segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Crepúsculos desportivos (II) -o "perssunal"

Está na moda ter um “perssunal”. Um amigo meu apresentou-me o seu “perssunal” que me dizia que tinha sido meu aluno. Não me recordava dele. Só passado algum tempo percebi o que ele fazia. Trocado por miúdos: trabalhava num ginásio e acompanhava os clientes que querem ter um treinador pessoal prescrevendo o respectivo programa de actividades físico-desportivas. Suponho que também acompanha o modo como o programa é executado e deve dar as respectivas indicações técnicas. Calibra as cargas, define as intensidades e a duração das tarefas. Só aí percebi que o “perssunal” era afinal um “personal trainer”.Coisa que teria sido evitado logo à partida se o meu inglês fosse melhor e o meu amigo me tivesse dito que a pessoa em causa era o seu “personal trainer” e não apenas o seu “perssunal” assim a modos como aqueles homens que não dizem “a minha mulher”, mas apenas “a minha”. O resto um tipo que adivinhe. O jovem dava sinais de muita saúde. Explicou-me que trabalhava em vários ginásios incluindo unidades hoteleiras e que trabalho era coisa que não lhe faltava. Iniciava o dia a uma hora em que meio Portugal ainda dormia e acabava-o quando a outra metade já estava a divertir-se. Mostrou alguma preocupação com a nova legislação para os ginásios, mas sosseguei-o: somos dos mais avançados da Europa a legislar. Mas vem tudo isto a propósito de uma moda que está repleta de anglicismos em práticas de ginásio. Que começa por não se chamar de ginásio mas de “health club”.E vai por aí fora. Confesso a minha ignorância para saber a que se referem algumas das actividades anunciadas que vão desde o “step”-coisa que fui obrigado a perguntar o que era, quando há uns anos me apresentaram uma requisição de “steps”-e que passa pelo body balance, body jam, body pump, localizada, pilates, o RPM entre muitas outras designações que, repito, não sei do que tratam, mas que me dizem já tinha tratamento universitário antes de Bolonha e continuarão a ter após Bolonha. Se têm tratamento universitário é porque têm suficiente dignidade científica, coisa que não posso contestar porque, para mal meu, elementarmente nem sei o que estaria a contestar. Mas que deve ser importante lá isso deve, porque o meu amigo, que gosta de obrigar o corpo a correr e de acompanhar tudo quanto é moda, já teve dois “perssunales”. O primeiro não era um, mas uma “perssunal”, por sinal brasileira, toda giraça e claro, treinou-o tanto, que começaram no ginásio e continuaram cá fora. Para que se não imagine que o treino se esgotou pelos prazeres do corpo importa dizer que a coisa foi de tal modo que esse meu amigo, que nunca tinha feito desporto, começou a correr na passadeira e acabou a fazer meias-maratonas sempre com a sua “perssunal” ao lado e com um aparelho preso a um elástico à volta do peito para medir os batimentos cardíacos. Claro que depois teve que parar porque nestas coisas a idade não perdoa e ele não conseguiu acompanhar o ritmo. E agora tem este “perssunal”. Meto as mãos no fogo pelo meu amigo e sei que, desta vez, não vão passar do ginásio. A minha única dúvida é esta: por que é que esse meu amigo em vez de me apresentar o seu “perssunal” não me apresentou o seu treinador?

domingo, 20 de janeiro de 2008

Subsídios às deslocações: Sai FPF - Entra LPFNP

A longa rábula dos subsídios públicos relativos às deslocações de equipas desportivas do continente às Regiões Autónomas para disputarem competições do campeonato nacional e Taça de Portugal em diversas modalidades teve, desde cedo, um interveniente sui generis - a Liga Portuguesa de Futebol Não Profissional (LPFNP).

Recentes notícias dão nota que o Governo vai actualizar em 10 por cento os valores de comparticipação das deslocações dos clubes do continente às regiões autónomas da Madeira e Açores, valor actualmente fixado em cerca de dois milhões de euros/ano, após uma reunião de duas horas entre o secretário de Estado da Juventude e do Desporto e a LPFNP.

Segundo a Lusa: “O presidente da LPFNP explicou ainda que as verbas não serão canalizadas directamente para os clubes, mas sim distribuídas por intermédio da Federação Portuguesa de Futebol, um processo que foi sempre defendido pelo organismo liderado por Dias Ferreira”.

