terça-feira, 23 de abril de 2013

No campo de jogos, a sala de cirurgia




Se tivesse de expor uma "instalação" sobre o valor das aulas de EF, sobre o valor da prática desportiva, colocaria no meio de um campo de jogos o equipamento de uma sala de cirurgia.

E esta ideia não é nenhuma aberração porque, reparem bem, tanto o espaço como o equipamento escolhidos evocam a dor! Não há ninguém que se gabe de poder escapar à dor e, por isso, é uma experiência por todos nós sentida. Logo, a sala de cirurgia é o lugar ideal para se avaliar o investimento feito nos ginásios e campos de jogos  porque é na situação extrema, no limiar entre a vida e a morte, que empiricamente se observa a eficácia do treino para resistir às dores ali partilhadas.

São várias as questões que se colocam, tanto do lado de quem opera como da parte do operado. Como é que o médico lida com o cansaço de tantas horas em pé e mantém  sem tremer, a sua motricidade fina? Como é que consegue, ao mesmo tempo, liderar e manter solidária toda a sua equipa? Como é que o doente aguenta, resiste e supera as suas dores?

Para ponderar estas questões temos de analisar a relação entre o campo de jogos e a sala de cirurgia. Na sala de cirurgia há tempos e decisões que nos lembram, numa equipa, a diferença entre ter e não ter a bola e, num jogo, a complementaridade entre ataque e defesa. Quem tem a bola tem o poder de, em segundos, decidir a sorte da equipa. Qualquer falha na decisão conduz a uma dor que está tão presente e é tão frequente que dela não falamos, só a sentimos, refiro-me à dor da humilhação!   

A dor remete não para o certo, para a norma, mas para o errado e para o desvio. A dor é um aviso e é, também, um castigo ao desvio daquilo que se espera ser uma boa decisão, uma boa actuação. Há por trás de cada dor uma moralidade associada. Um treino muito duro provoca dores e, com uma certa violência, se ensina aquele corpo a ter prudência, a dosear o esforço no jogo, na corrida, na vida. Mas, paradoxal ou nem por isso, o engenho inventivo decorre de desvios, de erros, de muitas dores já sentidas. As vitórias são uma bebedeira que entorpece os sentidos e, levados no ar, seguimos o soma e segue. As derrotas doem tanto que nos prendem ao chão e, parados, dão-nos tempo para pensar e reflectir.

Na cirurgia, a equipa ataca muitas vezes quem não vê, faz um jogo de cabra-cega com bactérias, com o infinitamente pequeno que compõe o interior do nosso corpo. Ora, nestas circunstâncias, perder é fácil, aprender com essas derrotas é sabedoria. Por isso o paradigma da saúde valoriza os casos difíceis e o bom médico, o bom hospital é aquele supera as piores dores. Na educação todo este paradigma é subvertido e o que se valoriza é, pelo contrário, o colégio que, sem dores, escolhe e acolhe os melhores e sem grande desafio os prepara para as vitórias em exame. E, à margem desta glória vã, ficam aquelas escolas públicas que atacam vários males sociais que ninguém quer ver ou ter. São elas, com grande jogo de cintura, que cumprem o maior dos desafios: não só reparam nos erros e nos desvios como, mais importante, ajudam a reparar vários erros evitando muitos desvios. São estas escolas que, a prazo, nos aliviam de dores maiores porque é com o seu trabalho que se evita a exclusão e se produz solidariedade social.

É no campo de jogos que nas primeiras décadas da nossa vida aprendemos o significado e o valor da dor. Pelo campo de jogos passam todos, jovens comuns e atletas olímpicos, os possíveis doentes e também os médicos. Pela escola pública passam todos, os poucos com posses para contratar especialistas que preparam os filhos para entender o busílis do GAVE e os muitos outros sem posses para enfrentar esse desígnio. A escola é o lugar onde todas as dores são mais sentidas e para as conseguir escutar precisa de sossego, de decisões políticas mais lúcidas que fomentem a justiça social. E quando o campo de jogos é o espaço de ataques políticos cirúrgicos, a prazo, aumenta-se a dor na sala de cirurgia! 



NF: Este texto é inspirado pelos resultados de um estudo realizado pelo grupo de EF, da EB 2,3 Gaspar Correia, sobre o valor da avaliação dos alunos na EF. Grata pelo convite e a todos os que estiveram presentes na sessão. 

13 comentários:

Luís Leite disse...

A autora já terá ouvido falar em anestesia, anestesistas e anestésicos?
As salas de operações são os locais onde há menos dores...
A única eventual semelhança com o campo de jogos poderá ser a qualidade do trabalho em equipa...
Mas nas salas de operações, não é suposto acontecerem derrotas por incompetência técnica.
Não se compreende a comparação, quando se alude à dor enquanto humilhação na derrota.
Nos hospitais trata-se de resolver problemas mais ou menos graves de saúde.
Nalguns casos, questões de vida ou de morte.
Trata-se de questões mais sérias...

Ana Santos disse...

Calar, seja com o que for, é sempre um acto de censura e, quando sujeitos a uma cirurgia, os médicos temem a anestesia porque conhecem os perigos que os silêncios forçados acarretam!

Sobre as suas outras dores, de falta de entendimento, não as encare como uma dificuldade mas, antes, como oportunidade de uma relação privilegiada com a sua própria aflição!

Armando Inocentes disse...

