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segunda-feira, 24 de junho de 2013

O treinador que não sabe comunicar… não pode treinar!

Os primeiros episódios, no Chelsea, do treinador José Mourinho a entregar a Tiago um papel para este ir dar a outro colega seu dentro de campo fez destaque na comunicação social. O que seria aquilo? Diria que se tratava de uma forma simples de comunicar com quem estava distante e, acima de tudo, diminuir o ruído que seria dizer algo ao jogador português para que este fosse dizer ao seu colega. Naturalmente, o médio iria sempre introduzir uma palavra a mais ou transmiti-la de forma mais emocional ou racional.


A verdade é que o treinador não joga, mas participa diretamente! E a sua comunicação tem um peso preponderante na ação dos seus atletas. Participa ativamente durante os treinos e nas conferências, lidera os atletas, gesticula, fala com os atletas individual ou coletivamente, aponta, dá o exemplo, mas não pode ser ele a executar os movimentos técnicos ou táticos durante a competição. Logo exige-se que consiga transmitir o que quer de forma muito eficiente.

Porque os atletas, de forma consciente ou inconsciente, também podem estar sempre a observar e a tirar as suas conclusões. E isto passa pela gestão do próprio treinador do seu impacto comunicacional e pela importância que o mesmo assume.

A comunicação é o que as pessoas realizam para trocarem informação entre si, utilizando sistemas simbólicos e processos para alcançarem esse objetivo. O treinador que até possa saber muito de tática, se não conseguir transmitir essa informação que recolhe para os seus atletas ou adjuntos, de nada vale, porque essa informação só será útil para uma pessoa, que não joga, o treinador. Necessita de transformar essa informação em ações e, para isso, tem de explicar aos outros o que é necessário que se faça. Não como ele entenderia mas como os atletas entenderão!

Os treinadores começam a procurar potenciar os denominados mind games. Phil Jackson, ex-treinador na NBA dos Chigaco Bulls e LA Lakers, era um perito. Mais recentemente, José Mourinho utiliza muito a sua comunicação como modo de influenciar o que os outros pensam ou interpretam de algumas das suas atitudes e comportamentos. Mesmo existindo sempre uma distância entre o que o treinador português de facto pensa mas que pretende explicitamente comunicar aos outros. Condiciona, motiva, estimula, amedronta, avalia…só com as suas palavras ou gestos.

Também em Portugal assistimos a uma maior exigência ao nível da comunicação. Observa-se que um conjunto de treinadores é mais eloquente a comunicar. Procura ser mais empático, de forma que a sua mensagem chegue mais clara e rápida aos seus atletas. Vítor Pereira e Jorge Jesus mudaram a sua forma de comunicar para o público em geral. Ambos foram alvo de processos de mudança. Um pelo coaching, outro pelo carisma da pessoa que trabalhou consigo.

Por outro lado, também é interessante verificar que alguns treinadores não mudam a sua forma de comunicar e ainda obrigam que sejam todos os outros a adaptar-se a ele.

Acrescenta-se que numa equipa e num jogo é importante ter presente que todo e qualquer comportamento é comunicação. Qualquer comportamento ou ausência de comportamento irá proporcionar um outro comportamento que bem interpretados são ferramentas muito importantes para quem lidera e também para os próprios atletas no seio das equipas.

Por fim, não nos iremos esquecer de algumas acções bem intensas que aconteceram esta época desportiva. Que grande impacto comunicacional teve em nós. Infelizmente para os seus emissores, certamente, não foi aquela a imagem que queriam transmitir…

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Exame de Consciência

Declarações recentes de dirigentes desportivos e responsáveis políticos após mais um caso de violência num estádio, desta vez numa competição profissional, voltaram a agudizar a polémica em torno do policiamento de eventos desportivos.

Em texto anterior procurou-se, no âmbito técnico, situar os circunstancialismos em torno do novo quadro regulador nesta matéria, antecipando, aliás, o avolumar de episódios que hoje ocorrem em diversas contextos de competição dada a previsível leitura economicista que logo veio a ser feita pelos seus organizadores, a qual se acentua na conjuntura que o país atravessa.

Desta forma, vários foram os casos onde os clubes anunciaram abdicar ou reduzir o contingente policial nos seus jogos. Noutra vertente, menos noticiada, concretamente em modalidades praticadas na via pública (atletismo, ciclismo, triatlo, etc.) reduziu-se o calendário de provas, ou diminuíram-se as comparticipações para acudir ao aumento dos encargos de policiamento…

Porém, o problema antes de ser técnico, é um problema de cariz político e conceptual. Trata-se da politica desportiva definir, em matéria de segurança e combate à violência associada ao desporto, onde terminam as responsabilidades dos organizadores das competições e começa a salvaguarda da segurança pública, para, posteriormente, o quadro normativo traduzir tais opções, no respeito, não o esqueçamos, de convenções europeias rubricadas pelo Estado português.

Ou seja, a partir dessa concepção - a qual não pode ser naturalmente alheia de uma abordagem politica integrada da situação desportiva e económica do país, bem como da disponibilidade dos efectivos policiais no território nacional – importa afectar os recursos e as competências necessárias para garantir o cumprimento das disposições legais, no domínio preventivo, repressivo e sancionatório, clarificando à partida quais os níveis competitivos onde os dinheiros públicos comparticipam o policiamento - se é que tal comparticipação se justifica – e onde, e como, são exigidas maiores responsabilidades ao movimento desportivo e aos agentes educativos.

