domingo, 16 de setembro de 2012

Ai Jesus!

Texto publicado no Público de 16 de Setembro de 2012.

 
1. No dia 4, o Conselho de Disciplina da FPF (Secção Profissional), o CD, tomou uma decisão disciplinar relativa ao treinador Jorge Jesus, por declarações proferidas, dirigidas a um árbitro assistente, em Março deste ano, no final de um jogo que opões SLB e FCP.

O treinador foi sancionado com 15 dias de suspensão e multa de € 1.500.

Esta decisão foi muito glosada por comentadores desportivos e ainda por alguns juristas, entre os quais eu numa rádio nacional.

2. Luís Sobral – no Mais Futebol – referia a brandura do castigo, a demora e a ineficácia da decisão. Falou do CD como uma aldeia do futebol e aditou um juízo negativo aos termos do voto de vencido do Presidente do CD.

Para Bruno Prata o castigo é um escândalo e o presidente do CD devia demitir-se, visto o tal voto de vencido ser entendido como um “ataque” ao árbitro assistente.

Ricardo Costa – ex-presidente da CD da Liga – concordou com o comunicado do FCP, quanto à demora e ineficácia da decisão. Mas foi mais longe. Enfatizou o escândalo que representa o facto da FPF – bem como outras federações, aditamos – não tornar públicas as decisões dos seus órgãos jurisdicionais, como impõe a lei. Escândalo, só talvez superado pela inação do Estado em fiscalizar esta matéria e repor a legalidade. Não é uma birra, uma mera formalidade que se deixa de cumprir. Publicitar as decisões e seus fundamentos, tem a ver com o Estado de Direito, com a protecção da confiança dos agentes desportivos, com a transparência do agir de tais órgãos no exercício de poderes públicos. Obrigado Bola Branca. Obrigado Rádio Renascença por ter permitido o acesso à decisão, coisa que a FPF e o Estado não deixam.

3. Muitos dos leitores sabem que o meu mundo é cinzento. Posso ter ou não razão, pode a minha opinião merecer ou não crédito. Certo é que ela não é encarnada, verde ou azul. E também não é laranja ou cor-de-rosa. É cinzenta como o Direito.

Dito isto, esta decisão – podia ser Ai Pereira ou Ai Pinto –, merece ser vivamente criticada, em particular o voto de vencido do presidente do CD.

Alguma cautela se impõe – embora não sejamos ingénuos –, nas críticas quanto à medida da pena e ao tempo da decisão. Impõe-se celeridade na justiça. Desportiva ou outra. Decidir devagar só pode conduzir a situações como esta.

4. O que nos deixa atónitos são os termos e o conteúdo do voto de vencido do presidente do CD.

Com o devido respeito – não exageremos aqui –, parece que estamos perante uma painel daqueles que as televisões nos oferecem para discutir – cada um com a sua camisola de clube – se houve ou não grande penalidade ou fora de jogo, e não a ler um texto de um presidente de um órgão disciplinar de uma federação.

Há expressões totalmente inadmissíveis: ”Dessa falta, muito grave e indiscutível [do árbitro assistente], resultou a vitória do clube visitante e a consequente vitória do campeonato, por parte do clube que beneficiou daquele erro”. Como é que é? Um resultado alcançado à 21ª jornada, de 30, em que o FCP passou a ter 3 pontos de avanço? Como é possível afirmar isto, não sendo um mero adepto em discussão de café?

Mais: “ O árbitro em causa tinha todas as condições para ver a falta e tinha a obrigação funcional de o fazer, e não fez, por motivações que só ele sabe”. Mais ainda: “isto é, o treinador, que era um dos grandes ofendidos do erro cometido, passou, por artes mágicas, a arguido e, nessa qualidade, punido disciplinarmente…”. E o abuso das reticências ao longo do texto.

5. A «coisa» não vai acabar bem. Não pode acabar bem, independentemente da nossa vontade. Toda e qualquer decisão deste CD – Profissional, está, a partir de agora, coberta por um indelével manto de suspeita.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

E agora?


