domingo, 3 de julho de 2011

Os pequenos clubes e a criação de valor (II)

A conclusão do texto de Fernando Gaspar.

Num país onde a cultura de apoio ao desporto passou largas décadas pelos tradicionais "patrocínios" angariados por clubes e atribuídos por instituições privadas e públicas quase aleatoriamente, assentes na sua grande maioria na boa vontade dos segundos e na passividade dos primeiros. Vivemos hoje, fruto da evolução dos princípios económicos subjacentes à actividade empresarial e simultaneamente desportiva um momento de rotura na relação entre ambas.
Uma rotura que certamente irá provocar adaptações de ambas as partes, sendo que no entanto deverá ser um processo bem mais longo do que seria desejável (convém recordar que reportamos a clubes de pequena/média dimensão e consequentemente a empresas e instituições de igual representação no panorama nacional) e que trará enormes dificuldades à sobrevivência dos clubes.


Se por um lado as empresas, fruto da evolução do paradigma económico/financeiro, procuram retorno financeiro dos seus investimentos neste tipo de apoio/patrocínio, mesmo as mais pequenas, ainda que não se dotem de ferramentas humanas e materiais, para o fazer convenientemente e assertivamente, também os clubes não estão dotados de recursos para satisfazer por um lado as necessidades próprias do clube e criar valor para este e por outro para ir de encontro às necessidades de potenciais parceiros, permitindo que estes tenham igualmente mais-valias provenientes do apoio expresso a uma determinada instituição desportiva (clube, atleta, secção, equipa, etc.).
Assim não havendo apetrechamento de parte a parte, ambas se irão retrair e criar um fosso entre si, nomeadamente um fosso comunicacional, que aumentará a “desconfiança” de parte a parte. Um fosso que fará, por ora, daqueles que o quiserem atravessar autênticos loucos perante os olhos dos restantes que na dúvida permanecerão sossegados, procurando sobreviver à conta dos poucos apoios públicos que restam (e que tendencialmente, digo eu, tenderão a seguir o exemplo dos privados, onde para cada investimento se exigirá um determinado tipo de retorno).


Enquanto esses loucos procurarem reestabelecer as pontes entre o meio desportivo e o empresarial, muitos irão desaparecer sufocados pela ausência de recursos, outros irão sobreviver com enormes dificuldades, à conta de sacrifícios pessoais dos seus agentes desportivos, outros haverão, que fruto do seu trabalho anterior, conseguiram montar uma estrutura que com mais ou menos dificuldade manterá a actividade, ainda que se afastando daquele que seria o caminho da evolução. Diria que apenas esses loucos, ainda que atravessando um caminho irregular, feito de sins e de nãos, de avanços e recuos, serão capazes de vencer num futuro a curto/médio prazo, serão os únicos que conseguiram evoluir e criar uma base sólida de trabalho e para novos saltos evolutivos. Os restantes, os que sobreviverem, irão absorver toda esta aprendizagem proporcionada pelos loucos, ainda assim irão reiniciar o processo de recuperação/evolução, com anos de atraso.


É certo que os clubes de grande dimensão, já iniciaram este processo há algum tempo, ainda assim a anos-luz de mercados como o americano, australiano, japonês e do centro da europa, no entanto essa informação teima em ser transmitida para nichos de outra dimensão e para fora do planeta futebol, onde apenas algumas modalidades colectivas têm conseguido absorver alguma dessa experiência.
Serão precisos loucos, persistentes, sedentos de inovação, havidos de evolução para diminuir substancialmente este fosso que dia após dia, agudizado pela crise económica, aumenta. Serão precisos clubes, capazes de confiar nestes loucos, investir neles e em parceria encontrarem as soluções necessárias para gerarem valor. Para se tornarem vendáveis, desejáveis, interessantes, cobiçados e até invejados.


Serão precisos recursos humanos e ferramentas capazes de criar valor, de reinventar o serviço desportivo. Será necessária coragem para parar, pensar e mudar, por vezes até conscientes que será preciso dar um ou mais passos atrás, para tomar balanço e saltar este foço.
Os clubes terão de se reinventar e reorganizar, os dirigentes também. Deverão ser estabelecidas prioridades, estratégias a médio/longo prazo e muito importante (ainda que doloroso e com resultados negativos a curto prazo) os clubes deverão ser capazes de cobrar justamente o serviço que prestam, pois só assim o seu real valor (e dos seus profissionais) será reconhecido, de outra forma, continuará a ser encarado de cima para baixo, como um servo e não como um prestador de serviços igual, ou até superior, a tantos outros na nossa sociedade.

5 comentários:

Luís Leite disse...

A situação do Desporto Português é em tudo semelhante à do Estado Português.
Com a retracção geral da capacidade financeira, o desporto de competição profissional irá regredir a um ponto difícil de imaginar no que respeita à sponsorização.
O nível desportivo em geral irá diminuir significativamente, mesmo tendo em conta a insignificância relativa das diversas modalidades em Portugal.
Resta o Futebol profissional, que viverá cada vez mais num mundo à-parte, com protecção garantida pela Administração Pública, apoiado cada vez mais na corrupção, na economia paralela e na fuga ao fisco.
É aterrorizador olhar para as primeiras páginas dos jornais desportivos nacionais, onde os "reforços" futebolísticos sul-americanos se sucedem diariamente numa orgia de negociatas que exploram o baixo nível cultural da população e a fé/clubite.
Já não há esperança.
Acabou.

G A S P A R disse...

Os clubes de pequena e média dimensão viveram durante anos a fio dependentes única e exclusivamente de subsídios. E pior: de olhos vendados e de costas voltadas para o seu próprio futuro.

Geriam-se conforme o dinheiro que lhes ia parar às mãos. Um pouco como fomos fazendo com o proveniente da UE. Não criaram condições para se modernizar, para crescer e/ou se diferenciar.

Mal habituados estavam e mal habituados fizeram os seus clientes, que pagavam pouco, sem ter em consideração o serviço prestado.

Ora se um pai paga, pelo menos, 15€/hora para que o seu filho vá a uma "explicação" normal, quando deveria aprender na escola, o que pode facilmente chegar a pelo menos 120€ por disciplina por mês e na maioria das vezes partilhando o mesmo tempo com mais 4 ou 5 crianças. Porque não há-de pagar igual valor por o seu filho praticar 7 ou 8 horas, por semana, muitas vezes com técnicos altamente especializados. Os clubes habituaram mal os seus clientes, porque vinha sempre dinheiro de autarquias e afins, não se tavam para chatear e não criaram sequer a necessidade de ter parceiros que dependessem da sua imagem para comunicar os seus produtos.

Os clubes desvalorizaram-se comercialmente e por isso mesmo, hoje estão a braços com uma dificuldade enorme alimentar o seu valor desportivo.

Anónimo disse...

Agora que o Sr. Secretário de Estado Alexandre Mestre já deu posse ao Sr. Professor Mário Teixeira num cargo da Confederação do Desporto de Portugal, já o pode nomear para Presidente do Instituto do Desporto de Portugal como o Professor Mário Teixeira disse que ia ser.

Anónimo disse...

Tudo menos isso!

Anónimo disse...

Os pequenos clubes, e os outros clubes, nunca poderão ser o vector de um modelo de desenvolvimento do desporto credível e sustentável.
A propósito que é esse Senhor Mário Teixeira? Tem cartão de inscrito no partido?

Aldaberto Berto Rocha