segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

A coisa não vai acabar bem

A linguagem do poder é importante para determinar o nível do discurso político do país. Assim o afirmava o editorial da revista Sábado (nº301).E o que se entende por “linguagem do poder”? A expressão pública dessa linguagem? O que dessa linguagem é privado mas passa do circulo intimo de pessoas que exercem funções públicas?
Que o primeiro-ministro tenha esta ou aquela opinião sobre um jornalista e o seu trabalho e o comente com os que lhe são próximos é natural. Que fale ao telefone e use termos e expressões impróprias para uma conversa pública é possível. Os governantes não são anjos, nem santos. São pessoas normais, iguais a cada um de nós. Mas são pessoas que pelas funções públicas que exercem têm de ter uma conduta privada cautelosa. E, em certa medida, com condicionamentos. Como são pessoas que exercem funções públicas a sua vida é muito escrutinada. E nesse escrutínio cabe tudo: o que é do foro público e do privado. É cruel, mas é assim.
Não é preciso viver no interior de uma redacção, para conhecer os telefonemas entre jornalistas ou escutar as conversas ao almoço para perceber a estima que os jornalistas têm pelos políticos e o modo como a eles se referem. E como preparam as suas campanhas de descredibilzação em nome do direito à informação.
Não existem dois países. E duas linguagens: uma para o poder político. Outra para o poder mediático. Somos o mesmo país e o mesmo povo. E as qualidades, virtudes e defeitos estão igualmente distribuídas. Pelo que temos de cultivar algum distanciamento perante a recente polémica do caso “Mário Crespo”. O problema é outro.
Em nenhuma democracia é fácil a um governo passar de uma maioria absoluta para uma maioria relativa. Pior quando a governação em maioria absoluta o foi com um estilo autoritário, desprezo pela minoria e apoucando quem a criticava.Há muita gente a quem o poder subiu à cabeça E nem precisamos de ir muito longe para buscar exemplos.
Se recuarmos no tempo e consultarmos o histórico deste blogue, que em termos políticos tem pouca relevância, encontramos quem, a coberto do anonimato, tenha usado o insulto e a calúnia como arma do debate político . Num estilo que fez escola em muitos intelectuais orgânicos do “socratismo” -o socialismo democrático é apesar de tudo uma outra coisa - e em muitos assessores em gabinetes do governo. Mais ainda: procurou-se denegrir as opiniões alheias aviltando e descredibilizando o carácter e a idoneidade dos seus autores ou encontrando neles contradições que revelariam a seu baixo compromisso com a verdade.
Este tipo de comportamento inundou o espaço da blogosfera, revelou um padrão de comportamento obsessivo e marcou uma cultura politica da maioria absoluta de onde os responsáveis governamentais não fizeram nada para descolar. O efeito não poderia ser pior do que aquele que está a acontecer. Agravado por, nos tempos actuais, a política se não circunscrever aos seus actores tradicionais mas envolver gente do negócio das “agências de comunicação” e da publicidade politica ”travestida” de jornalismo. De um lado e do outro há muito quem queira acertar contas.
As campanhas de descrédito têm sempre a possibilidade de retornar aos seus autores. E com efeitos mais devastadores. Começam pelas opiniões que se expressam informalmente e acabam nos actos de governação. Começam por conversas de corredor e acabam no computador deste ou daquele jornalista que decide ir investigar o que se ouve dizer. E aí o mundo parece começar a desabar.
Em parte o governo está a ficar refém na cama que ajudou a fazer. Costuma-se dizer que as pessoas inteligentes são aquelas que aprendem com os próprios erros e que os muito inteligentes são aqueles que aprendem com os erros dos outros. Como classificar aqueles que nem aprendem com os erros próprios, nem com os dos outros? Cheira-me que a coisa não vai acabar bem.

quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

Dar o SALTO

Quer no blog quer através de textos que são possíveis ir lendo na imprensa desportiva e não só, sabemos que existe uma necessidade de dar um salto qualitativo (e também muito quantitativo) no nosso desporto. A diversos níveis, como as diversas temáticas que vão sendo aqui abordadas.

