domingo, 18 de março de 2012

Domingo na ciclovia do Guincho

Hoje é Domingo! Hoje é na ciclovia e na estrada do Guincho que encontramos a malta toda, famílias inteiras com crianças ou sem elas, com cães de trela ou sem ela, com patins de batons ou sem eles, com bicicletas de rodinhas ou sem elas. Todos juntos e, se possível, depois das dez! É este o lema que nos une, uns atrás dos outros, ora nas filas da A5 a caminho do trabalho, ora no lazer das estradas e nas ciclovias da moda. Alienação? Não, o termo já nem se usa, os corpos que ao Domingo no Guincho arejam são concordantes no mesmo estilo de vida e não só.


É ao Domingo que a emoção se adensa porque, na estrada, ao tráfego da "voltinha para fazer a digestão" se junta o motard que só chega à Roca com espectáculo de velocidade e em contramão. E, sem paredes meias ou qualquer divisão de protecção, na ciclovia "todos berram e todos têm razão" porque aos muitos que nela marcham se juntam alguns mais atléticos a correr, uns poucos mais audazes a patinar e, como se não bastassem, uns muitos convencidos que ali vão andar de bicicleta. Na estrada, o espaço é mais largo, é o lugar dos automobilizados, refiro-me aos da digestão do feijão e aos motards da contramão que, perante o conflito dos outros, se movem velozes sem alarido apesar do barulho e da poluição. É graças ao carro que muitos chegam ao Guincho para admirar o mar e, alguns mais arrojados, chegam mesmo a sair do dito para na praia passear. Bendito seja o nosso carro que nos leva a escapar à inércia física a que os malditos dos carros dos outros nos condenaram!


O carro dá-nos vida, torna-se as nossas pernas e nele, dado o conforto quase divino, sentimos a máxima "sento-me logo existo". A vida moderna é então muito mais moderna que vida, é passada no sofá, quer no emprego quer frente à tv. Neste contexto, a ciclovia desentorpece as pernas e areja o pulmão de muitos destes e, ao lado, a estrada serve os mais viciados do assento mantendo-os imóveis. De carro nem a janela se pode abrir por causa do vento do Guincho. O ar livre tem muitos imponderáveis que só mesmo o carro resolve já que, sempre pronto, protege do sol ou de uma aragem mais fresca e, sem locomoção, evita a fadiga. De modo exemplar a magnitude da vida reproduz-se no "oh, filho anda cá, não corras que te cansas!"


A estrada favorece o culto do sofá e é, por isso, um espaço exclusivo de interioridade, individualidade e, sem músculo mexer, de velocidade. Comparada com a estrada, a ciclovia do Guincho é muito estreita para o elevado número de pessoas que ao Domingo ali resolve passear. Como o nome indica, ciclovia faz crer que é um espaço destinado a bicicletas mas, claramente, é um equívoco assim pensar porque o piso liso é excelente e, se feitas ao lado do passeio, é por lá que dá gosto andar. Ora, concorrente, a calçada portuguesa só dá mesmo conforto ao olhar porque a irregularidade faz tropeçar e quando molhada faz escorregar, logo a ciclovia é vista como a alternativa a todas essas armadilhas. O colorido da ciclovia é atraente e, nela, só apetece andar, seja de salto seja de bengala e, sem postes e outros emplastros, serve também a mobilidade dos carros de bébé. Dada a ambiguidade da sua nomeação, o conflito na ciclovia existe e, paradoxalmente, deve-se ao sucesso e à diversidade da sua utilização.


Então que fazer às bicicletas? Ora, como é óbvio, o lugar das bicicletas nas cidades e nas vilas, é na estrada! Mas, nas estradas em geral e na do Guincho em particular, os carros superam os limites da velocidade e não há meios de os controlar ou deter. Então, se calhar, a solução passa por mudar a cor da estrada do Guincho e das estradas dos bairros onde moramos para, assim, se confundirem com ciclovias e serem pensadas como um espaço seguro partilhado por todos. E, para começar, tomar já o rumo dos corpos discordantes, daqueles ciclistas que vão pela estrada para não atropelar ninguém que, a seu modo, subvertem a ordem dada e, plurais, se tornam agentes de mudança.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Laurentino Dias? Onde andas?