Ao longo deste trajecto, iniciado com o previsto fim dos subsídios, passando pela sua retoma após as ameaças dos clubes de futebol, até ao recente aumento em 10 por cento, não deixam de causar surpresa alguns epifenómenos na gestão deste dossier:

1. Se o dinheiro é canalizado pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e os campeonatos nacionais e a Taça de Portugal daquela modalidade são por ela organizados não teria esta entidade uma palavra a dizer na referida reunião? Não é esta entidade que tem poderes públicos, reconhecidos pelo Estado para regulamentar a modalidade? Ou será a LPFNP?


2. Quando os clubes de futebol da série E da III Divisão manifestaram-se indisponíveis para participarem naquele campeonato, caso não fosse reposto o subsídio de deslocação para a Madeira e Açores, conforme carta enviada à FPF e posteriormente remetida ao Governo, foram estas as palavras do inquilino da marginal de Algés:
"Conhecemos o assunto, mas ainda não recebemos as cartas (que os clubes afectados enviaram à FPF). Na próxima semana vamos falar com a Federação sobre isso. Não vai haver nenhum problema", afirmou Laurentino Dias.

3. Qual a legitimidade da LPFNP para posteriormente avocar este processo e se reunir com os poderes públicos? Está mandatada pela FPF? É reconhecida por aquela federação? É reconhecida pelo movimento associativo do futebol? È um actor com uma representatividade no mundo desportivo para ter o protagonismo que lhe vem sido atribuído em diversas normas e actos públicos recentes, que outros actores consolidados no nosso sistema desportivo não têm?

4. No entanto, é indiscutível que as reclamações dos clubes foram ouvidas e o Governo viria a emendar a mão através do Despacho n.º 22932/2007, de 3 de Outubro. No disposto no artigo 8.º deste acto administrativo é consignada uma verba para despesas de viagem às regiões autónomas em contrato-programa de desenvolvimento desportivo a celebrar entre o IDP e as federações. Não será melhor aqui, à semelhança de outras, abrir uma excepção para o futebol?

5. Que conclusões se podem retirar da acção do poder político na forma como conduziu este processo e tem privilegiado os contactos com esta Liga? Será que a aludida falta de entendimento e impassividade das associações distritais e da FPF para resolver esta e outras situações legítima que sejam ignoradas e se “chame” outra entidade para dialogar, em seu nome, os problemas o futebol? Será que a política desportiva deste país aderiu à teoria da folha em branco?

Melhores ou piores, competentes ou incompetentes, democráticos ou ditadores, os actores que existem na agenda desportiva são aqueles que temos e não outros, é a partir destas organizações que se estruturam as políticas. Emergiram da sociedade civil e são autónomos em relação ao Estado, pelo menos de acordo com a lei.
Se as práticas sociais podem ser normalizadas e normativizadas, já as estruturas sociais não se mudam por decreto. As estruturas determinam as práticas e representam a sua institucionalização.

Suportar novos actores, abrindo portas ao dia seguinte, por via administrativa e legislativa, ou forçando uma posição politico-institucional que não se revê na realidade, não é mais do que adiar os problemas e recalcar o perfil intervencionista e futebolista do Estado, ratificando a ideia de ingovernabilidade naquela modalidade e reconhecendo a incapacidade de reformar o seu modelo organizativo com as instituições existentes.

Então, nada melhor do que mudar as estruturas, uma vez que as actuais não cooperam e não colaboram, estão ultrapassadas ou são o foco principal dos problemas do futebol.
Se esta fosse uma opção para estancar o esbanjar de dinheiros públicos e introduzir maior independência e rigor na gestão do desporto federado, intervindo numa modalidade estruturante como é o futebol, via-se um objectivo na acção impositiva do Estado, ainda que dele se discordasse mais ou menos. Mas ao olhar para esta LPFNP, para a sua actual projecção nas dimensões politica e normativa do sistema desportivo rapidamente se adensam as dúvidas.

Por último, uma dúvida. A actualização de 10% nas comparticipações às deslocações foi apenas para o futebol? ... ...

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Legislação a mais?

