sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Desporto Escolar? Sim ,mas... (II)

Texto da autoria de Francisco Sobral cuja autorização de publicação se agradece

Voltemos então ao desporto escolar.
De todos os ministros que detiveram a “pasta” do desporto desde 1974, o engenheiro Roberto Carneiro foi sem dúvida aquele que deixou, pela sinceridade e convicção do seu discurso e pela coerência da atuação legislativa, a maior (não importa, aqui e agora, se a melhor) contribuição para o que deveria ser a base do sistema desportivo português. E, sobre o desporto escolar, lhe ouvimos com insistência dizer, a educadores e a dirigentes desportivos, que não entendia como, sendo na escola que estavam as crianças e os jovens, as instalações, os recursos e as competências técnicas (pelo menos uma boa parte delas), devesse ser outro que não a escola o motor do desenvolvimento desportivo do país.
Eis o que é irrebatível – em tese.
A escola, porém, é uma instituição e um contexto complexo. Nela se cruzam tradições, formações, teorias, crenças, atitudes, sensibilidades e objetivos diversos e difíceis de conciliar. O entusiasmo que o desporto escolar suscitou nos anos imediatos ao seu lançamento entrou em perda irreversível no meio da crise geral que se instalou na escola e no sistema educativo do país antes mesmo da chegada da troika. Temos de resistir ao argumento financeiro (na verdade, o economicismo tem dois polos, não podemos rebater um tomando a mesma linha de argumentação a partir do outro) se queremos detetar alguns fatores de insucesso do desporto escolar, na ótica da formação desportiva de excelência. Só assim impediremos que eles perdurem independentemente dos bons ou maus ciclos económicos e financeiros do país.
Entre esses fatores, verdadeiros pecados originais do modelo de desporto escolar na perspetiva da formação desportiva para o alto rendimento, para a excelência, para a elitização desportiva (enfim, chame-se-lhe o que se queira chamar) implantado a partir da Lei de Bases do Sistema Desportivo, podemos identificar:

1) A ausência de uma definição de metas qualitativas para o desporto escolar, segundo os critérios de rendimento vigentes nas diferentes modalidades e nos seus diversos escalões etários.
Em concreto, as bem-intencionadas formulações gerais de princípios inscritas na Lei 1/90, de 13 de Janeiro (Lei de Bases do Sistema Desportivo, Artigo 6º, 1, 2 e 3), e na Lei nº 30/2004, de 21 de Julho (Lei de Bases do Desporto, Artigo 41º, 1, 2 e 3) não suscitaram disposições normativas suplementares, reforçando com isso o julgamento dos dirigentes federativos e associativos acerca da inconsistência da formação desportiva escolar em comparação com a praticada pelos jovens da mesma idade em contexto de preparação competitiva formal.

2) A manutenção da discriminação negativa dos mais dotados, dos “talentos” porventura, em consequência da mediocratização dos objetivos, tornando inevitavelmente o desporto escolar como uma recreação organizada, sem incentivos à assunção de exigência na aprendizagem, na consolidação das capacidades e das competências, na emulação e promoção do potencial de performance.
Dando a primazia ao convívio em detrimento da competição, o desporto escolar acabou por cair – se é que não foi o primeiro a fazê-lo – na pecha de um certo conceito de “educação inclusiva” que tomou conta da escola portuguesa, onde o sucesso é estatisticamente medido da mediana para baixo, uma atitude em discordância absoluta com a natureza do ato desportivo.

3) A inexistência de uma demarcação claramente definida entre a atividade física orientada para a saúde e a formação desportiva dirigida para a excelência.
É incontroverso que todas as crianças e jovens não têm as mesmas aptidões e disposições para o desporto. Mais: que só uma ínfima percentagem poderá realisticamente aspirar ao valor de um Carlos Lopes, de uma Rosa Mota, de uma Fernanda Ribeiro, de um Nélson Évora (as “nossas” medalhas de ouro, até por serem tão poucas, não devem ser esquecidas como padrão de referência). São precisamente esses, porém, que o sistema educativo tem a responsabilidade de identificar, de filtrar, de orientar para outras instâncias de preparação porque a Natureza não é pródiga em talentos excecionais – o que só aumenta a responsabilidade das autoridades e das comunidades educativas nessa missão, seja no desporto como na ciência ou na música.
E, à laia de parênteses, seria bom que os responsáveis desportivos do país, do mais alto nível governativo ao dirigente do pequeno clube de bairro, olhassem com atenção o que se passou nos últimos vinte anos na educação e formação dos jovens músicos em Portugal: a definição da complementaridade das escolas de ensino geral e de ensino artístico especializado; a distribuição pelo país, mesmo nas regiões populacionalmente mais deprimidas, de professores de elevada competência técnica e pedagógica (uma efeito colateral muito feliz para nós, portugueses, da desagregação dos regimes socialistas do leste europeu); as vias de continuidade à formação inicial e intermédia através de programas de ensino superior (musicologia e ciências musicais, interpretação, formação superior de orquestra, etc.), tudo isso transformou em poucos anos o panorama musical do país. Ora muitos dos princípios informadores desta mudança são transponíveis para a formação desportiva de excelência. Não é preciso inventar nada porque os exemplos estão aqui ao pé da porta – em Espanha e em França, nomeadamente – sem termos de invocar os modelos que, a leste, vigoraram até à ruína do muro de Berlim.
Claro que a formação para a saúde através de estilos de vida ativos é também um direito e um dever das crianças e dos jovens, e uma obrigação do sistema educativo – tanto mais agora que são reconhecidos, em todo o mundo, os pesadíssimos custos das políticas públicas de saúde. Porém, o discurso salutogénico e o discurso desportivo não podem continuar “embrulhados,” confundidos num campo sem fronteiras. A sua concretização efetiva a partir da escola não se põe em termos de alternativa, pois nenhum deve prevalecer sobre o outro. É uma questão simples de tudo ou nada.
(continua)

