segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Portugal saloio

1. Terça-feira “marquei presença” na 16ª Gala do Desporto, organizada pela Confederação do Desporto de Portugal (CDP). Há muitos anos que não ia a esta feira de vaidades, da qual me afastei por essa razão. Sucede que, este ano, um atleta nomeado para Melhor Atleta do Ano Masculino fez questão de contar comigo a seu lado.

Sempre num sítio bem apropriado para este tipo de eventos (um casino), de novo senti o que me levou a afastar-me da Gala.

Todavia, e é um «must», presenciei situações de um infeliz país que não se enxerga e que permanece insensível à decência e aos valores (mesmo que estes exijam alguma hierarquia).
De algumas delas dou breve conta.


2. Na mesa de honra (?) o bloco central marcava presença. O ministro do Desporto, Miguel Relvas, dois secretários de Estado e dois ex-secretários de Estado de governos socialistas. Um amplo universo de sorrisos, palmadinhas nas costas, ontem vocês, hoje nós, quiçá amanhã de novo vocês, e assim sucessivamente até ao infinito e mais além! Há um problema de facturas no IDP? A beringela, essa sim, cai mesmo bem neste prato de lombo de porco preto. E assim por diante. Nada de novo, portanto, mas sempre revoltante.


3. Bem cedo dei pela presença do presidente do Benfica. Tudo bem.
Numa pausa, a seguir ao termo do repasto, vejo o Presidente da CDP, dirigir-se nervosa e apressadamente para a porta da entrada do restaurante. Depois, passa por mim, acompanhado de um convidado. O convidado dirige-se à mesa de Honra (?) e, ao preparar-se para cumprimentar os membros do Governo e os membros de governos passados, assiste-se a um levantar colectivo e rápido dos governantes (?) e dos ex-governantes (?). Todos, ao levantarem-se da cadeira, fizeram aquele gesto que – peço perdão – abomino: ajeitar o casaco e abotoar um botãozinho.
Seria o Presidente da República? O Presidente da Assembleia da República? O Primeiro-ministro? Barak Obama? Quem, com a sua chegada, impunha tanto respeito (ou subserviência?)
Apenas e tão-só, o presidente de um clube, o Sporting Clube de Portugal.


4. Miguel Relvas foi a Madrid, a um hotel, assistir à entrega da Bota de Ouro a Cristiano Ronaldo. O presidente do Sporting, na Gala, deu conta que o tinha convidado para dar um salto a Angola. Como não podia – mesmo que se queira, não se pode ir a todas –, anunciou que o Secretário de Estado Alexandre Cavaco Picanço iria acompanhar a comitiva.
Não sei se isso veio a acontecer. Mas, caso tenha sucedido, esse «ilustre leão», deve ter descido aos balneários da equipa verde, incentivando os jogadores, à semelhança do que ocorreu na Dinamarca. E na sua vertente jovem, não deverá ter descurado a prospecção de algumas zonas de conforto em Luanda.


5. Que critérios foram seguidos na atribuição de Prémios de Alto Prestígio ao Benfica e ao Sporting?


6. João Pina é mesmo jogador de futebol, como afirmado na brochura distribuída?


Texto publicado no Público de 13 de Novembro de 2011.

sábado, 12 de novembro de 2011

Lapso,gralha ou opção?


As Grandes Opções do Plano integram as medidas de política e de investimentos para um determinado período. Nelas se consagram as orientações políticas de carácter estratégico para a realidade nacional.
Nas Grandes Opções do Plano para o período dos próximos quatro anos (2012-2015) o actual governo no que respeita ao DESPORTO apresenta as seguintes medidas:


O Governo pretende, também, o estabelecimento de uma política de desporto com todos e para todos, recordando, designadamente, que tudo começa na fase infanto-juvenil e que as mulheres e a população sénior não podem ser descuradas. Para o efeito há duas prioridades imediatas neste sector: a criação de um Museu/Casa do Património do Desporto e a implementação de um Plano Nacional para a Ética no desporto.
Pretende-se ainda assegurar a coordenação operacional das políticas do desporto e da juventude, através da fusão do Instituto do Desporto e do Instituto da Juventude num único organismo, com uma melhoria de redes integradas de informação e uma maior e melhor captação de meios financeiros para execução de programas e a promoção de uma actuação mais ágil, funcional e desconcentrada, bem como a obtenção de sinergias com vista à concretização das políticas públicas nestas áreas.”