Nos telejornais do dia em que Portugal assinou o acordo com a troika, PS e PSD rivalizavam no sentido de chamarem a si a responsabilidade pelo objetivo alcançado. José Sócrates garantia que havia sido possível salvar coisas como os ordenados dos trabalhadores da função pública. O PSD que, na altura, era oposição, pela boca de Eduardo Catroga, fazia passar a ideia que a excelência do alcançado se devia à ação do PSD. Ambos reclamavam vitória. O CDS tinha ficado na fotografia mas na altura da festa passou despercebido. O país escapava da bancarrota e aparentemente aliviado, conseguia respirar. Coisa de pouco tempo.
Quando o PSD chegou ao Governo apressou-se a defender que era preciso ir para além da troika. Paulo Portas foi atrás, em nome do interesse nacional. E aqui chegados há qualquer coisa que não bate certo. O PS, em certos momentos, parece que não assinou e não se comprometeu; o PSD assinou, comprometeu-se, quis,com evidente orgulho, ir mais além , o CDS seguiu-o, mas ambos falharam nos objetivos a que se propuseram; a troika fez mal as contas, mas lava as mãos do que preparou e afirma que o programa de ajuda externa é da responsabilidade das autoridades portuguesas. E não saímos disto quando se anunciam novas medidas de austeridade. Que todos já percecionamos como não sendo as últimas. Porque todas as restantes já adotadas não produziram os efeitos que justificaram a sua apresentação.
É certo que vivemos tempos muito complexos. E quem governa tem imensas dificuldades pela frente. Mas quem governa com maioria e com um pais que interiorizou que gastou mais que o que devia e que, por força desse facto, eram inevitáveis medidas de sacrifico e contenção tinha, apesar de tudo, algo a seu favor. E teve desde logo um sentimento generalizado de rejeição do anterior governo e particularmente de José Sócrates. O que valeu para uma imensa margem de manobra. Que o tempo foi fazendo desaparecer. Desde logo porque as primeiras medidas de austeridade violavam promessas eleitorais. Passos Coelho defendeu uma coisa antes das eleições, e fez outra depois delas. Mas sobretudo porque parece que todos se enganaram quanto às medidas a adotar. E por muito que a crise europeia ou o chumbo do Tribunal Constitucional valham ainda como razão explicativa para o insucesso governamental (a derrapagem do défice é atingida mesmo com o corte salarial que o TC considerou inconstitucional) a vida do governo e dos portugueses, daqui para a frente, vai ser ainda pior.
O que se passou na passada sexta-feira com a comunicação do primeiro-ministro ao País, é de outra natureza. Revela, pela forma desastrada como foi justificada, uma enorme inabilidade e impreparação políticas. De consequências imprevisíveis. O que acentua uma tendência que já vinha de trás: o governo parece estar longe de ter sido constituído por pessoas com experiência e preparadas para os tempos difíceis que se vivem. Por vezes, fica a impressão que não há coordenação política. Que existe uma indisfarçável imaturidade. Que nos diferentes ministérios cada um espera que lhe digam o que deve fazer. Que lhes sirvam um guião.
As políticas para o desporto não escapam a esta tendência. Seria uma enorme surpresa que as escolhas feitas dessem bons resultados. À custa das faturas por pagar passaram as primeiras medidas. Os grupos de trabalho e uns retoques legislativos compuseram a coisa e deram alguma ocupação ao marketing governamental. O dois em um como reforma da administração pública desportiva apresentada como uma medida de emagrecimento do Estado transmite, para já, a sensação de quem entra numa casa onde alguns dos móveis mudaram de sítio, se substituíram outros a família que lá reside, em parte, é outra, mas no essencial a vida é a mesma. O frenesim de presenças neste ou naquele evento não disfarça a inabilidade relacional ou comunicacional dos ajudantes de campo. E se a incapacidade é explicável a arrogância é inaceitável.
E agora? O que fazer? A culpa da situação continua a ser imputada a quem esteve? É uma responsabilidade retroativa? A que se deve a perda visível de qualquer iniciativa governamental? Há quantos meses se não conhece uma palavra ou uma iniciativa do ministro responsável pelo desporto, salvo a recente operação urbanístico-desportiva do Jamor? É suficiente? Neste ambiente pós-Londres o que esperar de uma governação que navega com um mestre ao leme, agarrado ao barco, mas saturado, aborrecido, em permanente conflito, sempre inseguro, preso na sua própria teia? E um ministro que, independentemente de qualquer juízo de valor, se deixou fragilizar politicamente, governando fora do seu ambiente natural, que é o palco mediático, e que fora disso, se sente como peixe fora água, e, como tal, já não funciona? A sensação é de uma equipa cansada, sem estratégia,que deixou de ter iniciativa e que espera apenas o apito final.
Como então alertámos era muito importante não deixar escapar a oportunidade de causar uma primeira boa impressão. Esse tempo desperdiçou-se. Por más escolhas. E com elas uma errada gestão de agenda. E uma inábil seleção de prioridades.Tudo agora se torna bem mais difícil. A começar pelo diálogo social com os parceiros desportivos.Com um país exaurido, mais pobre, mais fraco e menos confiante como construir um desporto melhor?