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Desporto escolar ? sim,mas... (I)


Texto da autoria de Francisco Sobral cuja autorização de publicação se agradece.

É certo e sabido. Sempre que o fiasco olímpico suscita o sentimento de frustração nacional, erguem-se (da imprensa, dos dirigentes desportivos, dos políticos e governantes em serviço) os protestos de confiança no desporto escolar como a primeira solução para atalhar a indigência do desporto português. Sucede que a frustração passa depressa, a futebolização retoma o seu império nos primeiros dias de agosto e às mais acesas opiniões e palpites acontece o mesmo que às chuvas de verão: mal caiem no chão ficam logo enxutas.
Mesmo assim vale a pena arrastar um pouco mais o assunto. E, para começo, nada melhor que apreciar a hipótese lançada pelo presidente do Comité Olímpico de Portugal, a saber: criar uma nova Mocidade Portuguesa, mas sem componente política como a “outra” tinha.
Digamos que, com este único tiro, o comandante Vicente de Moura deitou ao fundo três navios.
O primeiro tiro acertou em cheio na factualidade histórica. Pretendia o presidente do COP dizer que Portugal perdeu relevância desportiva – e, nomeadamente olímpica – após o desaparecimento da MP? Será que ouvimos ou lemos bem? Quantos atletas portugueses foram medalhados entre 1912 e 1972 e qual a contribuição direta da MP para esses resultados?
Vejamos.
A primeira medalha olímpica (bronze e única) é conquistada em Paris (1924) pela equipa de equitação. Entre Paris e Roma (1960), Portugal ganha bronze em Amesterdão (1928, esgrima, espada por equipas); bronze em Berlim (1936), de novo pela equipa de equitação; de Londres (1936), a vela traz uma de prata e a equitação ganha de novo o bronze, sendo a equipa constituída pelos mesmos cavaleiros que já haviam obtido igual classificação em Berlim, doze anos atrás! Em Helsínquia (1952), encheu-se o navio Serpa Pinto com a maior comitiva até então enviada por Portugal aos Jogos Olímpicos mas de lá veio apenas mais uma de bronze pela vela que, em Roma (1960), torna a dar mais uma medalha ao país, dessa vez de prata.
Ora até 1936, ano em que foi criada, não podemos creditar à MP nem uma só das três medalhas olímpicas conquistadas pelos cavaleiros e esgrimistas portugueses.
Em 1948, é questionável que a MP, cantando e rindo, tenha tido papel decisivo, ou sequer relevante, nas medalhas conquistadas em vela e equitação. Como já dissemos, a equipa de cavaleiros que ganha em Londres o bronze é a mesma que já sabia montar, e bem, em 1936, em Berlim. E quanto aos irmãos Bello, a sua experiência de mar já tinha mais de 12 anos, tantos quantos fazia então a Mocidade Portuguesa.
O que é notório, de 1924 a 1960, é que os medalhados olímpicos portugueses ou eram oficiais de um exército sem guerras para fazer (situação que, como sabemos, se alterou a partir de 1961 e lá se acabaram as medalhas dos nossos equitadores), ou que, pelos seus nomes de família, dispensavam bem o contributo de promoção do desporto que alguns ainda insistem em atribuir à MP, principalmente junto daqueles jovens que, despossuídos de meios, nunca montariam uma cavalo, nem empunhariam um florete, nem governariam um star…
O segundo tiro é de consequência ainda mais lamentável porque não resulta de um lapso de memória mas evoca uma retórica acanhada e irrealista do que é o desporto de excelência, o de hoje e o de sempre. O presidente do COP sabe, por inerência de função, que não há investimento no desporto sem uma componente política, seja ela qual for – de preferência outra que não aquela subjacente ao exemplo apresentado. Nenhum governo investe milhões no desporto só por… desporto. E nenhuma sociedade democrática assiste impávida aos milhões ou aos tostões investidos no desporto se não entender que esse investimento é socialmente justificado. Ora, antes mesmo dos milhões, aquilo de que carece o desporto português para sair da sua letargia é de política – de convicção política acerca da sua importância, convicção que tem de ser partilhada por governantes e governados. De contrário, o investimento não será senão esbanjamento – e disso já temos a nossa amarga conta – causador de estupefação e revolta.
Quero crer, por último, que as palavras do presidente do COP não são mais do que um desabafo a quente, uma frase infeliz que irrompeu da frustração compreensível do dirigente e do cidadão que, mais do que outro qualquer, a sente como cabeça que é do movimento olímpico nacional. Não deixa de ser, porém, o naufrágio do bom senso e da ponderação exigível ao titular da função, ao mesmo tempo que se reprova não ter manifestado a mesma ênfase e contundência críticas ao longo de um atribulado quadriénio de preparação olímpica.

