sexta-feira, 30 de março de 2012

Por aí, no tempo, de bicicleta


As quatro imagens remetem para ideários distintos e épocas diferentes. Transporte pessoal, lazer e aventura, corridas de competição e, claro, os media que propagam e também produzem estas dimensões de produção de significado da bicicleta.

Quem não tem uma história sobre a bicicleta? Mesmo que a história seja nunca ter consigo aprender a andar não deixa, por isso mesmo, de ser uma singularidade biográfica. Largar as rodinhas ou a mão que nos ampara o selim é um acto que tem tanto de libertação como de fé. Este afastar do controlo familiar é a antevisão de outros momentos de independência pessoal na qual, perante a incerteza no domínio do caos, a dúvida é o grande desafio no salto para o desconhecido e, anos mais tarde, não só rimos daquilo que para nós foi um grande feito como ainda comparamos a bicicleta à própria vida e citamos Einstein “para mantermos o equilíbrio temos de continuar em movimento!”.

A bicicleta começa também por ser um objecto de recreação quando inventada há pouco mais de cem anos para, já no fim do séc. XIX, ser considerada uma alegoria aos valores do progresso acoplados ao desenvolvimento da ciência. Comparada com o cavalo, a bicicleta realiza a súmula de valores sociais como a ordem e a limpeza, de virtudes de carácter como a elegância, o silêncio, a subtileza e a diligência e, ainda, de qualidades do corpo como a força, a ligeireza e os músculos de aço. O selim sintetiza também toda a relação de partilha de vocabulário, vestuário, regras e regulamentos desportivos entre o hipismo e o ciclismo.

A bicicleta vai para além do utilitário, fertiliza imaginários de aventura e preenche a visão personalizada e emocional romantica de frequentação da paisagem pelos passeios de cicloturismo. Nos hipódromos é uma inovação e serve a distinção de classe, no velódromo com guiador rebaixado que curva o corpo para ganhar mais velocidade é dada a quem tem mais força. Esta postura, contrária ao porte aristocrático de cabeça erguida promovida pelo hipismo, é associada ao trabalho da forja, ao trabalho do operário na fábrica. A bicicleta populariza-se e o espectáculo da corrida também, o hipódromo e o hipismo reforçam a distinção social e a bicicleta, neste contexto de afirmação bacoca, é considerada o "cavalo dos pobres".

É o grande Tour de bicicleta que, em 1903, mostra como uma corrida de bicicletas na relação com o território apresenta versões nacionalizadas da cultura de um povo e, ao mesmo tempo, divulga novos modos de acelerar a mobilidade e de contactar com o outro que lhe era distante. É também este Tour que hoje celebra a abertura das fronteiras e festeja o poder da topografia da centralidade geográfica da França. E, qualquer que seja a escala de visibilidade mediática da corrida de bicicletas, o pódio é sempre a síntese de hierarquias sociais de poder político, económico e, também, desportivo.

É no pódio que a história da bicicleta dá sinais da sua vitalidade revelando, primeiro, o sucesso da produção artesanal a patrocinar a grande corrida e, depois no período de entre-guerras, automatiza-se para responder à produção de grande escala inspirando-se no fordismo e na “gestão científica” de recursos taylorista; até meados da década de 60 o uso da bicicleta floresce, especialmente ao nível utilitário da mobilidade pessoal. E, em menos de duas décadas, o automóvel sucede a bicicleta ainda com mais sucesso que a mota Famel.

A década de 80 convive com o aumento exponencial do automóvel enquanto assiste à emergência do ambientalismo e à produção marginal do imaginário de aventura com a invenção de um modelo robusto de bicicleta que se adapte ao re-encontro com a natureza. É na montanha a bicicleta se "salva" e, literalmente, se afasta do significado utilitário no uso da mobilidade urbana. Depois de um século de existência a bicicleta cumpriu um ciclo, oriunda do lazer aristocrático está agora no lazer de massas lutando para ocupar o lugar que já teve na mobilidade pessoal. É também na margem que a inovação acontece e se produzem modelos versáteis como a bicicleta Brompton (nas imagens cimeiras) que desdobra o campo da adaptabilidade da bicicleta e de produção de novas culturas de entendimento dos usos da bicicleta.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Rumo a Londres 2012

Um texto de Luís Leite, que se agradece.


A 4 meses dos Jogos Olímpicos de Verão, julgo ser interessante fazer uma retrospetiva das participações portuguesas, com o objetivo de se poderem tirar algumas conclusões.
No final, julgo ser possível fazer uma previsão das expetativas aceitáveis para os Jogos que se avizinham.

