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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Exame de Consciência

Declarações recentes de dirigentes desportivos e responsáveis políticos após mais um caso de violência num estádio, desta vez numa competição profissional, voltaram a agudizar a polémica em torno do policiamento de eventos desportivos.

Em texto anterior procurou-se, no âmbito técnico, situar os circunstancialismos em torno do novo quadro regulador nesta matéria, antecipando, aliás, o avolumar de episódios que hoje ocorrem em diversas contextos de competição dada a previsível leitura economicista que logo veio a ser feita pelos seus organizadores, a qual se acentua na conjuntura que o país atravessa.

Desta forma, vários foram os casos onde os clubes anunciaram abdicar ou reduzir o contingente policial nos seus jogos. Noutra vertente, menos noticiada, concretamente em modalidades praticadas na via pública (atletismo, ciclismo, triatlo, etc.) reduziu-se o calendário de provas, ou diminuíram-se as comparticipações para acudir ao aumento dos encargos de policiamento…

Porém, o problema antes de ser técnico, é um problema de cariz político e conceptual. Trata-se da politica desportiva definir, em matéria de segurança e combate à violência associada ao desporto, onde terminam as responsabilidades dos organizadores das competições e começa a salvaguarda da segurança pública, para, posteriormente, o quadro normativo traduzir tais opções, no respeito, não o esqueçamos, de convenções europeias rubricadas pelo Estado português.

Ou seja, a partir dessa concepção - a qual não pode ser naturalmente alheia de uma abordagem politica integrada da situação desportiva e económica do país, bem como da disponibilidade dos efectivos policiais no território nacional – importa afectar os recursos e as competências necessárias para garantir o cumprimento das disposições legais, no domínio preventivo, repressivo e sancionatório, clarificando à partida quais os níveis competitivos onde os dinheiros públicos comparticipam o policiamento - se é que tal comparticipação se justifica – e onde, e como, são exigidas maiores responsabilidades ao movimento desportivo e aos agentes educativos.

Ora, pela voz do titular da pasta da Administração Interna (!?), esclarece-se a orientação estratégica de politica desportiva a este propósito:

«…"Quem organiza o jogo é responsável pela segurança e sempre foi assim. Pode requisitar ou não o policiamento, e sempre foi assim".
(…) o objetivo da nova legislação - "à semelhança, aliás, do que acontece noutros países europeus" - é apenas "caminhar progressivamente para a dispensa de policiamento nos escalões mais baixos, dos infantis e juvenis".
Atribuindo essa estratégia à intenção de reduzir as despesas dos clubes, o governante refere que a medida tem também carácter pedagógico, procurando impedir que, no período de formação da personalidade dos atletas mais jovens, o universo do desporto fique associado à imagem das autoridades policiais.
"É para não associarem, desde a mais tenra idade, a prática desportiva a questões de segurança", explicou o ministro(…)»

A legislação actual tipifica, em três níveis sancionatórios (penal, mera ordenação social e disciplinar) o espaço de intervenção dos agentes judiciais, administrativos e desportivos. A todos eles são atribuídas responsabilidades para agir neste âmbito. Terão os meios necessários para o seu competente exercício? A realidade tem falado por si.

Ora, desconhecendo-se uma intervenção consistente de prevenção sócio-educativa no combate a estes fenómenos de violência junto de adeptos e da população em idade escolar e mantendo-se as disfuncionalidades ao nível sancionatório - começando na extinção do Conselho para a Ética e Segurança no Desporto, passando pela aguardada alteração ao regime jurídico do combate à violência, ao racismo, à xenofobia e à intolerância nos espectáculos desportivos anunciada no artigo 14.º do Decreto-Lei n.º 266-A/2012, e terminando nas crónicas limitações das autoridades judiciárias e de policia criminal em aplicarem, "à semelhança, aliás, do que acontece noutros países europeus", as medidas de interdição de acesso a recintos desportivos – afigura-se essencial nas decisões que se tomam, nas medidas que se anunciam e nas declarações que se proferem, caso realmente se pretenda traçar uma rota de mudança, ter isto bem presente no seu espectro de intervenção e assim proceder a um exame de consciência a partir da seguinte questão:

Alguém que habitualmente frequente os espaços de prática desportiva deste país, nos seus vários níveis de competição e modalidades, acredita estarem reunidas as condições mínimas para, no presente contexto desportivo e socioeconómico, generalizar-se o arbítrio para a dispensa de policiamento, procedendo-se à efectiva responsabilização dos promotores e à punição dos prevaricadores, de modo a progressivamente tornar estes espaços, não apenas locais seguros mas também palcos privilegiados para potenciar o retorno económico dos eventos e se manifestarem os valores culturais e educativos que dão forma ao desporto enquanto instrumento de formação cívica que importa estimular?



sábado, 1 de setembro de 2012

Espírito olímpico – Entre a inteligência táctica e a manipulação de resultados


De há muito a esta parte que o lema coubertiniano "o mais importante não é vencer, mas participar!" se tornou, como tantos outros, numa proclamação de circunstância na competição olímpica, convertido num slogan de marketing.

Competir, e dar o máximo, por vezes até no limite da lei, para alcançar a vitória traduz hoje o ethos projectado no discurso e na prática dos agentes desportivos através dos órgãos de comunicação de massas que cobrem os Jogos Olímpicos. Por outras palavras, estas atribuídas a Martina Navratilova, “Quem disse que ganhar ou perder não importa provavelmente perdeu”.

Não se pretende aqui tecer considerações sociológicas sobre a génese e a maturação deste quadro de valores, ou sobre a sua eventual antinomia, mas tão só situar e sublinhar na plasticidade dos valores olímpicos - ou se quisermos, dos “Princípios Fundamentais do Olimpismo”, como titula a Carta Olímpica -, um conjunto de episódios ocorridos durante e após os Jogos .

Em Londres, conforme foi tornado público, a Federação Internacional de Badminton, com o apoio do COI, decidiu expulsar do torneio feminino de pares oito atletas por tentarem perder propositadamente os seus jogos, no sentido de obterem maiores vantagens competitivas em fase posterior do torneio, para a qual já estavam apuradas. Tais atitudes, como o falhanço deliberado de pancadas, perante os apupos do público, e a admoestação dos árbitros, foram consideradas como atentatórias ao espirito olímpico, enquanto as jogadoras, e outros agentes da modalidade sustentavam que nada nos regulamentos existentes proibia o recurso a este expediente.

Na medida em que o recurso à derrota, ou a um menor desempenho, como instrumento de estratégia táctica para proveito competitivo, não está expressamente proibido pela Carta Olímpica ou, neste caso particular, pelos regulamentos da Federação Internacional de Badminton, abre-se um foco de debate em duas vertentes.

Primeiro, no domínio dos valores acima enunciados, da sua relação com a lógica de organização das competições e a exploração económica do espectáculo, quando a derrota pode ser um recurso válido, de atletas e treinadores, para evitar um adversário mais forte numa fase inicial da prova, ou quando o desempenho mais contido possa constituir uma manobra táctica relevante para dosear esforço e iludir adversários. Com tudo o que isso implica numa certa frustração do público que paga um ingresso para assistir a um espectáculo onde os protagonistas reduzem a intensidade de esforço, no caso de modalidades individuais, ou passam a maior parte do tempo sentados no banco de suplentes, como não raras vezes ocorreu com as principais vedetas da selecção de basquetebol norte-americana.

Segundo, no que respeita à regulação desportiva na salvaguarda da integridade das competições em relação à manipulação de resultados, tema na ordem do dia da agenda politica desportiva internacional. 

Não havendo manipulação de resultados neste caso, pelo menos na sua concepção convencional e vertida em diversos ordenamentos jurídicos, uma vez que a derrota deliberada das atletas não envolveu uma contrapartida financeira ou patrimonial para fazerem algo que de outra forma não o fariam, mas apenas a tentativa de obterem uma vantagem táctica no decurso da sua competição, a distância que separa estas duas realidades não será assim tão grande.