domingo, 9 de setembro de 2012

Onde está o Meirim?


Texto publicado no Público de 9 de Setembro de 2012.


1.No dia 27 de Junho (uma 4ª feira) recebi um correio electrónico de um advogado que se me dirigia também em nome de uma outra pessoa, esta a colaborar com a Secretaria de Estado da Juventude e do Desporto.

Era-me dado conhecimento da inauguração, no mês de Julho, do Museu Nacional do Desporto e da respectiva Biblioteca.

Para esta apelava-se à minha “atenção de forma particular”.

O correio electrónico anexava uma missiva da apresentação da iniciativa e do que era pretendido com a mesma.

2. Abri o anexo – em formato pdf – com facilidade.

Surpresa.

Era uma carta do Chefe de Gabinete do Secretário de Estado Mestre Picanço, imagine-se, a mim dirigida. Sem espinhas. Uau! Que intimidade. Que correcção na forma como se contacta uma pessoa da qual se desconhece qualquer paradeiro. Alguém sabe, com efeito, o endereço postal da Faculdade de Motricidade Humana ou da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa?

Após algumas palavras sobre a futura inauguração do Museu (e Biblioteca), enfatiza-se que estaremos perante “um espaço e projecto que a todos pertence e para o qual todos podemos contribuir e é neste espírito de ”porta e espírito abertos” que o desejamos apresentar.”

E a riqueza do espaço, adita-se será tanto maior “quanto mais contributos conseguir reunir de todas as entidades que o recebam como mecanismo de utilidade pública e pólo aglutinador de identidade e conhecimento.” Fixe. Correctíssimo até agora.

3. Depois vem o apelo à minha “atenção de forma particular”, no que respeita à Biblioteca.

Algumas loas e a solicitação do meu “apoio no sentido de nos ajudar a organizar e reunir os títulos, livros e/ou revistas que na qualidade de perito julgue que melhor se enquadram neste espaço.”

Esclarece a Secretaria de Estado: “Este é um projecto dinâmico que tem ponto de partida (inauguração) mas se prolonga indefinidamente no tempo, tal como este convite à participação de V. Exa. no mesmo. Só este carácter intemporal pode manter a qualidade da biblioteca”.

Por fim, sem muito sentido, em face do pedido que me foi dirigido, solicita-se que seja eu a contactar a outra pessoa de cuja existência o advogado já me tinha dado conta. Em suma, alguma confiança, mas não tanto e nem pensar em contactos mais directos com quem que me lança o desafio.

4. No dia seguinte, respondi ao advogado, agradecendo a comunicação, e pedindo que fosse contactado (três números de telefone), para tentar saber o que, em concreto, me era pedido.

5. O Museu foi inaugurado a 12 de Julho passado e não fui, naturalmente, convidado para a cerimónia.

6. Nunca mais o advogado, a outra pessoa, o Chefe de Gabinete, algum motorista ou auxiliar administrativo da Secretaria de Estado – com o devido respeito – me contactou, mesmo seguindo os trilhos complexos que foram percorridos.

Porquê? Foram as férias? Perderam os meus contactos? A Biblioteca fechou? Reponderaram o teor das críticas que sempre dirigi aos governantes (?) do desporto deste infeliz país?

