quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Cidadania desportiva

Neste blog têm surgido ultimamente alguns comentários sobre a responsabilidade dos dirigentes nas carências do nosso sistema desportivo, que avivam o debate sobre o “estado da arte” do desporto português e dão azo a enterter as minhas insónias...

Ao contrário dos demais agentes desportivos cujo desempenho é acompanhado por todos no terreno de jogo, os dirigentes desportivos não são avaliados, porque não vão a jogo e não se dão ao jogo. O terreno de jogo dos dirigentes desportivos só pode ser a arena da ética democrática, da prestação de contas e da responsabilização pela execução dos princípios de boa gestão de dinheiros públicos
Mas se tal ocorre a responsabilidade não é apenas sua. Considero que se limitam a gerir de acordo com a lógica de governabilidade instituída no desporto federado, por eles, mas também pelo poder político e fundamentalmente pela omissão de uma cidadania desportiva na nossa sociedade.
A interdependência destes elementos legitima a situação presente, reproduzindo arbitrariedades, ineficiências e deseconomias. Não gera valor para o cidadão e para os dinheiros públicos.
Genericamente, com honrosas excepções, assiste-se a:

Falta de democraticidade no funcionamento das federações desportivas;
Concentração de poderes (estabelecem as regras, aplicam as regras, fiscalizam o seu cumprimento e sancionam a sua violação);
Excesso de presidencialismo e aversão à descentralização;
Concentração de recursos nos quadros competitivos de topo;
Gestão mais centrada no cumprimento da lei e dos procedimentos do que na responsabilização pelos resultados, instrumentalizando o quadro jurídico como legitimador dessa lógica;
Estruturas organizacionais mecânicas e processos de gestão burocráticos que dificultam a adaptação a novos hábitos desportivos e o seu desenvolvimento;
Carência de competências técnicas em domínios científicos associados ao desporto;
Gestão financeira rudimentar e contabilidade “martelada” que obstaculizam a construção de indicadores de desempenho económico e desportivo fidedignos, bem como uma boa fiscalização pela Administração;
Prestação de contas aos políticos, e não aos cidadãos, sem incidir sobre critérios de eficiência e a eficácia;
Funcionamento numa lógica de clientela, olvidando que a racionalidade de uma federação desportiva não se esgota na prossecução de interesses próprios, mas tem associada uma missão de serviço público na promoção de uma modalidade desportiva junto dos cidadãos;

Aqui chegado considero importante que a discussão se coloque acima dos casos individuais, numa perspectiva de análise crítica e compreensiva sobre a formulação, participação, implementação e avaliação de políticas desportivas.
Mas por outro lado, na conjuntura apresentada, cumpre ao cidadão denunciar e alertar, como fez a Maria José Carvalho, os casos concretos de má gestão desportiva, como instrumento privilegiado, num estado de direito democrático, para suscitar essa mesma discussão junto dos responsáveis políticos e abri-la ao espaço público desportivo, caso contrário ela mantem-se em circulos restritos bem longe dos problemas efectivos da realidade desportiva, continuando a reproduzir instrumentos de intervenção política, particularmente abundantes normas legais, que só contribuirão para agravar a situação actual e afastar o desporto do cidadão.
No passado dia 15 comemoraram-se 12 anos sobre um dos mais importantes marcos da cidadania desportiva na Europa, o qual contribuiu mais para a mudança do desporto federado neste país, do que qualquer política pública desportiva até hoje.

2 comentários:

Pedro Carvalho disse...

Parabéns João ALmeida por trazer este tema à discussão.
5 notas apenas e outras tantas perguntas
1ª - No sistema desportivo são residentes há mais de 15 anos as mesmas pessoas, são exemplo: Gilberto Madaíl, Vicente Moura, Luís Santos, Fernando Mota, Mário Saldanha, Foram, e são!, estas personalidades que assinaram, assinam!, anualmente contratos-programa com os diferentes governos, houve alguma avaliação dos resultados desses contratos? Para quando um Plano estratégico nacional inter-federações?
2ª O desporto profissional não se entende com as federações, ele é Andebol, ele é basquetebol, ele é voleibol…. Até quando esta guerrilha?
3ª As delegações do IDP passaram para a jurisdição dos delegados do IPJ, um dois em um. Será que cabe ao desporto, nesta mistura, o elo mais fraco?
4ª - Repare-se nos treinadores, uma classe com os mesmos protagonistas há mais de uma década. Existe algum programa nacional de formação de treinadores que englobe federações e faculdades ou mesmo até troca de experiências internacionais?
5ª Continuamos naqueles números baixos de prática da actividade física. Para quando (saudades do mexa-se pela sua saúde) um programa nacional de actividade física?
Sempre as mesmas perguntas…
Uma última nota o sistema desportivo precisa urgentemente de pensar o futuro no presente. Mas isto só sou eu a pensar.

PS.Peço desculpa mas tive que falar de nomes.

João Almeida disse...

Caro Pedro Carvalho

Obrigado pelo seu contributo.
Continue a pensar e não se coiba de nomear pessoas.
Exerça a sua cidadania desportiva.
Esta colectividade desportiva, e escrevo em nome pessoal, agradece. Será sempre bem vindo.
Permita-me um reflexão, de outrém, sobre o pensar no sistema desportivo e não só...

"Todos os homens vivem e agem, em parte, segundo as suas próprias ideias e, em parte, segundo as ideias alheias. Uma das principais diferenças que existem entre os seres humanos consiste na medida em que se inspiram nas suas próprias ideias ou nas dos seus semelhantes. Uns limitam-se a servir-se das suas ideias como de um jogo intelectual, usam a razão como a roda de uma máquina da qual houvessem tirado a correia transmissora, submetendo os actos às ideias dos outros, ou seja, aos seus costumes, tradições e leis. Outros consideram que as suas ideias constituem o principal motor da actividade que desenvolvem e quase sempre obedecem às exigências da sua razão. Só de vez em quando, depois de uma apreciação crítica, se guiam pelas normas dos outros."


Leon Tolstoi, in "Ressurreição"