segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O COP e a “dominação masculina”


Além do facto de o homem não poder sem se rebaixar submeter-se a certas tarefas socialmente designadas como inferiores (entre outras razões porque se exclui que as possa realizar), há tarefas que podem ser nobres e difíceis quando são efetuadas por homens, mas que se tornam insignificantes e imperceptíveis, fáceis e fúteis, quando são feitas por mulheres (...)

(Pierre Bourdieu, 1999)


Ao ler na imprensa nacional a lista candidata aos órgãos sociais do Comité Olímpico de Portugal (COP), liderada por Manuel Marques da Silva, logo se tornam evidentes alguns mecanismos e culturas que continuam a fundar a dominação masculina no espaço social desportivo.

Será compreensível que numa sociedade que se arroga democrática, justa, equitativa, que deve obediência às disposições constitucionais e infraconstitucionais da igualdade entre os sexos, possa vir a ser eleita uma lista que integra exclusivamente homens para presidir a uma das organizações desportivas com maior responsabilidade no domínio social desportivo?
Obviamente, não será nem compreensível, nem aceitável!

Dezoito homens integram a predita lista (comissão executiva: 1 presidente, 5 vice-presidentes, 1 secretário geral, 1 tesoureiro, 7 vogais; conselho fiscal: 1 presidente, 1 secretário, 1 relator). Não me movem reparos negativos de ordem pessoal relativamente a qualquer integrante desta lista, movem-me apenas posturas e pensamentos redutores e ilustrativos de discriminações intoleráveis. Move-me a convicção eleitoral absolutamente repugnável de olvidar por completo as mulheres da intervenção decisória e da liderança do desporto nacional.

Como poderão as praticantes desportivas (mais de 40% da delegação olímpica de Londres 2012), as dirigentes, as treinadoras, as árbitras/juízas e todas/os os demais agentes desportivos integrantes do desporto nacional e do desporto olímpico rever-se numa lista que oblitera a representatividade feminina e a sua participação nas políticas e programas que lhes digam respeito, assim como na contribuição para um melhor desporto nacional?

Como poderá tal lista ser depositária da confiança das federações olímpicas e não olímpicas e do restante colégio eleitoral, se os que querem presidir aos desígnios do COP fazem tábua rasa das Resoluções das Conferências Mundiais do Comité Olímpico Internacional sobre Mulheres e Desporto? Como é consabido, já desde a primeira destas conferencias (1996) que é reconhecido que “o ideal olímpico só pode ser completamente atingido com a igualdade entre os sexos e com a aplicação deste principio no seio do Movimento Olímpico”, daí que tanto na Conferência de 2000, como de 2004 tenham sido fixadas metas de 20% de representação de mulheres nos postos de decisão até ao ano de 2005.
Se para muitos os ditos 20% ainda são muito insuficientes para a igualdade de oportunidades que se deseja, como poderemos, em 2013, pactuar com retrocessos brutais no que respeita ao desenvolvimento e aos direitos humanos no desporto nacional? 

16 comentários:

Luís Leite disse...

Concordando totalmente com a chamada de atenção da Maria José Carvalho, reparo que se tende a confundir "igualdade entre os sexos" (algo que não existe nem nunca existirá) com "igualdade de oportunidades ou de direitos entre os sexos".
Faz toda a diferença.
Entre demagogia pura e humanismo moderno.
Com o devido respeito.

O Homem Invisível disse...

É claramente um enorme erro de marketing da lista candidata... até podem os elementos terem a consciência e assegurarem perfeitamente a igualdade de oportunidades (bom apontamento do Luís Leite), mas em termos da mensagem que tal transmite é absolutamente incompreensível ... em cargos representativos não basta ser, é indispensável parecer... muito mais quando se vai a votos! não se entende... de certeza que que o JMC agradece.

Anónimo disse...

O Homem Invisível não viu onde punha os pés (invisíveis, aliás) e trocou o 'ser' pelo 'parecer'?

Anónimo disse...

o homem invisivel está certo ser e parecer e não o contrário

O Homem Invisível disse...

Ser e Parecer, reafirmo!

Anónimo disse...

Este debate sobre o «género», que se misturou com «a do Ser e do Parecer», é sempre atual. Há sempre muita gente a falar do modo como as crias vêm ao mundo, uns até dizem com veemência que não se podem usar contraceptivos. Outros juram que se regem por «Mandamentos acima da vontade humana», um dos quais diz “não matarás”.

