriação e santificação da vida. Os donos deste tempo querem sobrepor-se à determinação divina, acabar com os feriados e reduzir-nos a bestas de carga da ganância e indecência ultraliberais. Exibem tanta preocupação e zelo com a situação do País! Porque é que não instituem um dia consagrado à celebração da vergonha na cara?
Sim, muitos e graves desafios mantêm-se à nossa espera. Estamos em vésperas de eleições e escolhas; e afundados em convulsões e crises que, antes de serem económicas e políticas, são éticas e morais. Como bons, abnegados, bem comportados, crentes, ingénuos, modelares, persistentes e louváveis portugueses, continuamos prontos para atingir a excelência no desempenho do nosso fado e sina, da nossa mais genuína e atávica profissão: a esperança.

domingo, 4 de julho de 2010

2018

Mais um texto de Luís Leite que a Colectividade Desportiva agradece.

Chegados ao ponto em que estamos, isto é:
um país completamente endividado tanto no sector público como no privado;
em que os políticos responsáveis e irresponsáveis mentem sempre que lhes dá jeito a eles e ao partido;
em que as gerações futuras estão completamente hipotecadas;
em que o empobrecimento da classe média é o único futuro credível;
em que não existe uma única ideia dos políticos para efectivamente desenvolver os sectores primário e secundário para nos tornarmos mais produtivos;
em que a Justiça e a Educação não funcionam ou são a fingir, o grande desígnio nacional é a candidatura conjunta com a Espanha ao Mundial de Futebol de 2018.
Pergunta-se: Para quê?
Responde-se: para dar visibilidade e prestígio à Pátria (leia-se: para poder obter-se financiamento público para a remodelação dos Estádios do Euro 2004, que com 14 anos de vida estarão a precisar de grandes obras de manutenção e adaptação funcional e tecnológica às novas exigências da “verdade desportiva”).
Lembra-se que, por essa altura, os clubes/SADs portugueses estarão (já estão) completamente falidos e inviáveis, tal como o próprio país e provavelmente a dita União Europeia.
Mas teremos o TGV, para os lisboetas e madrilenos se poderem deslocar em 2 horas e meia a fim de assistirem ao vivo aos jogos do Mundial e regressarem a casa no mesmo dia.
Viva Portugal!

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Mais futebol e menos conversa

Por vezes somos tentados – incluindo-me naturalmente no colectivo – a olhar a localização do futebol no todo desportivo nacional como algo que, em alguma medida, só nos afecta.
Em meu abono devo dizer que, em todas as matérias, sempre vou adiantando – particularmente aos alunos – que a nossa vivência não é positiva mas (sempre este mas) não estamos isolados e o vírus percorre um número bem significativo de sociedades e países.
As peripécias nacionalistas deste Campeonato do Mundo de Futebol têm tido contornos quase esquizofrénicos.
De todo o modo, há algo que deve ser dito, em abono de uma verdade (?) sociológica: é assim que as pessoas o sentem, quer queiramos, quer não, e os políticos acabam por reforçar esse sentir.

Por cá, o responsável (?) governamental pelo desporto tem acompanhado intensamente a performance da selecção.
A respeito das declarações de Deco sobre as opções tácticas e técnicas do seleccionador, foi lesto a ditar: «Mais futebol e menos conversa».
Intervenção decisiva para a nossa robusta vitória sobre a Coreia do Norte.
Já antes tinha adiantado que o resultado do primeiro jogo tinha «sabido a pouco».
E rematou: “os portugueses têm que confiar no trabalho do Sr. Queirós e dos 23 jogadores que ele escolheu para representar o país neste grande certame internacional”.
Para ontem o mote estava dado por Laurentino Dias: Cristiano Ronaldo é o maior trunfo da selecção portuguesa e, por outro lado, espera que Portugal e Espanha façam “um grande jogo de futebol” na próxima terça-feira, até porque concorrem juntos à organização do Mundial2018.