Custa a acreditar, mas é tudo…….

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Requiem

Mais do que uma língua que nos une...

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O valor económico do desporto em Inglaterra e em Portugal

Mais um texto de José Pinto Correia que a Colectividade Desportiva muito agradece.


Em Agosto de 2010 o Sport England publicou um novo estudo sobre o “Valor Económico do Desporto na Inglaterra (1985-2008)”, que é feito desde há anos em colaboração com o Sport Industry Research Centre da Sheffield Hallam University.
A metodologia de cálculo usa os conceitos da “Contabilidade Nacional do Rendimento” que considera a existência de uma igualdade contabilística entre o produto total, o rendimento total e a despesa total. As definições mais comuns usadas nesta metodologia são também a de Produto Interno Bruto (PIB) e a de Valor Acrescentado Bruto (VAB).
O conceito económico de desporto resulta daquele que está contido na publicação das “Previsões de Mercado de Desporto” (actualizadas anualmente) e corresponde aos seguintes sectores: vestuário e calçado desportivo, equipamento desportivo, condição física e saúde, outros desportos de participação, barcos, desportos de espectadores, jogos desportivos, televisão e vídeo de desporto, publicações desportivas e viagens associadas ao desporto.

A metodologia empregue considera também os fluxos de rendimento e despesa dos seguintes subsectores da economia:
Consumidores – incluindo o sector pessoal e familiar;
Desporto comercial – incluindo os clubes desportivos com espectadores, os produtores de bens e retalhistas de desporto;
Desporto não-comercial – incluindo os fornecedores para a produção de bens e serviços relacionados ao desporto;
Voluntariado – incluindo as organizações desportivas não-lucrativas tais como os clubes amadores dirigidos pelos seus participantes;
Governo local – incluindo o rendimento das instalações desportivas locais, os subsídios relativos ao desporto do Governo central e as taxas do sector comercial e voluntário;
Governo central – incluindo os impostos, subsídios e salários das actividades relacionadas ao desporto;
Exterior da Área do sector – incluindo transacções com economias fora da região.

O princípio da dupla entrada é aplicado, de modo que, por exemplo, cada fluxo de despesa do sector não-comercial para o comercial tem a devida correspondência no fluxo de rendimento contabilizado no sector comercial. As contas de rendimento e despesa são usadas, então, para fazer estimativas dos seguintes indicadores económicos da economia do desporto:
Despesa de consumo em desporto;
Valor acrescentado bruto do desporto;
Emprego relacionado com o desporto.
Vejamos agora, de forma sucinta, quais são os principais resultados que permitem uma elucidação sobre o valor económico do desporto na Inglaterra ao longo do período de 1985 a 2008.

1. Actividade económica relacionada com o desporto:
Aumentou de 3.358 milhões de libras em 1985 para 13.649 milhões em 2003 e para 16.668 milhões em 2008 (baseados em preços correntes). Isto representa um aumento real de 140% ao longo do período de 1985 a 2008 (baseado em preços constantes).
No mesmo período (1985 a 2008) a economia Inglesa (valor acrescentado bruto) cresceu 97% em termos reais. Isto sublinha que o crescimento da economia do desporto ultrapassou a da economia Inglesa como um todo.
Durante o período de 2003-2008, o valor acrescentado da Inglaterra derivado do desporto aumentou em 22%. Durante o período de 2005-2008, esse aumento foi de 12%, de acordo com a metodologia usada.

