sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Crepúsculos desportivos (III) -o comendador

Um dirigente desportivo permanece no exercício do mesmo cargo durante dezenas de anos. Vê o seu trabalho reconhecido pela assembleia da república, pelo governo, pelos clubes, pela associação, pela federação e pela confederação. Jorge Sampaio, enquanto Presidente da República, eleva-o à categoria de comendador. Já não é apenas o reconhecimento da sua corporação e dos seus. É o reconhecimento do País. O reconhecimento da mais alta figura do Estado. Passava a estar na galeria dos melhores. Dos notáveis. Dos comendadores. Antes do seu nome a respectiva referência: Comendador e segue o nome. Até o título académico, obtido em condições naquela altura pouco ortodoxas - mas hoje perfeitamente aceitáveis à luz do novo paradigma da Universidade Independente - deixava de ter importância. É claro que há comendadores e comendadores. Mas ele teve inclusive direito a o ser, fora da época dos comendadores que, como se sabe, é o 10 de Junho. O mérito não tem data, nem hora marcada. Na apreciação ao mérito do seu trabalho esteve sempre presente os muitos anos dedicados á causa desportiva no exercício das mesmas funções. O que se destacou não foi o que fez durante todos esses anos. Foi o facto de ter estado durante tantos anos a fazer a mesma coisa. É isso que foi relevante e é isso que sobressai e é distinguido em termos curriculares. Como qualquer distinção, a prebenda ao distinguido é ao mesmo tempo o enaltecimento do seu exemplo. Aos seus e ao país. Muitos anos como dirigente desportivo. Como presidente, mais de duas décadas. É obra. Neste caso o que se valorizou junto da sociedade portuguesa, muitos anos a presidir a um organismo desportivo, não vai mais ser possível no caso das federações desportivas .O que ontem era motivo de distinção é hoje motivo de reserva.Para todos os organismos desportivos? Não, apenas para as federações desportivas.O que surpreende não é o facto de se entender mudar. Tão pouco o de durante tanto tempo se ter permitido não haver limite a esse tempo. É querer, agora, mudar com os argumentos que no passado serviram para distinguir e louvar. É fazer e refazer com a vulgaridade de quem não tem que dar explicações do que fez.Ou de quem nunca explicou porque não fez.Do actual governo e do anterior. Assim se faz Portugal. A política é também uma arte. A arte de contar e gerir silêncios. A memória emigra e é enorme a facilidade com se esquece.

4 comentários:

Anónimo disse...

Se muda é porque mudou.
Se não muds é porque não mudou.
Contentar a todos é impossível.
No Público de hoje, uma frase apropriada de Francis Bacon, a propósito:

"Triste não é mudar de ideias. Triste é não ter ideias para mudar."

josé manuel constantino disse...

Se ler com cuidado verificará que se não contesta a mudança.Tão pouco a legitimidade para o fazer.Apenas se questiona o facto de os motivos invocados serem do mesmo tipo que permitiram distinguir exercícios que agora se condenam.É de facto positivo ter ideias para mudar,mas, por vezes, muda-se sem perceber muito com que ideia.Mas admito que o problema possa ser meu e me não tenha apercebido da dimensão e do alcance da mudança.

Gustavo Pires disse...

Caro JMM
Claro que não se trata de mudar ou deixar de mudar, trata-se de haver ou não cultura democrática. E quando não há cultura democrática tem de funcionar a lei que é a única coisa que se pode interpor entre o poder e o seu exercício desmesurado.
São dinheiros públicos que estão em jogo. E sendo dinheiros públicos aonde é que estão os relatórios? Conseguem-se obter?
Quanto é que esses senhores comendadores ganham para além dos seus vencimentos ou reformas? Qual é o montante das suas gratificações? Quem escrutina as suas viagens? A quantos familiares é que arranjaram modos de vida? Quantos já levaram a passear? Qual é o custo benefício da sua longevidade enquanto dirigentes? Quanto é que nos custam a todos nós que pagamos impostos as asneiras que fazem e o abuso de poder que exercem.
Repare-se que a palavra comenda pode estar relacionada com o verbo latino “comedere”, que está na origem do verbo comer. E há muita gente por aí a comer. Todos sabemos muito bem que condecorações existem que são uma comenda e outras há que são uma encomenda.
Quando as questões colocadas tiverem resposta porque a sua transparência faz parte da cultura democrática do País, então até poderemos admitir excepções.
A limitação dos mandatos é, por princípio, má. Ela representa o baixo nível de cultura democrática do Movimento Desportivo e de outras instituições tal como a universitária aonde também acabou de ser legislada a regra da limitação de mandatos, a fim de obviar uma teia de interesses e de jogos de poder que nos mais diversos sectores sociais corroem a democracia.
Por isso, quando hoje se sente o País, entre os serviços de saúde fechados, os encarregados de educação a invadirem os Conselhos Pedagógicos das escolas, o ignóbil comportamento de algumas Juntas Médicas, a corrupção à escala máxima em veneráveis instituições financeiras, os controlos militarizadas da ASAE, as listas de espera na saúde, a violência glorificada do seleccionador da bola, os pobres cada vez mais pobres ou, entre outros, os diplomas universitários tirados “na hora”, como dizia o outro, podemos não estar ainda num regime fascista, mas que já anda um cheirinho no ar não restam dúvidas. É o “Centrão” que está a “comedere” o País e os dinossauros que habitam o Movimento Desportivo estão olimpicamente a participar no bacanal. Não há uns e outros. Eles são todos iguais. A nossa única defesa é que se vão comendo e controlando uns aos outros.
GP

Anónimo disse...

Comenda < do francês "commende" < do latim medieval "commenda" < do latim "commendare" = "confiar, recomendar,fazer valer"

In "Dicionário etimológico da Língua Portuguesa" de José Pedro Machado
Segundo Volume C-E (7.ª edição)
Ed.Livros Horizonte
Lisboa, 1995