quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

“Gestores, não MBAs!” (da sala de aula à prática)

Já em tempos, neste blog, tinha feito referência a um dos livros que evoca um lema com o qual cada vez mais me identifico. Efetivamente, foi proficiente e muito clarividente Henry Mintzberg na sua recente obra intitulada “Gestores, não MBAs!”, ao afirmar que as salas de aula convencionais de MBA dão demasiada enfâse à ciência da gestão, ao mesmo tempo que ignoram a sua arte e desprezam o seu ofício, deixando uma imagem distorcida da sua prática.

Daí que animada por estes pensamentos e convicta da necessidade de alargar “horizontes e mundos” aos estudantes do mestrado (2.º ciclo) de Gestão Desportiva em curso da minha faculdade, decidi, fazer algo de inovador, no pressuposto de que seria uma boa estratégia formativa para o conjunto de jovens (idades entre os 21 e os 46 anos) que o integram.

Desta forma, em vez de fazermos a 2.ª sessão do módulo de Direito do Desporto nas salas de aula da nossa confortável escola, rumámos até à “capital do Império”, ou se quisermos para as suas imediações e lá trabalhámos durante dois dias.

Contando com a colaboração muito pedagógica da Empresa Municipal Oeiras Viva e da Federação Portuguesa de Atletismo, assim como com contributos valiosos de Colegas e Amigos com quem já laboramos há anos (reforço o agradecimentos sincero a estas entidades e demais intervenientes), os estudantes aprenderem mais nos mencionados dias do que provavelmente em todo o módulo da unidade curricular referida. Direi mais, ao terem sido abordadas várias temáticas relacionadas com o Direito do Desporto e consequentemente com a orgânica das entidades desportivas públicas e privadas, com as opções políticas que concretizam e planeiam, com as múltiplas relações e inter-relações que se estabelecem no sistema desportivo e naturalmente abordando a legitimação normativa e política deste tipo de organizações e seus respectivos agentes, o que fizemos naqueles dois dias permitiu uma melhor assimilação e integração de conhecimentos adquiridos noutras disciplinas e fez com que os estudantes se tenham consciencializado da transversalidade dos conhecimentos no domínio da Gestão Desportiva. Tudo isto numa simbiose harmoniosa entre a prática e a teoria.

Este é, sem dúvida, um caminho a seguir: minimizam-se custos e rentabilizam-se, entre outros, recursos humanos, financeiros e logísticos, com o propósito de melhor formar gestores e profissionais do desporto. E este é um desígnio que a todos nos deve mover, já que, quanto a mim, o fosso profundo que nos separa da realidade desportiva, por exemplo dos nossos vizinhos espanhóis e franceses (vejam a título meramente exemplificativo o que se passou nos últimos 30 anos no andebol português, comparativamente com estes países), é fruto da má política desportiva e da má gestão que reina entre nós nas últimas décadas. Ademais, é angustiante não se verem muitas luzes ao fundo do túnel, apesar de algumas instalações desportivas de eleição e de alguns feitos internacionais de relevo.

Resta-nos, como eu dizia há dias nas provas públicas de doutoramento do Fernando Tenreiro, profissional com obra feita ao longo de anos na Economia do Desporto em Portugal e do qual falarei em próximo texto, pensar nas palavras sábias de Friedrich Nietzsche (1844-1900) “O ser humano sofre tão terrivelmente na Terra que não teve outro remédio senão inventar o riso”. E assim, com um sorriso nos lábios, continuarmos a gerir as nossas vidas honestamente, tentando ser um pouco mais felizes amanhã, mesmo com os brutais cortes salariais (para não lhe chamar outros nomes) que nós os “pobres” tivemos. Se assim for o Desporto também colherá os seus frutos.

15 comentários:

Armando Inocentes disse...

Gostaria e salientar três coisas no excelente artigo da Prof.ª M.ª José Carvalho:

A primeira, a má política desportiva e a má gestão que reina entre nós nas últimas décadas no campo do desporto (não só em geral, mas também a nível de algumas - no plural - federações).

A segunda, enquanto nós (e mais alguns poucos) "continuarmos a gerir as nossas vidas honestamente" muita desonestidade reina também no nosso desporto... e também a nível de algumas - no plural, mais uma vez! - federações.

E a terceira,sem dúvida que precisamos de teóricos que saibam estar na prática e de práticos que conheçam a teoria! Só assim haverá melhor política, melhor gestão e melhor desporto - e menos desonestidade!

Diana disse...

Nem mais nem menos.

Embora os cortes salariais, as injustiças sociais e inúmeros aspectos da nossa sociedade façam enfraquecer os nossos sorrisos,não conseguem fazê-los desaparecer. É com esse sorriso, ainda que por vezes ténue, e com uma força interior característica da juventude, que não desistiremos de lutar por um país melhor!


