segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O recrutamento e a gestão de plantéis

A silly season (termo utilizado para definir o período em que os clubes - neste caso de Futebol - podem adquirir jogadores) está para os agentes de jogadores de Futebol como o verão está para a hotelaria no Algarve.

É natural então perceber algumas das suas acções durante este período que termina amanhã, 31 de Agosto, pois o resto da temporada futebolística pode ser um marasmo – tirando o mês de Janeiro – onde a capacidade de investir por parte dos clubes é muito menor do que nos períodos do Verão, a chamada pré-época.

O que trago para a discussão do blog é a capacidade dos clubes resistirem à pressão que poderá ser feita de forma directa e indirecta por parte dos empresários, dado que estes combatem qualquer tipo de recrutamento ou planeamento de construção das equipas, ao impingirem jogadores aos pacotes, sejam eles resposta às lacunas das equipas ou não.

Não quero com isto impor algum tipo de culpa aos empresários pela desorganização que por vezes é bem visível na construção de um plantel das equipas, sejam elas grandes, médias ou de pequena dimensão. Porque por muita força, pressão ou desinformação que os empresários lancem, a última palavra será sempre a dos clubes, sejam eles representados pelos Presidentes ou Directores Desportivos e/ou para o Futebol. Para isso, e apesar da satisfação que a contratação de José Mourinho causou em Madrid, existem já algumas correntes contra o poder que um empresário português tem na actual equipa com a centralização de contratações por parte desse empresário.

Perceber contratações sem qualquer tipo de trabalho antecedente e depois observar jogadores que custam fortunas (grandes percentagens dos orçamentos para uma época) a serem facilmente descartados como aconteceu durante este fim-de-semana com um clube português despachou o 2.º jogador mais caro da sua história, quer por verbas irrisórias, quer por empréstimos, é de questionar toda a estratégia (?) ao nível da gestão quer desportiva quer financeira que os clubes possuem. Se possuem…

É de lembrar já há algum tempo quando o jogador português Paulo Sousa foi para a Juventus, o Director Desportivo da equipa italiana afirmou que já o ‘seguia’ e estudava os seus hábitos de vida há algum tempo de forma a diminuir ao máximo o risco de má adaptação e não corresponder às necessidades da equipa e do plantel. Como perceber nos tempos actuais que as regras mais simples de construção de equipas de trabalho e desportivas sejam deturpadas com entradas de jogadores, muitas vezes, contratados à lupa de DVD’s, jogos FM’s, e que durante o mesmo período entrem diversos jogadores para as mesmas posições, apenas porque o próximo será sempre melhor do que aquele que foi contratado há 1 ou 2 semanas?

Quantas histórias são conhecidas de contratações feitas com processos rocambolescos? E por mais incrível que possa parecer, continuam a acontecer? Pode-se entender que se seja surpreendido com a saída de um elemento da nossa equipa e não ter alternativas para o lugar? Talvez! Pode-se compreender que se dispense jogadores e depois não ter alternativas? Considero que não!

De que vale a pena falar em gestão desportiva, gestão de algo, quando os plantéis são construídos da forma que percebemos que o são? Acredito que hoje e amanhã hajam diversas pessoas dinâmicas…é abrir os links dos jornais desportivos para ver a quantidade de nomes novos que aparecem hora a hora? Um Director de um jornal diário desportivo dizia que nesta altura recebiam em média uns 50 telefonemas diários de empresários a ‘incutir’ diversos nomes para os clubes a ou b!

Como iniciei, a questão é saber quem gere o quê e quem faz de facto a gestão desportiva de um plantel!

domingo, 29 de agosto de 2010

Os blogues são importantes

O texto que segue é da autoria de Fernando Tenreiro cuja colaboração se agradece.