Curiosamente o SALTO é uma plataforma mundial de recursos para projectos de âmbito desportivo, social e organizacional, feita por todos nós: profissionais, estudantes, professores, animadores, coordenadores de projectos, voluntários, etc.

É uma plataforma que apresenta um campo deveras interessante: o treino ou 'training', composto por diversas acções de formação espalhadas pelos vários países europeus que possui algo como ferramentas para a realização de projectos, recursos financeiros, dinâmicas de grupo, dinâmicas para acções que sejam desenvolvidas (como na área do treino, aulas, formação, animação, gestão, etc.) ou então os excelentes t-kits (o download de qualquer um deles é gratuito).

Áreas como o networking, o empreedorismo empresarial e social, gestão de emoções, aspectos muito práticos na gestão de projectos, as necessidades e as ferramentas para formação e gestão, questões comportamentais, culturais e de civismo estão ao passo de um clique. Porque o desporto apesar de ser uma área muito específica, vive também ela inserida numa abordagem sistémica quer ao nível da educação quer ao nível de uma sociedade com inúmeras áreas, o desporto nesta plataforma é inserido no seio de algo mais transversal.

Este SALTO dedica-se a uma fase de formação e training para qualquer interessado. É este salto que o nosso desporto poderá e deverá dar, através da educação e formação escolar, universitária e social. É necessário que as licenciaturas, formações, ensino alarguem bastante o leque de conteúdos e temáticas. As que existem são importante, mas é preciso acompanhar os bons exemplos que vamos observando.

Já existem Universidades, Institutos Politécnicos, Escolas Superiores, Escolas Secundárias, Acções de Formação que apresentam nos seus currículos ou conteúdos, áreas como o empreendorismo organizacional e social, gestão e liderança de equipas, o trabalhar em equipa não só no desporto 'jogado' mas também nas equipas de projectos, gestão de emoções, o poder das networkings ou coaching. É preciso que sejam alargadas à oferta de todos os cursos e formações das nossas áreas.

Estas competências técnicas e comportamentais serão (não serão já?!) sem grandes dúvidas indicadores de diferenciação (e sucesso) nos projectos e na forma de estar no nosso dia-a-dia face às dificuldades e oportunidades que vão surgindo no ambiente que nos rodeia. É preciso algo mais para que perante um mundo de crise e oportunidades simultaneamente, existam não só organizações a chorar mas outras que queiram e saibam vender lenços. É este SALTO que poderemos e deveremos querer dar.

terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

Contabilidade criativa

A consolidação orçamental e a redução da divida do Estado através do congelamento das despesas com pessoal é o que está mais à mão. Mas ignora os factores que estão a montante: a dimensão do Estado e organismo conexos. E adia eternamente a diminuição do peso do Estado, da administração pública, das estruturas de governação e da classe politica que nelas encontra emprego e que está sobredimensionada para a escala do país.
Um candidato a líder do PSD, que diz querer mudar Portugal, defende a redução dos salários dos políticos. Sabe que não é por ai que se alcança a redução da despesa pública. Mas vale, supostamente, pelo simbolismo da medida. Pelo sinal que dá ao país. Trata-se de uma refinada demagogia. Que cai bem num pais que tende a abominar os políticos. Mas que não resolve nada de essencial. Porque o problema é outro.
O país não paga de mais aos seus políticos. O país paga é a políticos a mais. A assembleia da república deveria ter menos deputados. Os governos poderiam ser bem mais pequenos. Os gabinetes ministeriais não deviam servir como agência de emprego político. As câmaras municipais só tinham a ganhar com a redução do número de vereadores que tendem a ocupar o tempo com matérias da competência dos dirigentes municipais. Os gabinetes nas autarquias deveriam ter limites à contratação de assessorias políticas. E depois o que tudo isto arrasta: viaturas, refeições pagas com os fundos de maneio, motoristas, secretárias, gabinetes, computadores, portáteis, telemóveis, horas extraordinárias, ajudas de custo, etc.
O governo de José Sócrates, em 2005, apresentou um conjunto de medidas de emagrecimento da despesa pública.Com reformas nas estruturas da administração, com regras para novas admissões e regimes apertados de despesa, com mecanismos de representação e até nas deslocações ao estrangeiro.Com algum pudor inicial na contratação de assessorias políticas. Parecia querer ir num bom caminho. Valia pelo exemplo que queria transmitir. O tempo desfez as esperanças.
O emprego político não diminui. Muitas das reformas ficaram a meio. O Estado não emagreceu. As despesas escondidas de ministérios e gabinetes continuaram. E houve mesmo quem, num clima de retracção financeira, anunciasse, todos os anos, aumentos dos seus orçamentos. O sinal só tinha uma leitura: não era necessário poupar e retrair nas despesas. Havia mais dinheiro para gastar. E quanto às despesas de exercício de funções o tempo fez esquecer as orientações anunciadas.
Governar não é fácil. Governar em tempo de crise pior. Os decisores políticos, por norma, gostam de falar do orçamento. Mas não têm o mesmo gosto para falar das execuções dos orçamentos. Onde se gastou e como se gastou. E evitam dar publicidade aos seus relatórios de execução orçamental. Quem quiser conhecê-los que vá à Conta Geral do Estado. E, se for capaz, que os descubra.
Se olharmos para a governação desportiva verificamos um pouco de tudo isto. Um propósito inicial de reforma com o redimensionamento da rede regional, a concentração de serviços e a redução de custos com a estrutura de funcionamento. A pouco e pouco veio o cansaço.Com o exemplo político a vir de cima e a marcar o ritmo, o ânimo reformista arrefeceu.
Para além de uma incomum correcção sobre correcção do modelo orgânico da administração pública - o propósito inicial sofreu várias alterações e a direcção vai na quarta equipa - a gestão no interior desse modelo veio-lhe acrescentando custos sucessivos, quer através de equipas de projecto, de uma apetência especial pelas viagens, ajudas de custo e turismo desportivo e recentemente pela entrada imediata para os quadros de elementos cuja base de recrutamento inicial foram critérios políticos .E que conseguiram, em pouco tempo, o que outros precisaram de muito tempo para verem reconhecido: a sua estabilidade profissional.
A folga financeira encontrada através de um significativo reforço do “folclore transmontano” e da venda de património deslumbraram. E o aumento do investimento em infra-estruturas púbicas e associativas foi o melhor que se registou no plano da despesa, pese as vicissitudes porque algumas têm passado. Porque, ao lado, sempre se geriu a situação de cada ano económico como se o país estivesse a crescer e não fosse necessário adoptar procedimentos do controle da despesa corrente. Recorreu-se a uma especial disciplina: a contabilidade criativa. Errar, todo erramos. O problema está quando transformamos os erros em virtudes. E a isto aplica-se um nome muito feio.

domingo, 31 de Janeiro de 2010

Uma Equipa, uma Nação

Humanismo, Política e Desporto – a trilogia perfeita para os comentários dos que forem ver o filme, para as emoções daqueles que conseguem arrepiar-se com o poder e a magia do desporto, para as estratégias de quem consegue ver o desporto mais além, ou para além, do simples entretenimento ou da actividade física.