Ora, pela voz do titular da pasta da Administração Interna (!?), esclarece-se a orientação estratégica de politica desportiva a este propósito:

«…"Quem organiza o jogo é responsável pela segurança e sempre foi assim. Pode requisitar ou não o policiamento, e sempre foi assim".
(…) o objetivo da nova legislação - "à semelhança, aliás, do que acontece noutros países europeus" - é apenas "caminhar progressivamente para a dispensa de policiamento nos escalões mais baixos, dos infantis e juvenis".
Atribuindo essa estratégia à intenção de reduzir as despesas dos clubes, o governante refere que a medida tem também carácter pedagógico, procurando impedir que, no período de formação da personalidade dos atletas mais jovens, o universo do desporto fique associado à imagem das autoridades policiais.
"É para não associarem, desde a mais tenra idade, a prática desportiva a questões de segurança", explicou o ministro(…)»

A legislação actual tipifica, em três níveis sancionatórios (penal, mera ordenação social e disciplinar) o espaço de intervenção dos agentes judiciais, administrativos e desportivos. A todos eles são atribuídas responsabilidades para agir neste âmbito. Terão os meios necessários para o seu competente exercício? A realidade tem falado por si.

Ora, desconhecendo-se uma intervenção consistente de prevenção sócio-educativa no combate a estes fenómenos de violência junto de adeptos e da população em idade escolar e mantendo-se as disfuncionalidades ao nível sancionatório - começando na extinção do Conselho para a Ética e Segurança no Desporto, passando pela aguardada alteração ao regime jurídico do combate à violência, ao racismo, à xenofobia e à intolerância nos espectáculos desportivos anunciada no artigo 14.º do Decreto-Lei n.º 266-A/2012, e terminando nas crónicas limitações das autoridades judiciárias e de policia criminal em aplicarem, "à semelhança, aliás, do que acontece noutros países europeus", as medidas de interdição de acesso a recintos desportivos – afigura-se essencial nas decisões que se tomam, nas medidas que se anunciam e nas declarações que se proferem, caso realmente se pretenda traçar uma rota de mudança, ter isto bem presente no seu espectro de intervenção e assim proceder a um exame de consciência a partir da seguinte questão:

Alguém que habitualmente frequente os espaços de prática desportiva deste país, nos seus vários níveis de competição e modalidades, acredita estarem reunidas as condições mínimas para, no presente contexto desportivo e socioeconómico, generalizar-se o arbítrio para a dispensa de policiamento, procedendo-se à efectiva responsabilização dos promotores e à punição dos prevaricadores, de modo a progressivamente tornar estes espaços, não apenas locais seguros mas também palcos privilegiados para potenciar o retorno económico dos eventos e se manifestarem os valores culturais e educativos que dão forma ao desporto enquanto instrumento de formação cívica que importa estimular?



quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Novas oportunidades

Já muito se escreveu da crise. Dos tempos difíceis da nossa sociedade e das consequências a vários níveis.
 
Uma delas, que deve ser transversal a quem lê, porque lecciona, porque é estudante ou porque acaba por sofrer alguns ou muitos efeitos colaterais, é a gritante ausência de oportunidades para quem quer iniciar ou explorar o mercado desportivo em termos de produtos ou serviços. Claro que isto não é exclusivo do desporto, mas ultimamente é do conhecimento que diversos colegas e ex-alunos que querem dinamizar actividades, eventos, perceber que produtos ou serviços criarão interesse e consumo encerram os seus passos na falta de oportunidades e capacidade financeira para adquirir ou participar em acções desportivas.
 
 
Nesta discussão entrarão diversas temáticas: a continuidade de formações e licenciaturas em desporto que não têm saída; se o mercado e contexto ainda tem capacidade para absorver quem sai formado; se as licenciaturas, mestrados ou formações não apresentam os conteúdos necessários e prementes; ou se o desporto com a crise social e financeira voltará às ruas e as pessoas irão consumir o exercício físico apenas na rua, a correr, andar de bicicleta ou a caminhar.
 
 
E ao nível dos que dinamizam, oferecem ou criam momentos de espectáculo, oferta de serviços desportivos ou actividades, como irão os clubes (grandes, médios e pequenos) sobreviver à ausência de patrocinadores e espectadores. E como irão resolver os ginásios a falta de clientes num mercado que já é gerido por pequenas margens de lucro e com a presença de 5 ou 6 ginásios em pequenas áreas de metros ou kms’.
 
 
Dentro deste campo há algumas luzes ao fundo do túnel. Entre elas a crescente procura dos trail's runnings ou corridas na natureza. Com provas de pequenas distâncias até à centena de km's. Fruto disso, a RTP na passada semana passou em horário nobre uma reportagem da procura da sociedade por esse tipo de corridas e exercício físico e alguns dos portugueses que recentemente começaram a conseguir alguns resultados interna e externamente. Fica aqui a reportagem que aconselho. 
 

domingo, 21 de outubro de 2012

Os cavalos a galope em S. Martinho do Bougado


Texto publicado no Público de  21 de Outubro de 2012


1. Na semana passada foram as bicicletas. Hoje é dia de corrida de cavalos. Filomena (ficção) foi vítima de acidente ocorrido numa prova hípica integrada no Campeonato Nacional de Corridas de Cavalo a Galope. Tal prova teve o apoio de uma Junta de Freguesia (JF). Um dos cavalos saltou a vedação da pista, na sequência da queda de outros, e veio-a atingir quando se encontrava na zona da assistência. Esse acidente causou-lhe danos que pretende ver ressarcidos. Responsáveis indicados: a entidade organizadora, a Junta de Freguesia, o proprietário do cavalo e a seguradora deste.

2. Em recente decisão, o Supremo Tribunal de Justiça (STJ), ocupou-se do caso. A única questão em apreço foi a de saber se também sobre a JF impendia a obrigação de indemnizar. Independentemente do sentido da resposta frise-se, desde já, o relevo da questão no quadro do desporto autárquico. Com efeito, as autarquias são, a diversos títulos, um motor fundamental do desporto. Daí que todas as suas intervenções devam ser rodeadas de cautelas, também jurídicas.

3. Ponto de partida: uma corrida de cavalos a galope é uma actividade perigosa. “Entra em campo”, pois, o nº 2 do artigo 493º do Código Civil: quem causar danos a outrem no exercício de uma actividade, perigosa por sua própria natureza ou pela natureza dos meios utilizados, é obrigado a repará-los, excepto se mostrar que empregou todas as providências exigidas pelas circunstâncias com o fim de os prevenir. Com base nos factos provados, o STJ tinha que oferecer resposta a esta questão: a JF tomou as medidas necessárias para evitar o dano? Por exemplo, tem ela responsabilidade no facto da vedação só apresentar 1,10 mts. de altura, quando era sabido que os cavalos, ainda que não preparados, efectuam saltos com alturas próximas dos 2 metros?