(continua)



quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A Lázaro o que é de Lázaro (*)

Texto da autoria de Gustavo Pires, cuja autorização de publicação se agradece.

A implantação da República em Portugal havia ocorrido há pouco mais de um ano quando o Comité Organizador dos Jogos Olímpicos (JO) de Estocolmo (1912), à semelhança daquilo que fez com os demais países, convidou os portugueses a participarem endereçando um convite ao Ministério dos Estrangeiros. Este enviou uma cópia para o Ministério da Instrução Pública que, sobre o assunto, nada fez. Depois, perante a insistência de Estocolmo tudo se passou da mesma maneira. Não fossem alguns jornais, como relata “Os Sports Ilustrados” (edição de 13/1/1912), o convite para que Portugal, pela primeira vez, participasse nos JO teria ficado esquecido no meio da burocracia da administração pública e nas confusões da República.
Aos olhos do mundo, os JO eram o maior acontecimento dos tempos modernos onde as nações, de uma forma pacífica, iam medir forças através da competição desportiva. Segundo Duarte Rodrigues diretor técnico da revista “Tiro e Sport” (edição de 31/7/1912) os JO não eram um mero certame desportivo mas “um pretexto poderoso para cada povo, cada raça, poder mostrar o quilate physico e moral de que se deve exortar perante a civilisação e o progresso”. Eram um processo de rejuvenescimento das raças pelo qual todo o homem moderno se devia interessar.
Em Portugal, em finais do século XIX princípios do século XX, os jovens de uma certa burguesia citadina praticavam diversas atividades desportivas segundo o modelo inglês. Eram, “os janotinhas do passeio público” como lhes chamou José Pontes, ou os “janotas diletantes” na expressão de José Maria da Silveira. Eles “estacionavam” à frente dos café-clube, como o Sete Portas no Arco do Bandeira ou o Marrare no Chiado, pegavam touros, corriam lebres, remavam e velejavam em canoas no Tejo, eram bombeiros destemidos, dedicavam-se ao jogo do pau, à ginástica dos aparelhos, das acrobacias e dos trapézios dos voos à Léotard. Foram estes “sportsmen”, diletantes e bem aperaltados, que se moviam tão bem entre a fina flor da sociedade mas, também, no meio dos artistas dos circos Price, Diaz, e Aragon e dos saraus de ginástica no Coliseu dos Recreios que, em moldes relativamente democráticos, protagonizaram o arranque do desporto em Portugal onde competiam atletas como Francisco Lázaro provenientes de meios sociais completamente diferentes.
E, perante o desinteresse da República bem como da Sociedade Promotora da Educação Física Nacional mais interessada nas questões corporativas da ginástica sueca do que nas competições interpaíses dos JO, foi com um sentido de urgência que um grupo de dirigentes desportivos de seu nome Penha Garcia, Jayme Mauperrin Santos, António Lancastre, Carlos Bleck, Manuel Egreja, José Pontes, Armando Machado, Duarte Rodrigues, Aníbal Pinheiro, António Osório, Álvaro de Lacerda, Fernando Correia, Sá e Oliveira, Guilherme Pinto Bastos, Pinto de Miranda, Daniel Queiroz dos Santos, José Manuel da Cunha e Meneses, Pedro Del Negro, a 30 de abril de 1912, fundaram o Comité Olímpico Português. Este acontecimento que teve uma intervenção indireta do próprio Pierre de Coubertin, permitiu que um grupo de seis atletas de seu nome António Pereira, António Stromp, Armando Cortesão, Fernando Correia, Francisco Lázaro e Joaquim Vital pudesse representar Portugal nos JO que se iam realizar em Estocolmo.
Muito embora a representação nacional, como referem os jornais da época, tivesse tido uma participação meritória, ao trigésimo quilómetro da corrida da Maratona, Francisco Lázaro colapsou. Num sofrimento atroz, acabou por morrer no dia seguinte, a 15 de julho de 1912, no Hospital Serafina em Estocolmo. Esta morte foi considerada com tendo sido igual à de um qualquer soldado caído no campo de batalha.
Cem anos depois, o Comité Olímpico de Portugal (COP) insiste em comemorar o seu aniversário numa data apócrifa. Faz mal. O dia 30 de abril de 1912 é uma data sagrada. A história é aquilo que, na verdade, aconteceu e não aquilo que alguns dirigentes do COP pretendem que tivesse acontecido. A Lázaro o que é de Lázaro.