Não sei a resposta.

7. Lembrei-me agora de algo, peço desculpa.

No dia 1 de Julho (o domingo seguinte àquela 4ª feira) publiquei uma opinião no Público. Aí dei conta da “espécie de cunha” que Mestre Picanço tinha levado a cabo quanto ao nome do porta-estandarte na cerimónia de abertura de Londres 2012.

Não deve ter tido relevância para o silêncio, desde logo porque, como afiançava a Secretaria de Estado, eles são movidos por um “espírito de ”porta e espírito abertos”

8.A “coisa” faz-me lembrar as hipóteses práticas dos exames de Direito. Eis o enunciado: A quer a colaboração de B, mas não a quer pedir directamente. Pede a C que o faça. C, por sua vez, comunica com B, mas através de D, para que B fale com E. B responde a D. No final, um silêncio. Quid juris?

9. Agradeço os incentivos que tenho recebido para que “não poupe palavras”.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Cautelas e caldos de galinha...


O Governo, ao longo de mais de um ano que leva de exercício de funções, não apresentou ainda, como prevê o programa de governo, qualquer projeto de requalificação do Complexo Desportivo do Jamor. Este tempo não foi aproveitado para juntar as entidades residentes/utilizadoras do Complexo, designadamente várias federações desportivas, e definir um quadro de soluções possíveis face aos problemas existentes. Este tempo foi aproveitado para tentar resolver dois problemas: o do futebol e o de João Lagos. E com um princípio claro desde o inicio: o governo pretende passar parcelas daquele património público para outras mãos. Única solução, de resto, que,naquele local, pode animar o mercado da construção, face à crise da iniciativa pública.
Não me vou pronunciar sobre a solução que ontem foi anunciada. Ou outras que já estiveram previstas e foram colocadas de lado. E ao histórico deste processo. E a questões de direito no âmbito da propriedade pública do Estado. E ao que está em cima da mesa. Razões de natureza profissional, passadas e presentes, a isso me aconselham. Mas adianto que não tenho qualquer reserva à alienação no todo em parte, garantida que seja a sua função pública, do Complexo Desportivo do Jamor. E não tenho também qualquer resistência de princípio à valorização dos projetos imobiliários e afins que decorrem em áreas anexas ao perímetro do Complexo. Pretendo apenas chamar a atenção para um outro lado do problema: o modo como a realidade Jamor é vivida, é sentida e o seu espaço administrado. E o cuidado que se deve colocar em todas as iniciativas que, pretendendo valorizar o espaço, podem ser entendidas como de limitativas ao sentido público da sua missão.
O Jamor não é apenas o maior um equipamento desportivo público. Não é só um elemento destacado do património publico material. É um elemento identitário a que os portugueses se habituaram a ver e a sentir como uma referência afetiva. E que tem com as populações que o circundam uma relação especial. E pese embora as vicissitudes porque passou e, em determinados momentos, o elevado estado de degradação que atingiu, nunca essa dimensão de pertença se perdeu.
Quando no passado, os responsáveis de então, decidiram vedar algumas das zonas de acesso livre ao Complexo do Jamor, do modo a limitar a sua já acentuada degradação e impedir a prostituição que ocorria num dos topos, a decisão gerou enorme polémica. Quando se procurou impedir que o parque de estacionamento norte se mantivesse em regime de non-stop como local de engate e praticas gay a céu aberto, os portões, então colocados, foram várias vezes destruídos. Quando se procedeu ao abate de algumas espécies arbóreas, velhas e doentes, com o objetivo de substitui-las por outras a medida gerou reclamações e polémicas com a população. E a construção de campo de golfe de 9 buracos que é um fator de valorização patrimonial e paisagístico de todo o Complexo foi motivo de atrasos e disputas em tribunal com imenso dinheiro gasto que seria desejavelmente evitável.
O Jamor foi sempre um espaço de residência /utilização de muitas federações desportivas. São de há décadas inquilinos daquele espaço. É impensável uma qualquer solução futura que não passe pela necessidade de auscultação e concertação com os seus interesses e necessidades. E o que e se diz para este tipo de entidades se pode dizer para a mais antiga escola de formação de quadros superiores de Educação Física e Desporto (FMH).
O Jamor é o maior espaço público disponível para a prática informal do desporto. São milhares os seus utilizadores e qualquer solução futura não pode deixar de levar em linha de conta esta missão de serviço público. Mas o Jamor é também, e ainda, local de habitação para algumas famílias, em antigas casa de função do Estado, muitas delas sem condições de habitabilidade adequadas e que carecem de resolução. E finalmente o Jamor é uma via de atravessamento rodoviário com milhares de viaturas diárias incompatível com a natureza e missão daquele espaço.
Se digo tudo isto não é porque tenha uma solução pronta a servir. Apenas para chamar a atenção para a complexidade de tudo quanto envolve o Complexo Desportivo do Jamor.E para necessidade de não andar a correr atras do fogo-fatuo.E como, o que ontem foi anunciado, ainda vai fazer correr muita tinta, pode ser, que, pelo menos,que tenha o mérito de alertar consciências e chamar a atenção para o Jamor.