Ora, como em tantas outras circunstâncias, a regulação é apenas um instrumento de política. A sua aplicação continua a ser, pelo menos para um sociólogo, um dos melhores barómetros para atestar o quadro de valores que orientam aqueles que a produzem, implementam e sobre ela decidem, tanto ou mais do que os atletas e treinadores que se limitam a gerir o quadro regulador em função do seu principal propósito que é ganhar a competição!


quinta-feira, 21 de junho de 2012

Filhos, crianças, andar, exercício físico e Ed. Física

Fruto dos dois filhos que tenho, é com alguma regularidade que vou comparando alguns aspectos da minha infância com as deles. Para lá das diferenças ‘normais’ do desenvolvimento da sociedade, é na forma de brincar e nas brincadeiras que encontro as maiores divergências.

Passei uma infância constantemente na rua a brincar. Sempre que o tempo deixava e havia o tal tempo livre, era na rua que gostava de estar. Hoje, por inúmeras razões relacionadas desde do acréscimo de carros, a violência, a oferta televisiva e informática, a disponibilidade emocional dos Pais para os deixarem sair para a rua brincar, correr, andar ou saltar deixou de ser natural, excepto quando o mesmo é feito em momentos organizados, sejam formais ou informais.

Isto vem a propósito do decréscimo de actividade e exercício físico que as crianças fazem ‘naturalmente’. Sem ser nas tais escolinhas de qualquer coisa. Porque no jardim infantil, 1.º ciclo em diante, a Educação Física ou Desporto Escolar vai diminuindo ou perdendo a importância que chegou a ter em termos institucionais.

Isto para vos trazer um simples projecto que conheci em Inglaterra numa pequena cidade perto de Londres. Corria o ano de 2005 e num projecto de formação e partilha organizado pela ISCA e Engso Youth, um professor de Educação Física que trabalhava em Londres teve oportunidade de explicar aos restantes formandos um projecto que a cidade dinamizava para aumentar o tempo de actividade física entre as crianças, combater a obesidade infantil e incluir socialmente as crianças na cidade.

Mas em que consistia o projecto? ‘Apenas’ ensinar as crianças a andar na rua. Saber olhar para a rua, passar as passadeiras, respeitar as regras, semáforos, etc. O que isto proporciona às pessoas? Saber movimentar numa simples rua, fá-los estar capacitados para se deslocarem pela cidade, aumenta o tempo que andam a pé em vez dos carros, diminui os carros ou pelo menos, os percursos para fazerem poucas centenas de metros.

Lisboa não é Londres. E poucas cidades em Portugal apresentam o ‘dinamismo’ de trânsito, ruas, espaços como Lisboa. Mas considerando o decréscimo da Educação Física em horas, importância da nota para aprovar o ano lectivo, diria que estas acções mais ‘básicas’ têm de ser dinamizadas o mais rapidamente possível: ensinar e possibilitar que as crianças comecem a fazer a actividade física num espaço…deveras natural, a rua!

sábado, 19 de maio de 2012

Porque entrevistei o Pedro Proença para um livro sobre equipas

Quanto tomei a iniciativa de avançar para um projecto de escrita sobre equipas que apresentam e procuram elevados desempenhos, fruto da formação académica e da experiência profissional a trabalhar com a classe dos árbitros de Futebol das Ligas Profissionais, decidi que poderia ser um excelente contributo estar no meio de alguns presidentes e directores das maiores empresas e organizações em Portugal, pessoas relacionados com o desporto, e em particular, um árbitro. E avancei para Pedro Proença.

Não o conhecia pessoalmente, apenas analisava-o com base na sua tarefa. E avaliando-o do ponto de vista técnico, comportamental e de liderança, apercebi-me que estaria a escolher um dos melhores no desempenho. E como em muitas tarefas, engloba uma vertente muito técnica e outra bastante relacionada com a escuta activa, liderança de vários processos que acontecem ao mesmo tempo, das equipas e da sua equipa. Ao nível do processo de tomada de decisão, arriscaria a dizer, que poucas tarefas como arbitrar um jogo, teriam tantas informações valiosas a quem estuda a compreensão do processo da tomada de decisão colectiva.

Nos últimos dias, Pedro Proença foi escolhido para apitar talvez o segundo jogo de Futebol mais importante de 2012 (provavelmente, a final do Europeu de Futebol será o primeiro). Poderemos colocar as inúmeras contingências que fizeram que o Pedro fosse escolhido. Uma final entre uma equipa alemã e outra inglesa, afastaria sempre árbitros desses países, árbitros que geralmente estão colocados no topo da tabela. Mas mesmo assim, sobrariam italianos, espanhóis, os tais nórdicos que a UEFA tanto gosta, etc. Seria um daqueles sinais que nos deveriam por a pensar…afinal de contas, a UEFA reconheceu um árbitro português para apitar o segundo jogo mais importante das suas competições para este ano.

Mas não…conhecendo a nossa cultura e os agentes desportivos, não me parece que ainda seja desta que a classe dos árbitros irá ter caminho verde para poder desenvolver mais algumas competências que são necessárias para as suas tarefas. Mesmo com os vários erros que vão acontecer sempre.

Nota: É possível verificar no meu perfil o meu clube.  

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Sem comentários

Despacho n.º 6111/2012, 2 de Maio de 2012, do Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Fernando Cassola de Miranda Relvas, publicado no Diário da Republica, 2ª séire, nº 91, de 10 de Maio.


 
Considerando que no ordenamento jurídico nacional o regime jurídico do contrato de trabalho do praticante desportivo e do contrato de formação desportiva — Lei n.º 28/98, de 26 de junho — reconhece expressamente a figura do empresário desportivo, sendo este a pessoa singular ou coletiva que, estando devidamente credenciada, exerce a atividade de representação ou intermediação, ocasional ou permanente, mediante remuneração, na celebração de contratos desportivos;

Considerando que, atendendo ao estado atual de evolução do desporto, em particular do futebol, a figura do empresário desportivo assume um papel incontornável, constituindo uma peça fundamental no desenvolvimento da carreira dos praticantes desportivos e, mais recentemente, dos treinadores;

Considerando que, aos 46 anos, Jorge Mendes é o mais bem sucedido empresário desportivo do mundo e que a empresa de gestão de carreiras de praticantes desportivos e treinadores que o mesmo criou em 1996, a GESTIFUTE — Gestão de Carreiras de Profissionais Desportivos, S. A., é igualmente a maior empresa de gestão de carreiras de jogadores de futebol do mundo, tal como reconhecido no estudo recentemente realizado pelo Futebol Finance;

Considerando que, de acordo com o estudo referido, a empresa GESTIFUTE conta com uma carteira de clientes avaliada em 536 milhões de euros, na qual se incluem alguns dos mais reputados jogadores e treinadores de futebol do mundo — maioritariamente de naturalidade portuguesa —, facto que merece especial enfoque não apenas por ser a única empresa portuguesa na lista das 20 maiores empresas de gestão de carreiras de jogadores de futebol mundiais mas igualmente por a empresa classificada em segundo lugar possuir uma carteira de clientes avaliada em pouco mais de metade do valor atribuído à da empresa GESTIFUTE;

Considerando que os valores acima referidos apenas são possíveis pelo facto de Jorge Mendes ter intermediado algumas das maiores transferências do futebol mundial nos últimos anos, nas quais não se pode deixar de sublinhar a maior transferência de um praticante desportivo na história do futebol mundial;

Considerando que este facto foi igualmente confirmado no estudo muito recentemente realizado pelo Observatório de Futebol do Centro Internacional de Estudos de Desporto (CIES) relativamente às maiores ligas de futebol da Europa, onde se considera que, de um ponto de vista financeiro, a empresa GESTIFUTE é a que gerou maiores fluxos financeiros no que respeita a transferências, considerando as carreiras dos respetivos clientes que prestam a sua atividade nessas mesmas ligas;