A verdade é que a «participação no jogo» de Laurentino fica muito aquém do que se passou (e ainda se passa) em França.
Nesse país, o Mundial é – literal e materialmente – assunto de Estado.
Nicolas Sarkozy recebe Henry, de urgência, no retorno a França (o jogador deixou o aeroporto num carro da presidência). Para garantir a audiência, Sarkozy cancelou mesmo uma reunião com as organizações não governamentais (ONG) que tinha sido convocada para debater as posições francesas nas reuniões do G8 e do G20. Foi de imediato criticado por dar "mais importância" ao futebol do que à "situação de três mil milhões de pobres nos países em desenvolvimento".

O presidente exige responsabilidades e anunciou “uma futura reflexão mais profunda e completa sobre o futebol na França”.
Exigiu ao seu executivo "garantias aos ministros para que os responsáveis assumam rapidamente as consequências pelo desastre". O presidente da federação francesa já se demitiu.
Haverá uma reflexão conjunta sobre o futebol francês – mais Estados Gerais – e a partir das conclusões, o Governo empreenderá uma reflexão mais geral sobre a governança das federações desportivas (porquê de todas?).

E em Itália?
Berlusconi, conhecido treinado da AC Milan, parece estar mais calmo. Numa conferência de imprensa, durante a reunião do G-8 (grupo dos países mais industrializados do mundo), no Canadá, afirmou que “ninguém ousou” falar no G-8 sobre derrota da Itália.
Mas, sem demoras, o Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Tarcisio Bertone, falou sobre a eliminação da Itália:"agora há muitos acusadores, mas nós devemos procurar uma nova equipa e um novo treinador".

Parece-me difícil negar a força do poder do futebol, em particular, restringindo-nos à Europa, nos países do sul.
Tal poder, convivendo com os outros (o político, o económico e o dos media), assume uma natureza transversal e, dessa forma, redobrando o seu vigor, vai determinando parte substancial da nossa vida colectiva.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Lugares comuns

Uma das afirmações que inunda as teorias da gestão (… e da politica) é a de que uma má decisão é sempre preferível a uma não decisão. Mas não é verdade. Um má decisão pode ter efeitos mais negativos que o seu adiamento. E não é preciso ir buscar exemplos. Mas a afirmação contém um outro problema: eleva o praticismo a critério de mérito.
Nos momentos de crise, de impasse ede crispação é natural que a impaciência se instale. E a impaciência só se sacia com resultados imediatos. O voluntarismo e a pressão podem empurrar para soluções imediatistas do tipo “devagar nunca se chega ao longe”. É neste terreno que crescem os práticos ou os desenrascados, como também são conhecidos.
O desenrascanso é, muitas vezes, sintoma de pouco rigor. De fazer por fazer. De idolatria pelo lado prático sem cuidar do resultado. Tal conduta não é necessariamente um mérito. O activismo pode esconder a ausência de conhecimento ou de estratégia sobre o melhor modo de enfrentar um problema. E pode não ser a melhor solução para esse problema.
O activismo nada tem a ver com o pragmatismo. É o oposto. O pragmatismo resulta da experiência e do conhecimento acumulados. O saber que não basta fazer. Que é preciso fazer bem. Mas que fazer bem é distinto de fazer muito bem. E que é preferível fazer bem, do que, por vezes, aguardar as condições óptimas para fazer muito bem.
O activismo revê-se apenas na acção independentemente do seu resultado. É forma sem conteúdo. O pragmatismo focaliza-se no resultado. É conteúdo sem descurar a forma.
A vida desportiva é um terreno fértil ao desenrascanso. Está dominada pelo imediato e pelos resultados. E convive mal com o insucesso. Mas o insucesso existe mesmo antes que os meios de comunicação reparem nele. E persiste quando já lhes deixaram de dar atenção. Viver a tirania do presente é aceitar a irresponsabilidade organizada. E é disso que se alimenta o desenrascanso.
Uma casa demora sempre mais tempo a construir que a demolir. E com as pessoas e as organizações passa-se o mesmo. Uma instituição desportiva é como uma mata: demora anos a crescer. Mas pode desaparecer em breves momentos.
A expressão competitiva de um talento não é imediata. A obtenção de resultados duráveis requer a construção de uma base de sustentação que demora vários anos. Mas a sua queda ou perda de qualidade pode ser brusca e instantânea.
Nas pessoas e nas organizações a pressa é inimiga do sucesso. Não é possível colher amanhã o que se semeou ontem. Quem assim pretenda está a enganar-se.
As organizações e as pessoas que crescem num ambiente de constantes adaptações normativas ou de regras de procedimento têm mais dificuldades em obter sucesso. Estar sempre a mudar não é positivo. A ausência de estabilidade e de rotina não são favoráveis. As crises e as mudanças bruscas só são janelas de oportunidade para poucos. A maioria fica pelo caminho. Mas é também aqui que reside o paradoxo.
Uma política desportiva é, como toda a política, a passagem do conhecimento rudimentar ao elaborado. Exige tempo e mediações. Objectivos claros, prioridades e meios de avaliação. E não pode ser de vistas curtas e viver apenas do imediato, do presente. O caminho de fazer por fazer, ou de repetir o já feito, deixar-nos -à permanentemente insatisfeitos. Mas o mudar por mudar não garante que o resultado seja diferente. Este estado de coisas e esta ambivalência esconde, afinal, em muitas circunstâncias, a ausência de visão e de estratégia.
A nossa vulnerabilidade está menos em apreciar leis, normas e diplomas e mais em definir uma politica de oportunidades que leve em linha de conta as necessidades, as capacidades e os recursos. O jeitinho especial para a “política fingida”- deixar os acontecimentos seguir normalmente e depois falar sobre eles de acordo com os estados emocionais criados pela comunicação social - também não ajuda.
O movimento desportivo vive em hemodiálise: sobrevive dependente das políticas públicas. As políticas públicas transformaram-se aos poucos numa penosa administração de trivialidades. Presta atenção excessiva a acontecimentos - como a modernização legislativa -com baixa probabilidade de alterarem a realidade desportiva nacional e menospreza acontecimentos que de forma rotineira marcarão o nosso futuro desportivo: o modo como se trabalha no desporto.