(*) A partir do livro: “Francisco Lázaro o Homem da Maratona”, Lisboa: Prime Books.

Publicado na edição do Diário de Notícias de 14/08/2012.




terça-feira, 14 de agosto de 2012

O importante é participar ou Portugal ao nível do Chipre,Gabão ,Guatemala e Montenegro


Texto da autoria de Luís Leite ,cujo envio se agradece

Nada de novo. Mais uma “participação digna”, seja lá isso o que for.
O desporto Olímpico português reforçou a sua média de uma medalha por participação em Jogos Olímpicos.23 em 23.
Número de medalhas conquistadas por países europeus com população igual ou inferior à de Portugal:
Hungria 17, Bielorrússia 13, Azerbeijão 10, Rep. Checa, 10, Dinamarca 9, Suécia 8, Geórgia 7, Irlanda 5, Lituânia 5, Croácia 4, Eslováquia 4, Eslovénia 4, Noruega 4, Suíça 4, Arménia 3, Bélgica 3, Finlândia 3, Sérvia 3, Bulgária 2, Estónia 2, Letónia 2, Moldova 2, Chipre 1, Montenegro 1.
Portugal na cauda da Europa, só à frente da Albânia e de alguns micro-estados.
Com uma medalha de prata, de mão dada com as potências desportivas Chipre, Gabão, Guatemala e Montenegro.
Não vos maço com estatísticas comparativas relativa à média das medalhas por participação olímpica, porque seria confrangedor e até traumatizante.
Concordo com Alfredo Silva quando escreveu que não adianta atirar dinheiro para cima do Comité Olímpico.
Até porque não há.
Só valeria a pena se em vez dos 15 milhões fossem 1500 milhões.
Ou “Ir buscar uns 10 africanos”.
Não há volta a dar-lhe.
Não liguemos mais a esta história dos Jogos Olímpicos.
O que é preciso é estar presente.
Basta levar um homem e uma mulher com alguns dirigentes olímpicos, como fazem tantos países.
Dediquemo-nos pois aos REFORÇOS dos nossos grandes clubes da bola e às questões da arbitragem.
Esqueçamos os Jogos Olímpicos.
Não somos capazes.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O outro lado da festa