Portugal participou até agora em 22 edições dos Jogos Olímpicos de Verão, entre 1912 e 2008.
Nessas 22 participações ganhou 22 medalhas, o que dá uma média de uma medalha por participação.
Foram conquistadas 4 medalhas de ouro (todas do Atletismo), 7 de prata e 11 de bronze.
Das 22 medalhas, 10 foram conseguidas pelo Atletismo.

Além do Atletismo, mais sete modalidades conseguiram medalhas: Vela (4), Equestre (3), Ciclismo (1), Esgrima (1), Judo (1), Tiro – Fosso Olímpico (1) e Triatlo (1).

Em termos de medalhas, o máximo que Portugal conseguiu numa edição foram 3, em apenas duas edições: 1984 (Los Angeles) e 2004 (Atenas).
Em 9 edições, Portugal não conseguiu qualquer medalha.

Se considerarmos as medalhas e o número de pontos obtidos (do 1º ao 8º lugar), sendo 8 para o 1º e 1 para o 8º, vejamos as melhores participações:

Atenas 2004: 3 medalhas, 42 pontos;
Los Angeles 1984: 3 medalhas, 26 pontos;
Atlanta 1996: 2 medalhas, 33 pontos;
Sydney 2000: 2 medalhas, 30 pontos;
Pequim 2008: 2 medalhas, 28 pontos;
Montreal 1976: 2 medalhas, 19 pontos;
Londres 1948: 2 medalhas, 17 pontos.

As piores participações, com 0 medalhas:

Estocolmo 1912: 0 pontos;
México 1968: 0 pontos;
Moscovo 1980: 0 pontos;
Munique 1972: 3 pontos;
Antuérpia 1920: 5 pontos;
Tóquio 1964; 5 pontos;
Los Angeles 1932: 6 pontos;
Melbourne 1956: 7 pontos;
Barcelona 1992: 8 pontos.

Modalidades que conseguiram mais pontos:

Atletismo: 98;
Vela: 79;
Equestre: 42;
Esgrima : 19;
Judo: 14;
Vólei de Praia: 10.

Atendendo ao número de medalhas e pontos e o número de participações, Portugal é o país mais fraco da Europa em resultados olímpicos, com população superior a 3 milhões de habitantes e apenas devido à Albânia, pois de resto só está acima dos microestados com menos de 500 mil.

Tomando como base os resultados obtidos no passado e a fraca tradição desportiva nacional e tendo em consideração o panorama atual das modalidades e atletas já qualificados e eventualmente a qualificar, é possível fazer um prognóstico global quanto a expetativas realistas:

Dificilmente Portugal ganhará uma medalha e é improvável que ultrapasse os 15 pontos.

Esta previsão reflete o desinteresse com que o país sempre olhou e olha para os Jogos Olímpicos, revelando uma enorme incapacidade de organização profissional e responsável, salvo raríssimas exceções.

A nível governamental, reina o desconhecimento sobre a matéria e a profunda crise financeira que o país atravessa será invocada para justificar uma crescente decadência do desporto olímpico.

A população desportiva, nessa altura, estará preocupada com o Europeu de Futebol e com a aquisição de reforços futebolísticos.