Considerando que esta realidade apenas é possível pela inovação introduzida por Jorge Mendes na área da gestão de carreiras de praticantes desportivos em Portugal, sendo de realçar a criação de empresas agregadas à GESTIFUTE, como são a empresa POLARISSPORTS, especializada na gestão dos direitos de imagem e de patrocínios, associando os seus clientes a marcas de prestígio e a Gestifute Media, responsável pela área da comunicação, permitindo assim um tratamento e uma dedicação por inteiro aos praticantes desportivos e suas carreiras;

Considerando que Jorge Mendes foi considerado pela Globe Soccer — evento organizado anualmente para premiar os principais operadores do mercado internacional do futebol, sendo o respetivo júri constituído por alguns dos nomes maiores do mundo do futebol, nomeadamente ex -praticantes desportivos de renome, representantes de clubes de topo e representantes de algumas das maiores organizações desportivas internacionais — como o melhor empresário desportivo do ano nos anos de 2010 e 2011, tendo sido salientado, na atribuição do segundo destes prestigiados prémios, que Jorge Mendes se tornou um ponto de referência no mercado para os principais clubes de futebol;

Considerando que a competência, dedicação, capacidade de trabalho e espírito empreendedor são algumas das qualidades reconhecidas a Jorge Mendes não apenas por parte dos praticantes desportivos que o mesmo representa mas igualmente por parte dos representantes das entidades intervenientes na celebração de contratos desportivos que o mesmo intermedeia, destacando -se organizações desportivas como o Futebol Clube do Porto, o Sport Lisboa e Benfica e o Sporting Clube de Portugal, o Real Madrid Club de Fútbol e o Futbol Club de Barcelona ou o Manchester United Football Club e o Chelsea Football Club;

Sublinhando ainda que uma das principais preocupações assumidas pela empresa de gestão de carreiras liderada por Jorge Mendes é a descoberta e promoção de jovens praticantes desportivos, prestando um auxílio decisivo na pesquisa e desenvolvimento de oportunidades de carreira para os jovens praticantes desportivos num mercado com especificidades e dificuldades muito próprias, especialmente para os jovens de naturalidade portuguesa;

Considerando que, com a sua atuação, Jorge Mendes tem -se revelado um elemento muito relevante na obtenção de reconhecimento das potencialidades e capacidades do desporto português no estrangeiro, impulsionando fortemente a imagem do praticante desportivo nacional;

Considerando a importância que a criatividade, a inovação, o espírito de iniciativa, o empreendedorismo e a internacionalização assumem no progresso do desporto nas suas mais diversas áreas;

Considerando que os factos expostos demonstram um contributo valioso de Jorge Mendes, na sua área de especialização, para o desenvolvimento e valorização do desporto português e dos praticantes desportivos portugueses;

Determina -se:

É concedido a Jorge Mendes o Colar de Honra ao Mérito Desportivo nos termos dos artigos 5.º e 6.º do Decreto -Lei n.º 55/86, de 15 de março.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Quando a ausência de decisões e de sinais são os melhores sinais

Quase a terminar o ano de 2011, constatamos que um conjunto de decisões relacionadas com a prática e a gestão desportiva foram e vão continuadamente sendo adiadas. Para lá da necessidade dessas decisões, é importante referir que existiram afirmações públicas que essas mesmas decisões iriam acontecer ainda durante 2011.

Muitos cenários podem ser levantados e até fundamentados com maior ou menor rigor, mas não deixa de ser um sinal claro que a ausência de respostas, sinais ou decisões levantam algumas questões sobre a prioridade que os assuntos desportivos vão assumindo actualmente. Ou supostamente podem retractar a complexidade e o impacto que as decisões poderão proporcionar para todas as organizações relacionadas directa ou indirectamente com o fenómeno desportivo.

O silêncio vai imperando e se é verdade que podemos estar todos a ‘remar’ para que existam condições para conseguir tomar as melhores decisões, também não deixa de ser verdade que alguns dos projectos, participantes, parceiros ou objectivos já foram distorcidos, perdidos e a contextualização foi bastante alterada para lá da crise financeira, económica e social.

Creio que a ausência de sinais se enquadra mais no campo do fenómeno desportivo não ser encarado como uma das principais prioridades (ou secundárias…) governamentais do que estarem a fazer o máximo de esforços para que as decisões sejam as melhores possíveis (e para quem?). É preocupante que a comunicação seja quase nula e acima de tudo, quando existe, seja pouco clara e concreta, proporcionando um ruído que em nada beneficia a planificação de qualquer ano ou actividade desportiva. Assegura-se a quem menos precisa em termos de apoio e que mais visibilidade tem, e deixa-se ir desfalecendo aos poucos quem apenas foi conseguindo sobreviver e, durante anos a fio, garantiu a real oferta desportiva às crianças e aos jovens.

Vivemos num contexto onde qualquer solicitação de informação é considerada uma afronta a quem decide. E por isso, qualquer demonstração pública para sabermos de facto que interpretação haveremos de ‘ligar’ aos sinais (in)existentes proporciona pouco mais do que ruído a somar ao já existente.

É urgente decidir. Prefere-se ir adiando a decisão com a esperança de que a decisão irá doer menos pelos esforços que estão a ser feitos? E quais esforços e quais os indicadores e factores críticos que estão a ser levados em conta? A ideia - não contabilizada ou quantificada - é que algumas entidades foram forçadas a desistir, terminar ou ir para outros campos de acção. E isto agradará a quem decidirá? No meu ponto de vista, sim…

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Se me derem dinheiro, eu apoio

Foi hoje publicado no Diário da República, um contrato programa de “desenvolvimento desportivo” (?), ainda celebrado pelo IDP, que concede ao Comité Olímpico de Portugal uma comparticipação financeira de € 5.400. Uma migalha, dirão alguns, em particular quando se tem presente o dinheiro público que é canalizado para essa organização desportiva.
Porque razão, então, este meu registo?

Prende-se com o objecto do contrato.
A verba destina-se a executar um “programa de apoio ao funcionamento do Gabinete de Apoio ao Atleta Olímpico”.

Como nasceu a «coisa»?
Lê-se nos considerandos do contrato que a Comissão de Atletas Olímpicos (CAO), propôs ao Comité Olímpico de Portugal (COP) a criação desse gabinete, com o objectivo de cumprir o “objecto estatutário” que se prende com a “defesa dos interesses e a melhoria das condições de exercício da actividade dos atletas olímpicos”

Por outro lado, adita-se, a CAO integra o COP, “e embora goze de autonomia relativa à prossecução da missão estatutária do Comité, não detém personalidade jurídica, estando, no entanto, representada na Assembleia Plenária do Comité Olímpico de Portugal e tendo também o seu presidente direito participar nas reuniões da Comissão Executiva do Comité Olímpico de Portugal quando sejam tratados assuntos específicos para os atletas olímpicos”.

Em bom rigor, assim o julgamos (mas estamos, totalmente errados), que sentido faz o Estado financiar o COP nesta matéria?
Ao invés, não caberia ao COP tomar de peito aberto este encargo magnânimo?
Imagino só o esforço que os atletas não devem ter tido para chegar aqui.

Mas nem tudo são rosas para o COP neste contrato.
Com efeito, pode haver cancelamento desta comparticipação financeira no caso de incumprimento pelo COP, da legislação sobre a violência no desporto (em sentido lato) e do regime jurídico relativo ao acesso e exercício da actividade de treinador de desporto (?).
Valha-nos isso.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Um livro sobre equipas de elevado desempenho

Há uns meses decidi juntar uma série de variáveis e começar a escrever um livro sobre equipas de elevado desempenho. Juntar experiências profissionais como colaborador dos vários locais onde já trabalhei, chefia noutros projectos que dirigi, formador, coach de empresas e equipas desportivas, facilitador no Conselho Europeu para a formação, e por fim, uma carreira amadora como desportista.

Após algumas conversas, decidi que o livro deveria ter experiências contadas na primeira pessoa por quem gere, lidera e faz parte de equipas. Equipas transversais aos diversos mercados, áreas e desportos. Tentou abranger a visão e experiência de pessoas que estão à frente de uma organização com mais de 2 000 colaboradores, bem como a pessoa que lidera uma das melhores orquestras mundias, ou uma Fundação Calouste Gulbenkian ou ainda treinadores, entre eles, o que lidera uma selecção de futebol que possui no seu elenco jogadores como Ronaldo, Nani, Coentrão, Moutinho, etc.