2. Despesa de consumo relacionada ao desporto:
A despesa de consumo em desporto na Inglaterra foi de 17.384 milhões de libras em 2008, um aumento dos 3.536 milhões de 1985 (baseados em preços correntes). Isto representa um aumento real de 138% ao longo do período de 1985 a 2008 (baseado em preços constantes). A despesa de consumo em preços constantes é praticamente a mesma em 2008 à de 2005 (o que pode ter ocorrido por efeito da recessão de 2008 que possa ter parado o crescimento da economia do desporto).
A despesa de consumo de desporto em 2008 distribui-se da seguinte forma:
• Vestuário e calçado – 20%.
• Equipamento desportivo – 7%.
• Quotizações – 18%.
• Admissões – 3%.
• Jogos desportivos – 18%.
• Televisão – 11%.
• Outros – 23%.
Houve um aumento de 6.9% em despesa de consumo de equipamento desportivo no período de 2003-2008 (a preços constantes).

3. Emprego no desporto:
O emprego relacionado com o desporto na Inglaterra é estimado em 441.000 em 2008, o que representa 1.8% de todo o emprego da Inglaterra.
O emprego relacionado com o desporto aumentou de 304.000 em 1985 para os 441.000 em 2008, um aumento de 45.1%.
Nos oito anos entre 2000 e 2008, o emprego no desporto aumentou em 20.7%.
O emprego de 2008 distribuía-se em 76% pelo sector comercial desportivo, 11% pelo sector voluntário e 13% pelo sector público.
Este estudo permite também definir o valor económico do desporto, em cada um dos vários componentes da actividade económica, para cada uma das nove regiões em que se encontra dividida geográfica e administrativamente a Inglaterra.

E em Portugal o que sabemos ou conhecemos sobre o valor económico do desporto? Porque acontece a insuficiência gritante ou mesmo a inexistência de estudos e de dados sobre a economia do desporto? Como tem sido possível durante anos governar o sistema desportivo, definir políticas públicas, fazer opções de investimentos e de apoios aos diversos actores, tudo sem que se reconheça efectivamente o significado económico do desporto em Portugal?