Invictus
Do fundo da noite que me envolve
Escura como o inferno de ponta a ponta
Agradeço a qualquer Deus que seja
Pela minha alma inconquistável

Nas garras do destino
Eu não vacilei nem chorei
Sob as pancadas do acaso
Minha cabeça está sangrenta, mas erecta

Além deste lugar tenebroso
Só se percebe o horror das trevas
E ainda assim, o tempo,
Encontra, e há-de encontrar-me, destemido

Não importa quão estreito o portão
Nem quão pesado os ensinamentos
Eu sou o mestre do meu destino
Eu sou o comandante da minha alma

(William Ernest Henley - 1849-1903)

sábado, 30 de Janeiro de 2010

A novela e o novelo

Os contornos do caso EPUL poderão surpreender quem desconheça os meandros das relações do futebol profissional com os municípios, em particular os mecanismos de financiamento público à construção e requalificação de infra-estruturas desportivas. Foi - e tudo indica que continue a ser - uma novela com episódios por demais mediatizados tais os montantes e instituições em causa, as circunstâncias políticas à época e o clamoroso desrespeito pelo ordenamento jurídico vigente sobre esta matéria. Outras novelas não o são tanto.

Importa tomar esta novela como exemplo para divergir do enfoque sobre a promiscuidade entre a política e o futebol e enquadrá-la na óptica dos processos de accountability na governação do desporto autárquico.

Desde 1991 que existe um quadro regulador - recentemente alterado - sobre financiamento público desportivo, o qual procura sustentar boas práticas na gestão de dinheiros públicos. Ainda hoje são inúmeros os municípios que operam à margem deste, e de outros, instrumentos normativos. Para o confirmar basta uma visita na internet aos regulamentos de apoio ao desporto de inúmeros municípios deste país, despender alguns minutos a ler em boletim municipal, ou no jornal oficial da república, o conteúdo de deliberações autárquicas neste domínio. Caso não se queira investir desde logo no tratamento de choque com que o Tribunal de Contas e a IGF nos brindam.

Aqui chegados poder-se-á pensar que esta tendência representa apenas um sintoma de impunidade generalizado e por aqui ficamos. Porém desenrole-se o novelo... Sugiro ao leitor que imagine um clube de dimensão local e regional, o qual possa até disputar competições de natureza profissional, legalmente reconhecidas como tal. Tendo presente essa referência, quantos são aqueles que dispõem de uma estrutura técnica que permita responder com eficiência aos requisitos definidos naquele quadro regulador? Quantos são aqueles com uma situação financeira, patrimonial e fiscal, que, em bom rigor, estão em condições de assumir com probidade as obrigações ali definidas?

Admita-se, num cenário optimista - ou ilusório - que até são alguns. E assim se estabelece uma relação contratual com a autarquia, tendo por objecto a consolidação de um programa de desenvolvimento desportivo. Esta, no âmbito das suas atribuições inspectivas, fiscaliza e monitoriza o cumprimento do contrato, se essa for a sua vontade e empenho. Caso ocorram derrapagens e incumprimentos pela entidade beneficiária durante a vigência do contrato alguém acredita que o programa de desenvolvimento não se concretize? Seja ele um evento de interesse público, um programa de formação desportiva ou um novo espaço desportivo, nomeadamente quando estão em causa interesses comerciais ou desígnios nacionais sob o rótulo de interesse público? Alguém acredita que a autarquia dispõe de meios que lhe permitam apurar se as comparticipações municipais não derivam para o desporto profissional ou outros fins? E ainda que os serviços detectem anomalias e irregularidades, que político - na oposição ou no poder municipal - assume o ónus de propor e decidir a resolução do contrato com o clube bandeira da região ou do concelho, sem esgotar outros expedientes que comprometem não só a saúde financeira da autarquia como o futuro do clube?

Infelizmente sabemos que está longe de ser a produção legislativa, mesmo que bem intencionada, que vem mudar hábitos ou acrescentar rigor e responsabilidade na gestão de financiamentos públicos, como os fenómenos EPUL, que saltam para as parangonas, estão aí para o relembrar.

