quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O momento do desporto português é crucial



Texto da autoria de Fernando Tenreiro cujo envio se agradece.


O Colectividade Desportiva incentiva ao envio de postes o que aproveito para marcar o actual momento do desporto português.

O desporto que não fala e que não se manifesta é parte do problema, não é parte da solução do desenvolvimento nacional. A complexidade da realidade obriga-nos a desdobramo-nos e isso acontece com os Gaspares e os Vicentes Mouras, e até a economia do desporto que dispara em todas as direcções. Como podemos concentrar-nos e arrumar ideias? O que é que eu posso fazer?
Posso dizer com sobriedade que sou um especialista e um opinion maker. Para a especialização investigo as questões económicas no desporto, respondi a solicitações de organizações e instituições, públicas e privadas, nacionais e internacionais, e sucessivamente tirei uma pós-graduação, um mestrado e um doutoramento. Tenho sido contactado por organizações internacionais como especialista europeu em economia do desporto. Como opinion maker escrevo artigos nos principais órgãos da comunicação social escrita há mais de vinte anos, tendo algumas das peças sido elogiadas dentro e fora do desporto. Ou seja, nos tempos que correm é necessário ser preciso nas afirmações. Eu sou um especialista e como investigador trabalho para fazer avançar o conhecimento no domínio da economia do desporto. Outros fazem-no noutras áreas e outros, ainda não são especialistas e para serem especialistas ainda deverão trabalhar (mesmo que as circunstâncias agora os coloquem em pedestrais para os quais objectivamente, quando analisada a realidade dos factos, deixam a desejar). Não estou limitado nas funções de especialista, investigador e opinion maker por questões partidárias ou corporativas. Os partidos e as profissões são muito importantes e, contudo, o PS e o PSD têm lacunas, o CDS, PCP e BE são desconhecidos desportivos. Isto apesar do desporto deles necessitar enormemente.
Dizer que ‘O Modelo Português do Desporto Faliu’ é fácil. Qualquer um o pode dizer. Como investigador preocupa-me sustentar a afirmação com princípios e dados estatísticos, testá-los em trabalhos aprofundados e em debates alargados, quer com investigadores, quer com líderes capazes de abordar com coragem e responsabilidade as questões que esmagam a actividade desportiva portuguesa. As minhas lentes são as da economia, ou procuram ser, não são de qualquer outra área do conhecimento desportivo. Agindo desta forma conto encontrar respostas do que é o Modelo Português do Desporto, o que é e como compreender a falência e quais as causas do que se passa.
Como investigador apercebo-me que ‘o céu está a cair em cima’ dos líderes desportivos portugueses. Face à complexidade da realidade desportiva e nacional, observo a dificuldade objectiva dos líderes em tomar essa realidade peculiar para a transformar, assim como, de lidarem com estruturas eficazes de governança desportiva nacional que não existem e têm funcionado mal por norma.
Num nível institucional, mais elevado do que as lideranças particulares, as federações e o olimpismo, os governos, o parlamento, a universidade, a sociedade portuguesa continuam a falhar a compreensão do desporto moderno e de como aplica-lo bem à realidade e dinâmica da sociedade portuguesa.
Ainda mais elevado o desporto falha princípios éticos. As gerações de líderes não se respeitam mutuamente. As gerações mais velhas apropriam-se do poder que alcançam e sem respeito pelas que se seguem trucidam expectativas de renovação do desporto português. As gerações mais velhas não são respeitadas no seu saber e experiência e são aproveitadas na sua senioridade/senilidade pelos poderes instituídos para esmagarem a razão da democracia e da competitividade dos parceiros desportivos.
Face à complexidade, ao nepotismo e irracionalidade que tomou conta das nossas vidas há que fazer as pazes, assumir o diálogo com o outro e ‘dizê-lo com flores’.
É uma irresponsabilidade e uma negligência imensas exigir aos atletas portugueses condições de trabalho e de exigência que os líderes desportivos não assumem para si. Não é correcto tratar a sociedade portuguesa como incapazes de compreender o que se passa de bom e de mau no desporto português. Definitivamente a sociedade portuguesa não é estúpida!

13 comentários:

Luís Leite disse...