Fruto de um desejo particular, individual ou colectivo, de comunicar os blogues desportivos e os sites das organizações cumprem uma função primordial de apresentar as muitas e contraditórias perspectivas do nosso desenvolvimento desportivo.
Há dignas presenças e improváveis ausências no domínio do debate de ideias sobre o desporto português.
Falar do Colectividade Desportiva é relevante porque concretiza uma fluência e intensidade que outros blogues não atingem e é formado por Alfredo Silva, Carla Gil Ribeiro, Fernando Parente, João Almeida, João Gonçalves, Jorge Olímpio Bento, José Manuel Constantino, José Manuel Meirim, Maria José Carvalho, Nuno Fernandes, Nuno Parreira Castro e Rui Lança.
Jerry Silva é um blogue ‘a solo’ sobre o futebol que vale a pena ter nos favoritos e acompanhar, assim como, o Fórum Olímpico nas questões relacionadas com as questões olímpicas com Gustavo Pires e José Pinto Correia, José Pedro Sarmento, Salomé Marivoet, Sílvia Teixeira, Abel Correia, António Cunha, Assunção Pinto, André Escórcio, Paulo Stigger, Manuel Sérgio, Rui Biscaia, António Rosado e Vitor Pataco a assumirem o investimento.
Nos lugares institucionais o do Sindicato de Jogadores Profissionais de Futebol está em destaque pela matéria relacionada com a actividade da instituição e pelas opiniões expressas por Joaquim Evangelista (maestro da orquestra), Nogueira da Rocha, Gustavo Pires, Manuel Sérgio e Mario Gallavotti garantindo uma diversidade de opiniões de elevado nível. A recente abertura de um fórum no site da APOGESD constitui a esperança de um novo ente plural e dialogante com as vozes que insistem não aceitar o oblívio. A Associação de Atletas Olímpicos de Portugal é uma promessa por concretizar.
Estes blogues são posições independentes enquanto os agentes directos da política desportiva estão ensimesmados. A maior ausência estará nos sites institucionais públicos e privados que são distintos dos congéneres que se observam além-fronteiras e no exemplo do Sindicato de Jogadores. Neste domínio o secretismo das instituições desportivas portuguesas parece ser o carácter peculiar da política desportiva nacional.
É interessante notar igualmente a incapacidade do ensino superior do desporto alcançar o seu potencial e que não criou formas de diálogo inovador com a sociedade. As universidades são dos agentes desportivos os que possuem a maior capacidade científica e deveriam assumir a frente da divulgação do desporto nas perspectivas mais avançadas do mundo junto da sociedade e da economia portuguesa.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O que está mal no desporto português

Mais um texto - que se agradece - de Luís Leite.
Procuro acompanhar com interesse e atenção o Desporto internacional em todas as modalidades, mesmo aquelas que não são praticadas no nosso País.
Em resultado desse interesse / paixão que confesso pelo Desporto nas suas mais diversas facetas, sem querer mostrar ter “descoberto a pólvora”, decidi enumerar e dar a conhecer a minha opinião sobre o que faz falta ao Desporto português e o que o impede de apresentar resultados internacionais a um nível aceitável na maioria das modalidades, nas grandes competições.

Obviamente este não é um estudo com pretensões académicas, antes uma sensibilidade empírica, registada pela observação e contacto pessoal directo enquanto dirigente responsável pelas Selecções Nacionais de Atletismo durante 5 anos, concretamente em vários Campeonatos do Mundo e da Europa, e nos Jogos Olímpicos de Pequim. É também baseada nos inúmeros contactos mantidos enquanto dirigente desportivo, designadamente com a Administração Pública Desportiva, em organismos internacionais e na organização de grandes eventos internacionais, bem como na análise comparada com outros países europeus da nossa dimensão e, em parte, na estatística histórica dos resultados obtidos em grandes competições internacionais em muitas modalidades.

Assim, passo a enumerar, por ordem de importância decrescente, as principais causas da fragilidade do Desporto português:

1) Falta de cultura desportiva dos Órgãos de Poder, com particular incidência para os sucessivos Governos e Assembleia da República, com reflexos preocupantes ao nível executivo e legislativo;

2) Desporto escolar e universitário com importância e dimensão pobre ou insignificante, com consequências evidentes na falta de cultura (educação) desportiva, que se repercute na “clubite” e no reduzido “fair-play”;

3) Baixo nível qualitativo global do dirigismo desportivo por falta de formação e excesso de amadorismo, tanto na Administração Pública (SEJD e IDP) como nas organizações intermédias (COP e CDP), Federações, Associações e Clubes (não confundir com empenhamento, entrega, abnegação, disponibilidade, etc., que são apanágio, em geral, do movimento associativo de base);

4) Excessiva importância, altamente discriminatória, concedida pelos sucessivos Governos e pela Comunicação Social ao Futebol profissional, hoje com características empresariais, em detrimento do incremento tanto da prática e da cultura desportiva de base como do Alto Rendimento desportivo nas diversas modalidades, em particular as olímpicas;

5) Deficiente(s) sistema(s) de detecção e acompanhamento de grandes talentos, salvo raras excepções em determinadas modalidades;

6) Reduzida capacidade de financiamento público e privado para o Desporto, com uma preferencial canalização, muitas vezes disfarçada, para o Futebol profissional;

7) Errada política de financiamento e construção de equipamentos desportivos, com responsabilidades graves para a Administração Pública central, regional e local.

8) Errada política de financiamento público de eventos internacionais e excessiva confusão com o aparente “investimento” no Turismo, que serve para justificar o injustificável;

9) Reduzida participação da Universidade na investigação desportiva a todos os níveis, embora se registe uma melhoria nos últimos anos.