A prestação de contas começa no momento em que o ente público avalia ex ante a capacidade do eventual beneficiário em assumir riscos e valoriza a boa gestão e a evolução de resultados alcançados ao longo do tempo, com base em indicadores objectivos, com os quais estabelece um compromisso durável no tempo, susceptível de ser publicamente escrutinado e auditado. Trata-se de desenvolver e implementar processos de diagnóstico que suportem quem gera valor, ao invés de cumprir meras rotinas procedimentais, à semelhança de um balcão bancário.

Não se gerando incentivos à competitividade e empreendedorismo de quem beneficia de apoios públicos e avaliando tudo por igual, sem critérios precisos e mensuráveis, replicam-se as ineficiências de subsidiodependência e assumem-se contratos que não passam de simples formalismos. Mais cedo ou mais tarde, todos sabem, à partida, que o Estado acabará por assumir encargos e responsabilidades que não são suas. Depois, enredado neste novelo, tudo depende do engenho com que o faça, mais ou menos à margem da lei.

sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

Espelho meu, quem é mais belo do que eu?

A Colectividade Desportiva publica e agradece um novo texto de Fernando Tenreiro.

Houve quem se perguntasse no fim da legislatura passada acerca do seu trabalho no desporto. Através de anónimos, atirava os foguetes, corria a apanhar as canas, apontando virtudes porque não havia elementos contestáveis alternativos. Portugal sabe que a ausência de contestação é sinal de certa força, que não de razão.
A evidência que a legislação do desporto dos anos noventa falhara aconselhava um perfil de actuação modesto e baseado em pressupostos de governance e éticos semelhantes aos que produzem os melhores resultados europeus. Infelizmente a certa altivez teve como consequência o falhanço de Pequim que confesso, eu próprio, esperava não acontecesse.
Irei escrever o prometido terceiro e último artigo, este sobre o lançamento do livro ‘Desporto e Estado: Ideologia e Prática’.
O novo livro que Jorge Bento e José Constantino coordenaram foi a reafirmação de um modelo de sucesso do desporto português. Uma vez mais o acto editorial comportou o risco de trazer novos nomes para testar o acumular de capital de conhecimentos do desporto português num mercado pouco motivado para a escrita e o debate dos seus temas candentes.
Manuel Villaverde Cabral o orador convidado fez uma incisiva valoração científica do que apelidou uma nova área, referindo-se ao conhecimento do desporto, notando que existem condições para um desenvolvimento futuro seguro e equivalente ao já sucedido noutras áreas.
Estas palavras esperançosas ilustram que os desafios que se apresentam ao desporto exigem o aprofundamento das medidas e dos incentivos numa perspectiva de longo prazo e sem expectativa de resultados positivos instantâneos e de benefícios sem um custo acessório.
Este imediatismo feito de espuma que apela ao sucesso pelo sucesso, observa-se nos actos oficiais, inaugurações, recepções a atletas, participação em corridas populares, comemorações e festas desportivas. O comportamento contamina e prejudica o desporto nacional porque a acumulação de conhecimento e de capacidade de governance equivalente ao nível europeu exige um investimento público conhecedor, prolongado direccionado para os desafios do mercado privado e menos para os problemas dos agentes conhecidos.
Armando França demonstrou no Congresso do Desporto que existem políticos com um conhecimento apurado sobre as necessidades reais do mercado do desporto, assim como, existem líderes desportivos como Hermínio Loureiro e Joaquim Evangelista que actuam em ambientes adversos, para citar um par de nomes.
Há um oceano de projectos para fazer, todo o tempo do mundo é pouco para o muito que a população portuguesa necessita em termos desportivos, todos somos escassos e ignorantes dos passos exactos que gerarão o maior valor acrescentado e colocarão as futuras gerações de portugueses com um consumo desportivo de nível europeu.
Os parceiros desportivos públicos e privados do desporto devem caminhar neste sentido mesmo que erros sejam cometidos ou lapsos surjam. A definição do ‘core’, do objecto fundamental do sector, é o elemento decisivo da determinação de fazer como a Europa faz.
Pequim primeiro e depois os dados europeus do nível desportivo nacional demonstraram que Portugal está longe do nível Europeu médio e que a criação de condições de produção desportiva é incipiente materialmente.
O futebol, retirando o trabalho incompreendido da Liga de Clubes e a resignação contrariada do Sindicato de Jogadores, mantém uma atitude majestática que a sua dimensão suporta servindo de exemplo às restantes modalidades que o copiam e porque o copiam remetem-se à sua menoridade e invisibilidade social e económica.
Como Jorge Bento referia na apresentação do livro a falta de debate é imensa e trilha-se uma via de silenciamento. O exemplo dado por José Constantino da falta debate, publicações, teses, não se justifica pela existência dos três jornais diários de desporto que mais nenhum país tem no mundo desenvolvido.
O blogue e os livros de Jorge Bento e José Constantino são oásis civis no desporto português actual. Não são o bastante, nem são o essencial para o que um mercado dinâmico, como o do desporto moderno, exige dos parceiros desportivos portugueses.
A definição do ‘core’ para o desporto nacional numa perspectiva europeia permitirá equacionar os projectos relevantes, a sua quantidade e qualidade, e os tempos de realização dos activos que faltam para a média dos países com quem Portugal compete globalmente.
A definição do ‘core’ através do debate científico e democrático traria outra beleza às mãos de fada que no seu castelo à beira Tejo lidam com o mercado desconhecendo o saber fazer europeu de todos os países que desde há décadas e mais recentemente nos ultrapassam habitualmente em todos os indicadores de performance desportiva.