Não questiono o jogo das aparências, nem as sempre boas-intenções. Prefiro a condição do Talvezismo, a que efetivamente permite tirar a poeira que essas bondades-em-Pessoa provocam ao proferirem aquilo que apregoam. Ora aqui vão dois exemplos da apócope de uma parte dessa poeira.

Soube-se agora, um dia depois do Papa renunciar, que o seu conterrâneo tomou posse (passo a citar): «Ernst von Freyberg, o novo presidente do banco do Vaticano, tem ligações a fabricante de navios de guerra. A eleição vai contra a norma do Vaticano que, por tradição, não nomeia ninguém que tenha ligações a empresas de fabricação de armas ou contracetivos. Frederico Lombardi, porta-voz do Vaticano reconheceu que a empresa está a fabricar quatro fragatas de navios de guerra mas salientou que, de futuro, a empresa vai dedicar-se à construção de navios cruzeiro.».

Outro exemplo, muito diferente na aparência (sobre a dialética entre Ser e Parecer), é o que a seguinte pergunta provoca: «No tal colégio eleitoral que vai eleger o PR do COP quantas pessoas são de que género?»

As palavras são a ilusão.
Talvez

Anónimo disse...

O pior de tudo isto não são as mulheres ou os homens mas sim a qualidade das pessoas, o que vão para lá fazer e o que querem fazer.Mais uma vez estamos numa discusão portuguesinha que não nos leva a lado nenhum e não vai melhorar a qualidade do Comité Olímpico,que eu penso que seria o que se pertendia com Novas eleições.Como é possível haver esta preocupação quando os dois candidatos não trazem nada de novo e o trabalho que trazem é teoria e educação,quando hà neste pequeno país pessoas com muito mais qualidades e capacidades para este trabalho(não digo cargo porque isto deve ser um trabalho e não um cargo) que são esquecidas por terem qualidades a mais, como um Paulo Frichnecht(com 8 Jogos Olimpicos em várias funções),José Luís Ferreiraque fez um excelente trabalho a frente da F.P. de Triatlo e andamos preocupados com o sexo dos anjos.As pessoas devem ter os seus cargos por mérito próprio trabalho não por cotas.Como é possível num país como o nosso pequeno e pouco qualificado em dirigentes desportivos e a sua capacidade está sempre a ser posta em causa pode desperdiçar pessoas com estas mais valias, já para não falar de um Fernando Mota.Muito sinceramente não entendo estas póliticas,invejas ,ciúmes seja o que for ,é por isto e muito mais que o país não vai nem nunca irá para a frente,porque a grande motivação a preocupação destas pessoas candidatas e seus apoiantes é estar lá tre cargos dar o nome,não estão preocupados com a evolução do país ou do desporto porque se não este dois senhores não se candidatavam a estes CARGO.

Anónimo disse...

Diga-me Sr.ou Sra. quais foram os contributos que o Sr. Paulo deu na Assembleia Municipal de Oeiras?
Esclareçam-me sumáriamente as obras
e as teorizações do Sr.Paulo.
O que é o COP e para que serve?
Qual o perfil e atributos que deve ter um Presidente?
O que lhe diz um nome como Jeni Candeias? Não há mulheres em Portugal para assumir responsabilidades no COP?
Sim temos que discutir o sexo dos anjos.
O Papa resignou, talvez para abrir um capítulo de discussão e diálogo.
Precisa-se no Olimpismo e no Desporto esse diálogo.

Anónimo disse...

Espero que não haja melindre. E é com boa intenção.
Talvez uma sugestão seja útil.
Façam como o outro género. Reúnam-se, cooperem, cedam, formem um grupo coeso sem traições, e num ato coletivo escolham e combinem uma candidata. No caminho burocrático de candidatura, e de conquista de apoios, continuem sem trair quem escolheram. E antes de ser eleita, mostrem a quem vai votar que não se traem no dia seguinte à eleição.
Se conseguirem ultrapassar todos estes obstáculos pessoais e culturais não necessitarão de cotas para nada.
Na caça estas competências coletivas foram adquiridas por um género mais do que o outro, e ainda bem, porque senão as crias ficavam desprotegidas territorialmente enquanto o outro ia procurar comida e defendia a fronteira da segurança.
Ou talvez não haja diferença de género, e tudo isto que os estudiosos do assunto dizem esteja errado.
Mas se não estiverem, serão as cotas ou a boa intenção do outro género que resolverá esta diferença socio-genética?