Não foi nas pessoas em si que foquei a atenção, mas na forma como essa pessoa gere e lidera e se relaciona com os seus colaboradores, colegas, atletas, superiores, etc. O que pode ser interessante para um blog sobre desporto é verificar o que as pessoas das organizações desportivas e treinadores em si defendem o que pode ser fulcral para se conseguir equipas de elevado desempenho.

A grande maioria dos treinadores (atenção que foram apenas abordados apenas treinadores de desportos colectivos) e um administrador da SAD de um dos ‘grandes’ do Futebol, dão muito ênfase a três factores quando se aborda os processos de grupo em equipas que eles treinam ou fazem parte da Administração:


- Compromisso colectivo de qualquer elemento que integre uma equipa, ou seja, não há qualquer hipótese de um objectivo individual estar acima do objectivo colectivo. E todos têm de o assumir como seu.
- Regras claras e muito simples, tão claras que não haja qualquer dúvida de intrepertação e tão simples quanto a forma de a colocar em prática para todos. Regras que possibilitem consequências directas e justas.
- Por último, não confundir deveres, direitos e papéis dos atletas e ainda, um ponto unânime, justiça “fair but not equal”, acrescento eu.

Ainda no desporto, comparando alguns dados de estudos mundiais com aquilo que foi referido pelas seis pessoas da área desportiva, o que se entende por equipas de elevado desempenho são as equipas que conseguem fazer perdurar os seus desempenhos por algum tempo (não determinado), conseguem com bastante regularidade superar as expectativas e possuem determinados processos de grupo, entre eles:

- Partilha dos modelos mentais, conseguir ‘adivinhar’ o que os outros podem pensar
- Todos têm regras e responsabilidades claras
- Optimizam recursos aprendendo e adaptando-se
- Visão clara e partilhada por todos
- Encaixam num ciclo de disciplina de preparação – desempenho – reflexão
- Têm uma forte liderança colectiva
- Desenvolvem um forte sentimento colectivo e de confiança
- Gerem e optimizam os resultados
- Cooperam e coordenam

Aparentemente, todos nós conseguimos contextualizar e verificar que estes processos de grupo e características de equipas com elevados desempenhos estão ou devem estar presentes nas organizações empresariais, federações ou alguns clubes. Até porque a grande maioria das características aqui referidas estão dependentes das pessoas e das relações humanas que se criam e não apenas de recursos dispendiosos ou ferramentas não acessíveis a todos.

Diria eu que seria interessante verificar quais os mecanismos apenas processuais (não falo de receitas operacionais ou extraordinárias, de apoios estatais, etc.) que os grupos de trabalho nas diversas federações possuem para conseguirem relacionar alguns bons resultados (ou nem tanto) com as ferramentas de gestão e liderança dos seus grupos de trabalho. E não falo das equipas desportivas propriamente ditas, mas sim de todo o pessoal de apoio, logístico técnico, administrativo, etc…

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Profissionais e voluntários

No início do século XIX, nos partidos operários sociais-democratas e nas organizações sindicais europeias, viveu-se um problema que suscitou violentas discussões. A acumulação de poder num pequeno número de indivíduos eleitos cujo grau de exclusividade levou a que fossem remunerados. E que se iam perpetuando no poder. Mas tinham dificuldades em assumir essa profissionalização Um problema que chegou até aos dias de hoje. Nos políticos profissionais e sindicais, pessoas que de há muito deixaram as profissões que exerceram para se dedicarem à vida politica e sindical de modo exclusivo, é habitual indicarem nas respectivas biografias a profissão que um dia tiveram. Não a que têm e de há muito exercem. Existe uma espécie de pudor.Com os dirigentes desportivos que optaram, em detrimento da sua profissão pelo dirigismo desportivo há algo de similar. Será raro quem, quando interrogado sobre a profissão, indique o que de facto faz. Normalmente indica o que fez. Mesmo quando o que fez é bem menor, em tempo de ocupação, do que aquilo que faz.
O facto de se não ser voluntário no exercício de funções dirigentes no movimento associativo desportivo nada tem de censurável. É normal. Um dirigente desportivo remunerado é tão digno como um outro que o não é. A sua actividade não desmerece pelo facto de ter uma relação profissional com a direcção de uma organização desportiva. É preferível que seja remunerado e só isso, do que apresentar-se como benévolo e usar o cargo para actividades conexas com a profissão que exerce ou para tráfico de influências. Mas, no plano dos princípios, entre um e outro dos casos, existem situações híbridas: o da remuneração encapotada. O estatuto de voluntariado é assumido para consumo externo mas na realidade do que se trata é de um verdadeiro emprego. Que explica, muitas vezes, as dificuldades de renovação do dirigismo, porque é normal que quem tem um emprego e uma remuneração só pretenda deixá-los se tiver outra alternativa.
Qual é a razão para um procedimento tão comedido e em que se não aceita a profissão que se exerce? A dificuldade pode estar ligada à tradição desportiva e ao lugar que o amadorismo -conceito equívoco - e o voluntariado ou benevolato assumiram na construção do sistema e das práticas desportivas. Até numa relação incómoda com o dinheiro. Mas a situação só ganha em ser enfrentada com transparência e sem qualquer reserva mental. Quem é voluntário e não é remunerado pelas tarefas desportivas a que se dedica e quem o não é.Com transparência e com a obrigação de cumprir os procedimentos previstos no ordenamento jurídico em matéria de relações laborais e de contrato. Um e outros são a consequência natural do grau de desenvolvimento das organizações desportivas.
O governo que agora termina funções introduziu alguma disciplina neste domínio. No que lhe era possível. E fez bem. Porque em muitas organizações desportivas de topo são recursos públicos que estão em causa. Mas não chega. Um funcionário público aposentado carece de um autorização especial do primeiro-ministro para poder acumular uma eventual actividade remunerada de uma entidade pública. Por que razão numa entidade privada, mas que cujo orçamento é composto basicamente por recursos públicos deve estar livre desse procedimento? Mas a principal obrigação de disciplina pertence às próprias organizações desportivas. Assumir com frontalidade e responsabilidade que optaram por um regime de profissionalização nos termos gerais do trabalho. E não em esquemas onde a remuneração, por que é disso que se trata, está eufemisticamente considerada como compensações por perdas ou outras designações equivalentes e, muitas vezes, fiscalmente censuráveis.
Em Ano Europeu das Actividades Voluntárias que Promovam uma Cidadania Activa, o desporto, que tem a seu crédito um enorme historial a favor da comunidade bem podia, através das suas organizações representativas, valorizar o debate e as iniciativas nacionais sobre o voluntariado. Sem anátemas para quem o não pratica e valorizando quem o continua a praticar.

domingo, 12 de junho de 2011

“Idade é só um número”


Como me fui habituando desde os 13 anitos, de vez em quando paro tudo só para treinar, dirigir ou apenas observar andebol. E foi o que voltei a fazer hoje para ver o jogo Polónia vs Portugal. Para além de admiradora de muitos jogadores portugueses, fui fã do Bogdan Wenta (hoje voltou a demonstrar que quem sabe nunca esquece). Quanto ao resultado e às suas consequências palavras para quê? Como bom seria se o nosso ex-primeiro ministro fosse, como já se alvitra, estudar filosofia para Paris e levasse para o assessorar algumas pessoas que do andebol só se andam a aproveitar há já muitos anos...


Mudemos de assunto a bem da minha sanidade mental.


Ontem vibrei com a vitória da Ana Hormigo, hoje leio radiante num jornal desportivo: “Ana Hormigo teve motivos para sorrir na Taça do Mundo. E “saltou” do primeiro lugar do pódio para os braços do filho.”