terça-feira, 26 de Janeiro de 2010

Os planos são rascunhos?

Um dos arcaísmos em matéria de gestão urbana e de planeamento de espaços para a prática desportiva é o conceito de que se deve garantir cerca de 4m2 como área útil desportiva por habitante. Trata-se de um valor arbitrário. Não tem qualquer fundamentação técnica ou científica. Fez escola em algumas instâncias europeias. Mas como indicador de planeamento é um erro. Basta pensar que trata por igual o que é diferente. Homogeneíza quantitativos populacionais que, supostamente, teriam iguais necessidades de procura/prática desportiva. Independentemente de perfis etários, sociais e económicos.
Associado àquele arcaísmo estão as chamadas “cartas desportivas”. Um depositário de boas intenções. Mas que não ultrapassa, em grande número de casos, a possibilidade de análise da situação ou o diagnostico. Passar desta fase para a da previsão de necessidades pede outros instrumentos de planeamento. Onde estão eles? Com que critérios? Como se estruturam? Em que se fundamentam?
Muitos dos actuais modelos de planeamento estratégico assentam em visões e valores que o desporto já não partilha. Partem do modelo tradicional do funcionamento de uma organização desportiva: um sistema aberto, em que se podem observar as relações directas e previsíveis entre causas e efeitos, entre oferta e procura, entre disciplinas desportivas e práticas. É um modelo que corresponde a um desporto unipolar: o desporto de competição. Mas que tem dificuldades em se adaptar a um modelo plural onde convivam várias formas e expressões desportivas. E onde o sector publico se tem de articular com o associativo e o privado.
O planeamento urbano evoluiu, nos últimos anos, de uma perspectiva fixista para um perspectiva estratégica, mais aberta, mais móvel e muito ligada às lógicas de qualificação e competitividade das cidades e das regiões. E esta mudança obrigou a convocar outros saberes disciplinares e outros actores sociais para além dos associados ao planeamento tradicional. É uma aproximação que se afasta dos modelos clássicos, previsíveis e arrumados que raramente passam do papel e que se tornaram exercícios inúteis.
Na realidade, o processo de planeamento tornou-se, com frequência, um elemento conservador, apesar do seu propósito de pretender "facilitar as mudanças". Os planos são, por vezes, construções tão detalhadas e rígidas que se tornam frágeis, caindo por terra ao mínimo ajustamento. O controlo a intervalos de tempo determinados e essencialmente quantitativo, permite verificar e corrigir desvios face ao que tinha sido planeado. Mas, muitas vezes, é apenas um controlo da evolução da execução. Não retroage às escolhas.
Pensar o planeamento dos espaços de desporto é antes de mais pensar a “cidade” e o modo ela se organiza. O que deve oferecer aos que nela vivem, habitam ou trabalham. As cidades dependem crescentemente de factores económicos. Da capacidade de fixar e qualificar pessoas. De atrair investimento. De garantir boas politicas de sustentabilidade ambiental. É neste quadro que as politicas de equipamentos desportivos se têm de integrar. Pensá-lo de outro modo é o caminho mais curto para uma política de “pedras mortas”.Anunciar novos projectos sem ligação a uma lógica sustentada de”projecto de cidade” é, a prazo, a possibilidade de ter equipamentos desportivos sem qualquer relação com a realidade social envolvente. Pensar as necessidades de pratica desportiva local pelas necessidades da prática desportiva federada é desastre à vista.
A lógica do Estado central normativizar o planeamento não é distinta da lógica que normativiza os contratos públicos. Em nome do interesse público, da transparência e da boa governação criam-se modelos que são um pesadelo e um bico-de-obra para quem tem de os executar. E que, em muitos casos, o cumprimento da norma é um fim e o serviço público um seu efeito colateral.
A superação da situação nacional não se ultrapassa com métodos de crivo administrativo. Em que uma entidade central governamental “dá parecer” sobre a viabilidade/pertinência deste ou daquele projecto. Que habitualmente se limita às condicionantes técnicas. O problema é mais vasto. É do âmbito do saber e do conhecimento. Que não está mais presente na administração central do que na local. Tudo seria mais fácil se assim fosse. Mas não é. O essencial reside sobre o processo de formação e construção do conhecimento que conduz ao planeamento e à estratégia. E não sobre o resultado desse processo. Sob pena de se definir um destino, mas não ter mapa para lá chegar. Há sempre o risco de se perder.

