terça-feira, 2 de março de 2010

Os guarda-portões

O sucesso das organizações depende, em grande parte, da qualidade dos que as servem. São as pessoas e os princípios que as orientam que determinam as boas práticas.
A qualidade envolve capacidades técnicas no que respeita à missão das organizações. Mas as boas práticas requerem igualmente características pessoais. O que é mais importante? As competências técnicas ou as características pessoais?
Costuma-se dizer que há pessoas a quem não comprávamos um carro em segunda mão. O risco de sermos enganados é, nestes casos, grande. Há situações em que o carácter é bem mais importante que as capacidades. Até se diz que é preferível uma pessoa de que se discorda mas que é frontal, do que uma outra que muda de opinião em função do interlocutor.
Uma pessoa poder ser muito competente. Mas se não inspira confiança nos que dirige e a quem se dirige, o seu trabalho será sempre prejudicado nos resultados que alcança. É isto também transferível para a avaliação das organizações desportivas?
Para quem acompanha a vida destas organizações, designadamente as do topo do sistema desportivo onde existe estabilidade programática e lideranças prolongadas, não é difícil de constatar uma inconstância de posições, que podem ser atribuíveis tanto a mudanças de opinião, como a mudanças de contexto. Mas que também podem cair numa órbita de natureza mais compreensível à luz da condição humana. Por vezes pecadora, frágil, adaptável e maleável.
As organizações desportivas passam pelos mesmo ciclos e climas organizacionais que outras.Com duas singularidades: uma grande resistência á mudança; uma crescente presidencialização. A primeira bem patente no facto das mudanças serem quase sempre resposta a exigências exteriores: de “casos” ou de imposições do poder político. A segunda de as organizações se tenderem a moldar ao “estilo” e ao ritmo do seu líder.
Isso explica, entre outras coisas, que alguns lidem melhor com as exigências do poder político, de que aceitam depender, do que com a crítica. A indulgência que concedem a uns é bem contrastante com a severidade com que usem para com os outros. E a solidariedade inter-pares é fácil quando todos aparentemente esperam ganhar. É fratricida quando o poder, a distribuir ou a receber, o não é de forma igual. E, normalmente, são as que melhores resultados alcançam, que são as mais “invejadas”.Porque têm mais “apoios”, porque são mais “lobistas “, por isto ou outra coisa.
O risco de generalização é enorme. Mas enganador. Porque seguramente existem excepções. Mas tradicionalmente cada modalidade vive para si. E os êxitos alheios poucas vezes são atribuíveis à competência. E mais a factores de contexto: os apoios que uns têm e outros não. O que é uma explicação redutora e falsa. Mas que permite que as lideranças nunca sejam avaliadas pelos resultados que alcançam. Há sempre explicações e atenuantes. Normalmente do lado das políticas públicas. O que resulta que quem persistentemente viva de inêxitos, por eles não responda. E que quem alcança o sucesso o seja por causas externas ou conjunturais. Raramente ao mérito e à competência.
O facto é que, nas organizações desportivas, há êxitos que resultam da capacidade de quem as dirige; e insucessos que reflectem má orientação.
Para a perenidade directiva o insucesso é irrelevante. Mantém-se quaisquer que sejam os resultados alcançados. E a explicação não está em qualquer dimensão afectiva ou ausência de alternativa. Mas numa lógica de profissão: gosto do que faço; e o que faço compensa-me com o que eu não alcançaria se não estivesse a fazer o que estou. E o poder e a sua perpetuação transformam-se num fim em si mesmo E a organização passa a ser instrumental. E o que gerem uma espécie de propriedade. De que se assumem como os guarda-portões. Controlam as entradas. E não pretendem ver o seu trabalho externamente avaliado. Basta que essa avaliação seja feita internamente. Por autoavaliação. Sempre justificada.
Por mais legislação que se publique nada disto se alterará. A boa governação continuará a depender das pessoas. Mas quando as pessoas não são responsabilizadas pela má governação o sistema colapsa .Porque atinge todos: os que têm sucesso e os outros.A menos que acreditemos que às organizações desportrivas se pode aplicar a lei de Gresham...

8 comentários:

Luís Leite disse...

Excelente post.
Totalmente de acordo.
E em Portugal, aplica-se a todas as organizações, em especial às Federações.
Só que em algumas (a maioria?), nem auto-avaliação existe.
O poder torna-se, simplesmente, eterno.