A imprensa dedicou, ao longo de toda esta semana - e veremos se ficamos por aí -, um espaço bem significativo ao denominado "Caso Meyong".
Não é este o local adequado a uma análise técnica do sucedido.
O que nos leva a aditar algo a esta colectividade, situa-se num plano diferente.
Do "Caso Meyong" ressalta, independentemente do exacto alcance das normas regulamentares em causa e das responsabilidades a apurar quanto à eventual irregular utilização do atleta, que o desporto federado é um domínio altamente normativizado.
Na verdade, não me canso de o afirmar, quando nos reportamos à problemática da lei no desporto, existe a errada tendência para considerar apenas a vertente pública normativa.
E chega-se a sustentar que o desporto (no caso, o federado), viveria melhor sem o Direito.
Como se não tivessemos que contar com as normas (estatutárias e algumas regulamentares) dos clubes, com as normas das associações distritais das diferentes modalidades desportivas [estatutos, regulamentos gerais, regulamentos internos(?), regulamentos disciplinares, regulamentos de competição, etc,], com as normas das federações desportivas nacionais (na mesma profusão estatutária e regulamentar), com as normas das ligas profissionais ( outra vez na mesma profusão estatutária e regulamentar) e, por fim (?) com as normas das federações desportivas internacionais (ainda uma vez mais na mesma profusão estatutária e regulamentar).
E tudo isto, acompanhado de divergências entre normas, diferentes interpretações e conflitos entre instituições.
O desporto federado é, sem margem para dúvidas, um dos segmentos da vida social mais normativizado e tal deve ser nítido para todos os seus agentes e organizações.
O desconhecimento ou o erro, nesta matéria, têm custos bem elevados.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Crepúsculos desportivos (I) - o jovem campeão

Algarve. Um atleta, sempre apoiado por uma autarquia no seu percurso de alta competição, distinguido com várias prebendas, ao ser convidado para estar presente num evento local respondeu que o assunto deveria ser tratado com o seu agente. Este, informado do convite, mandou dizer qual era o preço para que o atleta em causa estivesse presente. O presidente da autarquia, chocado com a resposta, lamentou-se daquilo que considerava ser uma enorme falta de gratidão. A sua autarquia sempre apoiou o desporto, sempre prestou apoio ao atleta muito para além do que seria razoável supor e sempre tinha recebido dele a contrapartida de responder positivamente aos convites da autarquia para estar presente neste ou naquele evento desportivo, quando as condições de treino ou de competição o permitiam. O que mudou então? Mudou o sucesso desportivo internacional do atleta, aumentou o dinheiro ganho, apareceu o agente e o atleta não é mais o rapaz simples, simpático e sempre disponível para apoiar as iniciativas desportivas. Dei comigo a pensar, quando me contaram esta ocorrência, que existe um pensamento desportivo que com relativa facilidade anatemiza os dirigentes e absolve os atletas. Sempre que existe um qualquer desvio às normas que supostamente deveriam ser obedecidas lá estão os dirigentes para receber a nota de culpa. É um pensamento que desresponsabiliza os atletas e os infantiliza porque, no limite, lhes transfere as eventuais responsabilidades do que ocorre. O fraco seria sempre o atleta, perante o poder do forte protagonizado pelo dirigente. É um raciocínio simplista e que se não pode aplicar a todas as situações. Em muitas delas os dirigentes não têm qualquer participação e tudo se circunscreve ao atleta e, neste caso, a ele ao seu agente. Bem sei, também, que o exemplo não pode ser generalizado. Mas não é caso único. E por isso serve para reflectir sobre o que se está a passar entre atletas e respectivos agentes. No passado, reduzidos ao futebol. Hoje em muitas modalidades desportivas, designadamente individuais, numa lógica de ganância ao dinheiro em termos e condições -na generalidade dos casos, de clara clandestinidade fiscal quer de atleta, quer de agente - não olhando a meios para receberem(muitas vezes sem facturarem) e ignorando por completo as responsabilidades sociais que têm para com a comunidade. Esta prática está a alterar a realidade desportiva nacional em modalidades onde outrora o dinheiro não era o móbil das condutas e das opções desportivas numa profissionalização encapotada e que, como sucede nestes casos, se reclama de profissional quando ela traz vantagens e se invoca a sua ausência quando ela impõe obrigações. Num outro plano as entidades formadoras e enquadradora, clubes e federações, estão completamente marginalizadas neste processo, assistindo, sem quaisquer meios para contrapor, a uma clara vampirização do sucesso desportivo num processo em que são parte. Talvez não fosse pura perda de tempo a Comissão de Atletas reflectir sobre este tema. Até porque mais tarde, vão ser confrontados com problemas similares enquanto dirigentes desportivos ou adjuntos de políticos que, seguramente, muitos deles, um dia serão.