domingo, 24 de Janeiro de 2010

Imaginem...

Imaginem que existia um jornal desportivo que apresentava nas suas capas apenas os resultados das competições - e não apenas de futebol -, as afirmações construtivas das entrevistas realizadas a todo o tipo de agentes desportivos, planos desportivos das Associações, Federações, Clubes, SAD's, etc., um misto de vários jornais, com opiniões de pessoas do desporto e não de agentes da sociedade que ao falarem de futebol e não de desporto, perdem totalmente a sua compostura sempre que falam do seu clube.

Nem precisava de ser um jornal diário, talvez duas ou três vezes por semana. Recuperando as três vezes por semana do jornal 'A Bola', que era à 2.ª feira, 5.ª feira e Sábado, ou do 'Record', 3.ª feira, 6.ª feira e Domingo.

Não fazia da sua prioridade imagens de túneis, viagens oferecidas, erros de arbitragem. Dos maus e pseudo 'mindgames' realizados pelos treinadores e dirigentes desportivos. Da listagem enorme de jogadores falados mas que não chegam a assinar nem a viajar.

Imaginem...será que tinha alguma procura? Se sim, quem os lia? Quem os comprava? Que tiragem atingiriam?

Isto porque me parece que, com maior ou menor perspicácia e congruência, outros jornais diários que não 'desportivos', têm conseguido ultimamente atingir um patamar bastante equilibrado do que 'importa' informar ou não. Que remetem para a importância que a notícia deve possuir de boatos e frustrações, independentemente da sua cor.

Também aqui precisamos de uma alteração do conteúdo das informações que deveriam fazer capa e do processo. Infelizmente, e para quem tem como hábito ler alguns dos diários desportivos, a qualidade neste campo abordado no post, tem vindo a decrescer e a uma velocidade quase vertiginosa.

sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010



As Edições Afrontamento têm o prazer de convidar V. Exa. para a apresentação do livro coordenado por
Jorge Bento e José Manuel Constantino

O Desporto e o Estado
Ideologias e Práticas

A sessão terá lugar no dia 26 de Janeiro, pelas 18.30 horas, na FNAC do Chiado,
em Lisboa
.