4. Para o Supremo, a responsabilidade da segurança da prova residia na outra entidade.
A JF tomou todas as providências que o acto, integrador daquela actividade perigosa, exigia.
Do processo resulta, “no que concerne à observância das exigíveis regras de segurança e definição dos parâmetros geradores de risco, que a Junta não interveio com alguma autonomia, mas sempre sob orientação e controle da Liga, em rigoroso cumprimento directo das instruções técnicas dela recebidas. Demonstra-se que a Junta foi totalmente estranha às opções construtivas da vedação”.
E “as providências que no caso se exigiam à Junta consistiam precisamente em submeter-se à orientação e directivas preconizadas pela entidade técnica e oficialmente reconhecida como competente, implicitamente idónea para tal, que nem deveria contrariar. E essa foi a sua postura.”

5. Conclui (bem?): “Como entidade autárquica por natureza arredada dos conhecimentos específicos e técnicos que caracterizam provas desta índole, […] não lhe era exigível que, tendo procedido à vedação da pista em conformidade com as imposições técnicas definidas pela entidade competente para o efeito, devesse prever que ainda assim uma eventual sucessão de quedas de cavalos e cavaleiros pudesse conduzir à transposição da vedação por um cavalo descontrolado participante na corrida, e à produção de danos em algum dos assistentes, não sendo por tal passível do juízo de censura ético-jurídico que exprime a culpa”.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O que vale o desporto português?

Um texto de Luís Leite que se agradece



Partindo do princípio de que o valor desportivo de um país se mede pela qualidade relativa das suas seleções nacionais nas disciplinas coletivas e dos melhores atletas nas disciplinas individuais nas grandes competições mas também nos RANKINGS MUNDIAIS, decidi fazer uma busca na net e nos sites das Federações Internacionais, a fim de qualquer pessoa interessada poder tirar as suas conclusões.

 
Estando Portugal atualmente em 36º lugar no ranking mundial do PIB per capita e em 41º no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, vejamos as classificações atuais (13 de Outubro de 2012).

 
Nas modalidades coletivas mais significativas e em que existem rankings:

 
Hóquei em Patins: Não há rankings, mas Portugal estaria provavelmente no 2º lugar.

Futebol masculino: 3º

Ténis de Mesa masculino por equipas: 7º

Ciclismo (estrada): 10º

Râguebi masculino: 26º

Andebol masculino: 30º

Voleibol masculino: 38º

Ténis (Taça Davis): 41º

Basquetebol masculino: 44º

Nenhuma modalidade feminina no Top 50.


 
Nas modalidades individuais, atletas no Top 20, em modalidades pluridisciplinares ou várias categorias de peso ou distância (Remo e Canoagem não têm rankings):

 
Telma Monteiro (Judo 57Kg): 3ª

Jorge Caeiros (Karate Kata): 6º

João Costa (Tiro Pist. 10m): 9º

Rui P. Bragança (Taekwondo, -58Kg): 9º

Tiago Monteiro (Automobilismo, WTCC): 9º

Miguel Oliveira (Motociclismo, GP Moto 3): 9º

Rui Costa (Ciclismo, Estrada): 10º

Rui Gonçalves (Motocross, MX1): 10º

Mário Silva (Taekwondo, -63Kg): 10º

Álvaro Parente (Automobilismo, GT1): 11º

Marco Fortes (Atletismo, Peso): 13º

Vitalie Certain (Karate, Kumite, -60Kg): 13º

Ana Cabecinha (Atletismo, 20Km Marcha): 13ª

Patrícia Mamona (Atletismo, Triplo): 14ª

Armindo Araújo (Automobilismo, Rallye): 14º

João Costa (Tiro Pist. 50m): 15º=

Catarina Vilhena (Karate Kumite, -68Kg): 15ª=

João Vieira (Atletismo, 50Km Marcha): 17º

Nuno Moreira (Karate, Kumite, -75Kg): 17º

Sara Moreira (Atletismo, 10000m): 18ª

Cátia Rodrigues (Karate, Kumite, -50Kg): 18ª

Luís Pinto (Ciclismo, Mountain Bike Marathon): 19º

Joana Castelão (Tiro Pist. 10m): 20ª



Nas modalidades individuais simples, atletas no top 50:


 
João Silva (Triatlo): 10º

Marcos Freitas (Ténis de Mesa): 25º

Tiago Apolónia (Ténis de Mesa): 37º

João Monteiro (Ténis de Mesa): 48º


 
Nota: Foram ainda verificados os rankings da Natação, Vela, Ginástica, Ténis, Esgrima, Tiro, Equestre e Badmington.

Nos Desportos Motorizados não existem rankings, pelo que só a classificação nos Campeonatos do Mundo pode ser analisada.

 
Peço desculpa por alguma falha que possa existir nas buscas.
As conclusões ficam ao critério de cada leitor.

domingo, 14 de outubro de 2012

Os polícias e as bicicletas


Texto publicado no Público de 14 de Outubro de 2012.


1. Se o leitor perguntar a um miúdo de 12 anos – quase treze – se existe alguma modalidade desportiva em que a presença da polícia seja determinante para a sua prática, porventura receberá uma resposta semelhante há que me destinaram: o futsal e o futebol.
Porquê? Por causa dos adeptos e da violência que lhes anda associada.
Embora não sendo acertada, esta resposta diz muito da forma como os jovens vêem o desporto que lhes colocam à disposição e como encaram – dir-se-ia como fazendo já parte do ADN de certas modalidades desportivas – o seu policiamento.
Por outras palavras, para os miúdos, já não há futebol sem polícia, o que não deixa de ser um “bom resultado” formativo.