A sustentabilidade da permanência dos "efeitos permanentes"

A tão propalada reforma da rede nacional de Centros de Alto Rendimento, anunciada por este executivo em diversos actos públicos, e alvo de uma medida de financiamento especifica para o efeito, tem finalmente publicada uma data prevista para a sua conclusão, esclarecendo, na 2.ª série do jornal oficial, as dúvidas que se vinham levantando entre vários responsáveis desportivos e demais cidadãos interessados por estas matérias.
Assim, pelo n.º 2 do Despacho n.º 1742/2008, de 03 de Janeiro, ficamos a saber que a implementação das infra-estruturas desportivas prevê-se concluída em Outubro de 2009.

Aplaude-se o compromisso com uma calendarização de tão importante medida (em termos económicos, ou melhor, em termos financeiros) para o desenvolvimento desportivo deste país, uma vez que nas palavras de Laurentino Dias: "Quando conseguirmos ter um CAR para cada modalidade, o desporto português não voltará a ser igual, pois ficará dotado de muito melhores condições, com a vantagem de terem efeitos permanentes", seja lá quais forem esses efeitos e essa vantagem, porque sobre a permanência não restam muitas dúvidas.

Curiosamente, no mapa de Centros de Alto Rendimento disponibilizado no sitio da Secretaria de Estado da Juventude e do Desporto, apenas o Centro de Alto Rendimento de Sangalhos está adjudicado. Todos os outros, a construir ou a remodelar, encontram-se em fase de projecto.
De acordo com a informação ali prestada crê-se ser apenas um problema de actualização dos dados, uma vez que as coisas em Montemor-o-Velho até já estão mais avançadas. Se assim for será um problema de mais fácil resolução, o qual, a fazer fé na recente estratégia de maior divulgação de informação daquela fonte, contribuirá para suprir as lacunas por certo já identificadas pelos responsáveis na gestão da informação da página de internet.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Negociação + Regulação = Democratização?

Após recentes noticias de aproximação do G-14 às autoridades do futebol eis que se assinou ontem um acordo entre os clubes representantes daquele grupo e a FIFA e a UEFA.
O acordo negociado dissolve aquele agrupamento de interesse económico formado inicialmente por 14 dos maiores clubes europeus (entrando posteriormente mais 4) e cria uma nova Associação Europeia de Clubes, resultante do alargamento do Fórum dos Clubes Europeus, com representatividade nos órgãos de decisão das autoridades europeia e internacional do futebol.

Da negociação surge a retirada das queixas nos tribunais contra a FIFA e a UEFA, comprometendo-se estas a contribuir financeiramente pelas participações de futebolistas em fases finais de campeonatos da Europa e do Mundo, entre outros compromissos.

Daqui resulta um interessante reequilibrio estratégico no mundo do futebol. O qual, como se sabe, tem um contributo decisivo sobre a estrutura do modelo europeu de desporto e a produção política e normativa das instituições comunitárias.

Se os clubes vêem a sua posição reforçada no seio das autoridades do futebol, alargando o campo de discussão e maior democraticidade no processo de tomada de decisão. Estas conseguem estancar um perigoso foco de rotura do modelo piramidal da organização do futebol - um dos pilares do modelo social do desporto europeu - que a existência do G-14 preconizava, com as permanentes ameaças de organização de um quadro competitivo autónomo e paralelo, com objectivos marcadamente comerciais.

É interessante constatar a via negocial que as autoridades do futebol sempre adoptaram como mecanismo privilegiado para gerir a sua agenda política. Esta estratégia assume especial acutilância no incómodo manifestado sempre que as suas regras são sujeitas à regulação pelas normas comunitárias, através da acção da Comissão, mas particularmente do Tribunal de Justiça das Comunidades.
Importa referir que um dos casos a ser retirado do tribunal com este acordo poderá ser o badalado caso Charleroi, relacionado com o pedido de indemnização do clube belga Charleroi à FIFA devido a um dos seus jogadores, Abdelmajid Oulmers, ter regressado lesionado de um jogo particular da selecção de Marrocos, disputado a 17 de Novembro de 2004, frente à selecção do Burkina-Faso. Este caso veio a ter um forte apoio do G-14 e encontra-se em apreciação pelo Tribunal de Justiça das Comunidades sobre eventual violação de abuso de posição dominante e restrição à concorrência e liberdade de circulação, de acordo com a questão preliminar que lhe foi submetida pelo tribunal daquela cidade belga, após o fracasso das negociações de indemnização, entre o clube e a FIFA.