A festa é um franchisado cujos direitos de propriedade pertencem ao Comité Olímpico Internacional. Que os vende após avaliar quem melhor os paga. E quadrienalmente a festa sobe ao palco. Um palco acerrimamente conquistado numa competição difícil, entre cidades, em que se gasta muito dinheiro. Os que ganham, mas também os que perdem. Tudo para a glorificação dos atletas. Mas também para que marcas e patrocinadores façam as contas ao que investiram. E os países contabilizem as medalhas. De pouco vale a carta olímpica afirmar que os Jogos são uma competição entre atletas que não entre países. Os Jogos Olímpicos são a melhor competição desportiva à escala mundial para conduzir a uma leitura política dos resultados desportivos. Sempre assim foi. Pelas modalidades que envolvem. Pela mediatização a que estão sujeitos. Pelo carater planetário que os envolve e contempla.
Pierre de Coubertin, o renovador dos Jogos Olímpicos da era moderna, incutiu ao seu empreendimento uma dimensão sagrada. Indo buscar muito do ritual e da liturgia aos jogos da Antiga Grécia, mas aproveitando para popularizar a própria ideia de desporto. Entre aquilo que ele dizia que queria e aquilo que realmente ocorreu, há uma grande diferença. Os tempos são outros e tudo mudou. Os tempos e a vida.
Bastará assistir ao desfile de abertura da cerimónia inaugural para perceber que a festa é outra. Começa muito tempo antes com as disputas entre as cidades candidatas a sede dos Jogos. As cidades e quem as apoia. E continua com a preparação e realização dos Jogos no cumprimento de um pesado caderno de encargos negociado com o Comité Olímpico Internacional.
Os resultados e as competições, as estrelas e os casos, os sucessos e as derrotas sobem à agenda mediática e percorrem mundo. Os bastidores do evento ficam no conhecimento restrito da nomenclatura: um desporto mercantilizado, numa igreja sem ideologias, e onde os apóstolos cumprem um pacto de silêncio. Que ninguém lhes pede, mas que todos sabem que devem manter. Porque há coisas que se aprendem, mesmo que ninguém as ensine!
Numa saudação dirigida em 1927 à juventude desportiva de todas as nações Pierre de Coubertin afirmava: ”nós não trabalhamos, os meus amigos e eu, para transformar os Jogos Olímpicos numa peça de museu ou de cinema, nem para que os interesses comerciais ou políticos o condicionem”. Somos hoje forçados a reconhecer que a festa só é o que é, porque sacrificou três dos seus mitos fundadores: a democracia, a política e o dinheiro.
A democracia patente na direção do movimento olímpico. Uma estrutura pesada de autorreprodução do poder e onde habitam práticas, usos e costumes próprios de organizações fechadas e elitistas. É certo que a atual liderança de Jacques Rogge introduziu regras e práticas mais abertas e transparentes. Mas não podia alterar rotinas e hábitos de muitos anos de poder autocrático.
A política traduzida na crescente instrumentalização quer dos Jogos, quer dos resultados desportivos. A utilização da participação olímpica como forma de afirmação e legitimação políticas. Sempre assim foi. Dificilmente seria possível ser de outro modo. Mas existe um custo que importa ter presente.
O dinheiro porque criou um pequeno grupo de instituições desportivas submetidas a lógicas comerciais tornando difícil perceber onde acaba a governação mundial do desporto e começa o da empresa mundial do espetáculo desportivo. A configuração de uma macro organização, o Comité Olímpico Internacional, muito forte economicamente e dotado de uma legislação e de um funcionamento jurídico independente dos Estados nacionais, mas muito influenciado e dependente das principais potências desportivas mundiais que também o são no plano económico, político e militar.
A festa é também, como elemento aglutinador de muitos interesses e gerador de fluxos financeiros significativos, um pretexto para os barões do desporto surgirem no espaço público em nome dos valores altruístas e culturais do desporto controlando e espetáculo desportivo e gerirem um complexa rede de negócios e de relações políticas.
A competição não decorre apenas nos espaço desportivo. Ela inicia-se antes na tribuna VIP.É um local tão disputado como o espaço desportivo. Por ela transitam antigas glórias do olimpismo e se passeia a nomenclatura olímpica e política. É um local para se ver e ser visto. É um território de ostentação e de poder. Um verdadeiro laboratório social.
A festa é isto tudo. Mas é sobretudo o resultado da cooperação silenciosa entre multinacionais desportivas, média e autoridades desportivas com o beneplácito das autoridades políticas. Dificilmente poderia ser de outro modo. Reconhecê-lo permite perceber o que é a festa. Lembrando o que um dia escreveu José Maria Cagigal: que a comercialização do espetáculo desportivo não é perigosa porque atenta contra valores do desporto mas porque se converteu num produto que necessariamente precisa de ser consumido para ser rentável.

Texto publicado no jornal Diário de Notícias em 1 Agosto 2012

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Endireitar as veredas para a "mudança de paradigma"

 "We cannot solve our problems with the same thinking we used when we created them." 
Albert Einstein


Mesmo diante dos indicadores desportivos, nos mais diversos níveis de prática, que nos colocam no fundo de qualquer ranking, podemos sempre invocar elementos que denotam evolução ou crescimento, ainda que sendo uma evolução na mediocridade. Quando não se definem objectivos ou metas propicia-se o exercício da teoria do copo meio cheio ou meio vazio, consomem-se páginas e páginas alinhando argumentos em favor de cada uma das perspectivas, em contraciclo com um valor elementar do desporto, a superação, onde existe sempre um resultado, uma medida, uma fasquia, ou uma distância a ultrapassar. 

Em tempos escrevi aqui que qualquer agente desportivo é avaliado, com excepção do dirigente. Assim, confesso que após Pequim saturei de alinhar neste exercício por rapidamente se tornar intelectualmente confrangedor mediante as comparações que se trazem a terreiro, as quais, amiúde, classificam-nos num outro ranking quiçá menos objectivo, mas porventura mais decisivo para o desenvolvimento desportivo deste país. O ranking da cultura desportiva.

Neste ranking, ainda sem ter terminado a participação olímpica em Londres começam a surgir resultados de alto nível, os quais, certamente, não ficarão por aqui, à medida que proliferarem as declarações sobre a falta de política desportiva, de orientações estratégicas, planeamento, desinvestimento na educação física e no desporto na escola, etc. 

Como a memória é curta tende-se a esquecer que neste país houve um PROIID, houve Opções Estratégicas para o Desenvolvimento Desportivo Nacional (2003-2013), houve um assinalável trabalho neste domínio para que as coisas fossem diferentes. Todos tiveram o mesmo destino.