Caro Fernando Tenreiro:

O problema principal (nº 1) do Desporto português é cultural.
E como tal, não é possível mudar seja o que for a curto nem a médio prazo.
Tal não depende de especialistas ou de boas vontades de quaisquer agentes ou "opinion makers".
Em Portugal existe Futebol, jogado quase totalmente por estrangeiros, por razões de mercado.
O resto é significativamente insignificante.
O segundo problema (nº2) decorre do primeiro e consiste na ignorância e desinteresse dos políticos pelo Desporto, em tudo o que não possa dar visibilidade imediata e votos, com base no politicamente correto.
O terceiro problema (nº3), decorrente do primeiro e também do segundo, é que a maioria dos portugueses não se interessa mesmo nada por desporto, embora uma maioria qualificada esteja, "de alma e coração", rendida à clubite.
Com o devido respeito, um país no estado cultural, moral e ético em que este está, não se deve sequer preocupar com o Desporto, porque há outras áreas muito mais importantes, essas sim cruciais.
Trata-se, muito prosaicamente, de arranjarmos maneira de conseguirmos sobreviver.

Fernando Tenreiro disse...

Caro Luís Leite
Obrigado pela sua abordagem.
Concordo em que não é possível depender de particularidades como os especialistas ou o governo.
A questão é que eu não deixo de ser um especialista ou pensar actuar como tal sendo esse o meu contributo material.
Eu suponho que a sua experiência no atletismo e no desporto são relevantes e não tenho uma solução mágica para a maximizar pensando que ela é possível.
Ainda quanto aos governos, não esquecer que os modelos desportivos com melhores resultados possuem governos activos, precisamente por uma questão de sobrevivência.

Luís Leite disse...

Nada tenho contra governos activos.
Mas a sobrevivência a que me refiro tem a ver com desemprego, com não ter um tecto e não passar fome.
Discordo de si quando titula "O momento do desporto português é crucial".
Não é, nem nunca foi e muito menos será numa era de profundíssima crise económica, financeira, moral, ética e social.
Sendo uma questão de prioridades, se nunca o desporto foi prioritário quando havia dinheiro, não seria agora que o haveria de ser...
À parte o futebol, nos anos 60 e nas últimas duas décadas, sempre fomos desportivamente insignificantes no contexto europeu.
E as exceções pontuais só confirmam a regra.

O Homem Invisível disse...

Quando se fala em momentos cruciais, vale a pena relembrar a perspectiva de Abraham Lincoln no seu discurso ao congresso em 1862:
"The dogmas of the quiet past are inadequate to the stormy present. The occasion is piled high with difficulty, and we must rise with the occasion. As our case is new, so we must think anew and act anew, with must disenthrall ourselves, and then, we shell save our country".

Perfeitamente atual...

Seja qual for o grau de responsabilidade (e a área de intervenção...) é sempre útil rever a clássica palestra de Ken Robinson no TED talks:

http://www.ted.com/talks/lang/pt/sir_ken_robinson_bring_on_the_revolution.html

A mim faz-me bem recordar esta perspetiva de encarar o presente...mas eu não sou nenhum especialista e muito menos um líder de opinião (sim já existe este termo em Português).
PS: e mesmo que o fosse nunca começaria qualquer conversa com essa referencia ...

Fernando Tenreiro disse...

Aí é que está a arte!

É esse o desafio para o primeiro presidente do COP depois de Vicente Moura: colocar o COP a liderar um novo desporto.

Acredite que 'vamos ter homem' mesmo que seja aquele cujo nome não podemos pronunciar!

Luís Leite disse...

Caros "Homem Invisível" e Fernando Tenreiro:

Quando os argumentos são "actos de fé", acabam-se os argumentos.

Eu também prefiro alguém (que não posso pronunciar) para o cargo.

Só que, conhecendo bem aquela olímpica realidade, não acredito que se possa mudar grande coisa, dadas as questões estatutária (limitações do âmbito das atribuições do COP) e conjuntural do país.
Preferiria que esse alguém se reservasse para outras funções políticas mais importantes e construtivas.

Cumprimentos.

Fernando Tenreiro disse...

Sobre o 'Invisível'

Agradeço-lhe o conselho de comedimento e 'caldos de galinha'.