As conclusões do recente acórdão Meca-Medina põem fim num dos argumentos mais fortes das autoridades desportivas para excepção à aplicação das normas comunitárias – as regras puramente desportivas. Abrem espaço a uma nova forma de regulação judicial no desporto, que provavelmente seria aplicada no caso Charleroi, com previsiveis prejuízos para a FIFA.
O Tribunal veio a considerar naquele acórdão que:
a simples circunstância de uma regra ter carácter puramente desportivo não exclui do âmbito de aplicação do Tratado a pessoa que exerce uma actividade regulada por essa regra ou o organismo que a instituiu
Entendimento também corroborado em documentos da Comissão, em particular no Livro Branco sobre o Desporto:
a noção de «regra puramente desportiva» como irrelevante para a questão da aplicabilidade das regras comunitárias da concorrência ao sector do desporto”.
Deste modo estabelece-se um principio de proporcionalidade na análise, caso a caso, dos efeitos restritivos da concorrência inerentes à especificidade das competições desportivas.

Tal significa que não existem orientações que delimitem à partida uma excepção à aplicação das normas comunitárias sobre a lex sportiva conforme sugeria o Relatório Belet do Parlamento Europeu, e ambicionava o Relatório Arnaut patrocinado pela UEFA. Isto põe em causa uma suposta "segurança" e "estabilidade" que as federações tinham no seu dominio de acção.

Seja pela negociação com actores emergentes no mundo do desporto que põem em perigo o seu monopólio, ou através do labor dos juizes no Luxemburgo, as federações desportivas começam a perceber a necessidade de mudar de paradigma organizacional e cederem espaço a uma gestão mais aberta, solidária, democrática e respeitadora das normas públicas. Afinal o fundamento do modelo europeu de desporto onde desempenham um papel central na promoção de um bem público, para o qual estão dotadas de poderes públicos e responsabilidades sociais perante os seus sócios, mas também perante o Estado e os cidadãos.
Os mecanismos de fuga a esta tendência, habilmente geridos pelo mundo do futebol, começam a esgotar-se...

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

O sonho de Oscar Pistorius

Se do poema de António Gedeão retiramos a mensagem sublime de que sempre que o homem sonha o mundo pula e avança, é duro quando enfrentamos organizações, regras e acontecimentos que aniquilam os sonhos de quem neles deposita a sua história de vida.
Em 2003, num congresso internacional partilhei três dias com atletas olímpicas que haviam participado por diversas vezes nas maiores competições internacionais. Entre elas, Natalie du Toit acalentava o sonho de, sem uma perna, conseguir os mínimos para competir nos Jogos de Atenas. Fiquei rendida à bravura e à capacidade hedonística desta jovem sul-africana de 19 anos e passei a estar mais atenta e apaixonada pelo desporto adaptado.
Entre outros atletas portadores de deficiência, fui acompanhando o percurso de Oscar Pistorius e foi com grande decepção que hoje li o comunicado da Federação Internacional de Atletismo (IAAF). Andamos nós a apregoar a inclusão dos deficientes para uma sociedade mais justa e equitativa, a comemorar anos internacionais e europeus da deficiência, a clamar por políticas sociais que combatam a discriminação em razão da deficiência e eis que surge a decisão da IAAF, assente em argumentos técnicos de um determinada investigação biomecânica, que inviabiliza a participação de Oscar Pistorius, um amputado às pernas dos joelhos para baixo desde os onze meses de vida, nos próximos Jogos Olímpicos.
Naturalmente, não será o estudo invocado que colocamos em causa, apesar do atleta apresentar dados contrários fruto de outros estudos, o que nos parece inverosímil é reduzir toda a argumentação, e aniquilar o sonho do Oscar, a restritivos e não conclusivos resultados de ordem biomecânica, quando o ATLETA e a sua performance desportiva apelam e resultam de múltiplas condicionantes, sejam de ordem fisiológica, técnico-táctica, psicológica ou social.
Contudo, como dizia um dos treinadores da Natalie, a tragédia da vida não está em não alcançarmos os objectivos, mas sim em não termos objectivos para alcançar, e destes não desistirá Oscar Pistorius que certamente irá recorrer da decisão da IAAF e continuar a sua carreira desportiva, nem tantos outros com tantas outras histórias de vida exemplares.

