domingo, 2 de setembro de 2012

Avaliação da prestação de Portugal nos jogos olímpicos de Londres 2012


Avaliação de qualquer operação, tarefa ou atividade humana só é possível ser realizada, honestamente, confrontando os objetivos previamente estabelecidos, ou seja os resultados previstos, com os resultados realmente obtidos. É assim na gestão, e também o é no desporto.

Como nota prévia gostaríamos de valorizar publicamente a dedicação, o esforço e a perseverança evidenciadas pelos atletas portugueses para dignificar o seu desempenho, a sua modalidade e nome do seu país, Portugal.
Os objetivos a alcançar por Portugal nos jogos olímpicos de Londres 2012 estão fixados no contrato programa de desenvolvimento desportivo pelo qual o Instituto do Desporto de Portugal, I.P. (IDP, I.P.) concedeu ao Comité Olímpico de Portugal (COP) o financiamento público para a execução do programa de preparação dos atletas com vista à participação nos jogos olímpicos e, se possível, ao alcance dos objetivos nele expressos.

É nosso propósito realizar uma avaliação do grau de concretização desses objetivos fixados para Portugal nos jogos olímpicos de Londres 2012.
A cláusula 2.ª designada “Objetivos” inserta no contrato programa de desenvolvimento desportivo n.º 287/2009, publicado no Diário da República, 2.ª série, n.º 193 — 6 de Outubro de 2009, relativo à execução do Programa de Preparação Olímpica Londres 2012, que o COP apresentou no IDP, I. P., e se propõe a levar a efeito até ao termo dos Jogos Olímpicos de Londres 2012, refere os seguintes objetivos:
(1) Proporcionar aos praticantes desportivos abrangidos pelo Projeto Olímpico Londres 2012, as condições de preparação necessárias para que possam atingir nos Jogos Olímpicos de Londres 2012 os seguintes objetivos desportivos;
a) Melhoria qualitativa global dos resultados desportivos nos Jogos Olímpicos de Londres 2012;
b) Aumento global do número de representantes nacionais, com especial incidência no género feminino;
c) Renovação e redução do nível etário dos atletas participantes.
Antes de analisar o grau de concretização dos objetivos designados desportivos, é evidenciado que o Programa de Preparação Olímpica Londres 2012, que o COP apresentou no IDP, I. P. tem como finalidade proporcionar aos praticantes desportivos abrangidos pelo Projeto Olímpico Londres 2012, as condições de preparação necessárias para que possam atingir nos Jogos Olímpicos de Londres 2012 os objetivos desportivos. No que respeita às condições de preparação, o que se impõe é questionar os atletas (e não só) sobre se as condições de preparação que lhe foram proporcionadas foram as necessárias e adequadas à concretização dos seus objetivos. Estamos convictos que esse trabalho certamente será realizado e servirá para introduzir as melhorias, do ponto de vista dos atletas, nos sistemas de preparação desportiva.

Vamos aos objetivos: a) O objetivo referido na alínea a) corresponde a uma melhoria qualitativa global dos resultados desportivos nos Jogos Olímpicos de Londres 2012. Face à formulação do objetivo (falta de especificidade, não está fixado o valor da melhoria, nem o ponto a partir do qual se deve avaliar essa melhoria, dificulta uma mensuração séria e inequívoca) propomos apreciar o grau de concretização deste objetivo de dois modos:
(A) Pelo número de medalhas e diplomas relativamente a Pequim 2008, e;
(B) Pelo número de medalhas e diplomas relativamente aos últimos 3 jogos olímpicos.