Perante isto, das duas umas, ou se delimita a raiz do problema a montante, diluindo ilusões, e se assume que um processo de planeamento e uma politica pública, qualquer que elas sejam, não são planos mecânicos e guiões de uma peça, mas processos sociais evolutivos que dependem do quadro de valores de quem neles se envolve e executa para tornar efectivo aquilo que está no papel, ou mantem-se o sistema com os mesmos protagonistas a replicarem as mesmas declarações e o mesmo quadro de referência. E aí, ainda que um dia haja alguém capaz de implementar uma política desportiva efectiva, ou retocar aquelas que foram deixadas na gaveta, as eventuais vantagens serão sempre circunstanciais.

Entretanto, no contexto político e económico actual, com a cultura desportiva que a cada dia se expressa nas palavras e na conduta de dirigentes políticos e desportivos deste país, reproduzidas e amplificadas na grande maioria dos órgãos de comunicação social e do "jornalismo" que se faz neste domínio, estão reunidas as condições propícias para se continuar a privilegiar um modelo de gestão em detrimento de uma verdadeira política, nivelando o desporto pelo mais baixo denominador comum. Até daqui a quatro anos. 



terça-feira, 7 de agosto de 2012

A propósito dos Jogos Olímpicos e da Universidade


Tenho dito e escrito, repetidas vezes, que a insana, predatória, selvática e tresloucada versão dos ‘rankings’, dos ‘papers’ e da ‘competitividade’, hoje prevalecente na boca e linguagem de muitos dirigentes e atores do mundo universitário e afim, desnuda a fria e cruel mentalidade neoliberal, apostada em desmerecer, diminuir, rebaixar e até aniquilar o outro. Ela incorporou e ultrapassa em muito o pior que, aqui e ali, surge nas derivas e perversões da competição desportiva.
Porém a matriz imanente ao ‘agonismo’ desportivo é de outra ordem: é da ordem da altura e elevação, da arte e perfeição, da beleza e estetização, da transcendência e superação, do humanismo e da sua exaltação, da magnanimidade e criação, da virtude e sublimação.
É isto que tem estado bem visível nos Jogos Olímpicos em curso. Constitui um regalo para os olhos e um lenitivo para a alma ver como os ‘com-petidores’ revelam atenção e sensibilidade pelo Outro, como os vencedores e vencidos se apreciam, consideram, estimam, respeitam e saúdam mutuamente, como os vencidos evidenciam admiração pelos vencedores e estes manifestam generosidade para com aqueles, na elegância e gentileza das atitudes de felicitações e consolação, na magnificência das emoções e expressões.
A isso chama-se cultura, educação, civilização e humanização. É para o aprimoramento deste legado que devia ser configurada a Universidade. Infelizmente muitos dos seus ‘chefes’ e protagonistas desviam-na da nobreza desta visão e enfiam-na no viés da capitulação e perdição. Renunciam à claridade e grandeza da sua missão; preferem aprisioná-la, pouco a pouco, nos calabouços da pequenez e escuridão.
No desporto a harmonia entre competição, humanidade e dignidade é sustentável e viável, na Universidade neoliberal parece que não. Os Jogos Olímpicos consagram o desporto como processo civilizado e civilizador, fiador de ideais, normativos, princípios e valores de autenticidade, excelência e fulguração; o neoliberalismo desfigura a Universidade como entidade acuada e atira-a para os braços do conúbio com o polvo do aviltamento, da deformação, desumanidade, exclusão e regressão.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Porquê os chineses? Por que não os portugueses?



Texto saído no jornal Público de 5 de Agosto de 2012,da autoria de João Paulo Vilas-Boas,
professor catedrático da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto,a quem se agradece a autorização de republicação.