terça-feira, 4 de setembro de 2012

As questões que se repetem (*)


A primeira vez que fui detido pela polícia tinha 14 anos. Por um motivo: jogar à bola na rua e fugir para que a polícia não confiscasse a bola. Em Santarém (no Choupal) havia um baldio inclinado onde tínhamos colocado umas pedras a servir de marca de balizas e onde improvisávamos umas futeboladas. Mas tínhamos de estar atentos à chegada do polícia. Porque era proibido jogar á bola na rua. E porque a polícia multava (coisa que nunca confirmei), mas sobretudo ficava com a bola (o que aconteceu muitas vezes). Uma bola, naquele tempo, era um bem escasso. Poucos tinham o privilégio de a possuir. E, daquela vez, a presença da polícia só foi detetada tardiamente e não nos restou outra solução se não fugir. Um polícia que vinha em sentido contrário percebeu o que se passava e deteve dois de nós. Fomos conduzidos à esquadra, a pé, e como a esquadra ficava no lado oposto da cidade, sofremos a suprema humilhação de a atravessarmos indo presos. Pouco tempo depois de chegarmos à esquadra o meu pai, entretanto avisado de que o filho tinha sido preso foi buscar-nos e nada de especial aconteceu.
No liceu de Santarém era proibido jogar à bola. Mas nos intervalos das aulas fazíamo-lo nas traseiras do liceu ou num improvisado polidesportivo existente. De vez em quando, o contínuo, que naquela altura ainda não se chamava de auxiliar de ação educativa, tirava-nos o número e apresentava queixa ao diretor de ciclo. Que me lembre nunca aconteceu nada de especial. E quando havia um feriado -assim se chamava quando o professor faltava- saíamos do liceu, o que também era proibido, e íamos jogar à bola para as traseiras do Convento (Santa Clara).Nesse tempo, na praia, também não se podia jogar à bola. Se aparecia o cabo do mar confiscava a bola.
Anos mais tarde, já profissional, vivi outro tipo de proibições. A I corrida do Tejo na Marginal foi realizada com um forte conflito com a GNR (major França de Sousa) e a II edição foi proibida pelo Governo Civil de Lisboa, na véspera da sua realização, com o argumento de quer era proibido correr na Marginal .O percurso da I meia maratona do 25 de abril (Trafaria/Belém) não foi autorizado porque também não era permitido correr sobre a Ponte 25 de Abril.
Os tempos são outros. E muitas das proibições deixaram de o ser. Vistas à distância algumas destas situações até parecem bizarras. Mas na nossa contemporaneidade há qualquer coisa de cultura do interdito que permanece.
Há cerca de uma semana uma aula de ginástica aeróbica, com cerca de uma centena de pessoas, e realizada ao ar livre no Porto de Recreio de Oeiras, foi interrompida porque a autoridade marítima invocou a ausência de licença para aquele efeito. E embora a entidade responsável pela gestão do espaço tenha dado total garantia de que tinha autorizado a referida ação, e que ela decorria no espaço que geria, a autoridade marítima invocou que a entidade gestora do espaço não tinha competências para autorizar o que quer que fosse no espaço , porque essa era uma competência dela (autoridade marítima).
Há dias, pessoa amiga, telefonou-me indignada porque um grupo de jovens, entre os quais se encontrava um dos filhos, montou uma rede de voleibol numa praia (Baleal) e divertia-se a jogar com os amigos quando foi mandado parar o jogo por uma patrulha da autoridade marítima. O argumento é que só podia o fazer em zona licenciada e devidamente autorizado. A praia naquele local estava deserta e nada daquela atividade prejudicava quem quer que fosse explicaram os jovens e os adultos que entretanto assistiram ao insólito da situação. Que não, diziam os polícias, porque a lei é clara.
Entre as minhas futeboladas de jovem e os jovens que no Baleal queriam divertir-se batendo umas bolas por cima de uma rede passaram cerca de 50 anos. Mas não passou o mesmo espírito miudinho, censório, policiesco, cujo comportamento não resiste ao mais elementar bom senso. E com não é possível legislar o bom senso o resultado é este. O que ajuda a explicar muitos dos nossos atrasos e das nossas dificuldades. Há um polícia e um censor escondidos em muitos de nós. É com o desporto como podia ser com qualquer outra atividade. E que não é culpa do governo, dos partidos políticos, da senhora Merkel ou da troika. É culpa das nossas mentalidades e dos valores que nos orientam na vida. Afinal, os mesmos problemas de sempre!