Talvez

Anónimo disse...

fala em causa própria e com dados provados o Talvez ao dizer para fazer como o outro género

onde é que é o vomitório?

Luís Leite disse...

Galáctico, hiper-diplomado e "bem intencionado" Talvez:
Eu sei que ninguém é perfeito.
Mas escrever "cotas" quando se pretende escrever "quotas"...

Anónimo disse...

Uma lista que integra "exclusivamente homens" não pode indubitavelmente contribuir para a igualdade de oportunidades ou de direitos entre géneros (e não "entre os sexos").

E mais nada! O resto é romance a pretender tocar as raias da filosofia.

Anónimo disse...

Uma lista que integra "o género feminino" para se ser politicamente correto, escolhendo personalidades que geram soundbytes e boa imprensa, mas que em termos de experiência e peso associativo são inócuas, não contribui indubitavelmente para a igualdade de oportunidades ou de direitos entre géneros... Pelo contrário, porque dá a ilusão de parecer, sem na realidade ser...

E mais nada! O resto é demagogia a pretender tocar as raias do romance.

Luís Leite disse...

Claro que mesmo a igualdade de oportunidades ou de direitos não poderá nunca ser total, porque os génros são fisiologicamente diferentes.
Referi-me aos direitos consagrados na Constituição e só relativamente a esses se pode falar em igualdade de oportunidades.

Anónimo disse...

Este debate é sempre interessante. Nada que surpreenda, visto tratar-se de um assunto de sempre. Desde a venenosa maçã, que o género mais fraco trincou, tem sido sempre assim. Desconfio até que deve haver debates destes gravados em calhaus rupestres.
O resultado deste milenar debate mostra que no final todos têm em parte razão, e noutra não. Mas é esse resultado, em si mesmo, que exprime a lógica dual que nele está embebida. Isto é, seja qual for o modo de discutir o assunto a razão fica sempre repartida entre os dois lados. Ora isso é uma ferramenta que ajuda a reproduzir e a manter essa lógica. Dizem os estudiosos do assunto que é essa «diferença» que impele à complementaridade, e à necessidade de estarem sempre os dois presentes.

Porém, nos dias de hoje, tudo mudou. Deixou de ser um debate isomorficamente dual. Hoje dizem que não há apenas dois tipos de género. E nas atuais universidades até há cursos e disciplinas obrigatórias sobre isso. Basta consultar os folhetos ou os sítios online. No ISCTE designam por LGBTTIS (acrónimo de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgéneros, Transexuais, Intersexuais e Simpatizantes) uma dessas disciplinas. Sendo que entendem por «Transgéneros» tipos como os «travestis, transexuais, transformistas, crossdressers, bonecas, drag queens, e semelhantes». E por «Simpatizantes» (Aliados ou Queer) ainda outros tipos minoritários. Dizem que os alunos universitários nessas disciplinas vão estudar (passo a citar): «A diversidade e a complexidade culturais do género e da sexualidade. As vivências da diversidade social humana. O comportamento sexual não normativo.»

Bem, agora imaginem quotas para todos estes tipos de género. A eleição para o COP por agora ficou na tradição dual. Imaginem os comentários da maioria dos que aqui escrevem se fosse um debate com esses géneros LGBTTIS. Se esses doutos estudiosos tiverem razão então talvez haja uma probabilidade estatística de, num inquérito às/aos atletas olímpicos, haver mais do que dois géneros. Ou não?

Desculpem a vontade de sorrir, mas é neste relativismo que melhor se vê o ridículo de algumas opiniões.
Talvez

Anónimo disse...

Exma.Sra.do dia 19 de Fevereiro de 2013 ás 00.30,só hoje é li a sua resposta,pois agora eu digo-lhe o Sr.Paulo não fez nada na C. M.de Oeiras porque se calhar também não tinha muito para fazer,agora o que a Srª.não pode negar e pelos vistos não sabe é o seu percurso no Desporto Nacional, principalmente na Alta Competição,como atleta,treinador e dirigente,com Presença em 8 Jogos Olímpicos.Com trabalho feito a nível Nacional e Internacional.Se isto não tem importância é porque se calhar incomoda muita gente e não dá muito jeito ter uma pessoa com qualidade a frente do Desporto de Alta Competição no país porque não queremos evoluir,queremos ser sempre os coitadinhos e pequeninos.