2. Estas palavras vêm a propósito da publicação, no passado dia 9, do Decreto-Lei n.º 216/2012, que veio estabelecer um regime de policiamento de espectáculos desportivos realizados em recinto desportivo e de satisfação dos encargos com o policiamento de espectáculos desportivos em geral.
Em breve, trata-se de uma «actualização» do já longínquo Decreto-Lei nº 238/92, de 29 de Outubro, na sua vida alvo de pontuais alterações em 1998 e 2009. Diga-se, só de passagem, que não se compreende, em termos de técnica legislativa, por que razão se “mantiveram” vivas duas normas e os anexos desse velho diploma.
Mas não é esse o mote de hoje.

3. Independentemente do alcance prático da nova regulação – o que é sobejamente importante para avaliar a bondade das suas normas -, hoje, dir-se-ia quase “uma vez sem exemplo”, elogiamos o Governo.
Com efeito, para usar expressão fina, o recente decreto-lei constitui “uma mudança de paradigma”.
As questões do policiamento, quando relacionadas como desporto, foram sempre encaradas pelo Estado como algo respeitante à segurança pública, à prevenção e combate à violência endógena do desporto, em particular do futebol. E uma fatia dos encargos do policiamento foi – e é – suportada pelo Estado.
Ora, há muitos anos – porventura desde a entrada em vigor do diploma de 1992 – que as entidades promotoras e organizadoras de outras manifestações desportivas, com particular destaque para os agentes do ciclismo, vinham reclamando uma comparticipação pública nos encargos com o policiamento.

4. Bem se compreende esta reivindicação. Com efeito, é essencial à prática do ciclismo em estrada, a presença de autoridades policiais, em nome da segurança estradal e dos próprios praticantes.
Não há ciclismo, pois, usado aqui como exemplo, sem polícia.
Ora o novo diploma vem, pela primeira vez, reconhecer essa realidade.
No discurso redondo da exposição de motivos: “Importa também, por motivos de equidade, integrar no escopo das disposições do presente decreto-lei referentes à comparticipação do Estado, o policiamento de espectáculos desportivos que decorrem na via pública e que, em virtude das suas características, podem merecer um tratamento diverso daquele que lhe vem sendo conferido”.

5. Como atrás referimos, não sabemos onde nos conduzirá esta afirmação. Fica, no entanto, para já, um registo vitorioso para todos aqueles que sempre hastearam a bandeira de que os polícias são vitais para as bicicletas.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

O melhor do mundo

Numa modalidade desportiva individual é fácil saber quem é o melhor do mundo. São os resultados individuais alcançados. Numa modalidade coletiva quais são os critérios para essa definição? Como se define o melhor jogador de basquetebol? E o melhor voleibolista? E o melhor futebolista? Essa a razão que explica que na generalidade dos desportos coletivos o melhor do mundo, ou de uma determinada competição, seja decidido por meios eletivos que envolvem subjetividades, juízos e apreciações individuais. Só que aplicar critérios de valoração individual em modalidades coletivas e absolutizar o resultado é uma tarefa muito complexa.
Num campeonato de futebol é possível distinguir o melhor marcador e o guarda-redes menos batido. E fazê-lo assente em dados objetivos. Mas o melhor avançado ou o melhor guarda-redes só o pode ser por critérios subjetivos a menos que se desagregue o que é coletivo em ações individuais e se monitorize cada uma dessas variáveis que, mesmo assim, serão sempre determinadas pela dinâmica do coletivo. Se o problema já é de difícil solução numa mesma modalidade coletiva o que dizer quando se afirma qualquer coisa como o melhor desportista de todos os tempos?
O desporto acolhe vários desportos. E as suas lógicas internas são muito distintas. Atingir com precisão um alvo, como no tiro, é bem diferente de uma ação motora cuja avaliação obedece a um critério técnico-estético, como na ginástica. Nadar em águas abertas é bem diferente que fazê-lo numa piscina. O desempenho motor numa modalidade com oponente é diferente de uma modalidade sem essa interação. E naquelas em que há oponência é distinto haver ou não contato físico. Em algumas modalidades o ambiente físico é estável, em outras é incerto. No desporto, existem elementos comuns –o ato competitivo - mas é distinto o modo com ele se estrutura no plano do desempenho corporal.
Mapear e perceber as especificidades de cada uma das modalidades e as características do apuramento de resultados ajuda-nos a perceber como certo tipo de comparações obedecem a critérios arbitrários e de fraca sustentação com a respetiva lógica interna. E que também nesta matéria um certo tipo de normalização ou pensamento único é enganador.
O ato motor que sustenta o desempenho em situação competitiva é multiforme e complexo. A tentativa de padronização do comportamento motor e a sua hierarquização só é possível no quadro de uma simplificação da complexidade. O que sendo possível em modalidades desportivas individuais em que a ação motora é registada em tempo, distância ou peso já o não é para outras em que a avaliação é distinta. E nas modalidades coletivas essa simplificação é sempre uma ação redutora.
Na febre de quantificação e comparação a estatística (e os rankings) funciona como uma espécie de bengala. Mas pode ser uma ilusão. Porque a estatística é uma presa fácil da má ciência. Serve às mil maravilhas a comunicação mediática. Mas é sempre uma leitura (e não a única leitura) do comportamento desportivo. Não se trata de negar a sua importância como elemento de interpretação do comportamento motor individual/coletivo mas de perceber que não é linear a sua extrapolação para a compreensão da globalidade do desempenho em situação competitiva. E menos ainda para uma classificação de valia ou mérito desportivo em sentido absoluto.
Razão pela qual quando se diz que este ou aquele praticante desportivo de uma modalidade coletiva é o melhor do mundo se deva ter em conta o valor da afirmação. Porque não compete sozinho,carece da cooperação da equipa e o que alcança como performance é em parte determinado pela dinâmica da equipa a que pertence. Numa equipa de fraco desempenho o resultado seria bem diferente!