Ontem Laurentino Dias, a respeito da deliberação do famigerado »alargamento» da I LIga de futebol, prestou declarações públicas, através da Lusa:


"O antigo secretário de Estado e do Desporto Laurentino Dias desferiu violentos ataques ao alargamento dos campeonatos profissionais e diz esperar que a decisão seja "revogada".“É ilegal porque não se podem mudar as regras a meio, é irracional porque não tem fundamento em quaisquer estudos, e é oportunista porque resulta de uma proposta de campanha eleitoral, da qual se percebia qual era o sentido".


Hoje o Público dedica amplo espaço às eventuais responsabilidades do ex-presidente do IDP, dando conta do resultado de uma auditoria às "célebres" facturas.


Há gente que vive bem ou, como diria a minha mãe, sabe viver.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Uma outra novela

Dificilmente seria possível encontrar uma só decisão que violasse em tão larga medida o arsenal de recomendações, orientações, resoluções, livros de cor, códigos e regulamentos - de autoridades politicas e desportivas, nacionais e europeias -, como aquela que foi tomada pela Assembleia Geral Extraordinária da LPFP a propósito do alargamento de clubes nas competições profissionais de futebol.

De uma assentada fez-se o pleno e pôs-se em causa elementos basilares da dimensão europeia do desporto como sejam o princípio da promoção/despromoção, as competições abertas, a estabilidade das competições e a salvaguarda da sua integridade.

Curioso seria se, tal como outras deliberações tomadas naquele dia, também desta se desse conhecimento à Comissão Europeia e, já agora, à UEFA, antes sequer de outras instâncias nacionais se pronunciarem…

Não se pretende aqui navegar na espuma dos dias em torno das virtudes do dirigismo desportivo indígena, nem dos encantos de Medeia sobre promessas eleitorais. O espaço mediático estará, por certo, exaurido das mais doutas opiniões e a motivação deste escriba para novelista é escassa.

Se na situação concreta do alargamento Mário Figueiredo poderá alegar que a sua proposta – a qual através de uma liguilha atenuava vários dos problemas acima mencionados - foi chumbada e por isso a sua estratégia ficou condicionada, o mesmo não poderá fazer em relação à queixa que pretende apresentar contra o Estado Português junto da Comissão Europeia por ausência de notificação prévia da regulamentação de exploração dos jogos sociais do Estado em plataforma multicanal, dado que aqui os clubes se limitaram a ratificar um processo que conduziu na integra, o qual enferma de gritantes lacunas, no que respeita a uma orientação estratégica sobre a regulação do mercado de apostas desportivas online que satisfaça os propósitos dos clubes e também no que concerne ao conhecimento sobre a abordagem das instituições da UE neste mercado.

Vejamos:

1. O facto do Estado Português não ter informado a Comissão das eventuais regras técnicas constantes no Decreto-Lei n.º 282/2003, na acepção conferida pela Directiva 98/34/CE, em nada implica que a publicidade e patrocínios de casas de apostas continue a ser uma prática ilegal punível com sanções penais. Isto vários tribunais já o sublinharam, entre eles, bem recentemente, o Tribunal Cível do Porto que declarou nulo o contrato de patrocínio entre uma casa de apostas e a LPFP. Convido, pois, a uma leitura atenta da pág. 77 do respectivo processo.