Enquanto estes factores permanecerem sem mutação, favorecendo-se o clientelismo político e o nivelamento por baixo em quase todas estas áreas, o Desporto português não terá condições para evoluir, sendo inúteis quaisquer expectativas mais optimistas.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A política de regulação de apostas desportivas online - III

A integridade do jogo é um interesse partilhado pelas organizações desportivas e pelos operadores licenciados de apostas online. Fonte de viabilidade do negócio para uma e aporte de credibilidade e confiança na governação desportiva para outra, ambas as partes têm cooperado no desenvolvimento de mecanismos de controlo, vigilância e alerta contra apostas ilegais, viciação de resultados e outras actividades criminosas. Também nesta vertente auto-reguladora, independentemente do regime legal aplicado em cada país, os operadores licenciados assumem a segurança do jogador/apostador como um princípio fundamental da sua actividade, de modo a proteger a privacidade, excluir os menores, limitar as apostas e prevenir a dependência do jogo através de uma diversidade de critérios, regularmente escrutinados por organismos independentes, essenciais para cumprirem com os padrões da principal associação representativa do sector e deste modo se constituirem como seus membros.

No entanto, a cooperação e parceria no reforço da segurança e transparência na consolidação deste mercado emergente termina quando está em causa a partilha das receitas geradas pelas apostas desportivas. As organizações desportivas, em particular aquelas que se situam mais próximas do desporto profissional e operam com maiores fluxos financeiros, estão cientes dos riscos reportados nos números referentes à sua saúde económica e sustentabilidade de um modelo de negócio cada vez mais apoiado pela exploração de direitos comerciais, em particular os direitos audiovisuais, os quais já não são vendidos por valores crescentes a uma escala exponencial como ocorria até há pouco tempo, não só por atravessarmos um período de crise - apesar de muitos ainda não terem disso tomado conta e persistirem no fausto - mas também pela emergência de plataformas alternativas à difusão tradicional de conteúdos, nomeadamente através de dispositivos móveis e da internet, ainda em fase maturação e particularmente vulneráveis a ataques de pirataria.

O mercado de apostas online surge assim como uma apetecível fonte de receitas… Para consolidar os mecanismos de combate à corrupção, reforçar os canais de solidariedade vertical através da canalização de verbas para os níveis desportivos mais elementares e apoiar os projectos desportivos de índole social e educativa… São os elementos elencados pelo desporto profissional como objectivos legítimos para reclamarem aos operadores de apostas o “justo retorno” financeiro pelo uso comercial que estes fazem dos seus direitos de exploração de competições desportivas e à UE a protecção dos direitos de propriedade intelectual dos grandes eventos desportivos. É este o caderno de encargos que, um e outro, dos principais representantes do desporto profissional apresentaram a Bruxelas, dando como exemplo de referência a recente liberalização na regulação de apostas em França e a relação que aí se estabelece entre operadores de apostas e organizadores de eventos desportivos na sua exploração, com as alterações que tal provocou no Código do Desporto francês. Matéria, aliás, controversa no plano jurídico como se atesta na discussão e no relatório do Senado.

Sem surpresa os representantes dos operadores licenciados afastam-se das virtuosidades francófonas e não sustentam a linha de jurisprudência segundo a qual a organização de apostas desportivas faz parte do direito de exploração da competição desportiva pertencente aos seus organizadores, alinhando decisões dos tribunais em sentido oposto com o claro propósito de contestar uma definição pela UE de um direito de propriedade aos organizadores de competições desportivas e com isso cercear a sua autonomia nos eventos que submetem aos apostadores, ao carecer de prévia autorização das entidades desportivas sobre o tipo de apostas a apresentar. Os operadores sublinham as suas divergências sobre um maior controlo do mundo do desporto sobre o produto das apostas e contestam pagamentos adicionais pelo facto de não se afigurarem válidos, necessários ou proporcionais ao referir o seu contributo anual de € 2,1 biliões de “justo retorno” ao desporto, não só através de impostos, mas também sob a forma de patrocínios - atente-se ao número de casas de apostas que figuram nas camisolas de vários clubes das mais diversas modalidades e ligas profissionais -, produtos comerciais e parcerias estratégicas com várias organizações desportivas.

Não será a eficiência e o montante do reinvestimento do desporto profissional no desenvolvimento desportivo de base, nem a linearidade ou dependência que se quer fazer crer entre o crescimento financeiro daquele e o aumento do financiamento deste, ou, muito menos, a forma como são canalizadas as verbas provenientes do operadores de apostas que importa, em primeira instância, às autoridades públicas com responsabilidades na regulação deste mercado desmistificar, uma vez que não é um árbitro independente dos interesses em jogo por força da necessidade, cada vez mais premente no momento presente, de arrecadar receita.