(*) Título retirado do livro de Paulo Tunhas e Alexandra Abranches,Uma breve história da filosofia.

domingo, 2 de setembro de 2012

Avaliação da prestação de Portugal nos jogos olímpicos de Londres 2012


Avaliação de qualquer operação, tarefa ou atividade humana só é possível ser realizada, honestamente, confrontando os objetivos previamente estabelecidos, ou seja os resultados previstos, com os resultados realmente obtidos. É assim na gestão, e também o é no desporto.

Como nota prévia gostaríamos de valorizar publicamente a dedicação, o esforço e a perseverança evidenciadas pelos atletas portugueses para dignificar o seu desempenho, a sua modalidade e nome do seu país, Portugal.
Os objetivos a alcançar por Portugal nos jogos olímpicos de Londres 2012 estão fixados no contrato programa de desenvolvimento desportivo pelo qual o Instituto do Desporto de Portugal, I.P. (IDP, I.P.) concedeu ao Comité Olímpico de Portugal (COP) o financiamento público para a execução do programa de preparação dos atletas com vista à participação nos jogos olímpicos e, se possível, ao alcance dos objetivos nele expressos.

É nosso propósito realizar uma avaliação do grau de concretização desses objetivos fixados para Portugal nos jogos olímpicos de Londres 2012.
A cláusula 2.ª designada “Objetivos” inserta no contrato programa de desenvolvimento desportivo n.º 287/2009, publicado no Diário da República, 2.ª série, n.º 193 — 6 de Outubro de 2009, relativo à execução do Programa de Preparação Olímpica Londres 2012, que o COP apresentou no IDP, I. P., e se propõe a levar a efeito até ao termo dos Jogos Olímpicos de Londres 2012, refere os seguintes objetivos:
(1) Proporcionar aos praticantes desportivos abrangidos pelo Projeto Olímpico Londres 2012, as condições de preparação necessárias para que possam atingir nos Jogos Olímpicos de Londres 2012 os seguintes objetivos desportivos;
a) Melhoria qualitativa global dos resultados desportivos nos Jogos Olímpicos de Londres 2012;
b) Aumento global do número de representantes nacionais, com especial incidência no género feminino;
c) Renovação e redução do nível etário dos atletas participantes.
Antes de analisar o grau de concretização dos objetivos designados desportivos, é evidenciado que o Programa de Preparação Olímpica Londres 2012, que o COP apresentou no IDP, I. P. tem como finalidade proporcionar aos praticantes desportivos abrangidos pelo Projeto Olímpico Londres 2012, as condições de preparação necessárias para que possam atingir nos Jogos Olímpicos de Londres 2012 os objetivos desportivos. No que respeita às condições de preparação, o que se impõe é questionar os atletas (e não só) sobre se as condições de preparação que lhe foram proporcionadas foram as necessárias e adequadas à concretização dos seus objetivos. Estamos convictos que esse trabalho certamente será realizado e servirá para introduzir as melhorias, do ponto de vista dos atletas, nos sistemas de preparação desportiva.