2. A Comissão Europeia, nunca – nem após o mediático acórdão Santa Casa – moveu qualquer processo contra o Estado Português neste âmbito;

3. Desde que o comissário Michel Barnier assumiu a tutela deste sector os processos de infracção instaurados por eventual violação do direito da UE em matéria de jogo e apostas online na legislação de diversos Estado Membros foram suspensos, uma vez que a litigância e abordagem regulatória da Comissão e do TJUE não têm produzido resultados. Para disciplinar as mudanças num sector em rápido crescimento são necessárias medidas de cariz político, conforme se reconhece em diversos documentos da UE, e até mesmo na jurisprudência do Tribunal. Nesta medida foi lançado um Livro Verde e recolhidos contributos (o futebol português e o Estado português primaram pela ausência) para delinear uma politica baseada no conhecimento profundo do mercado e pondera-se a hipótese de uma directiva onde se estabeleçam bases gerais de convergência em relação a um mercado em plataforma digital e com uma regulação bastante fragmentada;

4. Reiterar publicamente que o “o jogo online não é mais do que o totobola em suporte digital" vem aduzir argumentos favoráveis - precisamente de quem menos se esperava e pretende contestar uma eventual violação ao direito comunitário - a que o regime legal de exploração de jogos sociais por via electrónica não configura uma regra técnica, tratando-se apenas da especificação do direito exclusivo concedido à Santa Casa quando oferece os seus jogos por esta via, mantendo-se o funcionamento do mercado com as mesmas regras pré-existentes.

Por ultimo, e ligando as duas deliberações, imagine-se o que seria um mercado de apostas desportivas online liberalizado num país onde não existissem despromoções na principal competição profissional de futebol, com as carências financeiras que alguns clubes atravessam? O Éden para a criminalidade associada à viciação de resultados através de apostas ilegais...

Alguém que explique a diferença entre uma aposta mútua e uma aposta fixa. Alguém que explique a diferença no risco à integridade das competições e à “verdade desportiva” entre um boletim com 13 jogos onde se aposta na vitória, empate ou derrota de cada e uma aposta durante um jogo que está a decorrer em algo aparentemente tão trivial – e tão susceptível de ser combinado, dado que não compromete o resultado final do jogo - como o jogador que irá marcar o primeiro pontapé de canto.

Opta-se, no entanto, por explicar aqui que várias vezes nem sequer está em causa a combinação de resultados, mas um ambiente privilegiado para implementar esquemas de criminalidade organizada de branqueamento de capitais. O exemplo esquemático foi bem real e encontra-se disponível a quem queira aprofundar o tema:



Este é um assunto demasiado sério - prioridade estratégica do COI, da FIFA e da UEFA, e de várias federações desportivas internacionais - para abordagens experimentalistas no mero propósito de assegurar mais um canal de receitas para o futebol profissional.

Num período onde a ética desportiva anda por aí, oxalá haja nisto alguém que saiba ir além dos cifrões, recolher as experiências de jurisdições mais avançadas neste domínio e ponderar as suas obrigações em matéria de protecção dos consumidores, da ordem pública e da credibilidade das competições desportivas .

terça-feira, 13 de março de 2012

Quando pensa que já se viu quase de tudo...

Quando pensa que já se viu quase de tudo, há sempre alguém que nos consegue surpreender. E para mal dos nossos pecados, surpreende-nos pela negativa. O que se passou ontem com a possível decisão de alargamento de 16 para 18 clubes na primeira liga foi um cimentar das péssimas qualidades e competências que coabitam nos dirigentes em Portugal.

A decisão da Liga em propor para autorização por parte da Federação Portuguesa de Futebol que esta época desportiva não desça nenhum dos 16 clubes em prova potencia inúmeras discussões sobre a prova que em Portugal move mais dinheiro e (tele)espectadores.

A época já entrou no último terço! A discussão do título envolve jogos entre os três clubes que lutarão pelo título até final com clubes que supostamente irão (iriam?) lutar para não descer. Que impacto terá a não consequência de não descer nas equipas que para lá disso, mais nada tinham como motivação? Como explicar aos 3.º e 4.º classificados da divisão de honra?