domingo, 27 de junho de 2010

Gestão e Direitos Desportivos

Podia-se ler ontem no jornal diário "A Bola" e também por alguns sitios da internet que equipas do distrito de Bragança na modalidade de Futebol de 11 tinham ganho o direito dentro de campo de subir do Campeonato Distrital à 3.ª divisão Nacional, mas por razões relacionadas com opções de gestão e estratégias, tinham recusado, preferindo manter-se nos distritais. Aliás...tanto quanto é possível averiguar, não tinha sido apenas uma equipas, mas quatro.

O jornal 'A Bola' incluia ainda que razões relacionadas com as deslocações e as despesas que isso implica tinham estado também na base da decisão.

A notícia pode não ser virgem, nem ficará por aqui em termos de seguidores. Na verdade, em outras modalidades colectivas já tinha acontecido o mesmo, especialmente na Liga Profissional de Basquetebol onde não se tratava apenas de direitos desportivos mas também requisitos económicos.

A particularidade da notícia poderá estar em saber nas próximas temporadas desportivas quantos casos irão suceder em moldes semelhantes. É verdade que o distrito de Bragança tem maus acessos e a deslocação a um outro local acresce em muito despesas com combustível, tempo e outros custos. Os clubes, associações ou outro tipo de entidades do distrito de Bragança queixam-se das dificuldades diárias, quer em encontrarem apoios quer na capacidade de auto-sustentar a sua actividade.

O desporto não é um caso isolado. Longe disso mesmo. Não se tratam de suposições, mas tudo caminha para que os efeitos colaterais e até bastante directos da crise social, económica e financeira afecta cada vez mais hábitos desportivos, quer ao nível de decisões quer ao nível de um futuro a curto-médio prazo.

Como tudo, as crises podem ser uma boa oportunidade para algo. Neste caso, as decisões quando tomadas com base em decisões de gestão ou estratégia de sobrevivência pressupõem que alguém dedicou um x tempo para tal. Quase com uma pontinha de ironia, diria se estes exemplos chegam a alguns clube profissionais, poderemos ter um desporto melhor no futuro, mais real. A aprendizagem de algumas ferramentas sempre foram fundamentais para um desporto melhor. A necessidade pode criar hábitos, neste caso, bastante positivos.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Fica o aviso

Os montantes e a complexidade da circulação dos fluxos financeiros envolvidos nas actividades de intermediação, representação e agenciamento de atletas propiciam o florescimento de práticas ilegais e negócios desportivos pouco transparentes. Neste processo o agente ou empresário desportivo ocupa um lugar central.