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Zona de (des)conforto

Se as palavras que a Lusa atribui ao secretário de estado do desporto e da juventude, e que este disse que não afirmou, fossem para ser entendidas no sentido literal (os jovens desempregados devem procurar emigrar) o desporto nacional ficaria sem base para a sua renovação. Porque se os jovens emigrassem é óbvio que parte da base de recrutamento deixaria de existir. E se os jovens se fossem embora o que ficava cá fazer o secretário de estado para a juventude? Emigrava com eles? Mas as palavras que a Lusa atribui ao governante devem ser entendidas como um simples voluntarismo próprio de um jovem que apesar da pose de estadista tem ainda pouca experiência política e governativa. E que, por vezes, corre o risco de não distinguir uma conversa de café de uma reflexão em nome do Estado. O que se diz que o governante disse, não é diferente do que pensam muitos pais e até jovens. Mas a obrigação de um governante é lutar contra o empobrecimento do pais que governa, ajudar a que se crie emprego e gerar expectativas positivas quanto ao futuro. Não é o de apelar à emigração. Como o próprio reconheceu, dias mais tarde já na ressaca da situação, seria “absolutamente absurdo uma pessoa no seu bom estado psíquico afirmar semelhante coisa”. Mas erros e lapsos todos cometem, até os mais experientes. Mesmo em bom estado psíquico. A esta hora, o próprio, quaisquer que tenham se sido os dizeres, já deve estar arrependido da alhada em que se meteu. E vai procurar não repetir. Está tenso e incomodado com a situação. Receia pelo seu futuro, o que é natural porque estas coisas deixam marcas. Procura fazer o seu melhor mas, como qualquer jovem que se inicia na política como governante, também ele precisa de mundo e que a sua zona de conforto seja politicamente enquadrada e acompanhada, coisa que, provavelmente, quem o deve fazer não tem tempo. E quem tem tempo está ainda em piores condições que o próprio. Para muitos governantes e respectivas assessorias, que fazem do próprio exercício governativo a sua preparação política, é natural, embora desejavelmente evitável, que se digam coisas que depois se precisa de dizer que não foi bem aquilo que se quis dizer ou que foi retirado do contexto. Deveria, de resto, ser aconselhado, se ainda o não foi, que a atracção pelas luzes da exposição pública tanto serve para dar brilho, como para ofuscar. E que a distância entre uma e outra é bem mais curta, que o que parece. A história da governação na sua relação com os médias ensina bem mais que os tratados europeus.
Não são apenas os jovens que têm a sua zona de conforto. Todos nós a temos. E os governantes também. A zona instrumental ligada às pessoas com quem se trabalha ou partilha o poder. Por afinidades diversas: políticas, religiosas, maçónicas, de orientação sexual, académicas. E a intelectual, a que estrutura o pensamento. No desporto, esta última está construída em torno de ideias que habitam os lugares comuns do imaginário desportivo contemporâneo. A zona de conforto é o espaço do unanimismo. É o não confronto. E, lá no fundo, tudo quanto hoje caracteriza a escola do Olimpismo e o seu didactismo: um desporto mercantilizado, numa igreja sem ideologias. O que conduz a que se não reflicta sobre o que é difícil, complexo ou politicamente comprometedor.
Como já escrevemos, surpreende que “não se aborde de modo concreto, e não vago, a incidência que o cenário macroeconómico e o controlo sobre a dívida pública vão colocar ao sistema desportivo”. Qual é o entendimento que o governo tem quanto a essas repercussões? Ou tudo se resume ao facto, invulgar, de a crise financeira não colocar em causa a preparação olímpica? Mas o desporto nacional resume-se à participação olímpica? Qual é o efeito recessivo destas medidas no tecido desportivo nacional? O desporto goza de alguma protecção especial para que não careça de enquadramento específico? Quais são as soluções de acomodação mais aconselháveis para reduzir o impacto da crise? O assunto está estudado e avaliado? Ou não tem interesse?

O responsável político pelo desporto pode dizer que não apelou aos jovens para saírem das suas zonas de conforto. Mas deve, como governante, sair da sua zona. Não emigrando. Mas migrando para as soluções políticas que a situação do país exige.É o que se espera de quem governa.

domingo, 6 de novembro de 2011

O dito e o não dito! Ou algumas interrogações...

Mais um texto de Armando Inocentes que a Colectividade Desportiva muito agradece.


Transcrevemos, com a devida consideração, uma notícia veiculada pelo jornal Económico com a agência Lusa, on-line, no último dia do passado mês:

«O jovem desempregado em vez de ficar na "zona de conforto" deve emigrar, disse o secretário de Estado da Juventude e do Desporto.
"Se estamos no desemprego, temos de sair da zona de conforto e ir para além das nossas fronteiras", disse o governante, que falava para uma plateia de representantes da comunidade portuguesa em São Paulo e jovens luso-brasileiros.
Segundo o mesmo responsável, o país não pode olhar a emigração apenas com a visão negativista da "fuga de cérebros".
Para Miguel Mestre, se o jovem optar por permanecer no país que escolheu para emigrar, poderá "dignificar o nome de Portugal e levar know how daquilo que Portugal sabe fazer bem".
Caso a opção seja por, no futuro, voltar a Portugal, esse emigrante "regressará depois de conhecer as boas práticas" do outro país e poderá "replicar o que viu" no sentido de "dinamizar, inovar e empreender".»

Agora temos um novo desenvolvimento!