A opinião pública já não tem uma excelente imagem dos dirigentes do Futebol. Vamos lá saber porquê…mas ontem, diria, que foram demasiadas balas de canhão nos pés. A eleição de alguém que prometeu aos insatisfeitos uma fórmula mágica e com isso ganhou uma eleição. Como suportar isso?

A frase que muitas vezes se diz, se lê, se ouve “temos o país que merecemos” ontem cimentou mais um ou vários degraus.

segunda-feira, 12 de março de 2012

O desporto (sempre) nos Tribunais

Artigo publicado no Público de 11 de Março de 2012.

1. Ainda há quem pense, mesmo muitos juristas, que o desporto se mantém ou se deve manter fora da orla dos tribunais. Porém, a realidade, o quotidiano da vivência desportiva acaba por impor a intervenção desses órgãos de soberania. E, no caso português, assiste-se a um claro crescendo da demanda de justiça.
2. Para fundamentar este exercício de um direito fundamental – quase estamos tentados a afirmar “um mero” direito fundamental, tal a lógica que impera no desporto e, em geral, neste infeliz país –, alguns adiantam a faceta económica da actividade desportiva ou de alguns dos seus segmentos. O recurso aos tribunais, dizem, passou a ser algo de comum, porque o desporto se transmutou em negócio, indústria e, onde navega dinheiro, surgem conflitos.
Não negamos esta evidência. Todavia, temos como seguro, pela leitura de inúmeras decisões dos nossos tribunais superiores, que as organizações e os agentes desportivos – particularmente estes -, buscam nos tribunais a defesa dos seus direitos, muitos deles fundamentais, da sua própria dignidade como pessoa. E, neste âmbito, é o exercício do poder disciplinar pelas federações desportivas que ganha «notoriedade».
3. Em Janeiro e Fevereiro passados, o Centro de Estudos Judiciários e a Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, organizaram um Curso de Direito do Desporto, inserido no programa de formação de magistrados. O mote foi uma viagem organizada – como se contasse com um guia – pelas mais recentes decisões dos tribunais portugueses sobre matéria desportiva.
E, para além da extensão dos temas abordados – comprovando a existência de matéria prima em todas as áreas –, a presença, para além de outros juristas, de 80 magistrados (dos tribunais judiciais, dos administrativos e fiscais e do Ministério Público), é prova cabal de que o desporto “anda por aí” nos corredores e nas salas de audiências dos tribunais.
4. Apenas para rematar, um simples exemplo retirado de duas dezenas das mais recentes decisões.
Assim decidiu, recentemente, o Supremo tribunal de Justiça:
I - Os empresários desportivos que pretendem exercer a actividade de intermediários desportivos na contratação de praticantes desportivos, devem registar-se como tal junto da federação desportiva da respectiva modalidade e, nas federações desportivas onde existam competições de carácter profissional, igualmente junto da respectiva liga.
II - Essa obrigação legal impende sobre os empresários desportivos, seja quando os seus serviços são requisitados pelos jogadores, seja quando são requisitados pelos clubes/sociedades desportivas.
III - O contrato celebrado entre um empresário desportivo, não inscrito no registo, e uma sociedade desportiva, nos termos do qual, o primeiro se obriga, simplesmente, a prestar à segunda os seus serviços na negociação da contratação de um determinado jogador de futebol, mediante uma remuneração a pagar pela mesma sociedade desportiva, por celebrado contra disposição legal de carácter imperativo, deve considerar-se nulo.
5. Pois é, eles, os tribunais, andam aí.

quinta-feira, 8 de março de 2012

As Mulheres FAZEM-SE!

Nas obras que li de Gonçalo M. Tavares cabe aos homens a escultura do destino e às mulheres a limpeza das aparas sendo estas, de todas as maneiras, muitas vezes violadas e, imaginamos nós pela força de frases como "vais fazê-la comigo a ver", relativa à iniciação sexual do filho com a criadita, violentamente vilipendiadas. São eles que na guerra, na viagem à Índia, na medicina e na política apresentam o know how do conhecimento da vida, o sobressalto das grandes questões existenciais e, também, da maldade, da brutalidade e da preversidade .