De acordo com um estudo recente da Comissão estima-se existirem mais de 6000 agentes desportivos em exercício no território europeu a operarem em 32 modalidades desportivas, sendo que 95% estão ligados às quatro modalidades com maior relevância comercial na Europa - futebol, basquetebol, râguebi e atletismo. O impacto económico desta actividade, só no futebol, cifra-se num valor de 200 milhões de euros anuais em comissões de transferência.

Nestes termos, e tendo em consideração o árduo e longo percurso trilhado pela FIFA junto da Comissão e do Tribunal para implementar um quadro regulador compatível com o direito comunitário, no firme propósito de controlar práticas fraudulentas através de um sistema de licenciamento para os seus agentes; o anúncio da FIFA se afastar do actual regime de licenças e liberalizar, a partir de 2012, a intermediação de jogadores num processo “free for all” - gerido por clube e atleta, no qual escolhem livremente o seu agente, não carecendo este de estar licenciado, e se assumem responsáveis por conduzir a transferência no cumprimento das normas legais - representa um rotundo fracasso das federações nacionais em fiscalizarem a aplicação dos seus regulamentos, uma vez que apenas 25% das transacções eram efectuadas por um agente devidamente licenciado.

É evidente que os alarmes soaram bem alto. Não apenas nas associações representantes de agentes e das ligas europeias de futebol, mas também do poder político. Recorde-se aqui que também a União Europeia tinha considerado “...que a actual realidade económica em torno dos agentes dos jogadores impõe que os órgãos dirigentes do futebol, a todos os níveis, e após consulta à Comissão, melhorem as regras aplicáveis aos referidos empresários; a este respeito, exorta a Comissão a apoiar os esforços da UEFA no sentido de regulamentar a actividade dos agentes dos jogadores, se necessário, mediante a apresentação de uma proposta de Directiva relativa a esta categoria profissional” (§44).

Manifesta a incapacidade das federações em auto-regularem nesta área - em parte devido aos condicionamentos na supervisão e sanção, civil ou penal, para o controlo efectivo de uma actividade económica, que afecta direitos fundamentais, e se encontra na incumbência das autoridades públicas -, mas tendo também em equação a pluralidade de soluções nos ordenamentos jurídicos de cada Estado membro (Portugal é um caso minoritário de legislação específica neste domínio, e com casos levados às instâncias judiciais) sobre uma actividade com uma forte incidência na gestão transfronteiriça de recursos, o Parlamento Europeu ciente de que “afastar o actual sistema de licenças da FIFA para os agentes de desportistas sem estabelecer um sistema alternativo robusto não seria a forma adequada de tratar dos problemas que rodeiam os agentes dos jogadores no futebol” votou favoravelmente no passado dia 17 uma proposta de resolução na qual, preto no branco, sustenta uma “abordagem coerente” e uma via harmonizadora para o conjunto da UE, instando a uma iniciativa da Comissão para introdução de um sistema europeu de licenciamento de agentes.

E não se trata de uma proposta vaga ou difusa. O ponto 18 entra, sem prévia genuflexão, na sacrossanta reserva de autonomia do movimento desportivo e define claramente as regras. O aviso fica lançado: Quando os principais responsáveis pela regulamentação desportiva falharem a UE não se limitará à difusão de boas práticas, a coordenar e estimular a convergência em torno de posições comuns ou a promover o diálogo, mas irá assumir sem hesitação as suas competências de regulação sempre que tal for necessário.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Memorial de um povo


A maior homenagem à língua portuguesa e à alma lusitana está, porventura, contida no romance Comboio Nocturno para Lisboa, escrito por Pascal Mercier, pseudónimo literário de Peter Bieri, um suíço, Professor de Filosofia, residente em Berlim (o livro é editado em Portugal pelas Publicações Dom Quixote). O escritor encanta-se com a ductilidade, leveza, graciosidade e sonoridade, com a doçura e suavidade da língua portuguesa e com o seu poder para nos tornar arqueólogos de nós mesmos. No fundo, maravilha-se com uma língua dotada da propensão para instalar no desassossego e mistério, na meditação e reflexão, na melancolia e saudade, na inquietude, interrogação e indagação, na dúvida, na errância e no misticismo, na pergunta e procura permanentes do que não somos nem temos, para projectar, criar e desvendar irrealidades que tanta falta nos fazem. Uma língua que é um modo de dar sentido e forma verbal e sentimental a um viver em profundidade e autenticidade a existência humana.