terça-feira, 27 de março de 2012

O futebol e a arte de governar

Há gestos que valem mais que um tratado sobre a arte de governar. A primeira reunião que o ministro do desporto agendou com o futebol não foi com a respetiva Federação, que representa o futebol, mas com a Liga Profissional. Hoje seria pouco provável. A rede de influência politica que estava na Liga Profissional do Futebol transitou para a Federação. E esta juntou, à legitimidade formal que detém como autoridade representativa da modalidade, um inquestionável e indisfarçável poder político. Reconhecer este facto não envolve qualquer juízo de valor. Apenas que o relacionamento politico entre governo e parceiros desportivos não é alheio às redes de influência que operam no sistema político e no sistema desportivo.
A história do associativismo desportivo, designadamente das federações desportivas, tem padecido de uma enorme mácula que o tempo tem transportado: o da sua suposta autonomia. Que é mais do campo do desejo e da ideologia, do que da realidade substantiva. Ao aceitarem receber competências públicas, de matérias que lhe eram próprias e de que o Estado as desapropriou, e ao se submeterem à tutela do Estado a aludida autonomia feneceu. O que subsiste é uma relação de tensão, entre a missão das federações desportivas e o controle do Estado, mais ou menos apertado em função de conjunturas políticas e programáticas. E é essa relação tensional que é mediada pelas redes de influência. Onde os fatores políticos/partidários não são negligenciáveis. Facto que aumenta na medida da fraqueza das organizações civis facilitando a captura do Estado por quem o governa e por quem partidariamente suporta a governação.
Da referida reunião saiu o anúncio da constituição de grupos de trabalho para estudar matérias relativas ao futebol, e não apenas à sua dimensão profissional, e cujos resultados foram oportunamente divulgados. Mas o governo não ficou por aqui. Aceitou a agenda que lhe foi proposta. Dispôs-se a estudar-curiosamente sem o recurso a grupos de trabalho exteriores à máquina governativa- o modo de regulamentar as apostas on-line, as formas de resolver os problemas resultantes das dívidas fiscais e a acolher em património do Estado a Casa das Seleções (com esta ou outra designação).O que fez o governo mudar de metodologia, no que respeita a grupos de trabalho? Ignora-se se é vontade do governo ouvir também, sobre estas matérias, o Conselho Nacional do Desporto. Se o fizer é positivo. Está causa, em certa medida, o rumo da governação do desporto no que respeita à sustentabilidade da dimensão profissional do futebol, e ao destino a dar a parte do património público desportivo gerido pelo Estado central.
De todos aquelas matérias a que menos se tem falado (porque é a mais sensível?) é o Jamor. O governo optou por um prudente silêncio. O que não é equivalente a que esteja parado. Como se trata de matéria que não põe em causa a preparação olímpica- justificação apresentada pelo auxiliar do ministro para justificar uma prudência de iniciativas até ao final dos Jogos Olímpicos- o que leva o governo ao silêncio? É prematuro falar porque não há decisões definitivas? Ou porque algumas das decisões definitivas é melhor que se não fale? O tempo o dirá. Mas qualquer que seja a razão, o governo, mais cedo ou mais tarde, vai ter anunciar o que decidiu. E como ciclicamente, a propósito do Estoril Open, o problema do Jamor ganha direito de agenda política pode estar para breve o anúncio das novidades. Para o ténis… e para o futebol.
Nesta matéria é de aconselhar alguns cuidados. Em primeiro lugar a defesa do interesse público. Em segundo lugar a defesa do interesse público. E em terceiro lugar a defesa do interesse público. Em ocasiões, que envolvem opções estratégicas sobre o património público, todo o cuidado é pouco. É nestes momentos, em que se precisa de tempo mas em que, simultaneamente, se não pode perder tempo, que se corre o risco de, ao decidir, aumentar a descrença na política como um exercício de transparência na defesa do bem público. Se há exigência que o exercício democrático requer é que a decisão política seja publicamente assumida e as suas razões defendidas. O contrário é como o urinar nas calças: ao princípio aquece, mas depois torna-se desagradável e é insuportável. E não há como o esconder. En bon entendeur???

domingo, 25 de março de 2012

As eleições no andebol

Texto publicado hoje no Público.


1. No dia 31 de Março realizam-se eleições para o cargo de presidente da Federação de Andebol de Portugal (FAP). São eleições intercalares, motivadas pela renúncia ao cargo do até agora presidente. O apuramento das reais razões desse "afastamento" compete às entidades públicas e ao mundo do andebol.

O que nos interessa aqui enfatizar é como esse "mundo do andebol" e o Estado vivem com normas estatutárias e regulamentares contrárias à lei e que, está à vista neste caso concreto, desvirtuam o acto eleitoral e ferem-no de morte.

2. Não é preciso recuar muito no tempo para termos a memória das loas às federações desportivas que adaptaram os seus estatutos ao regime jurídico das federações desportivas de 2008 (RJFD 2008). Fê-lo, alto e bom som, Laurentino Dias. Mestre Picanço segue-lhe as pisadas, como não podia deixar de ser, não querendo saber de ilegalidades ou irregularidades no funcionamento das federações desportivas. E, com esta postura, chegámos, no andebol, a um acto eleitoral que irá decorrer em desacordo com a lei.

3. A última versão dos estatutos da FAP é de 2010. Vejamos alguns aspectos eleitorais.

De acordo com o artigo 33.º, o Regulamento Eleitoral da FAP (REFAP) é aprovado em Assembleia Geral. Manifestamente ilegal: a assembleia geral, na lógica do RJFD 2008, não tem poder regulamentar; tal compete à direcção. Segue-se o artigo 34.º: gozam de capacidade eleitoral activa os membros ordinários da FAP. Também não é assim. Pelo menos não inteiramente, pois a capacidade eleitoral radica, por exemplo, em cada um dos praticantes, árbitros ou treinadores, e não nas suas organizações representativas, que não têm forçosamente de existir.

4. Os estatutos da FAP afirmam que a assembleia geral é composta por 57 delegados. E prossegue o artigo 50.º que são delegados os legais representantes das Associações Regionais de Andebol até ao número de 20, os legais representantes das Associações Nacionais de Clubes de Andebol Não Profissional, e respectivos delegados por esta designados até ao número de seis (a que se adicionam 14 delegados por não haver competições desportivas profissionais), os legais representantes das Associações de Jogadores e respectivos delegados por estas designados até ao número de nove, os legais representantes das Associações de Árbitros e Oficiais de Mesa e respectivos delegados por estas designados até ao número de quatro, os legais representantes das Associações de Treinadores e respectivos delegados por estas designados até ao número de quatro.