terça-feira, 5 de junho de 2012

Na espuma destes tempos


É louvável a atitude de um clube que recupera e integra um cidadão com limitações funcionais. E o faz ao mais elevado patamar de competição desportiva entregando-lhe tarefas que estão ao nível das suas possibilidades. E é compreensível que a pessoa em causa viva com entusiamo essa tarefa. E que exteriorize esse entusiasmo. É o caso do cidadão Paulo Gama, vulgarmente conhecido por Paulinho, roupeiro da equipa de futebol do Sporting. Que, a partir de agora, tem um livro que lhe é dedicado.
Confesso que não sei se o seu trajeto de vida justifica um livro. Admito que sim. Quem o escreveu e quem o compra o saberão. Mas o que me chamou a atenção foram as suas declarações em relação a um seu ex-superior, concretamente o anterior treinador da equipa de futebol. E se as constantes manifestações de alegria do roupeiro e do carinho com que trata os jogadores, envolvendo-os em abraços e beijos, o compreendia à luz do sentimento que nutre pelo clube, zurzir sobre um ex-treinador e criticar as suas opções parece-me que ultrapassa as marcas. E como a opinião expressa já mereceu comentários de outras personalidades, não sobre a oportunidade do que disse mas sobre o que disse, o assunto justifica que se perca algum tempo de reflexão.
Que o roupeiro entre nas brincadeiras que antecedem os treinos, não é normal, mas pode ser acomodado a um entendimento generoso das particularidades e especificidades da pessoa. Que mereça um carinho especial de todos é meritório. Que aborde as qualidades dos treinadores é um abuso. E que aprecie o modo como por eles era tratado um assunto de foro privado do clube. E não são as suas limitações funcionais ou qualquer outra singularidade que o devem excluir de regras para com a entidade que serve.
O clube tem apoiado a pessoa. Prova disso é o facto de o ter escolhido para aquelas funções junto da equipa de futebol. Se no Sporting houve quem o ajudou importa agora que igualmente o prepare para outras exigências que, de repente, o seu estatuto parece exigir. Alguém vai ter de lhe explicar que as funções que exerce no clube o não habilitam, nessa qualidade, a emitir juízos de apreciação como aqueles que proferiu. E se como cidadão, e sportinguista é livre de emitir os juízos que entenda, deve sopesar as funções profissionais que exerce e avaliar que nem tudo o que se pensa sobre a vida do clube e os que o serviram pode ser emitido para a opinião pública. Porque não é facto de ser alguém especial que legitima que possa publicamente expressar o que lhe vai na alma sobre aqueles que, como ele, servem ou serviram o clube. Se existem críticas a fazer elas devem ser feitas em foro próprio, que são as instâncias internas do clube.
Preparar as pessoas para o exercício de tarefas como as de comunicar são hoje um problema que não pode deixar de preocupar todos quantos dirigem o desporto. E isto é tão válido paa este caso como para o do capitão da seleção nacional de futebol. Só essa preparação pode evitar que casos como o que ontem ocorreu, de Cristiano Ronaldo a tratar o Presidente da República por “você”, sejam evitáveis. Ate porque o talento desportivo não é incompatível com regras e boas maneiras!



terça-feira, 22 de maio de 2012

O país dos Ronaldos e dos Figos

A fazer fé na comunicação social, o deputado Basílio Horta, terá colocado em causa uma estratégia de afirmação internacional em que se gastou muito dinheiro a promover a marca Portugal através dos seus valores do futebol. Se Basílio Horta o fez, fez bem. Mais vale tarde que nunca. Porque não há um investidor que escolha Portugal para criar empresas e emprego pelo facto de sermos bons para o pontapé na bola. E não há mais importação de produtos nacionais porque o Ronaldo bate todos os recordes no clube onde atua. Já agora, ele não disse, mas digo eu, que também é deitar dinheiro fora o que, em nome da concorrência bancária fez, e em alguns casos ainda faz, um banco do Estado, como a Caixa Geral de Depósitos, a financiar clubes de futebol, selecionadores nacionais de futebol, jogadores de futebol e centros de estágio para clubes de futebol. E a fazer tudo isto e, em simultâneo, fechar o apoio às atividades económicas dos pequenos e médios empresários com cortes e restrições ao crédito bancário. Se é para isto que serve uma instituição bancária do Estado vendam-na.
O facto de no estrangeiro se conhecer Portugal por identificação com Ronaldo ou Figo revela a força do futebol. Mas a força do futebol revela a fraqueza do país. Sei, que dizer as coisas deste modo colide com um pensamento que por aí divaga, de que o futebol faz mais pela afirmação do país que muitos outros setores de atividade. Não faz nada. Tornar o país mais conhecido por ser a pátria de algumas estrelas futebolísticas é fraco consolo. O conhecimento internacional das estrelas do desporto não traz qualquer benefício aos portugueses, salvo esse valor intangível e imaterial que serve para tudo e mais alguma coisa e que se designa por autoestima e identidade nacional. Um bem que, em período de crise e pobreza nacionais, não mata a fome, nem dá emprego. Mas massaja o ego, a quem para o efeito se dispõe, e alimenta a alma!
A questão deve ser colocada precisamente ao contrário. O que fazemos nós para nos afirmarmos internacionalmente como nação, quando muitos só nos conhecem pelo facto de produzirmos futebolistas com elevado talento. O que nada belisca o mérito desses futebolistas. Nem atinge a modalidade. Mas coloca em causa a manobra ideológica de identificar o seu sucesso como um proveito tangível para o país. Há uns anos o governo de então, era Cavaco Silva primeiro-ministro, chamou um guru da competitividade global, Michael Porter para estudar os nichos da competitividade externa da economia portuguesa. Dizem que o senhor apontou o futebol como um dos clusters. Lendo o que foi publicado não se encontra qualquer referência à indústria do futebol como um cluster estratégico. Confirmei isso com quem, no governo de então, o convidou e com ele trabalhou. E conhecendo a metodologia Porter para a competitividade estranha-se tal observação. Mas respigo o que escreveu, no jornal Record, João Querido Manha: “Há uma década, quando era forçoso convencer os portugueses da bondade do investimento na organização do Euro'2004, alguém pagou a encomenda de uma ideia surrealista de um guru da crise global de que o futebol poderia ser um "cluster" industrial decisivo para a economia deste país periférico. Alienados pela vertigem e pela classe superlativa de um punhado de jogadores, dois dos quais chegaram a ser considerados os melhores do Mundo, os responsáveis nacionais ganharam coragem para prosseguirem a campanha de desperdício, adquirindo uma crise permanente como herança para os adeptos vindouros”.
Há uma tendência que pretende determinar que quem de gosta de futebol deve usar cachecol e aplaudir as barbaridades que se dizem a propósito da modalidade. Eu, que gosto de futebol e aprecio a qualidade desportiva de muitos dos nossos futebolistas, recuso a manipulação das consciências, que através do futebol muitos gostam de fazer. O futebol é uma extraordinária modalidade desportiva que vive do capitalismo de casino e da especulação de ativos. Mundialmente vive na Suíça. E em outros paraísos fiscais. Em Portugal retirem-lhe os dinheiros públicos que, infelizmente, as finanças autárquicas e regionais lá colocam e vejam o resultado. Não é preciso, por isso, recorrer ao modo como muitas disciplinas das ciências sociais tratam estas apropriações e manipulações identitárias. Fico-me por uma observação mais plebeia: não nos sirvam gato por lebre.