A obra será apresentada pelo
Professor Manuel Villaverde Cabral.

quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010

De bata e estetoscópio

Pessoa amiga contava-me, entre o incrédulo e o irónico, a experiência que viveu recentemente. Tratava-se de uma visita/reunião a um centro de controlo do treino desportivo. Durante a reunião surgiu o responsável pelo centro. Vestia bata branca e tinha um estetoscópio pendurado ao pescoço. Prestou as informações relativas ao trabalho no local. Á saída, a pessoa amiga, ignorando de quem se tratava, para além de ter sido indicado como responsável técnico do centro, perguntou a quem a acompanhava: quem era aquele médico? Ao que o interlocutor lhe respondeu:”não é médico nenhum, é um professor de educação física”.
Podemos entender o ocorrido como um “fait-divers” próprio da manifestação tardia de uma certa adolescência profissional. Também houve um geração de “gestores de desporto”que se encantavam com o “marketing mix”. E um vaga de treinadores e técnicos de exercício que são “personnal trainers”.E jovens que distribuem propaganda nas caixas de correio e que como profissão indicam “trabalho em publicidade”.Não vem grande mal ao mundo por isso.O problema é outro.
Como pertenço a uma geração que transitou de uma fase de afirmação profissional dos professores de educação física para uma outra que passou a viver mal, e em crise, com essa identidade profissional tenho imensas reservas a quem procura legitimidade profissional imitando /copiando lógicas de exercício profissional de outros grupos. Mas tenho ainda maior reserva aos que buscando inicialmente um formação vocacional na área do desporto terminam em especialistas em tudo e mais alguma coisa. E com os muitos anos que levo de vida profissional receio sempre encontrar alguém que sendo do desporto, do desporto sabe pouco, mas sabe muito de gestão, de arquitectura, de engenharia, de direito, de marketing, de finanças, de medicina etc. Ora estas são áreas de conhecimento que têm os seus especialistas. Que têm as pessoas que estudaram para dominar essas áreas. Aos profissionais das áreas do desporto o que se lhes pede é que saibam comunicar com esses especialistas. Não se pode é ter a atitude, que seria arrogante, de pensar que o conhecimento especializado nas áreas referidas é dominado por quem passa uns anos numa faculdade com um currículo onde existe uma cadeira de direito, de economia ou da saúde. Será já muito bom se, no plano profissional, aprender a falar com outras áreas de especialiadade dominando as suas linguagens e códigos essenciais. Porque infelizmente , por vezes, nem isso ocorre.
Diz-me também a experiência que especialistas de outras áreas (médicos, juristas, advogados, arquitectos, engenheiros) que têm experiência do desporto como praticantes ou dirigentes, por exemplo, têm um valor acrescentado nas suas áreas de especialidade profissional em relação ao desporto. A que muitas vezes juntam especializações acdémicas e profissionais das suas áreas em desporto.
Esta delimitação de áreas de especialização profissional é bem urgente perante e emergência de formações na área do desporto, onde o desporto parece ser o filho menor. E onde a legitimação profissional parece querer ser obtida através da captura de saberes e de lógicas de outros grupos profissionais e de outras especialidades. Até para que não suceda o inverso. Como no caso de uma universidade pública que promove mestrados, imaginem, em gestão e manutenção de campos de golfe(!) e em que nas habilitações de acesso não surge qualquer formação na área do desporto.
O caso inicialmente referido é sintomático. Não coloquem ordem na casa e “cada macaco no seu galho” a ainda hão-de ver um professor de educação física a dirigir um centro de medicina. Nem que para tanto baste um qualquer doutoramento, numa qualquer especialidade das ciências da saúde.