G A S P A R disse...

O problema não é dos que lá estão, é daqueles que os elegeram, eventualmente ludibriados por propagandas/manobras económicas/politicas que não se vieram a confirmar, e que depois se acomodam ao sistema vigente.

A grande virtude deste dirigismo eterno está no tradicional comodismo e conformismo português.
Todos comentam, acham mal, têm ideias (algumas boas), mas na altura (estatutária) em que podem e devem fazer valer os seus direitos, não os exercem.

Faz-me lembrar a história dos três macacos numa jaula, que sempre que tentam chegar a uma banana (aqui o poder o seu sentido não prejurativo, mas sim pro-activo), levam um banho de água gelada e a partir sempre que algum macaco tenta lá chegar, é maltratado e violentado pelos outros dois para que não mais levem banhos de água gelada. Progressivamente os macacos vão saindo e entrando novos macacos, que sempre que tentam chegar à banana, sem saber porquê são igualmente maltratados. Ás tantas, todos os velhos macacos saíram da jaula, e os novos continuam-se a maltratar sempre que um tenta chegar à banana, sem que nenhum dos presentes saiba o motivo para tal atitude e deixam de ligar à banana.

Está assim consumado o desinteresse pela banana, ou seja, o desinteresse pela pro-actividade e inovação no poder.

Falta saber quem é o responsável pelos baldes de água gelada. Serão certamente "outros quinhentos"...

Luís Leite disse...

Meu caro Gaspar,

Há que distinguir o que se passa na Administração Pública Desportiva do que se passa nas Federações, COP e CDP.
Na primeira, trata-se de cargos de confiança política, legitimados pelos votos no partido que ganhou as eleições. Competentes ou incompetentes, os "boys" estão sempre legitimados.
Nas outras, prevalecem interesses de natureza diferente: o Chefe vai gerindo as coisas de modo a ir distribuindo cargos interessantes e benesses várias àqueles que sabe que não têm coragem de contestar o seu desempenho; trata-se, portanto, de comprar a eternidade, criando-se assim um vácuo de alternativas, obrigatoriamente perdedoras ou ausentes em eleições.
E o sistema funciona muito bem!
Se o Chefe for inteligente ou esperto, tem sempre tudo na mão.
São poucos os casos em que assim não acontece.

G A S P A R disse...

Exactamente!
O chefe sempre que algum macaco tenta chegar à banana, deita mais um balde de água fria em cima de todos os outros.
Penso que de maneira diferente dissemos a mesma coisa.

Mesmo na administração publica o facto de se nomearem determinadas pessoas de "confiança" politica ou outra, em muitos casos não passa de um balde de água gelada que é deitado sobre todos os outros.

Atenção, que apesar de generalizar não posso, nem devo/devemos, colocar tudo no mesmo saco.

Como o autor do "post" afirmou e bem: há casos de sucesso. Falo do poder eternizado em alguns órgãos. Eternidade essa que pode ser personificada numa só pessoa, ou num conjunto de elementos que alternadamente perpetua as politicas.

Tudo uma questão de metáfora...

Anónimo disse...

Pois! O JMC tem razão no seu artigo. Mas também é certo que enquanto Presidente do IDP também teve o seu "Grupo de Oeiras"...
Isto da filosofia da Gestão têm muita coisa a dizer, antes de chegar ao comando! Da prática à realidade vão milhas! O tal Grupo de Oeiras era um grupo à parte da restante população! Não sei à data como é que o JMC colocou em prática o que aqui filosofa!

ftenreiro disse...

II
Há falta de estudos e análises, mais no desporto, do que já acontece na sociedade portuguesa.

Quando há um fracasso é necessário analisar o que se passou para se evitar repetir os mesmos erros futuros.

Com o Katrina foi isso que aconteceu. Os Russos querem compreender o que se passou em Vancouver porque só ficaram em sexto.

Esse era o acto de coragem e responsabilidade a assumir depois de Pequim e que não se assumiu em Portugal.

Havia condições na sociedade para o fazer, houve medo de abrir uma caixa de Pandora.

É um medo irracional e entranhado no desporto português.

CARLOS QUEIROZ
Veja-se o caso do Queiroz cujo projecto é hoje apresentado no Público.

Ele tinha o projecto há vinte anos e em Portugal não o quiseram ao contrário do mundo que o chamou e aprendeu o que ele dizia.