(A)    Pelo número de medalhas e diplomas relativamente a Pequim 2008. Em Londres 2012 Portugal obteve menos uma medalha e mais 2 diplomas do que em Pequim 2008. Em termos de pontos obteve a mesma pontuação: 28 pontos. Do ponto de vista global obteve uma prestação similar à de Pequim 2008 (28 pontos), embora com menos uma medalha (de ouro) e mais 2 diplomas. Não é evidente uma melhoria qualitativa dos resultados. Considerando este critério o objetivo fixado para Portugal não foi atingido.
(B) Pelo número de medalhas e diplomas relativamente aos últimos 3 jogos olímpicos. A média do número de medalhas, diplomas e pontos obtidos em Sidney 2000, Atenas 2004 e Pequim 2008, foi de 2,3 medalhas, 7,7 diplomas e 34 pontos. Em Londres 2012 foi obtida menos uma medalha e mais dois diplomas. Em termos de número de pontos Portugal obteve menos pontuação em Londres (28 pontos) do que na média dos últimos 3 jogos olímpicos (34 pontos). Assim, em Londres 2012 do ponto de vista global Portugal obteve uma prestação inferior à dos últimos 3 jogos olímpicos. Considerando este critério o objetivo fixado para Portugal não foi atingido.
b) O objetivo referido na alínea b) relativo ao aumento global do número de representantes nacionais, com especial incidência no género feminino, corresponde a um duplo objetivo: aumento do número de representantes nacionais e aumento das mulheres. São pois dois objetivos. O número de atletas participantes nos jogos olímpicos de Pequim 2008 foi de 77, igual ao número dos participantes em Londres 2012. Por isso este objetivo não foi atingido. As mulheres que participaram nos jogos olímpicos de Pequim de 2008 foram 26, o que correspondeu a 34%. Em Londres 2012 participaram 33 mulheres, o que correspondeu a 43%. Este objetivo foi atingido.
c) O objetivo referido na alínea c) que pretendia uma redução do nível etário dos atletas participantes nos jogos olímpicos de Londres 2012 não foi atingido. A média de idades dos 77 atletas participantes nos jogos olímpicos de Pequim 2008 foi de 27,5 anos (ano de nascimento até final do ano 2008), enquanto a média de idades dos 77 atletas participantes nos jogos olímpicos de Londres de 2012 foi de 28,2 anos (ano de nascimento até final do ano 2012).

Em síntese, podemos considerar que o objetivo da melhoria qualitativa global dos resultados desportivos nos Jogos Olímpicos de Londres 2012 não foi atingido, ao não ter sido ultrapassado o número de pontos obtidos globalmente (até 8.º lugar) relativamente a olimpíadas anteriores. O segundo objetivo relativo ao número de representantes nacionais e das mulheres foi parcialmente atingido. O terceiro objetivo relativo à redução do nível etário dos atletas não foi atingido. Concluindo, a maioria dos objetivos não foi atingida. Independente desta questão formal, mas relevante, importa (1) valorizar publicamente a dedicação, o esforço e a perseverança evidenciadas pelos atletas portugueses para dignificar o seu desempenho, a sua modalidade e nome do seu país, Portugal; (2) discutir e aperfeiçoar a base dos sistemas/políticas de deteção e preparação dos praticantes desportivos portugueses para a obtenção dos mais elevados resultados desportivos no plano internacional; e (3) um desígnio nacional, uma liderança forte e um objetivo comum capaz de mobilizar a motivação e a superação de todos. Lembram-se do que faltou à nossa comitiva em Pequim 2008? A história repetiu-se em Londres 2012?

Alfredo Silva 

Publicado no Diário de Notícias de 20-08-2012

sábado, 1 de setembro de 2012

Espírito olímpico – Entre a inteligência táctica e a manipulação de resultados


De há muito a esta parte que o lema coubertiniano "o mais importante não é vencer, mas participar!" se tornou, como tantos outros, numa proclamação de circunstância na competição olímpica, convertido num slogan de marketing.

Competir, e dar o máximo, por vezes até no limite da lei, para alcançar a vitória traduz hoje o ethos projectado no discurso e na prática dos agentes desportivos através dos órgãos de comunicação de massas que cobrem os Jogos Olímpicos. Por outras palavras, estas atribuídas a Martina Navratilova, “Quem disse que ganhar ou perder não importa provavelmente perdeu”.

Não se pretende aqui tecer considerações sociológicas sobre a génese e a maturação deste quadro de valores, ou sobre a sua eventual antinomia, mas tão só situar e sublinhar na plasticidade dos valores olímpicos - ou se quisermos, dos “Princípios Fundamentais do Olimpismo”, como titula a Carta Olímpica -, um conjunto de episódios ocorridos durante e após os Jogos .

Em Londres, conforme foi tornado público, a Federação Internacional de Badminton, com o apoio do COI, decidiu expulsar do torneio feminino de pares oito atletas por tentarem perder propositadamente os seus jogos, no sentido de obterem maiores vantagens competitivas em fase posterior do torneio, para a qual já estavam apuradas. Tais atitudes, como o falhanço deliberado de pancadas, perante os apupos do público, e a admoestação dos árbitros, foram consideradas como atentatórias ao espirito olímpico, enquanto as jogadoras, e outros agentes da modalidade sustentavam que nada nos regulamentos existentes proibia o recurso a este expediente.

Na medida em que o recurso à derrota, ou a um menor desempenho, como instrumento de estratégia táctica para proveito competitivo, não está expressamente proibido pela Carta Olímpica ou, neste caso particular, pelos regulamentos da Federação Internacional de Badminton, abre-se um foco de debate em duas vertentes.