Passamos a transcrever, com a devida vénia, notícia do Correio da Manhã on-line do dia 5 do corrente mês, com entrevista publicada na edição impressa de 6 de Novembro, na página 31:

«Em entrevista exclusiva ao ‘Correio da Manhã’, o secretário de Estado da Juventude e Desporto, Alexandre Mestre, desmente ter afirmado à correspondente da agência Lusa no Brasil, Gisele Lobato, que “se estamos no desemprego, temos de sair da zona de conforto e ir para além das nossas fronteiras”.
Alexandre Mestre garante ainda que não apelou à emigração dos jovens desempregados, pretendendo assim desmentir também uma notícia do Correio da Manhã escrita com base na referida peça da agência Lusa, o que aliás era assinalado na respectiva página.
Porém, a direcção de informação da Lusa reafirma ao CM que “não corrige a notícia, que continua válida”.
Também a jornalista brasileira, Gisela Lobato, acrescenta: “As minhas perguntas ao secretário de Estado foram muito claras e falam sempre de ‘emigração’”. Mais: “Está gravado!”.»

Por enquanto teremos de nos interrogar sobre se foi dito ou não dito…

Mas, se foi dito, um desempregado está na zona de conforto?


Se foi dito, o país não pode olhar a emigração apenas com a visão negativista da "fuga de cérebros", mas que eles fogem, lá isso fogem! Há demasiados exemplos na ciência, na cultura e no desporto...

Se foi dito, se o jovem optar por permanecer no país que escolheu para emigrar, poderá dignificar o nome de Portugal, mas não levar know how daquilo que Portugal sabe fazer bem - leva é o seu próprio know how...

Se foi dito, será que o emigrante de sucesso colocará a opção de, no futuro, voltar a Portugal?

Se não foi dito, eventualmente poderia ter sido dito... mas pelo menos permite-nos as considerações supra…

… e estas interrogações também:

Jorge de Sena, Vieira da Silva ou José Saramago regressaram a Portugal?

António Damásio ou João Magueijo regressarão a Portugal? Regressarão a Portugal José Mourinho, Helena Costa, Cristiano Ronaldo, Ricardo Carvalho ou Ticha Penicheiro? Vale e Azevedo ou José Sócrates regressarão a Portugal?

Mais importante ainda, se regressarem trarão o seu know how para dinamizarem, inovarem e empreenderem?