O desenho de uma política pública de regulação deste mercado - a iniciar os prolegómenos em Portugal - carece de uma análise profunda sobre a sua estrutura, organização e valor económico no cômputo global do mercado do jogo, considerando o crescimento previsível e a dimensão do impacto no sector dos jogos sociais e, por essa via, no financiamento público ao desporto. Tudo isto, claro está, caso se pretendam sustentar opções políticas credíveis e equilibradas sobre a gestão desta fonte de receita num quadro de desenvolvimento desportivo, que incidam também sobre os segmentos desportivos, com menor expressão na negociação da agenda política, que ao Estado incumbe salvaguardar e apoiar, e não apenas em mais uma medida pontual, prêt à porter, para acudir às necessidades crónicas de liquidez no futebol profissional.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Questão de bons costumes

Quando uma entidade desportiva –clube, associação ou federação - convida um responsável politico para uma cerimónia pública pretende valorizar o acto. Dar-lhe importância e promoção públicas. Poder, se for o caso, agradecer publicamente uma acção do governante. E, porventura, suscitar uma atenção da comunicação social que a presença de um governante sempre ocasiona.
Quem exerce funções públicas conhece este pesadíssimo caderno de encargos. Quem convida espera que o convidado aceite. O que nem sempre é possível. São centenas os convites para cerimónias. É impossível de atender a todos, muitas vezes em datas coincidentes. Mas quando o é, espera-se que o governante aproveite a circunstância para conhecer o trabalho realizado, ser sensível a uma pretensão ou até presidir a um acto para qual contribuiu. Não se espera que a sua atenção se centre em matérias que não estão na origem do convite. Ou do que não ocorre no acto para que foi convidado. Que aborde outras coisas que nada têm a ver com o motivo da sua presença. Se é convidado pelo Judo seria absurdo que falasse do atletismo. Se é um clube a convidar ou uma federação não se percebe que aborde questões de clubes ou federações distintas. A menos que alguma coisa tenham a ver com a cerimónia. Se o não têm, fazê-lo será sempre uma desconsideração para quem convida. Mais que uma desconsideração é um comportamento descortês, pouco elegante.
Esta abordagem não vale apenas para o acto oficial propriamente dito. Serve também para as abordagens que são feitas pela comunicação social. Que, muitas vezes, estando presente quer aproveitar a proximidade de um governante ou de um responsável politico para abordar outros assuntos da agenda mediática. No desporto, na maioria dos casos, para tratar de assuntos do futebol.
Ora quem convida o que pretende é a dar visibilidade pública ao que está na origem do convite. Se o convidado, tendo a oportunidade e a vantagem de falar á comunicação social, aceita falar de outros assuntos e não fala do assunto que está na razão de estar onde está, não empresta o contributo da sua figura, e da responsabilidade politica que transporta, a promover, a divulgar e a enaltecer o motivo da sua presença. Se a expressão é permitida pratica um acto de aproveitamento indevido. Na casa dos outros. Usa o tempo e o espaço alheios sem pedir licença a quem o convidou.
Um governante que pretenda falar á comunicação social tem sempre mil maneiras de o fazer. Não é preciso ir ocupar outros espaços. No atletismo deve falar de atletismo. No remo fala do remo. As modalidades bem precisam de respirar e ter alguma visibilidade. E o futebol tem o seu espaço. Estabelecer um código de conduta sobre esta matéria seria pedagógico para a própria comunicação social. Balizaria os territórios. Respeitaria as partes.
Quem governa, comanda. Espera-se um comportamento de acordo com a dignidade do lugar que ocupa. O que é válido para além das idiossincrasias pessoais, o modo como as assessorias trabalham ou as intimidades que se gosta de cultivar com os jornalistas. Vale pela função que se exerce.
O homem do leme do nosso desporto tem o mau hábito de aceitar falar à comunicação social sobre assuntos distintos dos que estão na origem daqueles que o levam a participar nesta ou naquela cerimónia pública. Ainda recentemente o fez em três dos quatro momentos em que aceitou falar sobre o caso Carlos Queiroz. É certo que, pelo menos aparentemente, a iniciativa não partiu dele. Mas dele devia partir a obrigação de respeitar quem o convida e, naqueles momentos, só aceitar falar do motivo da sua presença. Seria difícil?

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Deixem-me ver se (não) percebi

Sou contratado para atingir um objectivo juntamente com um conjunto de colaboradores, em que tenho luz verde para decidir quais são dentro de uns certos parâmetros bem como carta branca para me rodear dos elementos técnicos nas mais diversas áreas que considerar importantes e lhes reconheça valor.

Esse objectivo é um processual e distribuído por um tempo de 14 a 16 meses, com uma série de fases a que podemos neste caso chamar de jogos oficiais e outros até de preparação.