Primeiro, no domínio dos valores acima enunciados, da sua relação com a lógica de organização das competições e a exploração económica do espectáculo, quando a derrota pode ser um recurso válido, de atletas e treinadores, para evitar um adversário mais forte numa fase inicial da prova, ou quando o desempenho mais contido possa constituir uma manobra táctica relevante para dosear esforço e iludir adversários. Com tudo o que isso implica numa certa frustração do público que paga um ingresso para assistir a um espectáculo onde os protagonistas reduzem a intensidade de esforço, no caso de modalidades individuais, ou passam a maior parte do tempo sentados no banco de suplentes, como não raras vezes ocorreu com as principais vedetas da selecção de basquetebol norte-americana.

Segundo, no que respeita à regulação desportiva na salvaguarda da integridade das competições em relação à manipulação de resultados, tema na ordem do dia da agenda politica desportiva internacional. 

Não havendo manipulação de resultados neste caso, pelo menos na sua concepção convencional e vertida em diversos ordenamentos jurídicos, uma vez que a derrota deliberada das atletas não envolveu uma contrapartida financeira ou patrimonial para fazerem algo que de outra forma não o fariam, mas apenas a tentativa de obterem uma vantagem táctica no decurso da sua competição, a distância que separa estas duas realidades não será assim tão grande.


Ora, como em tantas outras circunstâncias, a regulação é apenas um instrumento de política. A sua aplicação continua a ser, pelo menos para um sociólogo, um dos melhores barómetros para atestar o quadro de valores que orientam aqueles que a produzem, implementam e sobre ela decidem, tanto ou mais do que os atletas e treinadores que se limitam a gerir o quadro regulador em função do seu principal propósito que é ganhar a competição!


sexta-feira, 31 de agosto de 2012

J.Paralímpicos: "Os nossos mais válidos..." (II)


Há 4 anos foi com este título que me dirigi à participação da nossa delegação nos jogos paralímpicos.
Volvido este tempo, assistimos à constituição ex-legis do Comité Paralímpico de Portugal (CPP) em 2008 (vide a sua imposição antes da sua criação na Lei de Bases da Actividade Física e do Desporto), e consequentemente ao primeiro ciclo paralímpico organizado e liderado sob a sua responsabilidade, missão anteriormente assumida pela Federação Portuguesa de Desporto para Pessoas com Deficiência. Não poderemos assim exigir da delegação portuguesa muito para além do já excelente desempenho obtido em Pequim:  representação de 33 atletas, em sete modalidades, com a conquista de sete medalhas - uma de ouro, quatro de prata e duas de bronze -, nas modalidades de atletismo, boccia e natação.

Na verdade o CPP está a construir o seu edifício organizacional e a estabelecer as suas pontes para dar cumprimento ao seu lema “Igualdade, Inclusão e Excelência Desportiva”, entendendo, contudo, que cabe aos clubes e federações desportivas o papel decisivo na massificação da prática desportiva para deficientes. Na verdade, esta não pode estar dependente apenas das suas organizações especializadas, daí a nota positiva para o projeto inovador do andebol em cadeira de rodas levado a cabo pela Federação de Andebol de Portugal.

Destaca-se na atividade do CPP, para além do contrato-programa tripartido a quatro anos, que envolveu os Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ) e o Instituto Nacional da Reabilitação (INR), a manutenção do principal patrocínio com a Fundação Galp Energia, o patrocínio institucional com a Câmara Municipal de Loures, a parceria com a Transportadora Aérea Nacional e com a Autoridade Antidopagem de Portugal, a aprovação do Regulamento de Apoio ao Desenvolvimento Desportivo (inédito na história do desporto paralímpico e surdolímpico português), a realização do Campeonato Mundial de Boccia em 2010 (Lisboa) e a candidatura à organização do Campeonato do Mundo de Atletismo de 2015. Registo ainda os protocolos de cooperação com a Universidade de Évora e com a Faculdade de Motricidade Humana e para a Revista bilingue “Paralympic News” com a primeira edição em julho de 2010.

Fazemos votos para que quem acompanha este blogue e tão ferverosamente contribuiu para as últimas discussões (uns com registos e contribuições muito enriquecedoras, outros, principalmente alguns dos anónimos, com propósitos de maledicência gratuita e escabrosa), não olvide a participação paralímpica que decorrerá até ao próximo dia 6 de setembro. A Simone Fragoso, 7.º classificada na final dos 50m livres S5, e todos os demais merecem que exaltemos os mais nobres sentimentos humanos em detrimento das declarações que nos aviltam, envergonham e estupidificam.