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Halloween

No dia 1 de Outubro entrou em funções o Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ). E no dia 25 de Outubro foi nomeada a sua Presidente. Mas apenas no plano jurídico-formal. No plano real e sem qualquer desconformidade continuaram em funções as quatro entidades que estão na origem do novo organismo (IDP, IPJ, Movijovem, Fundação para a Divulgação das Tecnologias de Informação (FDTI). Por quanto tempo vai ser assim? O tempo necessário para concluir todas as operações de fusão e de extinção. Um tempo em que as anteriores direcções dos organismos fundidos, mas ainda em processo de fusão ou extinção, respondem perante a agora presidente do IPDJ. Trocado por miúdos há um período, não definido(1), em que há dirigentes dos organismos a extinguir e pelo menos uma dirigente do novo organismo criado. Que tem uma presidente mas não tem mais nada. Não existe ainda no plano substantivo. Vai-se construindo com o tempo.
Este modo de fundir organismos públicos é uma solução distinta da que a mesma maioria tomou quando em 2003 reuniu num único organismo três entidades que operavam na administração pública desportiva. E sendo, a solução agora adoptada, mais onerosa para o Estado e de maior complexidade burocrático – administrativa, deve haver uma qualquer razão, que não a de poupar na despesa pública e facilitar os procedimentos de fusão, para seguir o caminho mais dispendioso.
A avaliar pela consulta aos sites das entidades em vias de extinção ou de fusão é como se nada se passasse. As suas direcções cessaram as respectivas comissões de serviço e são hoje verdadeiras comissões liquidatárias. Mas autonoticiam-se como se o presente não fosse já outro. Não é grave. Mas não bate a bota com a perdigota.
A alteração significativa que o governo fez nas direcções das entidades a fundir/extinguir foi no IDP.É suposto que o tivesse feito já na perspectiva da nova realidade orgânica que pretendia fazer aprovar. Não faria sentido uma nomeação com carácter transitório apenas para assegurar o processo de fusão. Poderia fazer o acerto resultante da nova entidade - passar de três para quatro elementos - e não mais do que isso. Mas a base deveria ser para manter. Um processo de fusão é um processo turbulento e é essencial garantir estabilidade na continuidade da acção. Por outro lado, num organismo com uma forte exposição externa é indispensável que os interlocutores da administração pública não estejam sempre a mudar. E a composição da actual direcção do IDP tinha o mérito de ser maioritariamente composta por pessoas experientes, identificadas com a realidade que geriam e conhecedores da administração pública. Estavam em condições de liderar o processo de fusão e continuar. Sem quaisquer outras subordinações.
A solução adoptada vem trazer mais despesa num momento em que tanto se apela à poupança. E não vem acrescentar nada que não pudesse ser dispensável. Ademais não faz sentido inverter papéis de subordinação hierárquica, salvo em situações excepcionais. Só razões de excepcional mérito curricular e capacidade profissional podem justificá-la. Porque desqualifica e fragiliza quem passa a ter um papel subordinado. Pior ainda se a curto prazo novas alterações vão ocorrer. Uma solução transitória e instável é precisamente o que neste momento seria desaconselhável.
Mas vamos admitir que todas estas opções o são em nome do interesse público. Que nada mais as move que servir o país.Que foram maduramente refletidas. Que estão acima de pessoas, de grupos e de influências. Que não significam o reforço de uma linha lóbista.Que não são mais um experimentalismo legislativo. Que são como são, por força de um contexto que elimina outras alternativas.Que são para ser levadas a sério. Se assim for será fácil explicá-las. E os resultados só podem ser positivos. O tempo o dirá.

(1)-Já após a publicação deste post um leitor fez-me chegar informação respeitante ao Decreto-Lei nº 200/2006, de 25 de Outubro o qual prevê no nº2 do art.8 que “no caso de fusão e de reestruturação com transferência de atribuições ou competências para serviços diferentes, sem prejuízo de outro prazo legalmente fixado, o processo decorre durante o prazo de 60 dias úteis”.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A bater no fundo


«Beckham em Paris seria certamente bom para os centros comerciais. Gosto muito dele como jogador, mas já não é o futebolista que era. Se ele vier para Paris irá fazer outra coisa que não futebol»

Platini (Presidente da UEFA)



Vicente Moura (Presidente do COP)