quarta-feira, 9 de maio de 2012

A inteligência competitiva no Benfica


No início da época desportiva do futebol o SLBenfica anunciou a criação de um gabinete de Inteligência Competitiva. Contratou para o efeito, salvo erro, dois professores catedráticos. O objetivo seria ajudar o treinador profissional de futebol nas suas diferentes tomadas de decisão. E anunciou a boa nova como se de um craque se tratasse.
A medida tinha o seu quê de originalidade. E não tanto pela dimensão epistemológica do conceito mas sobretudo pela novidade que consistia em introduzir uma dimensão filosófica/comportamental na gestão do treino e da preparação desportiva de uma equipa de futebol. Ademais, sendo o líder dessa preparação uma pessoa com indisfarçáveis défices de literacia e comunicação, ficava a dúvida de como seria possível transmitir informações e trabalhar situações com uma qualidade distinta da habitual e de modo a melhorar a tomada de decisão. E acrescentar-lhe valor. Pensei, mas posso estar enganado, que o objetivo era bem mais modesto: era apenas o de aconselhar o seu treinador a gerir o modo como comunicava. E, por arrasto, dar-lhe uma espécie de up-grade cultural. E a ser assim o gabinete deveria antes chamar-se de Inteligência Comunicativa. Mas reconheço que isso era embaraçoso porque para essa tarefa, a de comunicar, já existia um departamento e um especialista, rodado nos meandros da presidência da república ao tempo de Jorge Sampaio.
Ignoro o trabalho desse gabinete, o da Inteligência Competitiva. Se funcionava ou não. Se era bem ou mal escutado. Mas interrogo-me sobre o que ganhou o clube e o seu treinador com esse gabinete. O que fez e não teria feito graças a ele. O que mudou no modo de gerir a equipa e enfrentar a competição. E como não conheço o modo como esse trabalho era preparado, dele, não posso falar. Mas acompanhando as constantes declarações do treinador principal da equipa concluo, o que não é difícil, que continua igualzinho ao que era antes de começar a beneficiar do suposto aconselhamento de especialistas em inteligência competitiva: a mesma arrogância, a mesma soberba e a mesma incapacidade, quando não vence, em reconhecer mérito aos adversários.
Um treinador de futebol num clube como o Benfica, para além da relação estreita e necessária com os jogadores e a restante equipa técnica comunica com o público. E fá-lo com acrescida regularidade. E quem o escuta não é apenas esse público, mas também aqueles que dirige. E nestas coisas, não havendo uma bitola única, há, no entanto, um módico de ponderação, de bom senso e de cultivo de responsabilidade. Quem vive o desporto sabe que tem de contar com imponderáveis e custos de contexto: uma arbitragem mal feita, ocorrências imprevistas, uma lesão inesperada, a falta de sorte. Não pode atribuir o insucesso sempre à responsabilidade dos outros. Porque isso é uma forma de se desresponsabilizar.
Não é preciso ser bruxo para se adivinhar qual iria ser presente/futuro do Gabinete de Inteligência Competitiva no Benfica. Não por eventual incapacidade ou falta de qualidade dos mentores de tal propósito. Mas por uma óbvia e singela razão: pela natureza dos destinatários; pela ausência de competências que lhes permitissem aproveitar o conhecimento disponibilizado. Não é simpático dizê-lo. Mas é óbvio reconhecê-lo. Para benefício de todos. Incluindo o próprio treinador. O que porventura, por défice de inteligência preditiva, se não esperava era que o pretexto para a rescisão com os especialistas da Inteligência Competitiva fosse uma entrevista de um deles. Não a explicar o insucesso competitivo do clube, mas a prever que o treinador principal estaria de partida. Resultado: no dia seguinte o visado declarava para quem o queria ouvir: Porto? Quem chega ao topo não quer voltar para trás. Percebi bem? Mas não foi essa possibilidade que lhe serviu, há dois anos, de arma de arremesso, para renegociar, com o atual patrão, um contrato milionário?



domingo, 15 de abril de 2012

O desporto para além do futebol: os direitos dos atletas de alto rendimento

Texto publicado no Público de 15 de Abril de 2012.



1. A semana encontra-se marcada por mais um “caso” no futebol. Sobre o mesmo já dissemos aquilo que é possível dizer (neste momento), uma vez que manchas de nebulosidade ainda perduram. Apenas uma observação adicional de uma pessoa insuspeita quanto à hipervalorização da nação do futebol no nosso desporto e sociedade (veja-se o triste exemplo do secretário Mestre Picanço a marcar presença no lançamento da final da Taça da Liga): não só o futebol padece destes “casos”, tenham estes ou outros contornos. Com efeito, sabem-no bem clubes e agentes desportivos que vivenciam outras modalidades, que também aí proliferam actos, omissões e factos que não desmerecem do desvalor futebolístico. No fundo, é sempre uma questão de decência ou indecência, no futebol, no desporto e no todo que é este infeliz país.
Vamos, pois, ao que realmente interessa.