Durante esse processo tenho uma série de comportamentos que não são considerados abonatórios para o signatário nem para a entidade patronal, para além de alguns desses comportamentos serem com uma das minhas chefias directas e outros comportamentos com outra entidade externa, mas numa espécie de corporate governance das organizações empresariais.

Esta mesma entidade patronal, quer seja directa quer seja indirectamente responsável pela minha orientação, considera então que o meu comportamento não foi claramente coerente com uma série de comportamentos adjacentes às minhas funções e até em termos de ética profissional e decidi colocar-me de castigo um mês. Neste mesmo mês estarei proibido de trabalhar a 100 % e exercer as funções para as quais fui contratado.

Deixem-me ver se compreendi!


Contratam-me para alcançar um objectivo, certo? Tive durante esse timing uma série de comportamentos que desagradaram e violaram procedimentos comportamentais, certo? Para além do confirmado, existem muitas suposições de descontentamento sobre a minha perfomance enquanto líder e responsável máximo para aquilo que estou balizado. Ficarei impedido de liderar a minha equipa durante duas dessas fases competitivas, ou seja, dois jogos, certo? Terá alguma espécie de coerência? Não entro pela parte jurídica, para isso está e muito bem, o Prof. José Manuel Meirim. Mas para a população em geral…como se explica isto?

Então e se a equipa nesses dois jogos fizer uma exibição excelente e depois, quando regressar, voltar aos rendimentos mais medíocres? E como atribuir responsabilidade máxima a esse líder se a equipa não se qualificar porque nesses dois jogos não tiver alcançado os pontos necessários? E como atribuir um castigo a alguém que a impede de fazer aquilo para o qual foi contratado?

É de facto um País estranho este, muito estranho.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A escala de richter do homem do leme

Não conheço o conteúdo. Confio no que anunciou o homem do leme do desporto luso. Que será dado a conhecer ao país o inquérito que resultou da avaliação ao comportamento do seleccionador nacional de futebol. E se o nosso homem do leme entendeu que havia matéria que justificava ser objecto de apreciação por parte do organismo federativo fez o que devia: enviou-o à respectiva federação desportiva. O problema é que não fez apenas isso. Publicamente, qualificou a natureza dos factos ocorridos. Tomou parte neles. Enfatizou a sua gravidade. Fez de instrutor e de juiz. E com isso introduziu um ónus político desnecessário e prejudicial. Deveria ter tido a prudência de aguardar o resultado da sua diligência.
No fim-de-semana passado reincidiu. Para dizer que até à conclusão do processo não falará do assunto. Para de imediato começar a falar do que disse que não falava. Enunciou sobre o que se irá pronunciar. Escreveu o sumário. Descriminou e emitiu juízes de valor sobre o que se tem dito a respeito da matéria. Uma espécie de anúncio antecipado ao país num aparente remoque a Carlos Queiroz e aos reparos de Pinto da Costa e de Luís Filipe Vieira. É claro, pretendeu demonstrar que não é homem para se deixar ficar. Só que ao lançar gasolina sobre as brasas de um assunto quente, ateou o braseiro. E, não contente, deixa no ar a ideia de que se o rescaldo não for como espera o bombeiro será ele. Mau sinal. O tempo não tem estado de feição para apagar as ignições. E não seria a primeira vez que quem pretende apagar o fogo que ateou dele saia chamuscado.
Em certas figuras públicas há uma espécie de formigueiro que dá origem a um indisfarçável frenesim que as obriga, mesmo que as situações o desaconselhem, a terem, em termos públicos, de botar palavra. Não se limitam a regular o que têm de regular. Ser eficientes mas discretos. Têm de mostrar figura. Têm de aparecer. Porque se não se mostram parece que não existem. Mesmo que essa atitude prejudique os procedimentos subsequentes. E deixando que no melhor pano caia a nódoa. Os apelos, correctos, a que, em outros momentos, os actores desportivos se dediquem ao que é sua vocação e falem menos não se aplica ao homem do leme do nosso desporto.
No código genético da nossa governação há uma espécie de tabu: nunca se erra. Os erros são sempre dos outros. Gente soberba, emproada, pura, perfeita, que nunca diz asneiras a propósito da mãe dos outros, infalível, de voz grossa, que se julga possuidora de um estatuto especial em que tudo está justificado por natureza. O receio de fracasso publicamente reconhecido obriga a que se afastem comportamentos moralmente sensatos: a modéstia, a discrição, o saber pedir desculpa quando se erra. E saber estar calado por muita vontade que se tenha de falar. O nosso homem do leme gere os seus tempos de comunicação como uma escala de richter invertida: a dramatização sobre o que diz está na razão inversa da importância pública que têm. Quanto mais baixo é o abalo maior é a importância e atenção. Quanto maior é a importância pública e social menor a atenção política. Fala quando não deve. Cala-se quando era preciso dizer alguma coisa.
Quem sente que tem poder, como é manifestamente o caso do nosso homem do leme, não deve sentir necessidade de andar por aí a exibi-lo. Só os fracos têm necessidade de andar a mostrar que são fortes. Um investimento excessivo no “mostrar força”é certo e sabido que dá como resultado um défice de reconhecimento dessa autoridade. Porque a razão da força despropositada, esconde muitas vezes a falta de uma qualquer razão. Aguardemos.
A qualidade de uma decisão resulta essencialmente do que vem a seguir. A dramatização que politicamente foi introduzida no inquérito a Carlos Queiroz só pode ter um mau final qualquer que ele seja. E receio que ele atinja, e o efeito não tem necessariamente que ser imediato, quem deveria estar a salvo de manobras e instrumentalização políticas: a autoridade nacional antidopagem, os que nela trabalham e as políticas de combate à dopagem.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Viaje cá dentro