Quando exemplo há, vem de cima, de um homem, do pai. E, citando o autor, é à filha a quem cabe crescer para dar continuidade à família, construir e, nesta divisão funcional, ao filho cabe vingar o pai, destruir. Ora, já na ordem do valor patrimonial, sobre a construção social pouco há a contar e para a história fica tão só o sujeito do conflito, aquele que destrói. Pratos limpos, para elas restam os panos, elas não fazem história porque quem as faz a elas são eles, quer por violação quer por expiação ou, quer ainda, por obra divina do Espírito Santo.


Saltando da literatura para um outro campo qualquer, em tudo isto só vejo competição e, ironia do destino, o pavor de se notar que nem mesmo para jogar futebol é preciso pila pois basta o pé! Ora, talvez o receio explique a necessidade de tanta visibilidade e, ao serão na rádio e na televisão, é sobre o futebol, que poucos perdem, que todos querem falar, fazer parte dessa pouca história que é o jogo em si, desde político a engenheiro e agora também, dada a similitude com a sexualidade das tabernas, o Machado Vaz.


Nestas conversas de homens, coitado daquele que jogue mal porque é de imediato chamado menina e, ao contrário, se é ela quem joga bem então, sim, parece um homem. E este é só um exemplo parco da versatilidade da construção da diferença entre o masculino e o feminino!


A mulher quer-se no busto da fantasia, na figura da República, algo irreal. Fora deste registo, o da incorporação do fémino no ideário da nação, eis as mulheres de carne e osso, sem ligar muito ao pecado nem à crença de que a acção é um obstáculo à procriação, a convencer que é passado esse conflito de papéis entre o "ser mulher" e o "ser atleta, pianista, escritora, engenheira, arquitecta, etc". E, no desporto, as mulheres que correm, que saltam, que jogam e batem recordes, contrariam teimosamente a falta de visibilidade do seu protagonismo e fazem elas a sua própria história. Ora, feitas as contas ao oblívio, para a história destas vitórias nunca há papel de sobra mas o pano não falha e, na pista, na volta da consagração, é grande a bandeira que as enrola!

quarta-feira, 7 de março de 2012

...sem grandes comentários

Bagão Félix é colunista do jornal A Bola. E é membro da Comissão de Honra do Plano Nacional de Ética no Desporto. Escreve hoje naquele jornal: “Aquele golo batoteiro deveria envergonhar qualquer juiz de vão de escada. Ou levá-lo ao oftalmologista. Mas, pelos vistos, não para o bem penteado Proença e sua equipa. Foi este mesmo alegado benfiquista (abrenúncio!) que inventou um penalty sobre Lisandro no Dragão ,dois na Luz para o Sporting, castigou um braço de Emerson em Braga mas não o de um portista na Luz…….Tem razão o presidente do Benfica nas declarações que fez….”

Parabéns à excelente escolha do governo e a este belo exemplo para o plano de ética no desporto!!!!

terça-feira, 6 de março de 2012

A banalização do mal


Não há nada encoberto que não venha a descobrir-se e nem há nada de escondido que não venha a saber-se.
In A Bíblia para Todos, Evangelho segundo Lucas, capitulo 19, versículos 2 e 3
.