Quantos atletas portugueses se perderam com este comportamento e quantos clubes ficaram prejudicados pelo projecto aleatório que tem estado em vigor desde lá.

Aleatoriamente ganhamos o Euro 2004 e o Porto foi campeão muitas vezes.

Teria Portugal sido prejudicado pelo projecto Queiroz e a selecção e o Porto não teriam condições para vencerem o que venceram?

Qual teria sido o impacto do projecto Queiroz em tudo o que aconteceu em Portugal durante os últimos 20 anos?

O que prevaleceu para as outras modalidades foi o presidente da federação que correu com o Carlos Queiroz, não o assumir de um projecto técnico para formar campeões do mundo.

Há poucos anos houve uma pessoa que disse que fazer um projecto inovador no futebol, sustentado num estudo económico por mim realizado, era dar o passo maior do que a perna.

O medo de fazer bem feito como faz a Europa é imenso e é natural.


O PORDATA
O PORDATA mostrou que o desporto não é relevante e que o país avança mesmo sem desporto.

O desporto português tem Atlas e Cartas, um conceito de há meio século, que está na mais recente Lei de Bases da Actividade Física e do Desporto.

O PORDATA e o país trabalham com estatísticas.

Ou o desporto dá os passos que deve dar em competitividade com todos os outros sectores da actividade ou afunda.


No PORDATA afundamo-nos.

Com Carlos Queiroz vimos à tona.

Nós afundamo-nos todos, porque não somos capazes de actuar de forma gregária em direcção a um objectivo.

Este quadro do desporto português não parece sustentável europeiamente.

A crise económica e os apertos financeiros vão bater ainda mais forte e não há um programa como os que a União Europeia faz.

É materialmente expectável que o nosso futuro seja divergirmos da Europa não definindo objectivos, programas de longo prazo e formas de mobilizar a sociedade.

Devemos recear o nosso fracasso geracional.

ftenreiro disse...

Tenho dúvidas que este tipo de sucesso exista objectivamente, quando o quadro geral soçobra. O ganho relativo pode ser útil mas no potencial todos perdem.

I
A União Europeia apresenta hoje o projecto Europa 2020 em que refere que os fracassos nacionais prejudicam a Europa.

O programa Europa 2020, que substitui a Estratégia de Lisboa 2010, tem objectivos que gostaria de ver alguém que liderasse o desporto português ou alguma das suas instituições afirmar questões equivalentes como:

1 - o desporto português abrangeria 50% dos portugueses.

2 - seriam criados milhares de postos de trabalho directo e indirecto.

3 - que os praticantes federados atingiriam os 25% da população.

4 - que os clubes são a base sadia do desporto e que até 2020 seriam criadas condições para o financiamento sustentável dos clubes pelas famílias.

5 - que os árbitros e técnicos teriam projectos de valorização profissional para lhes permitirem competir em todo o mercado europeu.

6 - que os jovens atletas de todas as modalidades teriam assegurados a sua formação dual, escolar e desportiva, até ao nível que fossem capazes de atingir.

7 - que o desporto profissional de todas as modalidades, seria o topo sustentado e promotor do todo federado.

8 - que as faculdades e as federações desportivas seriam incentivadas a trabalhar conjuntamente, havendo financiamentos significativos por parte do Estado para as aplicações úteis na perspectiva do bem comum.

9 - que o automobilismo, o golfe e todos os mega-eventos de iniciativa de João Lagos e de outros empresários de sucesso teriam um financiamento próprio distinto do financiamento destinado ao desporto de base e melhoria da condição física da população portuguesa.

10 - etc.

Se estivéssemos numa Europa consequente era isto que eu gostaria que um líder do desporto nacional assumisse sobre o desporto português, o fundamentasse e recebesse da sociedade o apoio consequente.

ftenreiro disse...

Ao Anónimo

Assisti a inúmeros DG's e devo dizer-lhe que aquele a que se refere teve um comportamento exemplar no computo geral.

Foi pena ter estado pouco tempo.

Há outros que nem reconhecem a sorte grande que lhes sai.

Condescendo que as coisas são sempre dificeis e parecem pior do que são.

Convido-o a aceitar também que é sempre possível ultrapassar as dificuldades e procurar dar a volta, reconhecendo os valores dos outros, o que o JMConstantino demonstrou capacidade para fazer.

Falo por mim e creio por outros que estiveram e estão.