Perante os resultados da participação nacional nestes Jogos Olímpicos, muitos se interrogarão por que razão são os chineses e não os portugueses que, agora e quase do nada, desafiam as potências olímpicas.
Logo os chineses, que foram trazidos para o mundo moderno exactamente pelos navegadores portugueses... Porque será? Porque será que Portugal não consegue ser uma potência desportiva, a não ser esporadicamente ou em nichos muito particulares? Será que é por sermos pouquinhos? Mais pequeninos? Mais ocidentais?
Não! Não é por sermos menos (quantos são os suíços, ou os holandeses e outros tantos?) e menos altos. Nem é por sermos muito ocidentais, já que de há muito se sabe que a Terra é redonda. Também não é por sermos brancos, pretos, amarelos ou vermelhos, porque somos uma mistura saudável, cega de cores.
Portugal não é uma potência desportiva porque não o é em nada! Porque não nos levamos a sério e muito raramente nos entregamos de alma e coração ao que temos por diante - eu diria: porque não temos cultura e educação desportivas! Talvez sejamos sobretudo bons a encontrar desculpas para não sermos tão bons assim.
Todos ficamos positivamente surpreendidos com o que tem de suportar o quotidiano de um campeão português, mas isso parece não chegar, por muito respeito que mereça. Tem, na maioria dos casos, de se suportar mais ainda e sem se ser pago principescamente. Tem de se aprender a lutar, a perder, a porfiar, a confiar, a esperar, a chorar... a desesperar e, até, a ganhar. E esta aprendizagem não é espontânea, tem de ser catalisada por uma educação capaz: uma educação em que o Estado e as famílias percebam o que é que é efectivamente crítico.
E é isso que nos falta: uma verdadeira educação, que inclua uma forte educação desportiva dos nossos jovens concidadãos (que os japoneses, por exemplo, têm por natural desde antanho). Para que aprendam a trabalhar duro, mesmo que para perder muitas vezes, mas de cabeça erguida, e a ganhar algumas sem soberba, respeitando o outro e a si próprio. É isso que o Estado tem de valorizar se quer mais cidadãos na elite mundial desportiva e nas muitas elites mundiais que não do desporto.
É esse o valor educativo do desporto! Foi esse o valor que alguém quis enaltecer com a modernidade (tardia) da Educação Física e o desporto escolar e foi esse valor que, aqui e ali, na escola e na família, foi comprometido pela tentação ("pós-modernista"?) dos facilitismos pedagogicistas então já fora de moda, disfarçados de uma quase séria "centração-no-aluno" e "protecção da criança".
É exactamente esse valor que o senhor ministro da Educação, ao invés de valorizar, quer agora arrumar de vez ao deixar "isso da ginástica" à consideração de cada escola e sem valor relevante na expressão final do empenho dos jovens. Não podemos querer modernizar-nos e, ao mesmo tempo, "aparolarmo-nos" com retrocessos destes! Temos é de corrigir desvios do esperado e continuar a lutar para que todas as famílias percebam que a educação desportiva dos filhos é muito mais do que o combate à obesidade; é a saga pela construção de homens a sério, já que a capacidade de dedicação, sofrimento, respeito e perseverança, necessários para se ser um ás, até na matemática, consegue-se também, ou sobretudo, pelo desporto! Que se invista na educação desportiva de forma séria e partilhada por todos e talvez possamos vir a ser "os chineses de amanhã", no desporto e também na matemática (se possível sem o que de pejorativo esta imagem possa comportar para os mais chauvinistas).









sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Deslize ou intencional?


O Presidente do Instituto Português do Desporto e da Juventude, Augusto Baganha, é, pelo que conheço, uma pessoa experiente e ponderada. Alguém que alia à sua experiência profissional um relevante passado como desportista. Antes de exercer funções no atual governo, foi designado pelo anterior para acompanhar junto do COP a preparação olímpica. Na atual equipa governativa do desporto, é, a larga distância, a pessoa melhor preparada. Para além destas qualidades é uma pessoa discreta e que não procura a exposição pública. Se possível até a evita. Pelo que as declarações que fez a propósito dos apoios do Estado aos judocas presentes nos Jogos Olímpicos são uma surpresa. Não tanto pela matéria de facto, mas pela oportunidade. E não correspondendo ao perfil de alguém que gosta da exposição pública, essa estranheza é ainda maior. Deslize ou ato intencional?
Os atletas, os treinadores, os dirigentes, as famílias, sofrem com o insucesso e a frustração dos resultados não alcançados. Derramar em cima desta situação o que o Estado vai fazer aos atletas é no mínimo revelador da mais elevada insensibilidade à situação. Há um momento para tudo. E não é o facto de o Estado ter protocolado certo tipo de compromissos com as federações desportivas, e que importa fazer respeitar, que o desobriga de ter sentimentos. Por muita razão que assista ao Presidente do IPDJ espera-se, como titular de um cargo público, ponderação entre os interesses do Estado e o estado daqueles que serviram Portugal. E não é o facto de os resultados alcançados não serem os expectáveis que se deve perder o sentido de respeito pela dignidade daqueles que estão a viver um momento difícil nas suas carreiras desportivas.
Ignoro se as declarações o foram por vontade própria ou por orientação superior. Ou apenas por um impulso perante o pedido de esclarecimento da comunicação social. Mas independentemente da motivação, as palavras e o contexto em que são proferidas – em plena realização dos Jogos Olímpicos - não atingem apenas os judocas cuja competição terminou, mas todos os atletas, os que já competiram e os que ainda o vão fazer.
Governar é também saber usar as palavras. O exercício de funções públicas exige sempre sobriedade. E adequada ponderação. Lançar, neste momento, o tema dos apoios do Estado é escolher a pior altura para o fazer. Terminados os Jogos e feita a respetiva avaliação há tempo para se adotar os procedimentos que se considerem adequados. Agora é hora de nos concentrarmos na competição e procurar os melhores resultados. Distrair as atenções para outras questões é correr o risco do incendiar o debate público e, com isso, aumentar potencialmente as probabilidades de conflito. O desporto perde e perdendo o desporto não sei o que ganha o Estado com isso.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A propósito da educação física e do desporto na escola