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Pensar o impensável

Uma das formas de banalizar a política para o desporto é a defesa de uma tese que basicamente afirma o seguinte: o que se conhece da realidade é suficiente para a transformar. A afirmação assenta nos seguintes pressupostos: o diagnóstico está feito; os objectivos são conhecidos ou são fáceis de definir; os meios e os instrumentos necessários estão identificados. Falta apenas fazer. Á pergunta porque se não faz, a resposta é invariável: falta de vontade política. Pensar assim é um erro. E triplo. Pelo que mostra e pelo que esconde.
Primeiro erro: em política a vontade não chega. É necessária, mas não é suficiente. A vontade é sempre condicionada pelas condições concretas em que ocorrem os actos e as decisões. Os diferentes governantes com responsabilidades no desporto não tiverem as melhores intenções e os melhores objectivos para o respectivo sector? Isso não os distingue. O que os distingue é o que, face à realidade que encontraram e aos meios de que dispunham, conseguiram definir como meta para a respectiva governação. Na realidade que recebem e nos objectivos que atingem está o lastro da decisão política.
Segundo erro: ter uma visão do que se pretende e não estar bem preparado para as iniciativas que importa desencadear com vista a atingir os fins pretendidos, conduz igualmente ao insucesso. A emoção não dispensa o pensamento. E este não pode viver exclusivamente do contributo individual. Em contextos de elevado grau de imprevisibilidade, como o são todos os sistemas que basicamente assentam em comportamentos humanos, ninguém, por si só, está intelectual e politicamente preparado para tudo, tal é o número de variáveis que os processos de mudança social implicam. E porque a visão carece de doutrina, esta de pouco serve, se não se possuir/dominar os instrumentos de transformação. O que se constrói no trabalho partilhado dos vários saberes disciplinares. Por uma razão adicional de ordem substantiva: tal como não há uma disciplina que, sozinha, consiga explicar o desporto, também não existe uma que, por si só, o desenvolva.
Terceiro erro: uma acção sem doutrina é tão perigosa quanto a doutrina sem acção. A primeira conduz ao praticismo. A segunda ao teoricismo. É como navegar sem destino. O que alimenta a acção da doutrina é a política. A que se faz nos partidos e fora deles. São os diferentes modos de ler e transformar a realidade. A preocupação em buscar a legitimidade democrática (programas eleitorais) e depois exercê-la sem acentuar diferenças ideológicas conduz ao grau zero das políticas para o desporto. A despolitização da política para o desporto e a respectiva desideologização empurram o governo do desporto para a sua tecnocratização numa tensão permanente entre o direito e as finanças. Um e outro a manietarem a política. A deriva filosófica para a ética ou para o resguardo do espólio, é, com o devido respeito, música celestial.Com mais Estado, pior governance e menos política.
O futuro, num quadro de grande incerteza, pede a revisão deste paradigma. Pede que se não renuncie ao debate político. O desespero orçamental está a levar a cortes cegos por parte do Estado e é preciso, mais do que nunca, evitar uma quebra significativa no nível desportivo atingido. O que temos pela frente - basta ler as últimas declarações dos responsáveis políticos pelo desporto - não é estratégia, é diversão. O desafio não pode ser crescer. Quem defende a transversalidade das políticas desportivas, não pode, no contexto actual, ter como objectivo politico aumentar o crescimento desportivo. É pensar o impensável (Dani Rodrik). Não é possível crescer num ambiente recessivo. E quem anda a dizer o contrário não sabe do que fala. Seria muito positivo que se conseguisse não diminuir o que já se cresceu. O que já de si é muito difícil. O desporto não pode crescer num pais a afundar-se. E para isso importa não ter a tentação de procurar inventar. Basta que se compreenda quão importante é para o futuro desportivo do país, as vantagens em salvaguardar, na medida do possível, o capital desportivo adquirido. Discutir como fazê-lo envolve escolhas e opções. Umas e outras são, como o temos defendido, primeiro políticas e só depois técnicas.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A falta da Economia do Desporto em Portugal

Mais um contributo de José Pinto Correia, que muito se agradece.




