domingo, 13 de janeiro de 2008

“People may learn from my mistakes”

Quando li a condenação da ex-velocista americana Marion Jones, logo de imediato relembrei o perjúrio cometido por Bill Clinton no seu envolvimento com Monica Levinski e, no sector desportivo, tantas outras mentiras sustentadas durante anos por diversos atletas negando o uso de substâncias dopantes e confessadas ulteriormente por alguns deles, como por exemplo o ciclista dinamarquês Bjarne Riis. Relembrei também o recente relatório do antigo senador dos EUA George Mitchell acerca da realidade o doping na liga profissional de basebol, e que confirma o que muitos de nós já não ignoramos, isto é, que o desporto americano de alto rendimento está atulhado de esteróides.
Bem sabemos que a sentença do tribunal de Nova Iorque que determinou uma pena de prisão efectiva de seis meses, mais dois anos de pena suspensa e 400 horas de trabalho comunitário, está para além do plano desportivo e reporta-se a crimes de perjúrio e fraude bancária cometidos por Marion Jones. Porém, não os podemos dissociar do problema de fundo que é a malha negocial sem fim, dominada por máfias de droga e industrias farmacêuticas, que vive dos êxitos desportivos urdidos estrategicamente em teias complexas, envolvendo organizações desportivas, treinadores, dirigentes, médicos, investigadores, empresários e, claro está, os praticantes desportivos que, de uma forma geral, são os que acabam na fogueira.
Marion Jones, a rainha da velocidade, teve pés de barro, mas a sua saga desportivo-criminal, na qual estiveram envolvidos directamente treinadores e maridos, aponta para já apenas uma responsável. O rei vai nu e continuará a seu maravilhoso passeio, porque, provavelmente, até nós espectadores já só nos aconchegamos no sofá para nos extasiarmos com provas, jogos e espectáculos que muito dificilmente estarão “inteiramente limpos”. Por isso e por muito mais, começa a ser urgente debater o doping sem demagogias nem falsos moralismos.

3 comentários:

J. Manageiro da Costa disse...

O Doping Austríaco e de Marion Jones na Olímpica Hipocrisia

Em finais de Abril de 2007 ficou a conhecer-se o resultado do processo conduzido ao mais alto nível das instâncias do “Mundo Olímpico” (Comité olímpico Internacional – COI) sobre o “caso austríaco de doping” dos Jogos Olímpicos de Turim de 2006.
Sabia-se dos contornos policiais inusitados que envolveram o “caso” do envolvimento explícito de vários atletas da representação olímpica austríaca em manobras sofisticadas de dopagem – as quais arrolavam inúmeros e variados instrumentos comummente conhecidos nestas “lides manipuladoras” e dificilmente alcançáveis e manipuláveis pelos “simples desportistas” sem apoios cientificamente comprometidos.
Mas também neste “caso austríaco”, como em muitos outros que vão continuamente sendo apresentados no desporto mundial, as penalizações e castigos exemplares ficam apenas para os atletas, os quais são os fundamentais “fazedores” do desporto olímpico onde pululam imensos e inalcançáveis dirigentes internacionais, nacionais dos comités e federações, treinadores, médicos, terapeutas e outros ainda mais sofisticadamente científicos como investigadores laboratoriais de primeira água.
As consciências dos “mandadores do desporto internacional”, e neste caso do desporto olímpico (COI), apaziguam desta forma iníqua e hipócrita as suas consciências (e até os seus “bolsos”), pesadas umas (e os outros também) provavelmente por beneficiarem de um estatuto de quase inamovibilidade e de irresponsabilidade nesta como em outras importantes vertentes da contemporânea degradação e volúpia corruptora que invadiu o desporto de alta competição mundial.
É absoluta estultice e vil hipocrisia encerrar um processo desta natureza e melindre, descansando as consciências dos altos dirigentes desportivos internacionais olímpicos, com a condenação única dos atletas, elo final de uma cadeia em que se apresentam como sendo, simultaneamente, os “fazedores” do próprio desporto e os seus principais e exclusivos escravos e culpados.
Isto num processo como o que esteve em “juízo” que envolve acesso a e conhecimento de uso de técnicas e substâncias complexas que os atletas enquanto tal não dominam ou dominavam por si próprios, entretecido por circuitos furtivos com agentes bem colocados no interior ou nos arrabaldes do próprio sistema desportivo, os quais obviamente têm privilégio de conhecerem e acederem em primeira mão a essas técnicas e substâncias manipuladoras de resultados, e altamente prejudiciais em muitos casos para a saúde dos seus tomadores.
E tudo isto se passando próximo, muito próximo mesmo, de dirigentes olímpicos nacionais e internacionais que são responsáveis pelas respectivas representações dos países e não estão, não podem estar, completamente fora e alhures destes processos – ainda que seja apenas no domínio de rumores ou do reconhecimento de práticas ou comportamentos discutíveis na sua inequívoca licitude desportiva.
Será então possível continuar a assistir-se à aplicação de códigos anti-doping apenas aos atletas, fautores e vítimas do desporto actual, sem que se procurem e se punam os dirigentes que escolhem, apoiam, acompanham e organizam as respectivas delegações nacionais onde estes casos de manipulação desportiva ocorrem?
É possível continuar a defender-se nestes processos a completa irresponsabilidade dos dirigentes desportivos nacionais e internacionais, quando são estes quem define a composição das respectivas equipas competidoras, convivem com os atletas e têm os poderes nacionais e internacionais de superintenderem e governarem o próprio desporto nacional e olímpico?
E os agentes prevaricadores que têm conhecimentos científicos e técnicos sobre estes procedimentos ínvios para o desporto e os atletas continuam e continuarão a ficar desconhecidos e, assim, fora de quaisquer sanções, até de carácter penal?
E alguns destes que são conhecidos podem, como parece que aconteceu uma outra vez neste “caso austríaco”, continuar a passear-se alegre e tranquilamente pelos corredores destas competições mundiais?
O sancionamento dos atletas que assim prevaricam contra a verdade desportiva e a competição leal e justa é necessário como mecanismo de correcção e de sinalização das condutas irregulares, mas a “cadeia de responsabilidade desportiva” nestes casos é mais abrangente e não pode continuar a esquecer os seus principais e primeiros responsáveis: os dirigentes nacionais e internacionais e todo um outro conjunto de agentes que se movimentam no interior e nas cercanias do mundo desportivo de alta competição. Porque os atletas não dominam por si mesmos técnicas, produtos, formas dissimuladoras de utilização, manobras articuladas de investigação e disseminação das substâncias dopantes, etc.
Só quando também as condutas e acções ou flagrantes omissões destes dirigentes forem objecto de correspondentes sancionamentos pelas instâncias que lideram o julgamento destes processos toda a cadeia desportiva será responsável e lutará interessadamente pela promoção de um desporto mais são e mais imune á corrupção e manipulação que o vem tomando continuadamente.
O sancionamento público recente da atleta americana Marion Jones que também agora ficou conhecido só vem realçar que mais uma vez num tão relevante caso apenas a atleta sofre a perseguição e a punição devidas. Ficam por sancionar todos os restantes elementos da “cadeia de prevaricação” que rodearam a atleta e lhe disponibilizaram ou conviveram despreocupadamente com tamanha falta de “ética desportiva”. E sabe-se que quanto à vida humana apenas a referida atleta colocou em causa a sua – por motivos económicos, de fama e prestígio pessoal, mas também, e sobretudo, para alimentar um conjunto diversificado de outros elos de uma extensa e impune “cadeia de desumanidades”.
Nestas histórias de doping mediático mundializado ficam sempre mal os desportistas e sem mácula os que deles e do desporto se servem, ainda que porventura com indisfarçáveis manhas e motivações inumanas e anti desportivas (na tradição do internacionalmente denominado e tão apregoado “fair play”).

Maria José Carvalho disse...

O j. manageiro da costa tocou perfeitamente "com o dedo em parte da ferida". Agradeço-lhe por ter estendido o meu pensamento sobre a matéria, contudo ainda que concorde que a impunidade de dirigentes é gritante neste domínio, não creio que passe a haver um desporto mais são apenas com maior sancionamento da classe dirigente. O problema do doping é complexo demais para encontramos as suas causas e as suas soluções apenas no seio desportivo. São as sociedades capitalistas actuais que alimentam e engrendram negócios múltiplos que vivem única e exclusivamente do espectáculo e do record. Com eles constroem programas e folhetins e enchem maravilhosos telejornais em todo o mundo. Para os patrocinadores e para os governos qualquer campeão vale mais do que cem mil praticantes desportivos. Mesmo o cidadão comum já só quer assistir nos próximos jogos olimpicos, por exemplo, a provas dos 100m abaixo dos 10 segundos. Claro está que a máfia, a indústria e o comércio (nas quais na verdade se incluem também organizações desportivas) vêm campo fértil para medrar, basta arranjar uns intrusos sem escrúpulos, sem pingo de ética para explodirem os campeões.

josé manuel constantino disse...

Algumas notas sobre este assunto:

1ªO desporto actual e as suas epopeias não seriam o que são se não tivessem tido o apoio dos conhecimentos médicos e farmacológicos ;
2.Os limites a esses usos devem estar circunscritos ao que a comunidade científica entenda que são atentatórios da saúde dos praticantes;
3.Igual principio,o da defesa dos praticantes, deve estar presente na regulamentação das condiçoes de trabalho e competição desportivas;
4.A crítica á dopagem no desporto e não em outras práticas sociais obedece a critérios de natureza essencialmente moral pelo que a sua discussão corre sempre o risco de envolver "falsos moralismos";
5.Discordo que os dirigentes tenham siginficativa importância nos processos de dopagem.A maior parte nem percebe do assunto.Hoje por exemplo em algumas modalidades individuais os elementos mais perniciosos são os agentes, alguns dos quais acumulam com a condição de treinadores.