Quanto custaram ao país os jogos da Lusofonia? E os jogos da CPLP ? Custaram uns bons milhões de euros. O que, desportivamente, ganhou o país? Pouco.Bem sei que ambos são projectos políticos e não apenas desportivos. Mas mesmo no plano político pouco valem. E são precisos dois tipos de “jogos”para o mesmo espaço lusófono? Não chega “um”? Alguém faz as contas a este tipo de projectos? E ao que ajudam ao desenvolvimento das países participantes?
Uma parte significativa dos países não tem condições materiais para participarem em quadros competitivos internacionais. Nem vida desportiva interna que o justifique. Algumas participações são de uma pobreza confrangedora.Com resultados finais desniveladíssimos. O que era um projecto interessante para a comunidade lusófona acabou por se transformar numa rotina em deitar dinheiro fora. Fica a epopeia dos grandes desígnios nacionais: a missão, as viagens, a confraternização, a solidariedade, a amizade, a língua comum e as banalidades habituais. Mas muito pouco de desporto para o dinheiro que custa.
Em todos sectores da vida pública se anunciam cortes e reduções da despesa. Ora se há factor que absorve uma parte significativas da despesa com o desporto são as competições internacionais. Que nas ultimas duas décadas cresceram a um ritmo impressionante. E por razões da economia das organizações desportivas, designadamente das federações internacionais, que aí encontraram um bom motivo de receita. Por gestão directa ou por concessão a privados. Só que o enriquecimento de muitas das organizações internacionais se fez á custa da depauperação das economias das federações nacionais. E estas, face às dificuldades vividas viraram-se para o financiamento público.Com projectos crescentemente selectivos e afectando muitos recursos. Os poderes públicos face à pressão da mediatização dos eventos foram cedendo. Numa espiral de custos sem fim à vista. Os tempos de crise que estamos a viver deveriam fazer reflectir as autoridades desportivas – nacionais e internacionais - sobre o volume e a dimensão das competições internacionais. E o que custam às economias federativas e às políticas públicas.
Dizer as coisas assim, bem sei, não é simpático. Mas o problema não é de ser mais ou menos agradável. É saber como bem utilizar os recursos públicos. Que são escassos. E isto não é uma questão de somenos. É um problema. E que urge resolver sem manobras dilatórias. Ou cedendo á lógica das federações para quem o quadro internacional tudo justifica. Ou evitando que o Estado gaste onde pode poupar.
Estas iniciativas para o espaço lusófona e a dimensão dos quadros competitivos internacionais em que o desporto nacional participa bem mereciam uma avaliação e revisão cuidadas. A percepção que se retira é que, o que há a mais em competições externas, há a menos em quadros competitivos internos.Com consequências desequilibrantes na economia das organizações desportivas. E com custos pesados na dinâmica do crescimento interno das modalidades. O recurso ao Estado tem sido a solução encontrada. Mas se é uma evidência que o Estado está a gastar mais do que aquilo que pode, o referido recurso não é solução socialmente aceitável.
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sábado, 14 de agosto de 2010

Uma cama feita por muitos ? (V)

1. Da hipocrisia e ilegalidade totais.
Terminamos (?) esta nossa viagem pelo «Caso Carlos Queiroz», com uma análise que vai para além da situação concreta a decorrer.
Se houvesse a possibilidade de aplicar sanções aos que não cumprem a legislação antidopagem – ela existe para as federações desportivas -, sejam eles membros do Governo, dirigentes ou altos funcionários da Administração Pública ou, pelo menos, se a hipocrisia e a ilegalidade gerassem dor física – como disse alguém -, muitos haveria a sancionar e a recorrer a fortes analgésicos.
Desde logo Laurentino Dias.