2. O Tribunal Constitucional (TC), a 28 de Março, proferiu importante decisão relativa aos direitos dos praticantes de alto rendimento. Entendeu o TC julgar inconstitucional, por violação do princípio da segurança jurídica e da protecção da confiança, a norma do artigo 19.º do Decreto-Lei n.º 393-A/99, de 2 de Outubro, na redacção dada pelo artigo 46.º, n.º 1, do Decreto-Lei n.º 272/2009, de 1 de Outubro, quando interpretada no sentido de exigir a estudante abrangido por este regime que obtenha as classificações mínimas fixadas pelos estabelecimentos de ensino superior para as provas de ingresso e para nota de candidatura no âmbito do regime geral de acesso, quando parte dessas provas foi realizada antes da mencionada alteração legislativa.



3. Eis a história. Uma atleta gozava do estatuto de praticante desportivo no percurso de alta competição. Nessa qualidade beneficiava de regime especial de acesso ao ensino superior. Esse regime foi, no entanto, substancialmente alterado pelo Decreto-Lei n.º 272/2009. Estes atletas passaram a ter obrigações semelhantes a todos os outros estudantes, que pretendam aceder ao ensino superior.

4. À data da entrada em vigor da alteração introduzida pelo Decreto-Lei n.º 272/2009, a atleta acederia ao ensino superior. Todavia, por força do novo regime estatuído pelo Decreto-Lei n.º 272/2009, de 1 de Outubro, a atleta veria inviabilizada a sua candidatura. Assim, a mudança superveniente das regras que regulamentavam a sua situação, com a qual esta não podia razoavelmente contar, e surgida em momento que a impossibilitou de, adequadamente, definir metas e estratégias de trabalho em função dessas novas regras de acesso ao ensino superior (dado já se encontrar no início do 12.º ano), destruiu o seu investimento de confiança na manutenção do regime legal.



5. O TC afirma que quando “o estudante se apresentou aos exames nacionais do 11.º ano, realizados no ano lectivo anterior (2009-2010), não lhe era possível estabelecer metas e estratégias conformes e adequadas ao cumprimento de uma exigência de classi? cações mínimas que, à data, não lhe era aplicável. Pelo contrário, a lei então vigente não incentivava um especial cuidado com tais provas, uma vez que apenas exigia aos atletas de alta competição a aprovação nas disciplinas do ensino secundário correspondentes às provas de ingresso. Uma gestão do tempo (e a sua repartição na preparação dessas disciplinas e no treino desportivo) que tenha procurado tirar proveito desse regime mostrasse razoável e justificada”. “E o interessado não tinha qualquer razão para se precaver contra a possibilidade de o regime em vigor deixar, quanto a este ponto específico, de o beneficiar, por força da aplicação retrospectiva de um outro, tanto mais que esse regime se encontrava estabilizado por uma vigência normativa de largos anos”, acrescenta.


6. Este texto é dedicado à família António e aos estudantes atletas de alto rendimento.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Rumo a Londres 2012

Um texto de Luís Leite, que se agradece.


A 4 meses dos Jogos Olímpicos de Verão, julgo ser interessante fazer uma retrospetiva das participações portuguesas, com o objetivo de se poderem tirar algumas conclusões.
No final, julgo ser possível fazer uma previsão das expetativas aceitáveis para os Jogos que se avizinham.

Portugal participou até agora em 22 edições dos Jogos Olímpicos de Verão, entre 1912 e 2008.
Nessas 22 participações ganhou 22 medalhas, o que dá uma média de uma medalha por participação.
Foram conquistadas 4 medalhas de ouro (todas do Atletismo), 7 de prata e 11 de bronze.
Das 22 medalhas, 10 foram conseguidas pelo Atletismo.

Além do Atletismo, mais sete modalidades conseguiram medalhas: Vela (4), Equestre (3), Ciclismo (1), Esgrima (1), Judo (1), Tiro – Fosso Olímpico (1) e Triatlo (1).

Em termos de medalhas, o máximo que Portugal conseguiu numa edição foram 3, em apenas duas edições: 1984 (Los Angeles) e 2004 (Atenas).
Em 9 edições, Portugal não conseguiu qualquer medalha.

Se considerarmos as medalhas e o número de pontos obtidos (do 1º ao 8º lugar), sendo 8 para o 1º e 1 para o 8º, vejamos as melhores participações:

Atenas 2004: 3 medalhas, 42 pontos;
Los Angeles 1984: 3 medalhas, 26 pontos;
Atlanta 1996: 2 medalhas, 33 pontos;
Sydney 2000: 2 medalhas, 30 pontos;
Pequim 2008: 2 medalhas, 28 pontos;
Montreal 1976: 2 medalhas, 19 pontos;
Londres 1948: 2 medalhas, 17 pontos.

As piores participações, com 0 medalhas:

Estocolmo 1912: 0 pontos;
México 1968: 0 pontos;
Moscovo 1980: 0 pontos;
Munique 1972: 3 pontos;
Antuérpia 1920: 5 pontos;
Tóquio 1964; 5 pontos;
Los Angeles 1932: 6 pontos;
Melbourne 1956: 7 pontos;
Barcelona 1992: 8 pontos.

Modalidades que conseguiram mais pontos:

Atletismo: 98;
Vela: 79;
Equestre: 42;
Esgrima : 19;
Judo: 14;
Vólei de Praia: 10.

Atendendo ao número de medalhas e pontos e o número de participações, Portugal é o país mais fraco da Europa em resultados olímpicos, com população superior a 3 milhões de habitantes e apenas devido à Albânia, pois de resto só está acima dos microestados com menos de 500 mil.