Heterodoxias desportivas (I)

Em 2007,Portugal ocupava a 29ª posição no relatório referente ao desenvolvimento humano. Á frente de Portugal estavam os 17 países que compunham, antes do alargamento, a União Europeia, mais a Eslovénia. Os indicadores de prática desportiva, quando comparados com aqueles países europeus, correspondem ao mesmo posicionamento ou não? Ninguém, com segurança, é capaz de responder. Não existem disponíveis estudos que, com o rigor exigível, quantifiquem os indicadores da prática desportiva nacional. André Seabra explica o que valem os estudos publicados, incluindo o do Eurostat, (cf. Níveis de actividade física e práticas desportivas na população portuguesa – uma visão crítica dos factos, in Em defesa do desporto, mutações e valores em conflito) e a disparidade dos resultados encontrados. Como o país não dispõe de qualquer indicador credível sobre quantos praticantes desportivos tem (os únicos indicadores certificados são os licenciados nas federações desportivas) e um estudo da Marktest sobre os utilizadores de ginásios, o melhor é, sobre esta matéria, ser prudente quanto à enunciação de quaisquer valores. Como responder então à questão seguinte: tem ou não aumentado o número de portugueses que praticam desporto? Os investimentos e programas aplicados para esse objectivo têm ou não obtido os resultados pretendidos? Uma observação, mesmo desprovida de rigor científico, levará a dizer que o número de pessoas que pratica desporto e actividades físicas aparentadas é maior do que há dez anos atrás. Apontam nesse sentido os equipamentos construídos, ainda que com diferentes graus de rentabilização, as iniciativas autárquicas, o crescimento do sector privado ligado aos serviços de ginásios e similares. A própria participação desportiva internacional, em muitas modalidades, melhorou em termos quantitativos e qualitativos. Não há um autarca que diga que o seu concelho não cresceu desportivamente - e não devem estar todos a mentir até porque muitas cartas desportivas concelhias confirmam-no - pelo que seria um verdadeiro fenómeno a justificar um “estudo de caso”compreender como é que o todo nacional não reflectiria essa tendência. Resta saber, porque ninguém sabe e era importante conhecê-lo, se a distância para os outros países aumentou ou diminuiu. Uma outra questão necessita de resposta: a de saber se o nível desportivo nacional atingiu o chamado “efeito de tecto” ou seja alcançou o limite que os recursos disponíveis no país e colocados ao serviço do desporto (económicos, financeiros, demográficos, culturais e educacionais) permitiam. Ou se, pelo contrário, eram expectáveis resultados bem mais promissores. Na ausência, uma vez mais, de qualquer estudo credível a resposta vale o que valer a experiência de cada um de nós. E aí é possível constatar que o modo como se têm abordado alguns dos pontos críticos do edifício desportivo nacional limitam o alcance de muitas das medidas: a ausência de qualquer orientação estratégia articulável com objectivos de política desportiva em matéria de infra-estruturas e equipamentos desportivos; a prioridade a programas de promoção do activismo físico em detrimento de programas de promoção do desporto; a ausência de quaisquer opções em matéria de prioridades para a prática desportiva de alto rendimento; a incapacidade para estabilizar um modelo de promoção e participação desportiva na escola; a sobrevalorização do edifício normativo como eixo estruturante das políticas públicas; a inexistência de uma relação sinérgica entre as politicas locais e a política nacional; o carácter errático de muitas políticas associativas; a qualidade da formação dos quadros técnicos superiores de desporto têm sido males crónicos da situação desportiva nacional e, porventura, ainda constrangem e limitam os resultados alcançados. É preciso também reconhecer que muitas das medidas de política desportiva estão condicionadas por outras políticas globais. Desemprego, economia adormecida, escola em crise, não são propriamente parceiros adequados para as políticas de desenvolvimento desportivo. A conjugação de todos estes factores prevalece sobre o voluntarismo das análises que enfatizam como factores críticos a perenidade dos dirigentes federativos (que não é uma circunstância nacional ou exclusiva do desporto e que é mais consequência do que causa do estado da nação desportiva) ou os níveis de investimento público nas federações desportivas (cuja evolução qualitativa e quantitativa é iniludível, malgré tout).