2. Com efeito, este membro do Governo enche a boca de combate à dopagem, dessa luta sem tréguas que, neste caso, mais uma vez, justificou a sua intervenção.
O mesmo tinha sucedido no «Caso Nuno Assis».
Só que, até hoje, ninguém nos disse que destino teve o inquérito do IDP à FPF, que se seguiu à homologação do parecer do Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República.
Arquivado? Quando? Por quem?

3. De acordo com o artigo 12º, nº 1, da Lei n.º 27/2009, de 19 de Junho (Regulamentos federativos antidopagem), as federações desportivas estão obrigadas a adaptar o seu regulamento de controlo de dopagem a um significativo conjunto de normas, desde logo às nela estabelecidas [alínea a)].
O regulamento é registado junto da ADoP (nº2).

O incumprimento das obrigações de adaptação regulamentar e de registo na ADoP implica, enquanto o incumprimento se mantiver, a impossibilidade de as federações desportivas serem beneficiárias de qualquer tipo de apoio público, sem prejuízo de outras sanções a aplicar (nº3).

Por outro lado, no regime jurídico das federações desportivas (Decreto-Lei n.º 248-B/2008, de 31 de Dezembro) um dos fundamentos que conduz à suspensão do estatuto de utilidade pública desportiva é precisamente o não cumprimento da legislação contra a dopagem no desporto [artigo 21º, nº1, alínea b)].

4. Assente este ponto de referência sancionador para uma federação desportiva incumpridora, vejamos se a FPF esteve em situação de incumprimento da legislação de combate à dopagem – sacro valor de Laurentino Dias – e, se foi esse o caso, que sanção lhe foi aplicada.

Dispõe o seu artigo 76º da Lei nº 27/2009 (Disposição transitória):
“1. A adaptação dos regulamentos federativos ou das ligas profissionais ao disposto na presente lei é efectuada no prazo de 120 dias a contar da data de entrada em vigor da presente lei.
2. Os regulamentos mencionados no número anterior são registados junto da ADoP.

A lei entrou em vigor no dia seguinte ao da sua publicação (artigo 78º), ou seja, a 20 de Junho de 2009.
Tudo visto, sem ser necessário para este efeito grandes precisões na contagem do prazo, temos que a FPF deveria ter registado, devidamente adaptado ao novo regime legal, o seu Regulamento até finais de Outubro de 2009.
Como já demos conta em texto anterior [Uma cama feita por muitos? (IV)], de acordo com o Comunicado Oficial nº 470, de 17 de Junho de 2010 da FPF, o novo Regulamento Antidopagem foi aprovado e registado pela Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP) em 11 de Junho de 2010.
5. Ou seja, durante mais de 7 meses a FPF viveu em situação manifestamente ilegal!
Alguém suspendeu contratos-programa? Alguém suspendeu o estatuto de utilidade pública desportiva por este mais do que relevante fundamento, sempre qualificado de «tolerância zero»?
Nós somos assim, dirá sempre Laurentino Dias, não transigimos em matéria de dopagem.
Só quando nos convém aditamos nós.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Mitologia e sabedoria


1. Quando nos debruçamos sobre o fascinante panorama da mitologia grega, constatamos que ela não deixa nada a desejar, no tocante ao alcance, à beleza, densidade, inteligência, pertinência, profundidade e subtileza das suas explicações, interpretações e propostas, em relação à ciência moderna e contemporânea. Pelo contrário! E no entanto aquela não é, nem de perto, nem de longe, uma antecipação aproximativa ou tampouco precursora desta. É, sim e quando muito, como salienta o filósofo francês Luc Ferry, “o primeiro momento da filosofia”, repleto de mensagens e metáforas que apontam aos homens os caminhos para uma vida boa, decente e digna, “sem recurso às ilusões do além”, encorajando-os a olhar de frente o destino da insuperável e irremediável finitude humana, entregues a si próprios, por sua conta e risco.
O grande projecto da mitologia grega é o de oferecer aos seres efémeros e perecíveis, que somos, meios de interpretar e atribuir um sentido ao mundo que nos envolve e de elaborar e dar significados possíveis à existência humana. Por isso ela contém directrizes e formulações de uma “doutrina da salvação sem Deus”, de uma “espiritualidade laica”, de um tratado de “sabedoria para os mortais”, visando uma vida feliz e lúcida, entendida como busca singular cumprida por cada indivíduo, responsavelmente e à sua maneira, em harmonia com a ordem do cosmos. Deste modo ela continua a ser fonte inesgotável de magistrais e carnais lições de vida para o tempo presente, cada vez mais afastado das crenças, promessas e referências dos monoteísmos religiosos (FERRY, Luc: A sabedoria dos mitos gregos: aprender a viver II. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009).