O modo como está a ser conduzida a reestruturação da administração pública desportiva venceram a minha resistência de voltar a este tema. Na altura escrevi o que considerei ser uma opção de extrema gravidade. E que a coisa não ia correr bem. Procurei que chegasse a quem o deveria saber o perfil de comportamento e de uso do exercício de funções públicas do então adjunto do secretário de estado do desporto e juventude, hoje vice-presidente do IPDJ, membro do conselho fiscal da RTP e presidente da comissão liquidatária da Movijovem. A explicação que me foi dada para tão estranha escolha é, por pudor, irrepetível no espaço público. Não está em causa qualquer motivação política e menos ainda partidária. Reservo-me a usar o direito que tem qualquer cidadão de censurar a entrega dos assuntos da governação do seu país a quem tem, como rota mestra de condução, o praticar o mal.
A vida ensina o cuidado que é preciso ter com aqueles que precisam de andar sempre com a pastoral da defesa dos dinheiros públicos. Dos que vestem a farda de polícias zelosos dos bons hábitos na fiscalização do comportamento dos outros. De quem, conhecendo, melhor que a generalidade, as leis e as normas as instrumentaliza em proveito próprio num espertismo que mais cedo ou mais tarde é descoberto. O certo é que os avisos feitos não tiveram quaisquer consequências que não fosse o alargamento do seu poder e dos seus seguidores que instalou na administração pública desportiva. Era (é) o verdadeiro poder no IDP e no IPDJ. Quem dá ordens. Quem defende orientações. Quem se senta no topo da mesa das reuniões. Quem põe e dispõe. Quem nomeia. Quem grita e gesticula. Quem semeia tempestades.
O genuíno prazer em praticar o mal, como é o caso, não é para estudo de psicanalistas ou terapeutas. Mas à atenção de quem governa. É que só o indiferentismo de uns tantos permite que isso ocorra. É um mistério que gente séria com anos de dedicação à causa pública pactue com este estado de coisas. Que sabem muito mais do que eu sei e aceitem a situação. Eu não sei se é verdade ou mentira o conteúdo do que por aí circula na net. Mas o que está em causa começa por ser o respeito pelos outros. E o princípio mais elementar da ética, que o governo elegeu como mote para a sua ação, é agir tendo em consideração as consequências desse seu agir nos outros.
È certo que vivemos numa situação de constrangimento das consciências. Em que denunciar práticas lesivas do Estado podem custar o lugar que se ocupa. Em que o oportunismo tem alto valor no mercado da vida. Mas na vida há situações que, por insustentáveis e lesivas do interesse da comunidade, requerem a respetiva denuncia com todos os riscos pessoais que isso possa envolver.
O percurso não engana. E não vou recensear factos e nomeações recentes. Cedo ou tarde as vítimas serão aqueles cuja confiança foi fundamental para se ter chegado onde chegou. No passado chamavam-se Laurentino Dias e Luís Sardinha para quem o trabalho sujo para com o José Manuel Constantino (e por tabela para Hermínio Loureiro) ficou por sua conta e risco. Hoje as vítimas dão pelo nome de Augusto Baganha e os quadros e funcionários do IDP. Mas chegará o dia de Miguel Relvas e de Alexandre Mestre. A menos que, se ainda forem a tempo, corrijam o que tem de ser corrigido. De todo o modo, com perdas escusadas.

domingo, 4 de março de 2012

De quantas éticas se faz o desporto?

Artigo publicado hoje no Público.


1. O ministro Relvas e o secretário Mestre Picanço entenderam presentear o país com um Plano Nacional para a Ética no Desporto (PNED) para "durar quatro anos", numa operação de cosmética política e de hipocrisia ilimitada. A única coisa que se lamenta é o esforço dedicado daqueles que são colocados a prestar serviço às derivas do poder político.

2. Logo na pomposa cerimónia de apresentação do PNED, o ministro Relvas, "irritado" com as referências a insultos racistas no jogo FC Porto-Manchester City, foi peremptório: "Se há país que não recebe lições de ninguém em matéria de racismo ou xenofobia, é Portugal. Não podemos permitir insinuações de outros povos que não têm a frontalidade de assumir a aproximação cultural e a nossa tradição universalista." E acrescentou: "Portugal pede meças a todos os outros povos do mundo no que toca a fenómenos de violência e corrupção no desporto." Peremptória, perigosa e "criminosa" ignorância.