Costumo comentar entre amigos/as que o melhor doping do mundo para qualquer praticante, treinador/a, ou dirigente é ter a sua família junto nos momentos desportivos importantes. Tal como ter bons amigos/as, independentemente de valia de contar com mais ou menos “massas associativas”. Bem sabemos como é diferente competir com assistências de meia dúzia de espectadores ou com milhares deles, mesmo que por vezes surjam destes assobios em detrimento dos aplausos que nos catapultam para melhores desempenhos. Mas mesmo com pouca assistência se contarmos com os que diariamente convivem, sofrem ou jubilam connosco já não nos sentimos sós e as nossas fraquezas tornam-se em ameaças para qualquer adversário.


Imaginem, pois, a felicidade que muitos dos agentes que acima mencionei terão ao dispor das presenças dos/as filhos/as nos palcos desportivos assistindo às competições, acompanhando os treinos ou estágios.


Se este é um cenário que comecei a presenciar há muitos anos a nível internacional, entre portas são raros os exemplos vindos sobretudo das mulheres do alto rendimento. Assim, por mais esta vitória, isto é, pela compatibilização entre a prática do alto rendimento e a maternidade, parabéns em dobro para Ana Hormigo e para todas aquelas que, sem qualquer suporte específico e cultura propicia a tal, conseguem permanecer, parar e voltar e ter uma prática desportiva prolongada e feliz, como é bem evidente em mais um bom exemplo recolhido de quem é líder no desporto mundial. Vejam que bonito é...


Um dia, quem sabe, também nós chegaremos a padrões elevados de compreensão pelos direitos humanos e pela paridade na cidadania...!!





quinta-feira, 28 de abril de 2011

Formação desportiva - A versão do Ministério da Educação II

Em tempos deu-se nota neste espaço de duas portarias do Ministério da Educação relativas à criação dos cursos profissionais de técnico de gestão desportiva e monitor de actividades desportivas.

À época esta iniciativa veio a ser abortada, dados os protestos de vários organismos representantes dos profissionais de educação física e desporto, atendendo ao perfil de competências, claramente desajustado para uma qualificação de nível 3 que estes dois cursos ofereciam, e também em relação aos requisitos de formação superior existentes em vários diplomas legais vigentes na altura.


Mirando o seu plano de estudos este é em tudo igual ao anterior curso profissional de gestão desportiva entretanto abortado, com a diferença que atribui a certificação de nível 4 aos alunos que o concluírem com aproveitamento.

Se perspectivarmos a mais recente produção normativa no que respeita às qualificações profissionais exigidas para a gestão de instalações desportivas de uso público e direcção técnica das suas actividades é perceptível a intenção, pelo menos numa primeira instância, de:

a) Qualificar o sector com melhores níveis de formação visando a segurança das actividades físicas e desportivas;
b) Integrar os profissionais que, comprovadamente, certifiquem a sua experiência técnica no exercício da actividade;
c) Valorizar as qualificações obtidas no âmbito do sistema nacional de qualificações através da via técnico-profissional, incorporando no desporto as orientações do Quadro Europeu de Qualificações.

Procura-se, por esta via, disciplinar o sector, certificar os seus agentes técnicos e conhecer em maior profundidade a sua composição.


Num período em que é tentador cair-se na demagogia e critica gratuita é mister salientar que a formação desportiva é uma das áreas da Administração Pública Desportiva onde foi feito um esforço assinalável e um labor, ao longo de décadas, com orientação estratégica e programática para o seu desenvolvimento e aperfeiçoamento. Por certo nem sempre com os melhores resultados.

Caso se pretenda de facto atingir tais objectivos e, com isso, valorizar o mercado desportivo, nos seus diversos segmentos de oferta, através de maiores exigências na qualificação e formação para o exercício profissional no âmbito das actividades de educação física e treino desportivo ou da gestão das instalações nas quais estas se realizam, convém, aos primeiros escolhos que surjem, não ceder ao facilitismo e delapidar um trabalho técnico relevante através de meras qualificações administrativas de cursos cujo quadro de competências validadas é claramente desfasado em relação ao plano de estudos proposto, prestando assim um mau serviço ao desporto e ao ensino profissional, num afã de trabalhar apenas para as estatísticas da educação.

Uma ultima palavra para as entidades representantes do sector. Encontram nestas circunstâncias vários fundamentos para a sua acção e legitimidade da sua existência.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Inteligência emocional no desporto

A inteligência emocional surgiu há uns anos fruto da maior dedicação e pesquisa nas áreas comportamentais. Na altura, muitos defenderam que 'substituiria' o conceito de inteligência que prevalecia na altura. Hoje, a emocional vincou e vão surgindo outras como a espiritual e a ecológica. Interessante para quem trabalha no desporto, que muitas teorias defendem que na prática desportiva propriamente dita - mais ao nível dos desportos colectivos - a mesma tenha uma grande preponderância na correcta tomada de decisão, logo, na vitória e/ou sucesso, especialmente em ambientes onde é exigida a competência máxima.

Daniel Goleman, um dos grandes investigadores na área, embora não tão aceite na vertente mais académica, defende que independentemente dos estilos de liderança que existem, os líderes mais eficazes têm apresentado algo em comum: todos eles têm um alto grau do que se denomina inteligência emocional.

Significa que possuem uma autoconsciência, autodisciplina, motivação, empatia e habilidades sociais que lhes permitem entender, primeiro, a sua própria constituição emocional, e em segundo, as outras pessoas para direccioná-las na direcção e na concretização dos objectivos dos seus projectos, equipas ou organizações.

Mas também não significa que a inteligência emocional e o que a constitui seja a única variante importante. No desporto e nas outras profissões/áreas, as habilidades técnicas são relevantes, elas são o requisito para aceder a algumas posições e rendimentos de top. Quando se junta as temáticas de liderança e equipas ainda ganha mais importância a inteligência emocional dado que esta permite a habilidade de trabalhar em equipa e a eficácia de liderar compromissos individuais e colectivos.

O desporto tem oferecido inúmeros exemplos de estudo para estas áreas, alguns bem interessantes. Os treinadores, os jogadores das equipas e dirigentes têm percebido a vantagem da inteligência emocional, mesmo em estilos e em contextos de decisão centralizadora e autoritária. Estes estilos não são nem 100 % fiáveis nem 100 % correctos. O que acontece é que existem contextos que são mais compatíveis com estas situações sempre muito 'coladas' às pessoas com alto grau de inteligência emocional.

Contextos onde se assume a responsabilidade e se tenta criar uma missão e visão para as equipas e organizações. Onde existem indicadores de avaliação, objectivos e uma comunicação com bastante feedback bidireccional. Onde as regras sejam claras e concretas, em que se queira orientar para quem chega de novo. Ambientes com a liderança a ser reconhecida e não autoritária. O processo de desenvolvimento de competências seja algo assumido como sustentável a médio-longo prazo, motivados e comprometidos.

Mais uma vez, a tal decalage entre a realidade da prática desportiva e do dirigismo.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Temos ou não temos o País que merecemos?

Pessoa A – Tu não achas que temos o País que merecemos? Eu acho!
Pessoa B – Eu não acho, eu trabalho, tenho funções, não ando aí a viver à conta de subsídios e outras coisas.
Pessoa C – Eu também não acho.
Pessoa D – Os outros como os políticos e amigos é que vivem bem e não fazem nada, só nos lixam!
Pessoa A – Mas este país está assim porquê? E se vocês não acham que não têm o que merecem…o que merecem ter? E é partilhado? Se é partilhado…porque não lutam por isso juntamente?

Portugal como País, como tudo, é a soma daquilo que fomos fazendo por ele e ainda fazemos. Umas vezes melhor outras menos bem, melhor antigamente pior agora ou vice-versa, não sei bem, mas o total da soma não é nada gratificante nos dias que correm, presumindo que a soma de todas as partes deve ser constituída por uma maior parte que rema contra ou nem sequer rema, que uma pequena parte deve remar bem mas para lados distintos e uma parte ainda menor pode até remar ou querer remar conjuntamente e alinhada!