5. O REFAP segue o mesmo trilho. A FAP não consagrou um colégio eleitoral com base nas organizações e agentes desportivos nela filiados. Bem pelo contrário, violando a lei, "erigiu" um sistema eleitoral assente em organizações representativas.

O resultado - verdadeiramente absurdo - está à vista: não há, na assembleia geral da FAP, delegados que representem os jogadores e os treinadores.

Inerências, na lei, só as previstas no artigo 37.º do RJFD 2008: a possibilidade de um - e apenas um - delegado designado pelas associações territoriais e clubes, pelas associações de clubes, bem com pelas organizações representativas dos praticantes desportivos, treinadores e árbitros ou juízes.

6. Alguém se preocupou, preocupa ou preocupará com esta situação? Nem pensar, pois é tudo uma grande equipa de cegos convictos.

quinta-feira, 22 de março de 2012

A Eusébio basta ser e, Sendo, é património

Eusébio é património, não por causa de Salazar que, supostamente, perante o herói popular do Mundial de 66 o terá elogiado com o epíteto de património nacional ou património de estado, já ninguém se lembra e, para o efeito, tanto faz. O que sobrou dessa situação foi um bom equívoco que, entre outras benesses, serviu para consolidar o matrimónio com o Benfica. Este, sim, duro de aguentar até ao fim dado o interesse manifestado por outros clubes que, já na época, avançavam quantias bem melhores pelo dote.



O amor à camisola, ao Benfica, nem sempre foi fácil de aguentar dada a angústia sentida por nem o libertarem nem o aumentarem. Em 1969, no fim de um contrato de três anos, o desentendimento entre Eusébio e o Benfica é tornado público pela edição da revista Século Ilustrado que lhe chama O Ca$o Eu$ébio. O índice da mesma abre com o ponto “Eusébio – polémica e reivindicação”, num artigo intitulado Eusébio: “estou desiludido não voltarei a ser ingénuo”. Mas foi Silva Resende, seu advogado, quem deu o "corpo às balas" numa entrevista onde conta também as ameaças sofridas por ajudar Eusébio nesta querela:


“(...) _ Os regulamentos futebolísticos são sempre feitos sem se obter o acordo dos jogadores, aos quais não são dadas explicações. (...) Isto, porque se o jogador pretender ir para uma colectividade estrangeira só o conseguirá desde que o seu clube o permita. _ Isso quer dizer... _... que o Benfica pode pedir a quantia que muito bem entender pelo «passe» de Eusébio sem lhe dar satisfações. Dessa forma, se um clube italiano, por exemplo, oferecer 10 ou 15 mil contos (é do conhecimento geral que há quem lhe desse 20 mil) por Eusébio, este vê o seu possível contrato prejudicado, uma vez que o Benfica pode dizer simplesmente isto: «Eusébio é inegociável». Por outro lado só lhe oferecem 3 mil contos para ele continuar. Em que ficamos? Que género de moralidade é esta?

(...) Consta que a reacção dos sócios tem sido até certo ponto negativa. Como analisa essa tomada de posição?_ (...) Recebi centenas de cartas e telefonemas anónimos. Todos me insultam. Porquê? Eu sou advogado, defendo os interesses dos meus constituintes e como «cronista» da «Bola» defendo os meus pontos de vista à face da lei que é um pormenor muito esquecido pelos indivíduos que aproveitam o anonimato para o insulto."

Século Ilustrado nº 1650 de 16 de Agosto de 1969


A célebre frase de Salazar nem nesta quezília é "lembrada" ou sequer alguma vez referida e, por incrível que pareça, um elogio tão bonito e tão estrondoso não teve eco em nenhuma notícia de jornal e nem sequer é digna de registo na legenda do cromo na colecção a que esta foto que se segue pertence.


Colecção de cromos Portugal no Mundial de Futebol de 1966. “121 - O Senhor Presidente do Conselho recebeu a selecção, após brilhante proeza conseguida em Inglaterra. Demorou-se a conversar com Eusébio, grande embaixador de Portugal no mais apaixonante dos Desportos”.