3. Prosseguindo. Aquele que quer ficar na história como uma espécie de Pierre de Coubertin português, o secretário Mestre Picanço, lá foi adiantando: "[O PNED] é um documento de todos nós, com vista ao fomento da cidadania e respeito, no que o desporto é paladino, sendo portador de valores humanísticos e sentido ético, além dos valores morais associados e que convergem para práticas multidisciplinares."

E, para concretizar este desígnio nacional, Mestre Coubertin tem uma Comissão de Honra e Embaixadores da Ética Desportiva. Tem até um Provedor da Ética no Desporto. E quem é esse provedor? Nem mais nem menos que um dos candidatos à presidência do Sporting nas últimas eleições. Adivinhem quem se encontrava na sua lista? Mestre Coubertin, pois claro.

4. Omnipresente, verdadeira musa de Mestre Coubertin, lá está o presidente do Comité Olímpico de Portugal e de tantas outras coisas. Entre essas, naturalmente, o Conselho para a Ética e Segurança no Desporto, secção do Conselho Nacional do Desporto. Ora, recentemente, com a chancela da Secretaria de Estado, Vicente Moura distribuiu, para análise, a algumas entidades, um "Modelo de Regulamento da Prevenção da Violência". Todo o texto é digno de ser lido. Agora, porém, pelo seu "elevado sentido ético", transcreva-se parte do seu artigo 3.º (Princípios) "As pessoas referidas no artigo anterior [todo o universo desportivo e para além dele] devem pautar a sua conduta, tanto na actividade desportiva, como na vida quotidiana, por um conjunto de princípios. E, de entre eles, o da neutralidade política e o do olimpismo." Como é que é, falsos arautos da ética? Na vida quotidiana?

5. Desejamos que a página do PNED nos dê conta da lista dos Embaixadores da Ética Desportiva. Não é difícil adivinhar, contudo, que lá encontraremos presidentes de federações desportivas e, seria uma injustiça de bradar aos céus, o chefe da Missão Olímpica Londres 2012, o presidente da Federação Portuguesa de Canoagem.

Portugal tem em Fernando Pimenta uma das afirmações de excelência desportiva internacional. O atleta há muito tempo que aguarda uma decisão de um recurso que apresentou junto do Conselho de Justiça dessa federação. Um destes dias, como manifesta forma de controlar, amordaçar e quebrar a personalidade e a dignidade do atleta, a poucos meses dos Jogos, Fernando Pimenta recebeu uma nota de culpa onde se invocam pretensas infracções disciplinares cometidas em 2009. 2009!

6. Cito Millôr Fernandes e com ele concordo em absoluto: precisamos de um código de falta de ética.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Por aí de bicicleta... à conversa com Isaltino

Ontem, de bicicleta logo depois de atravessar a marginal, encontrei Isaltino Morais, Presidente da Câmara de Oeiras, que andava a ver as obras na estrada do complexo do Jamor e, logo, aproveitei o ensejo para trocar ideias sobre aquela estrada cujo desenho escapou, com pena minha, ao conceito "shared space". Nem um minuto tinha passado e já a estrada estava a ser definida como uma acessibilidade ao grande parque de lazer. Ora uma estrada não é um mero acesso a "coisa alguma" mas fundamentalmente um espaço de relação, ou então não!

A "acessibilidade" tal como está concebida segue a ideia da segregação, aquela que nos faz pensar que a estrada é para os carros do mesmo modo que o zoológico é para as feras. E tanto um espaço como o outro nos mostra como somos exemplares, leiam cómicos, porque quando damos a cada macaco o seu galho rapidamente prendemos girafas e elefantes em Sete Rios e, com idêntico júbilo, soltamos carros de corrida em savanas e desertos.