Poucas áreas da sociedade fogem da abordagem sistémica. Poucos não se encaixam nesse sistema. Por isso, um conjunto de pessoas, uns mais ligados entre eles, conjuntos de duas, três ou cem pessoas, estamos quase como atados uns aos outros, em que o que fazemos é resultado de algumas acções ou decisões anteriores e o que fazemos pode e condiciona outras acções de pessoas que nem conhecemos. Tal como aquela sátira de dois burros atados e virados para locais opostos a olhar para as suas refeições. Em que os dois puxam cada um para seu lado para ver se chegam à sua comida, não entendo que negociando, podem chegar facilmente às duas refeições sequencialmente.

Na vertente desportiva não faltam exemplos de que aquilo que temos neste momento em Portugal não nos podes escandalizar assim tanto. Podemos não concordar. Podemos não nos identificar. Podemos até actuar de forma a não acontecerem, mas…até hoje, continuam a não ter o impacto suficiente para que impossibilitem situações vergonhosas, desorganizadas, faltas de respeito, etc.

Situações como as que aconteceram e ainda acontecem na Federação Portuguesa de Futebol, apenas por ser a mais mediática, porque muitas outras têm também situações desalinhadas, ilegais ou ilegítimas! Um Presidente de um dos três grandes que é eleito com 90 % dos votos e passado uns meses é contestado para sair! Objectos que são constantemente enviados para o relvado que podem matar os atletas. Pedras que são mandadas para os carros de dirigentes de clubes inimigos (e não adversários) em andamento a mais de 100 km hora. Claques que são protegidas para não sofrerem represálias de outras claques que lutam por essas ruas e estádios fora, enquanto o cidadão informal e cumpridor arrisca-se a ser agredido ou atingido por algo quando vai pacificamente a um estádio ou recinto desportivo. Dirigentes que afastam e repelem pessoas formadas e bem intencionadas. Estudantes de desporto que são tratados como peças de mercado para encher entidades. Institutos, Fundações e Organismos que existem sem fundamentos exequíveis, missão de existência ou objectivos construtivos. E parece que podia estar aqui mais umas horas a descrever casos.

Perante isto tudo, temos neste caso específico, o desporto que merecemos? Não o desporto que queremos, mas o desporto que se merece? Aquele para o qual a grande maioria das pessoas contribui? Como disse Mário Palma, actual treinador da Selecção de Basquetebol, nós gostamos de clubes e não de desporto. E depois alguns gostam de desporto! E outros gostam de Futebol. Outros de outras modalidades. Mas sempre o clube primeiro.

Antes de sermos mais a querer alterar isto, será necessário alinhar os que já existem. Para que os que se juntem à causa saibam para onde se vai.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Os melhores do Mundo

Quando Jorge Mendes afirmou, momentos antes de ser eleito o melhor Agente FIFA do ano de 2010, que Cristiano Ronaldo e José Mourinho iriam ser considerados o melhor jogador e treinador de futebol de todos os tempos, quem terá beliscado, o Maradona jogador ou até mesmo o Maradona treinador?

Aparentemente nenhum deles.

Em 24 de Fevereiro, os jornais desportivos Record e A Bola davam conta de que Diego Maradona, em entrevista ao jornal Marca, tinha afirmado que sendo ele o Presidente do Boca Juniors, ou de outro grande clube, Contratava Mourinho em vez de Guardiola.

Aparentemente, tal afirmação teria tanto de inocente como de descomprometimento, não fosse surgir no dia seguinte a notícia de que a Gestifute, empresa detida por Jorge Mendes, e que representa José Mourinho (a par de C. Ronaldo), passaria a representar Maradona na Europa.

Tanto quanto foi avançado na comunicação social, esta ligação teria começado com a visita de Maradona a Valdebebas, após a qual, José Mourinho, Jorge Mendes, Diego Maradona e C. Ronaldo se reuniram em casa do treinador português para alinhavar a nova “contratação” da equipe Gestifute, como consta da edição impressa do jornal Record de dia 25 de Fevereiro.

Se por um lado Jorge Mendes ganha um enorme aliado no “recrutamento” das jovens pérolas argentinas, adiantando-se aos demais Agentes FIFA, por outro, fica-se a perceber que a Team Gestifute é bastante vasta, fixando-se um pouco por todo o lado, com orientações bem definidas e em que nada parece suceder por acaso.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Nos 90 anos de Mário Moniz Pereira

Texto de Luís Leite que agradecemos


Não posso deixar passar a efeméride sem publicar aqui algumas ideias minhas, feitas de convívio e amizade de décadas, sobre aquele a quem um dia começaram a chamar “Senhor Atletismo”.
Mário Moniz Pereira é um caso ímpar de sucesso multifacetado:
No Desporto, com grande relevo internacional no Atletismo, mas influenciando também várias outras modalidades;
Na Música, como autor de inúmeras preciosidades do Fado;
Na Vida, como exemplo de Pessoa exemplar. Pai de Família exemplar. E o orgulho infinito de ser português.
Mário Moniz Pereira não será propriamente um caso de talento puro.
Mário Moniz Pereira é um caso de PAIXÃO, TEIMOSIA, ENTREGA, PERSISTÊNCIA, MÉTODO, RIGOR, HONESTIDADE e TRABALHO. Muito trabalho de investigação e experimental, que se foi transformando em conhecimento.
Ficou célebre a sua frase: “Amanhã há treino às 9.00 horas em ponto, sejam quais forem as condições atmosféricas, incluindo terramoto.”
Mário Moniz Pereira sempre disse A VERDADE publicamente e nunca teve medo.
O Professor foi e será sempre UM PROFESSOR, para todos.
Mário Moniz Pereira influenciou decisivamente o Atletismo, o seu Sporting e o Desporto português em geral mais do que qualquer outra pessoa, durante mais de 60 anos.
Não tenho qualquer dúvida.

Como ele diz, não tem 90 anos. Tem quatro vezes vinte mais dez.
Parabéns, Professor!

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Partilhar boas práticas

Ao procurarmos o significado do verbo/acto de partilhar, encontramos exemplos como repartir, dividir algo com alguém, compartilhar, etc.

Foco-me na atitude e comportamento de partilhar algo com alguém. Alguém esse que não conheço e partilho boas práticas, algo que teoricamente me coloca em vantagem em alguns contextos. Mas partilhar o quê? Boas práticas!

Boas práticas? Mas o quê? Responderei: Sim, boas práticas, conteúdos de acções, ferramentas, sabedoria, conhecimentos, soluções. Apostaria que alguns dos pensamentos serão “Mas se são coisas boas e tuas, ao dares…os outros podem copiar!”.

Acredito que algumas culturas, bem próximas de ‘nós’, a partilha faz parte do comportamento diário e de uma definição de bom senso. A partilha de boas práticas. De bons comportamentos. A partilha de acções que potenciem e façam aumentar comportamentos como a empatia, empreendorismo, tolerância, escuta activa, dedicação! Ao partilhar apresentações passa-se mensagens, ideias, acrescenta-se valor. Claro que existe sempre a hipótese (e o receio?) de serem aproveitadas por outros, fazendo-se passar por ideias deles. Claro que sim. É um risco que tem de ser medido e calculado. Quando, o quê e como?

Mas a partilha deve basear-se na ideia que não é (só) o conteúdo do conhecimento que faz a diferença, mas a aplicação do mesmo. Muito mais no processo que apenas o resultado de uma palavra ou acção. A visualização de uma acção feita por quem sabe e por quem acha que sabe tem de ser diferente e precisamos também de um público que saiba diferenciar e queira essa diferença.

Sei que pode ser uma ideia visionária, mas temos de começar por algum lado.
Também sei que podem existir inúmeras razões para o não fazer: experiências passadas, a nossa cultura, colegas que nos rodeiam, etc. Mas acredito que apenas a razão de a partilha de boas práticas fazer parte de uma sociedade melhor é mais do que suficiente para superar qualquer desconfiança. Com o risco calculado do quando, o que se partilha, como, onde, para quem, etc.

Na pergunta se estamos preparados para partilharmos e não sermos prejudicados, responderia com um “Talvez”. Como em tudo, muitos aproveitarão para crescer com ideias dos outros, criticar quem o faz ou copiar.


