terça-feira, 17 de julho de 2012

Em tempo de férias

Em todas as gerações existe uma cultura de nostalgia. Que conduz, muitas vezes, a uma espécie de lamentação do tempo presente. E à invocação de que antigamente as coisas não eram assim. Querendo com isso dizer que eram melhor. O que, é mais um estado de alma que uma verdade que possa ser sustentada em factos.
A minha geração vive, por norma, uma melhor situação económica que a dos seus pais. E tendo vivido em dois regimes políticos diferentes ditadura/democracia é óbvio que os ganhos de qualidade de vida e de cidadania são hoje muito maiores. O risco de que esse progresso possa estar a perder-se coloca em causa não apenas os ganhos atingidos, mas uma das crenças políticas que mais nos marcaram e que tem a ver com a prognose de que a história caminharia inexoravelmente no sentido do progresso e que este seria ininterrupto.
Este esquema mental e vivencial, prisioneiro de uma conceção otimista da natureza humana e de um sentido finalista da história que, no limite, anunciaria a possibilidade da construção de uma sociedade perfeita, foi posto em causa pelo insucesso histórico das conceções construtivistas e de criação do homem novo das sociedades comunistas e pelo fundamentalismo religioso. E está hoje abalado pelo capitalismo de casino através da captura da política por parte do capital financeiro.
Abandonada essa crença, e sem que o lugar seja ocupado por uma dimensão pessimista, resta-nos perceber que a natureza humana e a organização das sociedades concretas é bem mais complexa que aquilo que imaginávamos e que há hoje questões que nos interrogam e para as quais não temos respostas seguras. E o desporto cuja evolução desde finais do seculo XIX tem sido constante não está fora deste raciocínio. Aumentam os fatores de desregulação e as soluções apresentadas estão longe de trazer respostas sustentáveis.
Escolhendo, por exemplo, a formação desportiva dos jovens não temos quaisquer dúvidas que, atualmente, o conhecimento disponível é maior e o modo como se trabalha bem melhor. Subsiste no entanto um divórcio entre o que deveria ser essa formação (no plano das aquisições técnicas e de competências específicas) e o que é. E se multiplicarmos essa avaliação pela educação física escolar, pelos quadros competitivos dos jovens em prática federada, para transição/mobilidade para os escalões superiores, pelo abandono desportivo precoce concluiremos que anos de pregação sobre a matéria jazem nos textos sem qualquer relevância para a situação real. Certamente que há mais jovens a praticar desporto, o que é positivo. Que a qualificação dos técnicos é maior. Que as condições de trabalho evoluíram. Mas muito dessa prática enferma de conceções que sempre se procuraram corrigir/alterar o que não tem sido possível. Para quem entende que o desporto não é apenas um modo de dispêndio energético e de avaliação de rendimento em contexto de competição não pode deixar de se inquietar com tal situação. Uma situação que num contexto de degradação das condições de vida tende a agravar-se.
De há muito a esta parte que defendemos que muitas das respostas aos problemas do desporto não estão na sua dimensão financeira, mas na sua perspetiva cultural. E embora este entendimento esteja permanente em toda a história do desporto moderno é em momentos de maiores dificuldades que a sua importância se torna relevante.
À porta de mais uns Jogos Olímpicos, que a respetiva carta olímpica estipula ser uma competição entre atletas de todo mundo, e que a realpolitik transformou numa competição entre Estados, reler o que sobre esta matéria e a da formação desportiva dos jovens a doutrina oficial do Olimpismo tem escrito é comprovar que o mais difícil nunca esteve na construção da doutrina, mas na sua aplicação.

20 comentários:

Luís Leite disse...

Mais um texto notável de JM Constantino.
Quanto à "realpolitik", é apenas um natural reflexo da condição humana.
O Desporto, mesmo a brincar, acaba por ser sempre uma realidade competitiva.
Quanto à Carta Olímpica, quantos a leram na íntegra, mesmo no Comité Olímpico?
Eu li-a atentamente mal assumi responsabilidades nessa área, no início na olimpíada anterior.
Foi baseado nessa leitura que defendi publicamente a expulsão em Pequim de Vicente Moura dos Jogos e do IOC.
O COP nunca se preocupou com os ideais olímpicos mas sim com uma "representação digna" que ninguém sabe, em concreto, o que é.

Anónimo disse...