Ora o Jamor não é o deserto e bastava dar valor ao método para alterar toda a leitura daquela área fazendo, para o efeito, rebater passeios, alterar a textura e/ou a cor da estrada, colocar arbustos e outros canteiros que retiram linearidade e velocidade a todo o percurso. Assim, como está, é mais uma via rápida de união da A5 à Marginal. Assim, como fica, continua a exigir o gradeamento de cadeia em torno de todo o espaço, até para evitar que as crianças ganhem alguma autonomia face aos progenitores e, nestes, fazer vingar aquela espécie que grita aos filhos "não corras que transpiras". Assim, como será, a estrada terá o custo acrescido da vedação e, mais ainda, da sinalética de inibição à aceleração. Assim é, enfim, a estrada do progresso.

Progresso é o conceito de movimento através do qual se expressa toda a ética cinética do nosso tempo. E, no Jamor, cumpre-se a utopia cinética em todo o seu esplendor tendo, por um lado, os Centros de Alto Rendimento, áreas vedadas destinadas à guerra pacífica de rebentar recordes e, por outro lado, em seu redor, os espaços de baixo rendimento para dar curso ao movimento humano. Pelo meio, para todos, ficam as vias para carregar no pedal. E tanto o movimento dos atletas, até aqui deixado a treinadores e médicos desportivos, como o movimento das estradas, até aqui largado ao cuidado dos engenheiros, se revelam grandezas morais e sociais que questionam o tal progresso.

A ideia de progresso caiu na ratoeira motorizada e eis o movimento humano preso/pensado/medido a partir dos tubos dos gases - o de CO2 para o baixo rendimento e do VO2 para o alto rendimento. Todos estes tubos são iniciativas morais que, em boa consciência, se inventaram segundo a ética da razão iluminista. Há que entender o corpo, não como um dado divino mas, sim, como algo mais moldado à vontade humana, algo que uma vez treinado negue a sua própria natureza e, nas pistas ou nas estradas, não fique preso a limites. Com o tempo todo o movimento acelera, ganha vida própria e, na estrada, o corpo estoura não só os limites da velocidade como a sua integridade por inteiro contra uma árvore ou um candeeiro e, na pista, o atleta estica a moral e rebenta com a saúde corporal.

Todo o movimento é afinal prenhe de moralidade e, por isso, o espanto do Presidente da Câmara quando em frente dele parei, sem plano de fazer história, leiam reunião agendada, a querer refletir sobre o movimento, leiam sobre uma estrada tão arranjada. Ali estava uma mulher na sua bicicleta, como se tivesse voltado à infância, dupla aberração portanto, a opiniar sobre um assunto de homens, de especialistas, enfim! Ali mesmo naquela estrada nem o alto passeio a fez ver que se dirigia ao topo da hierarquia da decisão municipal e, tal é o mundo, tudo parecia uma derradeira democracia ou, mais corriqueira porque junto estava um tipo sempre a tirar fotografias, uma entrevista para um qualquer jornal.

Andar a pé e de bicicleta tem destes perigos, ficamos mais expostos ao contacto, à conversa informal, perdemos o título com que nos governamos e sentimos com mais intensidade o desmazelo e a desarrumação a que deixados os (des)governados fora do alcatrão. Fechado e servido por boas acessibilidades, o espaço do Jamor é, feitas as contas com a calculadora do progresso, como o de Sete Rios, um parque protegido ao qual chegam feras ao volante que, soltas e por via do baixo ou alto rendimento, durante um tempo amansam e renovam a energia. De volta a outros parques da vida, residenciais ou profissionais, já fechados no automóvel deixam de pensar no território e na sua geografia porque o que conta é o terreno mental percorrido, sem inter-relação e muitas vezes vivido como uma fantasia louca que coloca no volante as mãos e também a fúria da falta de beijos na boca. São estes últimos que naquela estrada muito apitam quebrando, noutros, o acto solidão em que envolvidos. Um susto! Sim, as acessibilidades metem medo mas as estradas que promovem inter-relação Não!