Em Portugal, na sociedade em geral, do desporto em específico, em alguns dos sectores no desporto, precisa-se urgentemente de crescer em termos qualitativos e nos projectos apresentados e dinamizados. A partilha de ideias com o intuito de melhorar e dinamizar algo...é quase uma obrigação, enquanto não for um comportamento naturalmente...natural.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Um despacho para além do transitório?

Dê-se conhecimento, para quem da matéria esteja inteirado – o que não é seguramente o meu caso –, do alcance de recente despacho do Presidente do IDP sobre os profissionais responsáveis pela orientação e condução do exercício de actividades físicas e desportivas.

Como é sabido o Decreto-Lei n.º 271/2009, de 1 de Outubro, veio definir o regime jurídico da responsabilidade técnica pela direcção das actividades físicas e desportivas desenvolvidas nas instalações desportivas que prestam serviços desportivos na área da manutenção da condição física (fitness), designadamente aos ginásios, academias ou clubes de saúde (healthclubs), independentemente da designação adoptada e forma de exploração, bem como determinadas regras sobre o seu funcionamento (artigo 1º).

Dois aspectos importantes do diploma respeitam à qualificação dos directores técnicos e dos profissionais responsáveis pela orientação e condução do exercício de actividades físicas e desportivas.
Para o director técnico, entre outros requisitos, exige-se o grau de licenciado na área do Desporto ou da Educação Física (artigo 7º, nº 1).

O mesmo grau é exigido para os restantes profissionais (artigo 13º, nº 1).


Contudo, o artigo 27º do diploma vem estabelecer um regime transitório.
Para o que agora interessa reter, os nºs 3 e 4 deste preceito, dispõe do seguinte modo:

1. Os profissionais responsáveis pela orientação e condução do exercício de actividades físicas e desportivas que não fossem licenciados, nas áreas indicadas, dispunham de 90 dias, após a entrada em vigor, para requerer junto do IDP, I. P. o reconhecimento das suas competências actuais obtidas através de:
a) Qualificação, na área do desporto, no âmbito do sistema nacional de qualificações;
b) Experiência profissional na orientação e condução do exercício de actividades físicas e desportivas;
c) Reconhecimento de títulos adquiridos noutros países.

2. Para os profissionais que venham a ser titulares de qualificação, na área do desporto, no âmbito do sistema nacional de qualificações podem, igualmente, no prazo de dois anos contados da data de publicação do presente decreto-lei, requerer junto do IDP, I. P., o reconhecimento das competências entretanto adquiridas.


Como é bom de ver, dois regimes transitórios: um dirigido ao passado e outro visando acautelar situações futuras, como dá bem conta, aliás, o texto preambular do decreto-lei.

Vejamos, agora, o que afirma o Despacho nº 16766/2010, de 25 de Outubro e publicado no passado dia 5 de Novembro:

“1 — Considerando que:
a) O Decreto-Lei n.º 271/2009, de 1 de Outubro, define o regime jurídico da responsabilidade técnica pela direcção das actividades físicas e desportivas desenvolvidas nas instalações desportivas que prestam serviços desportivos na área da manutenção da condição física (fitness), designadamente aos ginásios, academias ou clubes de saúde (healthclubs);
b) Um dos objectivos do regime transitório estabelecido por este diploma, conforme atesta o próprio preâmbulo, é possibilitar a todos os profissionais que não preencham os requisitos nele previstos, durante o período transitório, o reconhecimento das suas competências;
c) Ao longo das últimas décadas foram aceites pelo mercado, de forma a dar sustentabilidade ao mesmo, um conjunto de cursos de formação profissional, realizados por entidades de reconhecida credibilidade no sector e reconhecidas pela Direcção -Geral do Emprego e das Relações de Trabalho (DGERT);
d) Por outro lado, a partir da data de entrada em vigor deste diploma, o exercício de funções dos profissionais nesta área é certificado através de cédula, estabelecendo o n.º 5 do artigo 27.º que a obtenção da cédula é conferida através de despacho do presidente do IDP, I. P., ouvidas as associações socioprofissionais do sector.
2 — Nestes termos, determina -se
a) Para efeitos do disposto no artigo 27.º do Decreto-Lei n.º 271/2009, de 1 de Outubro, as qualificações conferidas pelas entidades que, à data de entrada em vigor do referido diploma, estivessem certificadas pela DGERT e que preencham os requisitos do número seguinte, são consideradas como suficientes para obtenção da referida cédula;
b) Para efeitos do disposto no número anterior, são considerados os cursos de formação inicial ministrados por aquelas entidades, desde que os mesmos tenham uma carga horária igual ou superior a 100 horas;
c) Para efeitos do presente despacho, as entidades que queiram ver os seus cursos reconhecidos, deverão enviar ao IDP, I. P., comprovativo da carga horária, as datas de início e de fim, e a listagem nominal dos formandos que obtiveram aproveitamento nos mesmos;
d) A medida referida na alínea anterior produz efeitos a partir da data de publicação do Decreto-Lei n.º 271/2009, de 1 de Outubro”.

Estar-se-á mesmo a cumprir o determinado na lei?

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O mapa e o território

"O mapa não é o território".

Escutei esta frase no âmbito de uma formação que abordava a gestão de conflitos, expectativas, aspectos relacionados com a liderança, gestão de pessoas, etc. Para além de um problema de visão e missão da grande maioria das entidades públicas e também privadas no nosso País, que acaba por alinhar o próprio País numa caminhada sem objectivos ou indicadores, observamos que a busca de uma posição de liderança ou coordenação altera quase sempre as bases identitárias das pessoas, que de alguma forma, buscam um mapa ou título que as torne 'mais importantes'.

Na verdade, sabemos que o mapa que é entregue às pessoas, independentemente do cargo ou posição hierárquica que possuem, quase nunca bate 100% com o real território em que essas pessoas lidam. A não percepção de da distinção do mapa e território continua a ser deturpada por questões de formação de base e bom senso.

Observamos o sistema desportivo com um conjunto de princípios bastante válidos ao nível da competição propriamente dita, formação, treino, interacção ao nível dos atletas, treinadores, etc., e tudo se esfuma quase por magia a partir do momento em que essas mesmas pessoas enveredam pela parte de gestão, administração, coordenação mais administrativa/avaliação das Federações, Institutos, Associações, etc.

Tal fenómeno contribuiu para uma decalage ao nível dos resultados, principalmente se os soubermos diferenciar e segmentar o mérito: o que pertence por trabalho 'apenas' da parte técnica do treino, competição, formação, etc.; e aquela que advém 'apenas' do trabalho desenvolvido pelos dirigentes dessas mesmas entidades.

Questionar porque um treinador apela à justiça, alinhamento dos seus atletas, repetição no treino, procura dos 'experts' para as suas tarefas, comunicação frontal, desenvolvimento das competências dos seus atletas e, transferido para uma posição mais fora do terreno, assume comportamentos que contrariam os que antes aplicava para a obtenção...dos melhores resultados.

A não obtenção dos melhores resultados por falta ou recusa de procedimentos que fomentam a concretização dos objectivos, propiciam o estado a que o desporto (e não só) português chegou. A recusa de existir uma estratégia comum, nem que fosse ao nível das associações de uma federação! De uma visão alinhada pelo Estado, descentralizada pelas autarquias, federações, associações, etc.