Mais um texto notável de L Leite.
Funcionário do Estádio

Luís Leite disse...

O Funcionário do Estádio (Será do Estádio Nacional?) é a mesma pessoa que o Funcionário do Estado? O tal da folha A4?
Explique-se, Funcionário!
Fico em Estado de ansiedade...

Anónimo disse...

Para quem tem créditos (firmados), proponho a equivalência: presidente, sério e a sério, de um Comité Olímpico Que Não Seja um Barco de Dois Canos Habituado a Ir ao Fundo
José Carapau

Anónimo disse...

Caro Luís Leite, não. Não foi o FdoE da folha A4 que escreveu. Como deve presumir pelo que escrevo, prefiro ser mais direto e frontal, do que andar nesses atalhos mais subtis de plágio de «nomes». Mas já que não se pode a partir de agora destrinçar a coisa, a solução é abandonar o «Funcionário do Estado», e inventar outra designação, que escolherei na próxima mensagem.

Ex-Funcionário do Estado

Anónimo disse...

Prefiro, em comentário ao texto de J.M.Constantino, colocar a questão de outro modo.
Olimpismo? A “Festa Quadrienal dos Multimilionários da Suíça”, livre de impostos na UE?
Desde os Anos 1960, e mais acentuadamente depois de Samaranch, o COI iniciou o desígnio de pôr os Estados de cócoras, através das filiais ditas «Nacionais», anulando toda a expressão desportiva (tanto «competitiva»; como também de «jogo e de ludo-motricidade» próprias de cada Cultura).
Como o faz? Através de uma cuidada política de informação e comunicação, que tende a passar a mensagem de que «Todo o Desporto, são as modalidades que se fazem na Festa Quadrienal». E portanto, vai de extorquir aos Estados o dinheiro dos contribuintes para a Preparação Olímpica. Porque tudo o resto não presta, nem merece dinheiro. Dito de outro modo, «Ou são «Olímpicos, ou são desportistas de segunda classe».
Onde essa operação se expressa com mais nitidez é nos ditos Contratos-Programa (e sucedâneos), concretamente na proporção daquilo que lá se gasta ao Povo. A ação dos COI’s Nacionais complementa-se, em cada país, de Festas e Cerimónias, em que se convidam a dedo os Governantes, e os potenciais líderes de opinião. Mas também nos recados que se mandam para a comunicação social através de alguns jornalistas por eles avençados, e depois, num conjunto de outras ações premeditadas, como os amuos nas audiências, o emproamento público com carros de luxo, e outras manifestações de opulência.
Tudo para construir essa imagem e conquistar na Opinião Pública esse desígnio. O Estado, coitado, lá vai ajoelhando, porque não tem Governantes fortes como deveria há muito ter. Que lhes dissessem que só pagam as viagens dos atletas que, após análise minuciosa dos resultados de quatro anos de preparação, pudessem ganhar uma medalha.
Porque é uma vergonha Portugal contribuir para a Festa Quadrienal com atletas que conseguem os mínimos. Porque não só não contribui para acrescentar valor à Festa Quadrienal, como dá uma imagem de mediocridade ao País.
Essa «Excursão coletiva de não-medalháveis» a soldo do Estado, e a respetiva preparação não deve ser paga pelos contribuintes pobres que trabalham todo o ano com 500 ou 600 euros. O COI que retire isso dos seus lucros e os dê à Filial Portuguesa.
Só Governantes fracos/as, e sem as coisas ou os coisos nos sítios, é que permitem esta vergonha, e este insulto do COI e da Filial a Portugal.
O dinheiro que sobra, então, já podia ser distribuído pelo Desporto na Escola, e também no fortalecimento dos quadros competitivos com base no Associativismo Desportivo. Exatamente aquilo que a «Preparação Olímpica» anda a roubar a Portugal nas últimas décadas.
A participação do Pistorius é apenas um sinal. Que nos deve alertar para as manobras que o Olimpismo vai fazer perante a iminente falência do Altius-Citius-Fortius como instrumento de atração da Festa Quadrienal. Repara-se no que hoje dizem, por exemplo Reza Noubary, da Universidade Bloomsburg da Pensilvânia acerca dos 100metros, ou Geoffroy Berthelot acerca da história dos recordes olímpicos desde 1896, e outros.
Vai ser necessário novas formas mediáticas para continuar a produzir a «Festa Quadrienal». Mas o dinheiro tem que continuar a escorrer para os cofres da «Sede Suíça da Multinacional». Nessa altura, mexer-se-á outra vez nos cordelinhos, e os amansados Governantes e Dirigentes da época, irão dizer ao Povo que a Política Desportiva da altura deverá ser esta ou aquela, tanto faz. Exatamente como agora.
Caro Luís Leite quando falo de Olimpismo, ou faço um comentário ao post de J.M.Constantino prefiro dizer a meu modo as coisas. Assim. Sem ser necessário ter assinatura. E tudo sem ultrapassar a folha A4.
Mas é engraçado ter conseguido que o significante «Funcionário do Estado» se tornasse um arquétipo… Coisas que Habermas, e outros já tinham adivinhado que ocorreriam.