A Economia é uma ciência social que trata de fenómenos e problemas humanos com a perspectiva específica de os considerar como económicos, uma vez que existem ambos, fenómenos e problemas, sob diferentes ângulos e modelos de análise nas diferentes ciências.
O desporto como actividade humana, com múltiplas variantes e incidências no desempenho do ser humano que dedica parte do seu tempo e esforço físico e mental à sua prática efectiva, tem óbvias implicações e consequências de natureza económica. Por isso mesmo, faz sentido inequívoco que o desporto nos seus diversos níveis, desde o escolar ao profissional, seja visto e revisto, considerado e reconsiderado, à luz dos instrumentos, modelos e métodos da ciência económica.
Algo no entanto tem de ser imediatamente sublinhado. A economia é uma ciência social que serve para elucidar e explicar as escolhas humanas, realizadas sempre que o Homem se encontra confrontado com a escassez dos recursos e tem na sua utilização um conjunto de possibilidades de utilização que conduzem a finalidades díspares.
Por consequência, a Economia é antes de mais economia política, que contribui para explicar e enquadrar teórica e praticamente as escolhas humanas e ajuizar sobre as formas possíveis de alcançar as suas finalidades desejadas ou ambicionadas, estando o homem implicado e fazendo parte de um todo comunitário que radica no conceito da “polis” grega.
Portanto, a Economia tem subjacente a escassez de meios e recursos, as diversas possibilidades da sua utilização em finalidades alternativas, e a perspectiva de que tais escolhas têm de obedecer a princípios de eficiência e de eficácia. Estes são os pressupostos que definem a essência dos denominados problemas económicos.
Acresce ainda que todos estes componentes das decisões económicas podem compreender valores e juízos, o que dará um conteúdo político ao contexto das escolhas económicas. Não existe, por conseguinte, uma completa neutralidade ética na economia; esta é sempre transcorrida por prioridades, escalas valorativas, e/ou juízos de valor que envolvem a dimensão humana.
Claro que na Economia também existem campos de observação e análise que se limitam a uma descrição dos fenómenos sem deles retirar considerações sobre o que está bem ou menos bem, sobre as consequências de determinadas opções, ou mesmo sobre a nobreza de determinadas escolhas e opções humanas em matéria económica. Aqui pode então dizer-se que a ciência económica se reduz a um mero campo de observação positiva. Constata, contabiliza, identifica, equaciona, mas não formula juízos de valor ou morais sobre a realidade que se limita a observar e descrever; este é o campo da economia positiva.
Mas já quando a economia permite valorizar as escolhas, os caminhos percorridos ou a percorrer, definir quais devem ser os domínios da vida das sociedades em que se devem usar os recursos escassos, se deve ser seguido este ou aquele caminho nas escolhas individuais ou colectivas, nestes casos, estamos perante a denominada economia normativa. A qual tem, deste modo, uma intrínseca característica política.
Ora, é precisamente esta matriz valorativa da economia, a dita economia política, que mais nos interessa e convoca quando procuramos envolver o entendimento dos processos de desenvolvimento do desporto no seio das sociedades modernas. Já que, diga-se imediatamente, o desenvolvimento do desporto integra-se no processo mais amplo, diversificado e dinâmico do desenvolvimento sustentável.
Quando se pretende falar de economia e desporto, ou mesmo da economia do desporto em Portugal, há um primeiro aspecto que deve ser considerado. Esse é o de se assistir à quase completa ausência de trabalhos, de estudos, de diagnósticos, de fundamentações das opções, dos investimentos, das políticas desportivas, com base nos princípios ou nas metodologias de análise próprias da ciência económica.
Em Portugal, têm prevalecido no domínio do desporto outros quadros analíticos e teóricos, outras disciplinas de fundamentação que não as que são específicas ou ímpares da ciência económica. Isso mesmo esteve bem visível no mandato do anterior Governo, do qual estiveram sempre arredados os instrumentos de análise, fundamentação ou justificação próprios da economia.
Podíamos dar inúmeros exemplos dessa falta constante da economia no desporto nacional, mas o que agora se reconhece como a experiência dos estádios de futebol do Euro 2004, das pistas de atletismo espalhadas pelo País, dos centros de alto-rendimento sem financiamento garantido, da negociação sem objectivos do contrato para Londres 2012, ou da completa compartimentação dos diferentes níveis de prática desportiva entre departamentos ministeriais, todos estes são exemplos flagrantes da dita falta da economia no nosso desporto que poderemos detalhar na discussão final desta apresentação.
E do que já se conhece do programa do actual Governo parece que o quadro de ausência da economia na formulação, fundamentação e concretização da política desportiva nacional poderá continuar a manter-se por mais alguns anos neste novo ciclo governativo.
Veremos, pois, se tal insuficiência manifesta de uso e recurso à economia se manterá na governação do desporto português, ou se de ora em diante a ciência económica, com os seus modelos da análise, fundamentação, orientação estratégica, selecção de investimentos e apostas de utilização dos recursos públicos escassos, será efectivamente chamada para a linha da frente das concepção e concretização das políticas desportivas nacionais.