Mas, décadas mais tarde, Malheiro, bom leitor de lábios, sabiamente interpreta toda esta história e, no seu livro Obrigada Eusébio, escreve que Salazar o considerou património de Estado em 1962 e, dúvidas houvesse, ilustra a máxima com esta mesma foto de 1966. Malheiro, como bom gatekeeper que é, não necessita de fontes, é ele quem conta o conto, é ele quem acrescenta os pontos que quiser. Não é que Malheiro seja um criativo ou um artista mas, mutatis mutandis, pensem agora na Pietà, de Miguel Angelo, para verem como se captam aspectos intangíveis do património. Nesta obra, Cristo e Nossa Senhora são sujeitos a uma operação estética e, seguindo os preceitos da antiga Grécia, em vez de um corpo magro, fustigado e sacrificado pela tortura, temos um jovem atlético e musculado, de 33 anos, caído no colo da sua mãe que, tiradas as rugas dos seus quase 50 anos, com face muito jovem nos seus braços o carrega.


Voltando ao "tempo do Eusébio", sim, porque é neste termo que reside o modus operandi que por vezes escapa à estética biográfica, o importante é ser ele um marcador do tempo, quer seja da nossa vida pessoal quer seja da história de um povo por inteiro. E, nesse seu tempo, era Américo Tomás quem seguia os seus desafios e, também, quem apreciava por todo o lado viajar. Contrariamente, Salazar nunca se terá afastado muito do eixo Lisboa - Santa Comba Dão e, presumo, só veria no futebol o caos, a incerteza e a desordem que ele tanto se esforçava por negar quando não conseguia, por inteiro, anular. A ginástica, sim, teria a sua admiração, com uma estética simétrica, exigente na disciplina do corpo, escultora do carácter e da feição e, quando feita por grandes massas de atletas, um espectáculo digno que serve a inauguração do estádio nacional .


A ideia de património aceita-se quando tudo nele e por ele se discute. Eusébio é o caso, é o herói fundador que a televisão filmou, cujas vitórias tanto ilustram a ideia do sucesso da comunidade multi-racial e multi-continental que serve de suporte à manutenção do colonialismo como, muitos anos mais tarde, a fantasia conciliatória com esse mesmo passado obscuro. E, mal pára de jogar, Eusébio nem tem de falar porque dada a densidade da sua múltipla identidade - benfiquista, português e moçambicano - terá sempre nele e por ele muitas vozes a erguerem-se e a erguerem-no. A Eusébio basta ser e, Sendo, ele é património.



terça-feira, 20 de março de 2012

As dívidas das autarquias:e agora?

É de elementar justiça destacar o importante papel das autarquias no desenvolvimento desportivo local e nacional. Mas sempre me impressionou a capacidade financeira de alguns municípios para acolher eventos desportivos de forte despesa pública. E, em muitas ocasiões, interroguei-me onde iam esses municípios descobrir os meios financeiros para o que gastavam. E o que aqui se diz para os eventos se aplica ao financiamento à dimensão profissional do futebol indo ao extremo de colocar capitais públicos em sad’s.
A publicação do anuário dos municípios portugueses não esclarece de todo aquela minha dúvida. Mas ajuda a perceber que alguns desses municípios, tão pródigos a gastar no espetáculo desportivo, estão afinal profundamente endividados e andaram a gastar o que não tinham. É certo que esse endividamento se não deve ao que gastaram com o desporto. Mas a uma atitude relapsa face à gestão. Mas permite perceber que não há milagres que permitam transformar as economias autárquicas. Sobretudo quando, como agora, há limites ao endividamento e a banca coloca restrições ao crédito.
Alguns, durante muitos anos, alertaram para a deriva autárquica onde se gastava muito em projetos de duvidoso aproveitamento para as políticas desportivas locais. No erro que consistia em se concentrarem recursos significativos quase sempre centrados na dimensão do desporto-espetáculo e na sua comercialização. Numa política de infraestruturação desportiva decorrente da opção anterior sem preocupações de exploração e de sustentabilidade.
O argumento sempre invocado, o de que não era uma despesa mas um investimento que replicava condições de desenvolvimento local muito para além do desporto, está à vista: milhares de recursos gastos em espaços desportivos, alguns obsoletos e com uso muito aquém do previsto; eventos cuja precaridade de aproveitamento se esfumou; uma dimensão profissional em constante precaridade.
Agora, como o tempo político e económico é outro, não há solução que não seja arrepiar caminho. E disso se queixam muitas organizações desportivas que deixaram de poder receber os apoios que durante muitos anos estiveram disponíveis. Contrariamente ao que por aí se anda dizer a crise não é uma oportunidade. É uma inevitabilidade que tem imensos custos e não apenas financeiros. As autarquias vão sofrer com os apertos a que vão estar sujeitas; os munícipes vão ter um pior serviço público e as organizações que sustentaram uma parte das suas atividades com apoios autárquicos verão essas atividades soçobrarem perante a escassez de recursos.
Tudo isto ocorre num ambiente em que se acentua um garrote sobre o poder local com os municípios, a tenderem a deixar de ser poder para passarem a ser administração. Esta passagem vai fazer-se sob a égide das exigências do plano de ajuda externa e da necessidade de controlar a despesa pública. Não é excessivo reconhecer que com consequências imprevisíveis para o futuro do exercício autárquico Mas não só. Com todas as contradições inerentes a processos de transformação se, nos últimos trinta anos, o desporto português sofreu alterações deve-o em parte significativa ao papel das autarquias. Mudar este papel terá consequências no próprio desenvolvimento do desporto.
Acresce, a esta dificuldade objetiva, uma outra, de âmbito subjetivo e ideológico: a rotina de pensamento a que estamos sujeitos e que nos amarra a modelos de interpretação da realidade que se constituem como armadilhas que dificultam o enfrentar da situação. E a mais letal é aquela que centra o alvo das políticas desportivas locais no apoio a dimensões do desporto que se não repercutem na facilitação do seu acesso e na qualidade das suas práticas, aos cidadãos/munícipes. A reversão da situação atual só pode ter este destino: um retorno à sua obrigação/vocação original. Exigindo, por outro lado, um escalonamento diferente das prioridades em matéria de política desportiva nacional de modo a permitir hierarquizar apoios em função das dimensões sociais e da economia das diferentes modalidades. Sendo um caminho difícil requer muita reflexão e um diálogo alargado entre poderes políticos e os organismos desportivos.
Os constrangimentos financeiros que obrigaram o país a recorrer a uma ajuda externa impõem condições de extrema severidade. Autoridades políticas e responsáveis desportivos devem, por isso, fazer o que estiver ao seu alcance para minorar esses efeitos. E só o conseguirão se concertarem estratégias e convergirem nos objetivos. Nunca como hoje, face à escassez de recursos, foi tão necessária a sinergia e a convergência entre os vários atores e agentes políticos e desportivos.Oxalá seja isto que se está a passar com o anunciado projeto Ambição Olímpica ,no qual ,segundo as palavras do seu promotor se espera gastar entre 1,5 a 2 milhões de euros.