Talvez

Anónimo disse...

Existem os textos de JMC, bem construídos, com linguagem clara e atraente, com estilo depurado a partir, certamente, de longas e aturadas exegeses dos textos antigos e existem as lisonjas do LL que apenas são isso, passar a mão pelo pelo. Nada dizem, nada acrescentam, não indo além da repetição de "opiniões" preguiçosas, diria JMC opiniões de natureza axiomática e apologética. É isso, faz a apologia das medalhas como se não existisse outro critério de avaliação e sem qualquer fundamento ao não ser o seu "acho que". Tanta pesporrência concentrada em tão poucas palavras. Vejam bem que este homem até defendeu publicamente, não a demissão, mas sim a expulsão de V.Moura dos JO e do IOC. Que virilidade, que pujança de argumentos que clarividência num só cidadão, que visão para o desporto português.
À medida que vou lendo estes textos e as lisonjas de LL vou percebendo melhor as razões porque estamos como estamos. Tem sido estes autores (e os seus seguidores, também eles intelectuais de primeira apanha) que têm, episodicamente, governado o nosso desporto.
Quanto a mim as razões são de ordem financeira, são de perspectiva cultural e, também, sobretudo, de cariz organizacional, onde se inclui tudo o que tem a ver com a noção de concepção e prática do projecto e sua liderança. O que terão feito e o que fazem os senhores para evitar as maleitas, do desporto juvenil, tão escorreitamente expostas no texto? Que projectos concretos gizaram com os principais "operários" do desporto português, visando alterar esta realidade? Pois é, a cultura dos povos é tramada e impede que os nossos sonhos se realizem depressa e bem.
A nossa realidade altera-se com um projecto sólido e pragmático bem assente no conhecimento mais actual (quem não o possui deve ir ao seu encontro). Quem tem o dinheiro para investir no desporto português (seja público seja privado) deve seleccionar as organizações que garantam a boa utilização dos dinheiros em objectivos muito concretos, como por exemplo:
- Aumentar o número global de praticantes federados jovens.
- Aumentar o número de jovens praticantes, identificados como talentos, integrando-os em grupos com objectivos específicos no domínio do percurso para o alto rendimento.
- Formar treinadores, outros técnicos (e os dirigentes) instruindo-os sobre as boas práticas no domínio do treino de jovens (ainda que para tornar isto possível tivessem que varrer todo o lixo já acumulado com a última legislação sobre formação de treinadores)
- Conceber e apoiar a participação em quadros competitivos, regionais, nacionais e internacionais ajustados aos objectivos e, sobretudo, à natureza dos praticantes jovens.
- Oferecer, no caso dos jovens orientados para o percurso do alto rendimento, serviços de apoio quer médico quer de controlo do treino.
- Dirigir, liderar, avaliar, controlar e corrigir sistematicamente as rotas e as estratégias do projecto.
Digam-me lá os senhores porque é que nada disto se faz de forma coerente. Digam-me lá porque é que as organizações que o fazem (federações, associações ou clubes ou até escolas) não são devidamente apoiadas para que o façam cada vez melhor, de forma continuada e, sobretudo, reconhecida?

Não me digam que é a cultura. Só aceito que a cultura e as mentalidades sejam um obstáculo se estas abstracções se referirem aqueles que dirigem o desporto lá bem do alto das suas importâncias. Obviamente que quem informa com tanto garbo e orgulho a defesa pública que fez sobre a expulsão de Vicente Moura é porque não anda neste mundo, i.é anda mas não anda.

Luís Leite disse...