Remetendo-nos apenas ao aspecto da EF, será que uma intervenção cirúrgica é mais relevante do que uma aula de EF? Provavelmente não poderemos comparar coisas incomparáveis... até porque o "no pain no gain" está(va) reservado ao alto rendimento - nas aulas de EF não há dor, o que se pretende é formar e não o atingir o melhor resultado.

Um médico pode salvar ou perder um doente de cada vez! Um professor pode formar positivamente ou estraçalhar 30 alunos de cada vez!

No entanto percebe-se o sentido do texto de Ana Santos... tal como a "dor" da escola pública e a "dor" de alguns professores que procuram não estraçalhar os tais 30 alunos de cada vez!

Ana Santos disse...

Quando se sabe o que a dor significa tudo faz/tem sentido. Quando não compreendida, a dor é vivida nua, é difícil de aceitar.

EF sem dor só num campo vazio, sem corpos. Minto, há campos vazios que nos enchem de dor!

Luís Leite disse...

Que grande confusão de conceitos nessa cabeça...
Um conjunto de alusões completamente desprovidas de nexo!
Fazer referencia à "dor" em contextos completamente desligados e sem qualquer razão de ser...
Que falta de consideração pelos que sofrem mesmo!...

Anónimo disse...

Grande é a dor de cotovelo deste LL... E ainda por cima nem sabe do que fala! Experimente entrar para o bloco operatório às 8 da manhã e sair de lá às 2 da manhã de seguida sem comer, sem poder interromper a cirurgia de um by-pass aorto bifemural nem para ir ao quarto de banho e logo verá o que é dor na sala de operações! Ou então ter de estar a segurar os afastadores numa laparotomia, mal posicionado, durante 2 ou 3 horas de seguida, de modo a permitir dar o melhor campo de visão ao cirurgião e verá como doem as costas e as mãos e os antebraços em pedra! E garanto-lhe que se não tiver boa forma física a dor é ainda pior! E depois de tudo isto, por vezes o doente não recupera mesmo e não foi mesmo por incompetência técnica... E isso sim também é uma sensação de humilhação para o cirurgião que deu o melhor que podia e perdeu também!

Manuel Rodrigues disse...

Pois como o anonimo disse, apesar de nao ser suposto acontecerem derrotas por incompetencia tecnica, elas ocorrem por falencia dos sistemas vitais do proprio doente. E nos hospitais tenta-se resolver problemas mais ou menos graves de saude mas nem sempre se consegue. E em muitos casos as questoes de vida ou de morte terminam mesmo em morte apesar de todos os esforcos envolvidos.
( estou em Londres, o teclado nao tem acentos)

Miguel Barbosa disse...

É um vaidoso este LL e com uma impostura intelectual que se vê a léguas; uma soberba que até dói. Valente Ana Santos, gostei!

Luís Leite disse...

Não sei do que falo?
Sei sim.
Sou filho e neto de cirurgiões.
O meu pai fez a guerra de África em Moçambique e esteve 1 ano seguido em Mueda, onde fez centenas de amputações e salvou centenas de miltares em cenário de guerra.
Foi condecorado no 10 de Junho.
Sei o que é a vida dos médicos.
O meu avô e o meu pai foram Directores de Serviço de Obstetrícia e Ginecologia na Maternidade Alfredo da Costa durante muitas décadas.
Puseram no mundo dezenas de milhar de seres humanos.
Não vejo qualquer relação da actividade em bloco operatório com as aulas de educação física ou com derrotas a fazer desporto.
E eu fiz desporto ao mais alto nível, como atleta e com as mais altas responsabilidades de dirigente em Campeonatos da Europa, Campeonatos do Mundo e Jogos Olímpicos.
Olhe, tenha juízo e ponha-se no seu lugar.
E pare de escrever e dizer disparates sem nexo sobre a DOR.

O Homem Invisível disse...

Que raio de texto infeliz!!!

Quem lê este texto e os comentários seguintes, parece um blog de pessoas desiquilibradas!

A muito custo lá se entende o significado do texto, mas com comparações descontextualizadas e principalmente sem nenhuma linha orientadora...

... e alguns dos comentários seguintes, cheios de comparações e alusões a atirar para o pseudo-intelectual... enfim, haja paciência.

Pelo menos os comentários do Luis Leite têm alguma coerencia, mas são os únicos...

Todas as pessoas têm direito a escrever, mas deviam ter o cuidado de se fazerem entender, mais do que quererem brilhar!... Não é que o tema não seja pertinente, mas ...

O "Keep It Simple ......" continua a fazer sentido...

Anónimo disse...

Vamos falar do que interessa.
Procurando um nexo na nova estrutura do COP fiz as seguintes agregações:
I
Relações Internacionais
Relações Institucionais
II
Missões Olímpicas
Atletas Olímpicas
III
Alto Rendimento
Formação, Investigação e Desenvolvimento
Formação de Treinadores
IV
Juventude, Educação e Mulheres
Território, Ambiente e Novas Práticas
Modalidades Não Olímpicas
V
Assuntos Jurídicos
Administração Financeira e Patrimonial
Organização e Recursos Humanos
Comunicação e Imagem

Hugo Falcão disse...

Depois de ler o artigo, continuo sem compreender qual a relação entre o campo de jogos e a sala de cirurgia... Na minha opinião as comparações que a autora faz saem um pouco do contexto, o que torna a compreensão do texto mais difícil.

Pedro Costa disse...

No artigo está escrito que a dor não remete para o certo, mas para o errado e para o desvio, ou seja, um castigo por fazer algo que não se devia.

A minha pergunta é: não haverá dores boas? Dores que vêm com o treino e que preparam o corpo para competir podem ser consideradas "dores boas"?