domingo, 18 de março de 2012

Domingo na ciclovia do Guincho

Hoje é Domingo! Hoje é na ciclovia e na estrada do Guincho que encontramos a malta toda, famílias inteiras com crianças ou sem elas, com cães de trela ou sem ela, com patins de batons ou sem eles, com bicicletas de rodinhas ou sem elas. Todos juntos e, se possível, depois das dez! É este o lema que nos une, uns atrás dos outros, ora nas filas da A5 a caminho do trabalho, ora no lazer das estradas e nas ciclovias da moda. Alienação? Não, o termo já nem se usa, os corpos que ao Domingo no Guincho arejam são concordantes no mesmo estilo de vida e não só.


É ao Domingo que a emoção se adensa porque, na estrada, ao tráfego da "voltinha para fazer a digestão" se junta o motard que só chega à Roca com espectáculo de velocidade e em contramão. E, sem paredes meias ou qualquer divisão de protecção, na ciclovia "todos berram e todos têm razão" porque aos muitos que nela marcham se juntam alguns mais atléticos a correr, uns poucos mais audazes a patinar e, como se não bastassem, uns muitos convencidos que ali vão andar de bicicleta. Na estrada, o espaço é mais largo, é o lugar dos automobilizados, refiro-me aos da digestão do feijão e aos motards da contramão que, perante o conflito dos outros, se movem velozes sem alarido apesar do barulho e da poluição. É graças ao carro que muitos chegam ao Guincho para admirar o mar e, alguns mais arrojados, chegam mesmo a sair do dito para na praia passear. Bendito seja o nosso carro que nos leva a escapar à inércia física a que os malditos dos carros dos outros nos condenaram!


O carro dá-nos vida, torna-se as nossas pernas e nele, dado o conforto quase divino, sentimos a máxima "sento-me logo existo". A vida moderna é então muito mais moderna que vida, é passada no sofá, quer no emprego quer frente à tv. Neste contexto, a ciclovia desentorpece as pernas e areja o pulmão de muitos destes e, ao lado, a estrada serve os mais viciados do assento mantendo-os imóveis. De carro nem a janela se pode abrir por causa do vento do Guincho. O ar livre tem muitos imponderáveis que só mesmo o carro resolve já que, sempre pronto, protege do sol ou de uma aragem mais fresca e, sem locomoção, evita a fadiga. De modo exemplar a magnitude da vida reproduz-se no "oh, filho anda cá, não corras que te cansas!"