A necessidade da existência de muitos pequenos mapas para incluírem todos os favores, que na realidades se reflectem em territórios sobrepostos, mal definidos, funções repetidas por duas, três ou mais entidades, visões que são incoerentes com as suas práticas, fazem com que hoje (fenómeno que sempre foi existindo, mas hoje agrava-se) não se deva apenas falar de poucas verbas, mas de verbas mal atribuídas e para os mesmos acontecimentos e, pior do que tudo, potencia que entidades se repitam na sua natureza e sejam adversárias e estejam explicitamente numa competição.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Anestesia e Humilhação

Faz muito tempo que não me apetece falar ou escrever sobre desporto e, muito menos, sobre futebol. O leitor já reparou, com certeza, nisso. Aparentemente ando totalmente arredio dessas matérias. As minhas preocupações fundamentais são outras, embora cruzem e penetrem, de vários e determinantes modos, o panorama desportivo, o entendimento do seu papel, da sua função e configuração.
O país e os pilares da vida social e moral desabam, com um clamoroso fragor, à nossa volta e em cima de nós. A democracia - melhor dizendo, este modelo de democracia - desmorona-se e conhece um impensado final de amargura, desilusão e traição. A decência, a ética e a coragem afundam-se no pasmo, na inanição e demissão. A política – a mais nobre das actividades humanas – vai a enterrar, coberta pelo espesso e escuro manto do desencanto, fado e tragédia. A inteligência, a lucidez e a razão mancomunam-se com a falta de escrúpulos, com a vilania e com o oportunismo. As instituições estruturantes da nação entregam-se à cobardia e à cumplicidade do silêncio. O decoro e a dignidade estão a saque. Os cidadãos laboriosos, sujeitos de um trajecto honrado e limpo, vêem-se vilipendiados e espoliados dos seus mais legítimos direitos; são assaltados e ofendidos nas suas mais fundadas aspirações e convicções. Estão entregues à sua desdita, isto é, são vítimas da insaciável e obscena súcia com rédea solta no ambiente de crepúsculo e escuridão que nos encobre a esperança e dificulta os passos.

Perante isto, como poderia eu ter a vontade disponível para me entregar a laborações sobre o desporto? Não estaria a alinhar com a monstruosa campanha de anestesia e alienação, de humilhação e manipulação, a que tem sido submetido o país?
Tenho memória viva dos tempos anteriores a esta decrépita democracia. Recordo bem a irrespirável atmosfera do salazarismo e do marcelismo. Mas não me lembro de dias tão insuportáveis e injustificados como os que estamos a viver. Os de outrora, por mais negros e angustiantes que fossem, faziam parte da ditadura. Os de hoje enquadram-se no quê? Pode chamar-se ‘democracia’ a esta teia que nos aprisiona? O ar fétido, que agora se respira, obriga-nos a concluir que o regime ou modelo de democracia ‘vigente’ atingiu o estado de putrefacção.
Alguma vez no passado se assistiu a uma ‘futebolização’ anestesiante do país como a que está sendo levada a cabo nos canais televisivos pela profusão de programas tresloucados e comentadores ensandecidos? Alguma vez no passado fomos tão intoxicados nos jornais e canais de rádio e televisão, durante meses a fio, repetida e incessantemente, por propagandistas e representantes das corporações e interesses em alta, visando domesticar-nos e conformar-nos à demissão e resignação e à aceitação passiva de tudo quanto convém à engorda das hipócritas, excelentíssimas e dinossáuricas sanguessugas que colocam o mundo de rastos? As renomadas criaturas mediáticas são ou visam tornar-nos mentecaptos, idiotas, de raciocínio e pensamento infantilizados? Estão ao serviço do quê e de quem? Como são brilhantes no ofício que lhes incumbe desempenhar no funcionamento e na preservação do polvo!

Creio mesmo que o governo é sincero, ao afirmar que se vê obrigado a abandonar o seu programa e a obedecer à agenda e aos ditames dos mercados. Não duvido que assim seja; outra coisa não seria de esperar dos elementos que o integram e das forças e associações, conhecidas ou secretas, confessas e inconfessas, ocultas e travestidas, que muitos deles representam. Só que não é constrangido a isso. Pelo contrário, é hábil, certeiro e prazenteiro na obediência. Obviamente! É para isso que está em funções; não é para defender o estado social e os direitos inalienáveis de quem trabalha.
Cortar nos vencimentos e aumentar os horários e anos de trabalho certamente torna as empresas mais competitivas. Não há dúvida de que assim é. Então, se os empresários não pagarem a matéria prima, os custos da produção ainda serão mais baixos e os lucros acrescidos! É isto que conta; é este o grande e nobre objectivo que propagandeiam e nos tentam impingir até à náusea. É esta a noção de salvação nacional e de dever patriótico que espalham aos quatro ventos. Que abdiquemos do que nos pertence, nomeadamente da dignidade que nos funda e institui como seres humanos.
Vamos portanto aceitar, de bom grado, de cara alegre, de riso aberto e franco, de coração exultante e consciência aquietada, que os abutres se apoderem de parte significativa do resultado do nosso esforço e suor, do investimento sério de uma vida custosa, de rigor, trabalho e sacrifício, pautada pelo apego a princípios e valores, pela observância de normas e regras. Sim, vamos aceitar tudo isto, não porque o nosso continuado sacrifício reverta a favor da saúde da nação, mas sim para alimentar e sustentar a infame orgia e o apetite voraz dos figurões do mercado financeiro e dos seus acólitos, porta-vozes e paus-mandados. A anorexia ética e estética tomou-lhes conta do coração, da consciência e da alma, enquanto a obesidade lhes cresce nos olhos, nas ambições e nos sentimentos. A sua gula é extremamente selectiva: a pança relincha de contentamento se estiver empanturrada de carne humana, do pão e das aflições dos outros. É este o seu alimento preferido.

Não há heroicidade bastante para suportar este clima de insegurança, tristeza e pavor. Infelizmente a emigração está fora de propósito, quer pelas restrições a que está sujeita, quer pelos imperativos de cidadania e humanidade que nos intimam à resistência, aqui e agora, como uma obrigação incontornável.
Uma reflexão empenhada e comprometida acerca da conjuntura que estamos a viver traz-me à lembrança esta interessante formulação do escritor norte-americano Mark Twain (1835-1910): “O homem que é pessimista antes dos 50 anos sabe demasiado; o que é optimista depois não sabe o bastante”.
Mais, ser pessimista nesta hora é um irrevogável mandamento cívico; é sobretudo posicionar-se a favor daquilo em que se acredita e não tecer loas ou ceder àquilo que nos oprime. Revejo-me em José Saramago: “Os únicos interessados em mudar o mundo são os pessimistas, porque os optimistas estão encantados com o que existe.
Não sou um pessimista, mas antes um optimista bem informado
”.
É isto que pretendo ser e peço aos leitores para serem: um optimista bem informado e determinado.
Enfim, esta não é a ocasião mais indicada para discutir desporto e pactuar com as aleivosias do futebol e dos seus ‘homens’, caciques e mensageiros. Não dou para o reino da bola, para a importância insana que lhe é atribuída, para os despautérios que o povoam, para os espertalhões e oportunistas, demagogos e vigaristas que nele medram e vegetam, para os proventos imorais que os seus agentes auferem, para a cegueira e obnubilação dos seus adeptos. Que a Selecção ganhe, que Mourinho triunfe, mas que me deixem em paz! Não estou para aturar as permanentes masturbações e orgasmos que uma e o outro geram; não suporto a sua constante presença nos media e a invasão da minha privacidade, sobretudo pela perturbação que isso acarreta à ponderação das asfixiantes, pesadas e gravosas atribulações resultantes das inaceitáveis circunstâncias.
Não escrever ou falar de desporto e futebol é uma forma de protesto consciente e esclarecido. É sobre a vida, a sociedade e o Homem que, sempre e particularmente nesta altura, importa reflectir. As causas e os fins vêm primeiro; os meios e os instrumentos vêm depois.
Que modelo de vida, de sociedade e de Homem inspiram os reformistas? Que grandezas, padrões e referências civilizacionais nos impõem? Para onde vamos? Para onde nos levam?
Ao ver um mineiro, pouco mais do que analfabeto, liderar e conduzir para a vida um grupo de 32 colegas, soterrados e praticamente condenados à morte durante 69 dias, não posso deixar de olhar com pouco apreço os emplumados e tão cantados líderes que nos arrastam para o aviltamento, o definhamento, a míngua e a destruição.
Tenhamos um assomo de nobreza e coragem e ousemos libertar-nos do pântano da imundície em que se exibe e compraz esta casta de gente sem carácter e sem vergonha. Sob pena de sermos lama do mesmo atoleiro, trampa da mesma cloaca.