Vamos aos objetivos: a) O objetivo referido na alínea a) corresponde a uma melhoria qualitativa global dos resultados desportivos nos Jogos Olímpicos de Londres 2012. Face à formulação do objetivo (falta de especificidade, não está fixado o valor da melhoria, nem o ponto a partir do qual se deve avaliar essa melhoria, dificulta uma mensuração séria e inequívoca) propomos apreciar o grau de concretização deste objetivo de dois modos:
(A) Pelo número de medalhas e diplomas relativamente a Pequim 2008, e;
(B) Pelo número de medalhas e diplomas relativamente aos últimos 3 jogos olímpicos.

(A)    Pelo número de medalhas e diplomas relativamente a Pequim 2008. Em Londres 2012 Portugal obteve menos uma medalha e mais 2 diplomas do que em Pequim 2008. Em termos de pontos obteve a mesma pontuação: 28 pontos. Do ponto de vista global obteve uma prestação similar à de Pequim 2008 (28 pontos), embora com menos uma medalha (de ouro) e mais 2 diplomas. Não é evidente uma melhoria qualitativa dos resultados. Considerando este critério o objetivo fixado para Portugal não foi atingido.
(B) Pelo número de medalhas e diplomas relativamente aos últimos 3 jogos olímpicos. A média do número de medalhas, diplomas e pontos obtidos em Sidney 2000, Atenas 2004 e Pequim 2008, foi de 2,3 medalhas, 7,7 diplomas e 34 pontos. Em Londres 2012 foi obtida menos uma medalha e mais dois diplomas. Em termos de número de pontos Portugal obteve menos pontuação em Londres (28 pontos) do que na média dos últimos 3 jogos olímpicos (34 pontos). Assim, em Londres 2012 do ponto de vista global Portugal obteve uma prestação inferior à dos últimos 3 jogos olímpicos. Considerando este critério o objetivo fixado para Portugal não foi atingido.
b) O objetivo referido na alínea b) relativo ao aumento global do número de representantes nacionais, com especial incidência no género feminino, corresponde a um duplo objetivo: aumento do número de representantes nacionais e aumento das mulheres. São pois dois objetivos. O número de atletas participantes nos jogos olímpicos de Pequim 2008 foi de 77, igual ao número dos participantes em Londres 2012. Por isso este objetivo não foi atingido. As mulheres que participaram nos jogos olímpicos de Pequim de 2008 foram 26, o que correspondeu a 34%. Em Londres 2012 participaram 33 mulheres, o que correspondeu a 43%. Este objetivo foi atingido.
c) O objetivo referido na alínea c) que pretendia uma redução do nível etário dos atletas participantes nos jogos olímpicos de Londres 2012 não foi atingido. A média de idades dos 77 atletas participantes nos jogos olímpicos de Pequim 2008 foi de 27,5 anos (ano de nascimento até final do ano 2008), enquanto a média de idades dos 77 atletas participantes nos jogos olímpicos de Londres de 2012 foi de 28,2 anos (ano de nascimento até final do ano 2012).

Em síntese, podemos considerar que o objetivo da melhoria qualitativa global dos resultados desportivos nos Jogos Olímpicos de Londres 2012 não foi atingido, ao não ter sido ultrapassado o número de pontos obtidos globalmente (até 8.º lugar) relativamente a olimpíadas anteriores. O segundo objetivo relativo ao número de representantes nacionais e das mulheres foi parcialmente atingido. O terceiro objetivo relativo à redução do nível etário dos atletas não foi atingido. Concluindo, a maioria dos objetivos não foi atingida. Independente desta questão formal, mas relevante, importa (1) valorizar publicamente a dedicação, o esforço e a perseverança evidenciadas pelos atletas portugueses para dignificar o seu desempenho, a sua modalidade e nome do seu país, Portugal; (2) discutir e aperfeiçoar a base dos sistemas/políticas de deteção e preparação dos praticantes desportivos portugueses para a obtenção dos mais elevados resultados desportivos no plano internacional; e (3) um desígnio nacional, uma liderança forte e um objetivo comum capaz de mobilizar a motivação e a superação de todos. Lembram-se do que faltou à nossa comitiva em Pequim 2008? A história repetiu-se em Londres 2012?