A estrada favorece o culto do sofá e é, por isso, um espaço exclusivo de interioridade, individualidade e, sem músculo mexer, de velocidade. Comparada com a estrada, a ciclovia do Guincho é muito estreita para o elevado número de pessoas que ao Domingo ali resolve passear. Como o nome indica, ciclovia faz crer que é um espaço destinado a bicicletas mas, claramente, é um equívoco assim pensar porque o piso liso é excelente e, se feitas ao lado do passeio, é por lá que dá gosto andar. Ora, concorrente, a calçada portuguesa só dá mesmo conforto ao olhar porque a irregularidade faz tropeçar e quando molhada faz escorregar, logo a ciclovia é vista como a alternativa a todas essas armadilhas. O colorido da ciclovia é atraente e, nela, só apetece andar, seja de salto seja de bengala e, sem postes e outros emplastros, serve também a mobilidade dos carros de bébé. Dada a ambiguidade da sua nomeação, o conflito na ciclovia existe e, paradoxalmente, deve-se ao sucesso e à diversidade da sua utilização.


Então que fazer às bicicletas? Ora, como é óbvio, o lugar das bicicletas nas cidades e nas vilas, é na estrada! Mas, nas estradas em geral e na do Guincho em particular, os carros superam os limites da velocidade e não há meios de os controlar ou deter. Então, se calhar, a solução passa por mudar a cor da estrada do Guincho e das estradas dos bairros onde moramos para, assim, se confundirem com ciclovias e serem pensadas como um espaço seguro partilhado por todos. E, para começar, tomar já o rumo dos corpos discordantes, daqueles ciclistas que vão pela estrada para não atropelar ninguém que, a seu modo, subvertem a ordem dada e, plurais, se tornam agentes de mudança.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Laurentino Dias? Onde andas?

Ontem Laurentino Dias, a respeito da deliberação do famigerado »alargamento» da I LIga de futebol, prestou declarações públicas, através da Lusa:


"O antigo secretário de Estado e do Desporto Laurentino Dias desferiu violentos ataques ao alargamento dos campeonatos profissionais e diz esperar que a decisão seja "revogada".“É ilegal porque não se podem mudar as regras a meio, é irracional porque não tem fundamento em quaisquer estudos, e é oportunista porque resulta de uma proposta de campanha eleitoral, da qual se percebia qual era o sentido".


Hoje o Público dedica amplo espaço às eventuais responsabilidades do ex-presidente do IDP, dando conta do resultado de uma auditoria às "célebres" facturas.


Há gente que vive bem ou, como diria a minha mãe, sabe viver.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Uma outra novela

Dificilmente seria possível encontrar uma só decisão que violasse em tão larga medida o arsenal de recomendações, orientações, resoluções, livros de cor, códigos e regulamentos - de autoridades politicas e desportivas, nacionais e europeias -, como aquela que foi tomada pela Assembleia Geral Extraordinária da LPFP a propósito do alargamento de clubes nas competições profissionais de futebol.

De uma assentada fez-se o pleno e pôs-se em causa elementos basilares da dimensão europeia do desporto como sejam o princípio da promoção/despromoção, as competições abertas, a estabilidade das competições e a salvaguarda da sua integridade.

Curioso seria se, tal como outras deliberações tomadas naquele dia, também desta se desse conhecimento à Comissão Europeia e, já agora, à UEFA, antes sequer de outras instâncias nacionais se pronunciarem…

Não se pretende aqui navegar na espuma dos dias em torno das virtudes do dirigismo desportivo indígena, nem dos encantos de Medeia sobre promessas eleitorais. O espaço mediático estará, por certo, exaurido das mais doutas opiniões e a motivação deste escriba para novelista é escassa.

Se na situação concreta do alargamento Mário Figueiredo poderá alegar que a sua proposta – a qual através de uma liguilha atenuava vários dos problemas acima mencionados - foi chumbada e por isso a sua estratégia ficou condicionada, o mesmo não poderá fazer em relação à queixa que pretende apresentar contra o Estado Português junto da Comissão Europeia por ausência de notificação prévia da regulamentação de exploração dos jogos sociais do Estado em plataforma multicanal, dado que aqui os clubes se limitaram a ratificar um processo que conduziu na integra, o qual enferma de gritantes lacunas, no que respeita a uma orientação estratégica sobre a regulação do mercado de apostas desportivas online que satisfaça os propósitos dos clubes e também no que concerne ao conhecimento sobre a abordagem das instituições da UE neste mercado.

Vejamos:

1. O facto do Estado Português não ter informado a Comissão das eventuais regras técnicas constantes no Decreto-Lei n.º 282/2003, na acepção conferida pela Directiva 98/34/CE, em nada implica que a publicidade e patrocínios de casas de apostas continue a ser uma prática ilegal punível com sanções penais. Isto vários tribunais já o sublinharam, entre eles, bem recentemente, o Tribunal Cível do Porto que declarou nulo o contrato de patrocínio entre uma casa de apostas e a LPFP. Convido, pois, a uma leitura atenta da pág. 77 do respectivo processo.