O problema é mesmo cultural.
E mora em elites que não o são.
Que, para justificar o injustificável, não apresentam argumentos, antes evidenciam desconhecimento.
Preferem, anonimamente, continuar a defender o nivelamento por baixo.
Não me surpreendem.

Anónimo disse...
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Luís Leite disse...

Anónimo das 18.02h:

Não tenho fantasmas nenhuns.
Tenho um grande problema: sou e sempre fui independente.
Penso pela minha cabeça e não devo nada a ninguém.
Já fui empurrado para lugares de poder que não desejava, mas onde muito aprendi.
Aprendi que em Portugal quem é independente não tem margem de manobra.
Tudo funciona com base nos partidos políticos e em organizações secretas.
No clientelismo,no compadrio e na troca de favores.
Na hipocrisia e no calculismo.
Não fui, não sou, nem nunca me confundirei com esses.
Aos 56 anos, farto desta gentalha, sou espetador e crítico.
Quando me apetece, dando a cara e apresentando sempre argumentos. Sem medo.

Anónimo disse...

A propósito deste debate ouçamos o que diz Angola:
- (dixit) “A estratégia e os pilares para o desenvolvimento do desporto em Angola basear-se-ão na cooperação com Espanha, eleito com o principal parceiro de Angola. O modelo de organização do desporto espanhol, e os resultados obtidos nas mais variadas modalidades, foram razões apontadas para justificar esta aposta de Angola, sendo que está a ser tratada com a embaixada de Espanha em Luanda uma visita oficial de Muandumba a este país ibérico, onde irá encetar inúmeros contactos. A revelação foi feita por Gonçalves Muandumba, Ministro da Juventude e Desportos de Angola, no âmbito da audiência que concedeu, em Luanda, à equipa de hóquei em patins do Barcelona, que se deslocou ao país para ações de promoção do Campeonato do Mundo de 2013, que Angola organizará. A colocação de jovens angolanos em equipas espanholas de diversas modalidades, regressando no início da idade sénior, é uma das políticas que o ministério dos Desportos de Angola quer levar a cabo”.

E os daqui?
Esses, os daqui (sempre doutos, mediáticos, e sabichões), teimam sempre nos mesmos erros, que se repetem a cada governação. E por não haver cura, os votantes aceitam que o façam há décadas.
Já não seria tão mau, se, ao menos, adotassem a folhita A4…

Angola é que não foi nesse Fado. O que mostra que é um País com mais futuro.

Talvez

Anónimo disse...

Oiça lá, ó excelência da folha A4, então a decisão de Angola se aproximar de Espanha não se deve também à sua capacidade de fazer apenas a folha A4, de 2005 a 2011, ou da enormíssima capacidade de leitura dos seus chefes que não vai além das trinta e tal linhas de uma folha de papel lidas de seguida antes do almoço?

Marina Albino disse...

Ignorante me confesso...poderá o ilustre anónimo divulgar a sua folhita A4. fico curiosa como é que tal conteúdo sendo tão importante não é divulgado.

Marina Albino disse...

A famosa folha A4 - posso ter conhecimento do seu conteúdo?

Anónimo disse...

A folha A4 está a em exposição no Museu do Desporto, sito no Palácio Foz aos Restauradores e pode ser vista ás horas normais de expediente. Muito em breve será possível aos visitantes adquirirem um fac-simile da mesma, numerada e autografada pelo autor.

Anónimo disse...

Agradeço a informação. Alguém me sabe dizer qual é preço a que se pode adquirir essa folha? E passam factura ? E é dedutível no IRS ?

Anónimo disse...

A folhita A4 já foi gratuita. Agora custa 10 mil Euros, que são os juros que pagam a incompetência e a falta de resultados de gestão. Porém, também é necessário verificar se quem a adquire não tirou a 4.ª classe por equivalência. Quanto à dedução fiscal perguntem às finanças, porque não sou contabilista.

Talvez

Anónimo disse...

Nos Museus só estão coisas mortas do passado.
A vida é feita de futuro.
Esqueçam peças de Museu que não tiveram eco nem se realizaram, porque abortaram.
Eram sonhos adormecidos.

Marina Albino disse...

Hoje a folha A4 fez-me sorrir, pelo que a mesma deve ser mesmo boa! Mais rapidamente irei ao Museu....

Marina Albino disse...

Ao menos a folha A4 teve a virtualidade de me fazer rir. Obrigada anónimo pela informação . Irei quanto antes ao Museu...