As medidas anunciadas pelo governo relativamente à educação física e ao desporto escolar são uma desvalorização da disciplina e dos seus profissionais. Constituem um verdadeiro retrocesso no ensino público. São um produto de gente culturalmente analfabetizada, para quem saber ler, escrever, contar e falar inglês é suficiente. E são um teste ao valor das declarações retóricas do governo sobre a importância das atividades físicas e desportivas. E sobre as preocupações relativamente aos modos como os jovens constroem os seus estilos de vida.
A decisão é do governo. Mas o terreno foi-lhe preparado. Nada disto é filho de pais incógnitos. Para perceber o que se está a passar é preciso voltar atras. E recordar que há cerca de três décadas, e quando se começaram a acentuar as teses de retorno à matriz identitária do início do século- a pureza da educação física contra os malefícios do desporto e da competição- houve, nessa altura, quem alertasse para o problema que consistia em desvalorizar a principal matéria de ensino, o desporto, em nome de uma certo purismo académico da educação pelo movimento e da aptidão física sem conteúdo normativo. E sobretudo sem uma prática escolar que correspondesse à retórica argumentativa dos seu profissionais. Houve quem denunciasse aquilo a que conduzia a disciplina ao mimetizar os tiques de pedagogismo que invadiram o sistema de ensino público arrastando-a, por força da contaminação das chamadas ciências da educação, para uma lógica de verdadeiro descompromisso social quanto ao carácter prático e utilitário dos saberes e das competências que devia fornecer aos alunos. A obsessão didática assente em crenças de suposto valor científico fizeram com que a educação física e o desporto na escola perdessem a sua alma. E a formação de professores de educação física, sobretudo nas ESE, foi qualquer coisa de aterrador. A prazo o resultado só podia ser um: algo facilmente descartável. Porque se pretendia justificar e defender uma disciplina através de uma narrativa de utilidade social que os factos não sustentavam. Ninguém nos podia levar a sério. E com isso se perdeu o carater conspícuo da educação física e do desporto na escola. Enquanto, cá fora, aumentava a procura de atividades físico /desportivas.
A resposta à situação, agora criada, não está na ciência. Ou em enunciar um conjunto de vantagens que os alunos supostamente beneficiariam e que perdem com a medida anunciada. Bem podem acumular-se objetivos salutogénicos, como a luta contra sedentarismo e a obesidade, que qualquer observação atenta e séria sabe que o contributo concreto da disciplina tal como é ministrada, é perfeitamente inócuo. Chegámos aqui, em parte, precisamente por causa deste tipo de boa ciência servida por uma má prática. A resposta a este problema está na política e na capacidade corporativa dos profissionais de educação física perceberem por que razão se chegou a este ponto. E baterem o pé. Mas para isso precisam de mudar de estratégia. E entenderem o que está em jogo. Desde logo para que serve a educação física na escola. E o mal que lhe faz se a levarmos para algo que não seja o trabalho e o investimento corporal dos alunos orientado para a condição físico-motora, para uma educação corporal com conteúdos culturalmente significativos de que o desporto, o aperfeiçoamento e a performance desportiva são um dos seus elementos preferenciais.Que é o contrário de uma espécie de recreio animado com a presença do professor, que foi aquilo em que muitas aulas se transformaram. O discurso do deixar-andar e do facilitismo, de que a escola, mais do que um local de trabalho, de esforço e de superação, em torno das condutas físico-motoras devia ser um espaço de ambiente agradável, não constrangedor, facilitador das aprendizagens, respeitando as “necessidades” e “personalidades” dos alunos não foi um contexto organizacional muito estimulante para respeitar a educação física. Sobretudo quando no clube desportivo ou no health club a coisa, para muitos técnicos, alunos e pais, passou a fiar mais fino. E onde era preciso apresentar trabalho e resultados.
Sei que ao dizer isto me exponho a que caia o Carmo e a Trindade. E que mil razões, cientificas e outras, esgrimirão contra estes argumentos. E não sobrarão as críticas. Paciência. É o que penso e não tenho vontade de o silenciar. É evidente que nestas coisas sempre houve exceções: a de muitos docentes que deram o melhor de si aos alunos e à profissão e que não merecem esta desvalorização. A de instituições de formação que se recusaram a alinhar na moda. Uns e outros têm autoridade moral para falar e denunciar o atropelo ministerial. Mas este é o resultado de muitos que, na ausência de qualquer controlo e exigência profissionais, desvalorizaram o seu objeto de trabalho e com ele a profissão. E esses são, junto da comunidade, os melhores aliados desta decisão governamental. Por muito que digam o contrário. E que agora a contestem.

Publicado na edição do jornal Público de 28.7.2012