2. A Comissão Europeia, nunca – nem após o mediático acórdão Santa Casa – moveu qualquer processo contra o Estado Português neste âmbito;

3. Desde que o comissário Michel Barnier assumiu a tutela deste sector os processos de infracção instaurados por eventual violação do direito da UE em matéria de jogo e apostas online na legislação de diversos Estado Membros foram suspensos, uma vez que a litigância e abordagem regulatória da Comissão e do TJUE não têm produzido resultados. Para disciplinar as mudanças num sector em rápido crescimento são necessárias medidas de cariz político, conforme se reconhece em diversos documentos da UE, e até mesmo na jurisprudência do Tribunal. Nesta medida foi lançado um Livro Verde e recolhidos contributos (o futebol português e o Estado português primaram pela ausência) para delinear uma politica baseada no conhecimento profundo do mercado e pondera-se a hipótese de uma directiva onde se estabeleçam bases gerais de convergência em relação a um mercado em plataforma digital e com uma regulação bastante fragmentada;

4. Reiterar publicamente que o “o jogo online não é mais do que o totobola em suporte digital" vem aduzir argumentos favoráveis - precisamente de quem menos se esperava e pretende contestar uma eventual violação ao direito comunitário - a que o regime legal de exploração de jogos sociais por via electrónica não configura uma regra técnica, tratando-se apenas da especificação do direito exclusivo concedido à Santa Casa quando oferece os seus jogos por esta via, mantendo-se o funcionamento do mercado com as mesmas regras pré-existentes.

Por ultimo, e ligando as duas deliberações, imagine-se o que seria um mercado de apostas desportivas online liberalizado num país onde não existissem despromoções na principal competição profissional de futebol, com as carências financeiras que alguns clubes atravessam? O Éden para a criminalidade associada à viciação de resultados através de apostas ilegais...

Alguém que explique a diferença entre uma aposta mútua e uma aposta fixa. Alguém que explique a diferença no risco à integridade das competições e à “verdade desportiva” entre um boletim com 13 jogos onde se aposta na vitória, empate ou derrota de cada e uma aposta durante um jogo que está a decorrer em algo aparentemente tão trivial – e tão susceptível de ser combinado, dado que não compromete o resultado final do jogo - como o jogador que irá marcar o primeiro pontapé de canto.

Opta-se, no entanto, por explicar aqui que várias vezes nem sequer está em causa a combinação de resultados, mas um ambiente privilegiado para implementar esquemas de criminalidade organizada de branqueamento de capitais. O exemplo esquemático foi bem real e encontra-se disponível a quem queira aprofundar o tema:



Este é um assunto demasiado sério - prioridade estratégica do COI, da FIFA e da UEFA, e de várias federações desportivas internacionais - para abordagens experimentalistas no mero propósito de assegurar mais um canal de receitas para o futebol profissional.

Num período onde a ética desportiva anda por aí, oxalá haja nisto alguém que saiba ir além dos cifrões, recolher as experiências de jurisdições mais avançadas neste domínio e ponderar as suas obrigações em matéria de protecção dos consumidores, da ordem pública e da credibilidade das competições desportivas .

terça-feira, 13 de março de 2012

Quando pensa que já se viu quase de tudo...

Quando pensa que já se viu quase de tudo, há sempre alguém que nos consegue surpreender. E para mal dos nossos pecados, surpreende-nos pela negativa. O que se passou ontem com a possível decisão de alargamento de 16 para 18 clubes na primeira liga foi um cimentar das péssimas qualidades e competências que coabitam nos dirigentes em Portugal.

A decisão da Liga em propor para autorização por parte da Federação Portuguesa de Futebol que esta época desportiva não desça nenhum dos 16 clubes em prova potencia inúmeras discussões sobre a prova que em Portugal move mais dinheiro e (tele)espectadores.

A época já entrou no último terço! A discussão do título envolve jogos entre os três clubes que lutarão pelo título até final com clubes que supostamente irão (iriam?) lutar para não descer. Que impacto terá a não consequência de não descer nas equipas que para lá disso, mais nada tinham como motivação? Como explicar aos 3.º e 4.º classificados da divisão de honra?

A opinião pública já não tem uma excelente imagem dos dirigentes do Futebol. Vamos lá saber porquê…mas ontem, diria, que foram demasiadas balas de canhão nos pés. A eleição de alguém que prometeu aos insatisfeitos uma fórmula mágica e com isso ganhou uma eleição. Como suportar isso?

A frase que muitas vezes se diz, se lê, se ouve “temos o país que merecemos” ontem cimentou mais um ou vários degraus.