Quanto à maravilhosa viagem de estudo, que nos permitiu juntar a teoria à prática e ambas ao convívio, tenho apenas que agradecer às diversas entidades envolvidas!

Fernando Tenreiro disse...

Obrigado pela notícia elogiosa e parabéns pela aluna Diana cheia de força.

Maria José Carvalho disse...

Permitam-me apenas três notas:

1- Obrigada Mestre Armando Inocentes! Quem gosta, pratica ou estuda desporto devia ler, pelo menos, a Introdução do seu livro;

2 - A Diana Ataíde é na verdade uma força já real e muito em potencial. Ainda é aluna da licenciatura e por isso é sempre um grande estimulo para mim (e para nós) ter alunas/os assim;

3 - Fernando, há coisas que não se agradecem, a amizade é uma delas, retribuem-se!

Cumprimentos aos três e obrigada pela vossa atenção.

Filipe Borges Albernaz disse...
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Luísa disse...

Na gestão, a teoria é uma base sólida para conseguirmos refletir sobre todos os caminhos que na prática nos são apresentados. Mas é fundamental no ensino, haver uma relação entre a experiência do gestor desportivo com os factores que são apresentados na sala de aula.
A gestão desportiva é uma área muito complexa, sendo até mesmo obrigatório ir ao terreno e estar com quem "percebe".
Por isso agradeço a oportunidade da viagem realizada que tanto me enriqueceu a nível pessoal e profissional.

Filipe Borges Albernaz disse...

Olá Professora,
Teço minhas considerações sobre o conteúdo do artigo que me chama atenção, especialmente para o ponto em que trata da gestão como uma atividade de ofício, e é, como são e foram várias outras atividades. Digo foram pois existem atividades altamente técnicas, e por vezes científicas, na atualidade que partiram de profissões "de ofício", passadas de pais para filhos ao longo de muitos anos através apenas da experiência e da percepção de melhores práticas. O que suscito não é uma apologia à ciência e menosprezo da "arte do ofício", mas que metodologias científicas podem e devem ser utilizadas na gestão do desporto, sejam quais forem seus objetivos, financeiros, sociais ou desportivos, a fim de dar mais eficiência e credibilidade ao processo. A experiência faz parte do processo de aprendizagem e nunca deixará de ser, pois como Oscar Wild (1854-1900) bem constatou "Experiência é o nome que damos aos nossos enganos", e esta deva ser passada aos mais novos em ordem que enganos sejam evitados ou seus impactos mitigados. Parabéns pelo artigo e pela iniciativa da 2ª sessão de Direito do Desporto anteriormente mencionada. Abraço Filipe Aluno do 2º Ciclo em Gestão Desportiva - FADEUP

joão boaventura disse...

Estimada Maria José

Sobre o Direito do Desporto, verifico:

Direito Administrativo
Direito Aéreo
Direito Ambiental
Direito Bancário
Direito Biomédico
Direito Civil,
Direito Comercial
Direito Comunitário
Direito Constitucional
Direito Desportivo
Direito Económico
Direito Financeiro
Direito Fiscal
Direito Internacional Privado
Direito Internacional Público
Direito Laboral
Direito Marítimo
Direito Penal
Direito Processual
Direito Rodoviário
Direito Tributário

Mas neste blog é usual “Direito do Desporto” em vez de “Direito Desportivo”, como figura no catálogo da Livraria Petrony.

Na vizinha Espanha temos os sítios que optam pela segunda versão:
Derecho Deportivo en línea,
Derecho Deportivo. Sportec,
Asociación Española de Derecho Deportivo,
Cátedra de estúdios e investigación en derecho deportivo,
Instituto Iberoamericano de Derecho Deportivo.

No Brasil, como nas Américas Latinas, a opção também está clarificada:
No artigo Alguns conceitos para o estudo do direito desportivo brasileiro,
No Instituto Brasileiro de Direito Desportivo
Na referência Curso de Direito Desportivo Sistémico,
Na apresentação do livro Nova Legislação de Direito Desportivo,
Numa distribuidora apresentam-se Livros de Direito Desportivo.
Na Ordem dos Advogados há uma Comissão de Direito Desportivo,
O Diário de Pernambuco refere que os primeiros passos do Direito Desportivo no Brasil aconteceram no Brasil em 1901.

Na Itália mantém-se o Diritto Sportivo, aqui, aqui, e no Corso di perfezionamento in Diritto Sportivo e giustizia sportiva.

A França esconjurou o Droit Sportif e alinha pelo Droit du Sport, como se pode verificar na célebre Librairie Lgdj, mas mantém Droit privé, Droit public, Droit international, Droit Européen.

Concluo que a opção portuguesa pelos atributos franceses poderá configurar uma fuga à linha da versão periférica espanhola e italiana.

Cordialmente

Luís Leite disse...

Bem visto...

Pedro Santos disse...