O ponto de partida é dado por uma cena, em Berna, na qual uma mulher agradece ao protagonista um gesto de socorro, numa língua que ele não entende. Por isso pergunta que idioma era aquele. Ao ouvir, como resposta, ‘português’, esta palavra gera nele uma “claridade crescente” e sussurra nos seus ouvidos uma melodia que “perdurou muito mais tempo do que na realidade e que ele simplesmente gostaria de ter escutado durante todo o resto do dia”. Vai daí, dirige-se de imediato a uma livraria, indagando se haverá ali, por acaso, algum livro em português. O gerente descobre um com este título sugestivo: O ourives das palavras. O cliente pede-lhe que traduza algumas passagens. O encantamento é instantâneo: nessa mesma noite apanha um trem para Lisboa, tentando descobrir o rasto e as circunstâncias do autor.
Aquilo que descobre, na sua deambulação e peregrinação por Lisboa e pelos meandros da inquietação tão tipicamente lusitana, convida-o a interrogar: “Como é que podemos ser felizes sem a curiosidade, sem as perguntas, dúvidas e argumentos? Sem o prazer de pensar?” E, depois de melhorar o conhecimento da nossa intimidade e da nossa maneira de ser e estar, chega a esta conclusão: “Sabes que mais, o pensar é a segunda coisa mais bela. A mais bela é a poesia. Se existisse o pensar poético e a poesia pensante, podes crer que isso seria o Paraíso”.

Pascal Mercier parece eleger especialmente Fernando Pessoa como ‘o ourives das palavras’, que perfazem ‘o pensar poético e a poesia pensante’. Mas essa avaliação contempla igualmente a vasta plêiade de nomes insignes em que a literatura de língua portuguesa tem sido fértil. E não será exagero afirmar que José Saramago é o artífice que congrega em si – e em nível elevadíssimo, esplendoroso, excelso, magnífico e fulgurante – a arte que tantos ourives da nossa língua elevaram ao expoente máximo nos últimos 150 anos: Eça de Queirós, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Raul Brandão, Teixeira de Pascoaes, Guimarães Rosa, Vergílio Ferreira, Carlos Drummond de Andrade, Miguel Torga, Jorge Amado e tantos outros.

Na esteira deles e indo mais atrás ao Padre António Vieira, José Saramago, inflamado pelo telurismo de um génio barroco, recriou a língua portuguesa como uma delicada e finíssima filigrana; creditou-lhe um estatuto com dimensão e respeitabilidade universais. Mais ainda, com esforço titânico recriou, no plano mundial, o romance, isto é, o género da literatura que, há alguns anos, se apagava em agonia e muitos especialistas de renome internacional julgavam condenado à extinção. Para tanto Saramago, neto e filho de camponeses analfabetos, introduziu no romance o questionamento histórico e filosófico. Logo ele que não chegou a concluir a escola secundária!
Saramago reinventou e redimiu, sobretudo, Portugal. Trouxe-o de novo para a vanguarda dos que sonham um futuro melhor para o mundo. Com 23 letras escreveu palavras, frases e livros que nos arrebatam para o sublime e revelam a idiossincrasia de um país constituído por ‘levantados do chão’, por amanhadores da terra, por auto-didactas, por indivíduos sem ofícios ensinados mas com todos aprendidos, por gente animada de uma inigualável transcendência espiritual e anímica. São essas criaturas simples que habitam dentro dele, vivem nos seus textos e ele leva comprometida e ternamente pela mão até ao fim.
Sim, ele representa e renova, com a sua vida, com os seus escritos e personagens, a trajectória de um povo desmedido, messiânico, misterioso e sebastianista, que se alimenta de lendas, de mitos, utopias e ânsias de milagres e condensa em si os vários heterónimos e rostos, as aspirações e agruras, as nobrezas e torpezas, os gigantes e anões, os altos e baixos, os feitos e defeitos de toda a Humanidade. Um povo ligado à terra de uma maneira visceral e que, não obstante isso, assume arrojada e convictamente uma vocação e missão aladas e as transforma em mensagem, derramada por todo o orbe numa ingente e transumana epopeia marítima.