Alfredo Silva 

Publicado no Diário de Notícias de 20-08-2012

sábado, 1 de setembro de 2012

Espírito olímpico – Entre a inteligência táctica e a manipulação de resultados


De há muito a esta parte que o lema coubertiniano "o mais importante não é vencer, mas participar!" se tornou, como tantos outros, numa proclamação de circunstância na competição olímpica, convertido num slogan de marketing.

Competir, e dar o máximo, por vezes até no limite da lei, para alcançar a vitória traduz hoje o ethos projectado no discurso e na prática dos agentes desportivos através dos órgãos de comunicação de massas que cobrem os Jogos Olímpicos. Por outras palavras, estas atribuídas a Martina Navratilova, “Quem disse que ganhar ou perder não importa provavelmente perdeu”.

Não se pretende aqui tecer considerações sociológicas sobre a génese e a maturação deste quadro de valores, ou sobre a sua eventual antinomia, mas tão só situar e sublinhar na plasticidade dos valores olímpicos - ou se quisermos, dos “Princípios Fundamentais do Olimpismo”, como titula a Carta Olímpica -, um conjunto de episódios ocorridos durante e após os Jogos .

Em Londres, conforme foi tornado público, a Federação Internacional de Badminton, com o apoio do COI, decidiu expulsar do torneio feminino de pares oito atletas por tentarem perder propositadamente os seus jogos, no sentido de obterem maiores vantagens competitivas em fase posterior do torneio, para a qual já estavam apuradas. Tais atitudes, como o falhanço deliberado de pancadas, perante os apupos do público, e a admoestação dos árbitros, foram consideradas como atentatórias ao espirito olímpico, enquanto as jogadoras, e outros agentes da modalidade sustentavam que nada nos regulamentos existentes proibia o recurso a este expediente.

Na medida em que o recurso à derrota, ou a um menor desempenho, como instrumento de estratégia táctica para proveito competitivo, não está expressamente proibido pela Carta Olímpica ou, neste caso particular, pelos regulamentos da Federação Internacional de Badminton, abre-se um foco de debate em duas vertentes.

Primeiro, no domínio dos valores acima enunciados, da sua relação com a lógica de organização das competições e a exploração económica do espectáculo, quando a derrota pode ser um recurso válido, de atletas e treinadores, para evitar um adversário mais forte numa fase inicial da prova, ou quando o desempenho mais contido possa constituir uma manobra táctica relevante para dosear esforço e iludir adversários. Com tudo o que isso implica numa certa frustração do público que paga um ingresso para assistir a um espectáculo onde os protagonistas reduzem a intensidade de esforço, no caso de modalidades individuais, ou passam a maior parte do tempo sentados no banco de suplentes, como não raras vezes ocorreu com as principais vedetas da selecção de basquetebol norte-americana.

Segundo, no que respeita à regulação desportiva na salvaguarda da integridade das competições em relação à manipulação de resultados, tema na ordem do dia da agenda politica desportiva internacional. 

Não havendo manipulação de resultados neste caso, pelo menos na sua concepção convencional e vertida em diversos ordenamentos jurídicos, uma vez que a derrota deliberada das atletas não envolveu uma contrapartida financeira ou patrimonial para fazerem algo que de outra forma não o fariam, mas apenas a tentativa de obterem uma vantagem táctica no decurso da sua competição, a distância que separa estas duas realidades não será assim tão grande.


Ora, como em tantas outras circunstâncias, a regulação é apenas um instrumento de política. A sua aplicação continua a ser, pelo menos para um sociólogo, um dos melhores barómetros para atestar o quadro de valores que orientam aqueles que a produzem, implementam e sobre ela decidem, tanto ou mais do que os atletas e treinadores que se limitam a gerir o quadro regulador em função do seu principal propósito que é ganhar a competição!