2. A mitologia é uma construção de histórias fabulosas, criadas e contadas pelos humanos a respeito de um universo desenhado e dominado pelos deuses, logo aparentemente adverso e estranho à natureza e condição do homem. Porém os criadores são perspicazes, sábios, visionários e utópicos: inventam a criatura para nela se rever, isto é, para imaginar, definir, representar e situar o seu papel e missão nesse mundo que os circunda, inclui e condiciona. Não é por acaso que se regista uma paulatina humanização dos deuses e uma progressiva divinização dos humanos.
Segundo o relato teogónico de Hesíodo (séc. IX ou VIII a.C.) e de outros mitólogos posteriores, à primeira geração de deuses ‘naturais’, brutais, disformes, excessivos, impulsivos, malvados, rudes e selvagens, com um poder cego estribado na força, no pasmo e na violência, sucede pouco a pouco uma segunda geração de deuses ‘olímpicos’, animados por uma lógica mais humana, menos natural e mais cultural, ligada ao exercício da astúcia, delicadeza e finura, diálogo e concórdia, inteligência e negociação, até chegar à consciência e lucidez, à sabedoria e serenidade.
A crescente humanização do divino, com deuses a assumir atitudes, marcas e traços de personalidades humanas, é acompanhada de um processo de divinização do humano, com indivíduos a alcandorar-se ao Olimpo, graças à coragem, grandeza, heroicidade, nobreza, superação, transcendência, valia e virtude dos seus actos e feitos. Obviamente, este último processo jamais será cabalmente concluído, quer porque não podemos desligar-nos da imposição matricial da mortalidade, quer ainda e sobretudo porque não logramos libertar-nos inteiramente das amarras das “paixões tristes”, feias e doentias (boçalidade, brutalidade, crueldade, culpa, desdém, grosseria, ignorância, inveja, medo, ódio, orgulho, rancor, sobranceria, vingança) que corrompem a alma e turvam o coração e o olhar (Percebe-se assim o lugar central e essencial do agonismo na cultura grega. É através do heroísmo e da glória decorrentes da competição permanente com a imortalidade dos deuses e com a da natureza que os humanos visam subtrair-se do mundo do efémero e ascender a uma espécie, não de eternidade, mas de alguma perenidade entre os seus pares que, de certa forma os assemelha aos seres divinos. Por pensarem de ‘antemão’ e saberem que a vida é curta, os humanos perguntam-se o que fazer com ela, antecipam o futuro, concebem e formulam horizontes e objectivos ‘distantes’, procurando contornar e transcender afincadamente a sua condição de mortais).

Estas paixões, herdadas dos deuses gregos iniciais, bárbaros, bravios, mal-educados, incultos, grotescos, intratáveis, toscos, contraditórios, desordeiros e devastadores, sem senso de justiça, apegados às trevas e hostis à luz e claridade, teimam em tolher-nos os passos. Então no contexto actual nem se fala! Tal como os deuses originais, estamos longe, muito longe mesmo, de sermos sábios, ajuizados, civilizados, correctos e generosos. Pior ainda, esfalfamo-nos a alargar e escurecer a caverna da irracionalidade e fazemos gala em exibir orgulhosa e ostensivamente as características e comportamentos de um primitivismo apavorante e degradante.
Ora sem qualidades, que estejam além das naturais, é impossível alcançar a harmonia, a vida boa, ética e esteticamente decente, elevada e nobilitante. Neste ponto a mitologia grega é peremptória: somente a ordem justa é viável e fiável, durável e portadora de futuro; a injustiça inscreve-se no precário e transitório, atrai a desagregação e destruição. A força bruta requer ser substituída pela inteligência; e esta não reina e atinge o seu intento sem a ajuda insubstituível da justiça.

3. A que propósito vem isto? – perguntará o leitor, carregado de razão. Lembrei-me de evocar e acordar ensinamentos mitológicos por causa do estado aberrante a que chegou a justiça no nosso País e do deplorável espectáculo que ela nos tem insistentemente proporcionado. Também me instigou a revisitar as origens do pensamento humano a ‘caça ao homem’ movida a Carlos Queirós, em nome do mais abjecto populismo, atiçado pelo conluio de oportunistas de vária espécie, de treinadores peritos em peladinhas e cheiro do balneário e de alguns comentadores da treta, frustrados por nunca terem dado um pontapé na bola com a indecorosa desenvoltura e jactância com que falam do que não sabem. Igualmente me motivaram para esta digressão recentes declarações virulentas de José Mourinho, um deus do futebol que, não raras vezes, parece preferir o caos e a guerra da cosmogonia à ordem sábia, sensata, contida e luminosa do Olimpo.