Temos que fazer jus ao nosso nome, levantar-nos do chão, lamber as feridas como um ‘cão de lágrimas’, romper o cerco da cegueira com a luz dos sonhos, servir-nos de uma jangada de pedra para fugirmos às forças da alienação e exploração e nos juntarmos aos humildes tornados nossos iguais, empreender a viagem do elefante sem medo das intermitências da morte, libertar-nos da condenação ao fado de Caim e subir no céu como morteiros impulsionados pela pólvora do espírito e ousadia, para escrevermos, com a tinta do compromisso e decência, um manual de caligrafia da existência e deixarmos de nós um memorial do impossível.

Saramago aviva-nos a esperança e a fé numa Humanidade de astronautas determinados a seguir a vidente Blimunda (Memorial do Convento), a engarrafar vontades, o combustível apropriado para que a ‘passarola’ do Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão e os humanos se arranquem do chão da sujeição e levantem voo em direcção ao infinito. Incita-nos a sermos aprendizes do ofício de transformar o mundo com a alegria e a beleza durante toda a vida, a procurá-las, reverenciá-las e vivê-las com o fervor de uma oração.

Saramago acaba de passar para a outra margem e nós ficamos órfãos de um hermeneuta que enfrentou dogmas, reinterpretou evangelhos, rasgou a escuridão e deu livre curso à inteligência, à lucidez, à razão e rectidão. Foi-se embora um obreiro maior do tempo em que o Homem está absolutamente só, por sua conta e risco, obrigado a concluir o projecto da obra imperfeita, a ser o visionário, o arquitecto, o sujeito e o realizador do oitavo dia da criação. Intimado a fazer-se em grandeza, em ética e estética, em excelência e espiritualidade.
Calou-se a palavra e apagou-se a luz que, através de parábolas, da ironia, do desassombro, da compaixão e tomada de partido, nos mostraram a cegueira de uma realidade ilusória e profundamente anti-humana. Estamos mais sós, desencantados e perplexos; porventura abandonados ao desatino e à avidez descarada dos donos desta era suja, torpe, inestética e imunda.

Continuaremos a peregrinar sem saber quanto de Abel e Caim há em nós. E sem conhecer verdadeiramente o cornaca que se senta no nosso dorso de elefante. Mas…, enquanto tivermos memória, o nome de José Saramago constará do registo do nosso caderno e diário de bordo, a lembrar-nos a obrigação de nos mantermos sempre em estado de palavra.
Não esqueçamos que Saramago elegeu ‘NÃO’ como a palavra mais importante. Tenhamos, como ele, a coragem de a pronunciar contra o veneno insidioso do supérfluo e negligente, sempre que a dignidade humana é aviltada e ferida. Não aceitemos as verdades feitas e oficiais que, a toda a hora, nos querem impingir. Saibamos reagir como ele: “a dúvida é o privilégio de quem viveu muito, será por isso que não conseguiste convencer-me a aceitar como certezas o que para mim mais se parece a falsidades.” (José Saramago: CAIM, p. 49, Editorial Caminho, Lisboa, 2009).

A nossa resistência, aqui e agora, na arena e nas ameias da aventura existencial, há-de ser um contributo para a afirmação da necessidade e possibilidade de outra condição humana, de outra vida e forma de a cumprir. Para irmos ao encontro de José Saramago que, ao comemorar os seus 85 anos, apelou às “pessoas boas” e aos “amantes da beleza” para reagirem “contra a barbárie”, para não aceitarmos calados, resignados, abúlicos, viscosos e submissos um destino de ignomínia e anomia do distintivo humano. Estaremos vivos sempre e onde as nossas palavras forem o nome correcto e justo das coisas e dos factos. Ademais, lembra Mário Soares, “só é vencido quem desiste de lutar”.
José Saramago adverte-nos: “ao final, almocreves somos e pela estrada andamos. Todos, tanto os sábios como os ignorantes” (obra cit. p. 50). Todavia ele, no dia da sua morte, refulgiu nas alturas como uma estrela ainda mais cintilante, com uma auréola de perenidade, semelhante à imortalidades dos deuses.