É minha opinião que o cargo de Gestor, a profissão de Gestor é um pouco depreciada por aqueles que não o são nem reconhecem a importância da gestão a todos os níveis e vêem a gestão como um campo excedentário. Creio que a linha de pensamento é "cada um gere à sua maneira" ou mesmo "eu é que conheço a orgânica da minha empresa/clube/instalação".

Como disse o Prof. Doutor Gustavo Pires, quem não sabe gerir, controla e é minha opinião que alguém formado em Gestão do Desporto tem atenção e cuidado em certos detalhes que poderão fazer a diferença em variadíssimos campos, não obstante o dom natural de alguém em gerir e das experiências pessoais desportivas vividas. Sim, porque o Desporto é o nosso foco!

Gostaria de concluir mencionando o prazer que foi participar na bela jornada dupla do 2º módulo da unidade curricular Direito do Desporto e por privar e escutar tão de perto com quem domina e fala dos assuntos do desporto com semelhante à-vontade. Foi sem dúvida enriquecedor a todos os níveis, viagem de barco incluída!

Cumprimentos e até breve.

Rui Baptista disse...

Razão teve Eça quando escreveu: "Portugal é um país traduzido do francês em calão"!

Tiago Sousa disse...

Gostaria de, tal como alguns dos meus colegas já o fizeram, agradecer à Professora Doutora Maria José Carvalho o facto de nos ter proporcionado esta excelente oportunidade de contactar directamente com alguns dos grandes nomes da gestão desportiva no nosso país e com outros, talvez, menos referenciados mas que já alcançaram elevados padrões de sucesso na área a que agora nos tentamos inserir.

Foi, indubitavelmente, uma experiência bastante enriquecedora pois penso que, além de todos os conhecimentos teóricos (de importância capital, que funcionam como base de sustentação da nossa acção enquanto profissionais) com os quais somos apetrechados no decorrer de toda a nossa formação enquanto gestores, deve haver, com idêntica relevância, uma componente experiencial ou de tomada de conhecimento de como funciona, no dia-a-dia, a vida de um gestor desportivo. Não é por acaso que, ainda hoje em dia, se encontram na direcção de clubes, associações, empresas, entre muitas outras entidades desportivas públicas ou privadas, indivíduos sem qualquer formação na área mas com um profundo conhecimento empírico, fruto de muitos anos de experiência e, tal como o colega Filipe citou anteriormente, da aprendizagem com os próprios erros (e sucessos).

À professora, o meu muito obrigado. Mais pessoas houvesse com este espírito empreendedor, dinâmico e inovador que, no mínimo, dá alguma cor a uma realidade, de momento, tão cinzenta. Como já tenho ouvido várias vezes: “Parar é morrer!”.

Maria José Carvalho disse...

Caros/as mestrandos/as,

Gostei dos vossos comentários, observo e sinto que todos/as vão evoluindo conforme o ritmo e a vivência de cada um/a. Parabéns pelo vosso esforço e empenhamento, a vida compensar-vos-á. Por favor não me agradeçam. Agradeçam ao Director da nossa Faculdade que me/nos autorizou a ir mais além (desta vez até Oeiras/Algés/Lisboa)para "bebermos" mais e melhor conhecimento e interagirmos com o sistema desportivo e o meio académico.

Estimado João Boaventura,
Grata pelo seu contributo, pois vai requerer de mim uma resposta, (num próximo texto), mais elaborada do que uma simples pronúncia ao seu comentário.

Aceitem os meus cumprimentos, sempre portuenses...!

Aline Diniz disse...

De terras Brasileiras para terras Portuguesas...

Vim ao Porto para aprender sobre Gestão Desportiva.
Muito me admira as estruturas da Empresa Municipal Oeiras Viva e da Federação Portuguesa de Atletismo.
Em Minas Gerais, terra onde moro, possui estruturas semelhantes ao da Empresa Municipal, mas a estrutura que a Federação Portuguesa de Atletismo possui...
Meu Deus… é de se tirar o Chapéu…
Tal visão fez palpitar esse pobre coração de Profissional de Educação Física, acostumado a ver tais estruturas pela televisão, revistas ou ate mesmo livros.
Tal emoção faz palpitar o coração de qualquer atleta Brasileiro de atletismo.

Agradeço a oportunidade que o Curso de Gestão Desportiva tem oferecido.

Agradeço a Professora por proporcionar tal sensação

Miguel Teles disse...

Gostava de agradecer á Prof.ª Maria José Carvalho a oportunidade de conhecer pessoas extremamente interessantes e deixar as seguintes ideias retiradas da visita de estudo:

- a redução e atribuição correcta dos custos pode viabilizar uma empresa.

- a qualidade da gestão em empresas concorrentes benificia a própria empresa.

- a legislação por si só não altera a realidade social.

- as condições em que se efectua a prática desportiva não é tudo mas...

- a melhoria da qualidade de vida proporcionada por um simples passeio pedonal.