domingo, 13 de janeiro de 2008

“People may learn from my mistakes”

Quando li a condenação da ex-velocista americana Marion Jones, logo de imediato relembrei o perjúrio cometido por Bill Clinton no seu envolvimento com Monica Levinski e, no sector desportivo, tantas outras mentiras sustentadas durante anos por diversos atletas negando o uso de substâncias dopantes e confessadas ulteriormente por alguns deles, como por exemplo o ciclista dinamarquês Bjarne Riis. Relembrei também o recente relatório do antigo senador dos EUA George Mitchell acerca da realidade o doping na liga profissional de basebol, e que confirma o que muitos de nós já não ignoramos, isto é, que o desporto americano de alto rendimento está atulhado de esteróides.
Bem sabemos que a sentença do tribunal de Nova Iorque que determinou uma pena de prisão efectiva de seis meses, mais dois anos de pena suspensa e 400 horas de trabalho comunitário, está para além do plano desportivo e reporta-se a crimes de perjúrio e fraude bancária cometidos por Marion Jones. Porém, não os podemos dissociar do problema de fundo que é a malha negocial sem fim, dominada por máfias de droga e industrias farmacêuticas, que vive dos êxitos desportivos urdidos estrategicamente em teias complexas, envolvendo organizações desportivas, treinadores, dirigentes, médicos, investigadores, empresários e, claro está, os praticantes desportivos que, de uma forma geral, são os que acabam na fogueira.
Marion Jones, a rainha da velocidade, teve pés de barro, mas a sua saga desportivo-criminal, na qual estiveram envolvidos directamente treinadores e maridos, aponta para já apenas uma responsável. O rei vai nu e continuará a seu maravilhoso passeio, porque, provavelmente, até nós espectadores já só nos aconchegamos no sofá para nos extasiarmos com provas, jogos e espectáculos que muito dificilmente estarão “inteiramente limpos”. Por isso e por muito mais, começa a ser urgente debater o doping sem demagogias nem falsos moralismos.

Os Lobos e a disciplina

O Record retoma hoje o tema da declaração de indisponibilidade de jogadores do Direito para representar a selecção nacional de râguebi. Independentemente da valia das razões quanto aos factos que ditaram a intervenção do Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Râguebi e do acerto da sua decisão, a reacção destes Lobos apresenta-se como resposta ao facto de um seu colega poder vir a ser sancionado numa alargada suspensão de actividade, por alegada agressão "ao fiscal de linha da final da Taça Ibérica".
"É a única maneira que temos de chegar à FPR", afirma um dos atletas. "Alguma coisa tem que mudar" e o conteúdo do relatório do árbitro é "mentira, são outras afirmações que pretendem localizar o diferendo e justificar a indisponibilidade para a selecção nacional.
A atitude destes Lobos - «entidade» que, como se sabe, é um repositório de virtudes desportivas e de nacionalismo sem paralelo -, só pode ser entendida - frise-se de novo, sem avaliar agora o acerto ou não da actuação do árbitro e da instância de disciplina federativa -, de uma de duas maneiras: ou estamos perante um gravíssimo caso de fraude desportiva ou face a uma ilegítima pressão perante os órgãos federativos competentes.
Certo, no entanto, é que, se se mantiver a situação, o Hino nacional perderá algum fervor nos próximos confrontos internacionais.
Certo é, ainda, que se vigorasse já o projectado regime jurídico das federações desportivas, proposto pelo Governo, tudo seria bem mais fácil de resolver.
Alguma coisa mudaria ou poderia mudar, com relativa facilidade. Por exemplo,o presidente da FPR, no uso da suas competências, substituiria os membros do Conselho Disciplinar quantas vezes fosse necessário, até que esse (seu) órgão lhe fornecesse a decisão que mais lhe fosse conveniente, independentemente da sua conformidade com os regulamentos da FPR ou com a lei.