Aceitando o seu termo de líder de opinião, nós somos diferentes e para resolver os problemas nacionais, eu escrevo.

Eu escrevo artigos de opinião e creio que não me tenho saído mal ... provavelmente poderia fazer melhor ...

Eu usei-me para sustentar uma coisa que considerava importante.

A nota curricular é suficiente para sustentar o que digo? Por vezes sim, por vezes talvez e por vezes não!

Tenho orgulho em coisas que faço. Quando envio os artigos para os jornais e eles são avaliados por pessoas a quem não paguei, nunca vi, não conheço, não tenho nem fiz favores de espécie alguma e depois chegam-me apreciações positivas do meu trabalho que eles publicaram, como compreenderá, o meu ego sobe umas décimas.

Você conhece este sentimento porque já o deve ter tido seguramente de outra forma qualquer.

O contrário também é verdadeiro, as coisas saem mal e lá cai o ego aos trambolhões.

O que apresentei é visível e contraditável e foi isso que você legitimamente notou que faltava erudição e havia uma imposição curricular.

Podia ter feito diferentemente ou como sugere?

Evidentemente.

Foi assim que me saiu naquela manhã!

Com o Relatório do FMI tive a sensação que o desporto estava/está tremendamente exposto e sem defesas com gerações de líderes um pouco perdidas nas suas vidas e nas condições que o país lhes impunha.

Acrescentei duas ou três coisas mais a essa minha percepção de emergência.

Obrigado pelo seu comentário e link do TED.

O Homem Invisível disse...

Fernando Tenreiro,
Agora esteve mto bem.

A minha perspectiva sobre o Ego mudou muito desde que li "um novo mundo" de Eckhart Tolle, daí que quando ouço demasiadas vezes a palavra "eu" tenho a tendência (talvez abusiva) de deixar um recado que para bom entendedor meia palavra basta.


Tal não retira verdade ao seu texto nem mérito ao seu trabalho e este seu comentário demonstra mto nível.

...
Luís Leite,

Entendo que falta objectividade para contribuir melhor para o tema, mas vejo os actos de fé como uma manifestação positiva.
Por falta de melhor conhecimento técnico da minha parte, sonho com um novo posicionamento perante a liderança.

Nada de grande se faz sem sonho ... e todas as mudanças começam com actos de fé.

"Julgar-se-ia bem mais correctamente um homem por aquilo que ele sonha do que por aquilo que ele pensa." ... Vitor Hugo

Fernando Tenreiro disse...

Espero vê-lo mais vezes 'homem invisível', inclusive ultrapassando a impossibilidade que se impõe.

Note que os dois momentos fazem parte do todo contraditório, como a sua invisibilidade que quer ser visível.

Luís Leite disse...

Homem Invisível:

Os homens julgam-se pelos actos e não pelo que sonham ou pensam.

Um programa de intenções (ou um projecto) nunca deve ser um acto de fé, já que a fé é dogmática e baseia-se num acreditar irracional.

Já agora: Você usa ligaduras e roupa como o clássico Homem Invisível?

O Homem Invisível disse...

Fernando Tenreiro e Luís Leite,

Prefiro o anonimato, talvez por ficar mais à vontade para dizer o que penso (ou seja, alguma cautela ou falta de coragem, leia-se...) e não criar nenhuma inimizade neste meio onde trabalho.

Também concordo que 1 projeto não deve ser 1 acto de fé, por ser demasiado vago... Agora que os homens não se julgam pelo que sonham ou pensam, aí discordo totalmente... acho até que é a melhor maneira de julgar, aliás de conhecer, os homens.

Ehehe, "a invisibilidade que quer ser visível" essa foi excelente...

Não uso ligaduras :) e garanto que não conheço nenhum dos dois pessoalmente a não ser de alguns posts neste blog.
Cump's,

Fernando Tenreiro disse...

Há humor e boa disposição pelos comentários do CD!

Luís Leite disse...

Homem Invisível:

Há muita gente faz o oposto do que defende ou receita: "Faz o que eu digo, não faças o que eu faço".
Prefiro os que "são" aos que apenas "pensam" ou "sonham", sem menosprezo para os pensadores ou sonhadores.