Tomando como base os resultados obtidos no passado e a fraca tradição desportiva nacional e tendo em consideração o panorama atual das modalidades e atletas já qualificados e eventualmente a qualificar, é possível fazer um prognóstico global quanto a expetativas realistas:

Dificilmente Portugal ganhará uma medalha e é improvável que ultrapasse os 15 pontos.

Esta previsão reflete o desinteresse com que o país sempre olhou e olha para os Jogos Olímpicos, revelando uma enorme incapacidade de organização profissional e responsável, salvo raríssimas exceções.

A nível governamental, reina o desconhecimento sobre a matéria e a profunda crise financeira que o país atravessa será invocada para justificar uma crescente decadência do desporto olímpico.

A população desportiva, nessa altura, estará preocupada com o Europeu de Futebol e com a aquisição de reforços futebolísticos.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

O mercado desportivo português: procura e oferta

Um texto de Luís Leite, que se agradece.


Como qualquer outra actividade humana, o desporto não foge à realidade estrutural e conjuntural do MERCADO.

Em Portugal, a PROCURA é fortemente condicionada por factores culturais e por fatores de marketing e imagem.
Os fatores culturais são de difícil e lenta mutação, são precisas décadas para se sentirem transformações significativas.
Os fatores de marketing e imagem funcionam numa base de forte investimento naquilo que “vende”.
Analisando a realidade portuguesa, tendo em atenção o exposto, verifica-se uma fortíssima procura da modalidade Futebol, assente fundamentalmente no clubismo e na clubite.
Essa procura, assenta cada vez mais na componente espetáculo, através das transmissões televisivas e da presença nas bancadas dos estádios e cada vez menos na prática desportiva.
O fenómeno futebolístico é pois, essencialmente passivo na procura, já que o interesse se manifesta maioritariamente através da participação do português como espectador/comentador e, consequentemente, como consumidor de produtos diretamente associados e não como praticante desportivo.

O peso do Futebol é de tal forma vincado, que as restantes modalidades são vistas, ao nível da procura, apenas como curiosidades e mesmo assim, por uma relativamente pequena percentagem da população.
Esta realidade é fortemente condicionante do desenvolvimento desportivo global, assistindo-se, de alguns anos para cá a uma estagnação do nível de qualidade da prática desportiva, com consequências no fraco desempenho desportivo no contexto internacional nas restantes modalidades. Com particular evidência nos resultados olímpicos, muito àquem do aceitável para um país europeu com mais de 10 milhões de habitantes.
Na última década, acentuou-se fortemente a procura desportiva na componente saúde/imagem física, sem que essa realidade contribua em nada para o desenvolvimento desportivo federado, de verdadeira competição.

A OFERTA desportiva, entre nós, evoluiu nas últimas décadas de forma significativa ao nível das instalações para a prática desportiva, embora sejamos obrigados a reparar na importância relativa muito significativa que foi dada à construção de grandes estádios para o Futebol.
A oferta de locais para a prática desportiva foi fortemente financiada por fundos comunitários, embora se tenha verificado uma espantosa falta de planeamento estratégico no que respeita à resposta à procura existente ao nível concelhio, distrital e regional.
Assim, foram construídos milhares de equipamentos desportivos a pretexto de motivações políticas ou financeiras laterais, sem atender à realidade da procura.
O parque desportivo nacional de propriedade do Estado não corresponde, portanto, na maioria dos casos, a uma oferta com verdadeiros objectivos de desenvolvimento integrado, sendo comum a existência de equipamentos em avançado estado de degradação por falta de uso.
A questão da sustentabilidade dos equipamentos desportivos raramente foi tida em linha de conta no momento das tomadas de decisão, verificando-se assim, de uma maneira geral, a incapacidade de manter a esmagadora maioria dessas instalações.
Por outro lado, a oferta desportiva tem-se vindo a submeter, cada vez mais, a uma lógica económico-financeira despesista e insustentável por parte dos clubes em geral e dos grandes em particular.

Em Portugal, o desporto foi consagrado na Constituição como um direito de todos os cidadãos e isso foi sempre sendo interpretado como razão para a gratuitidade na utilização de instalações públicas.
A maioria do público aceita sem reservas gastar, num único espetáculo futebolístico, uma quantidade de dinheiro que nunca aceitaria gastar, durante um mês, na prática de uma modalidade num recinto adequado e com um técnico especializado.
A exceção são os ginásios de “fitness”, em que a preocupação com a imagem física se sobrepõe à preocupação com as eventuais vantagens para a saúde do exercício físico.
Hipocritamente, o Estado financia, direta ou indiretamente, manifestações populistas isoladas e sem retorno na área do desporto, de que se destacam as caminhadas e as mini-maratonas, que mais não são que oportunidades de convívio de multidões, com fins eleitoralistas “politicamente corretos”.

Enquanto esta lógica de MERCADO se mantiver, Portugal não terá qualquer possibilidade de evoluir desportivamente.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Votos para 2012 - Projecto "O Jogo das Raparigas"

Ao reler o pensamento de Albert Einstein, “Insanidade é fazer sempre as mesmas coisas , esperando resultados diferentes”, veio-me à memória quem afirma que não existe discriminação e desigualdade de oportunidades entre mulheres e homens, ou raparigas e rapazes no desporto e na educação física em Portugal, e se escuda apenas na mentalidades e na cultura predominantes para justificar os níveis que a todos envergonham da participação desportiva feminina. E claro está, perpetuando-se as mesmas mentalidades e culturas não esperemos resultados diferentes. Para os irredutíveis nesta matéria basta investirem algum tempo na leitura para se renderem às tristes evidências.

No passado mês de Dezembro disputou-se o mundial de andebol feminino no Brasil e mais uma vez me “enfureci” a ver países que há 20 anos estavam no nosso patamar competitivo, (e.g. a Espanha e a França), ou ainda pior, como o Brasil, e que agora nos fazem morrer de inveja marcando presença nas finais de todas as maiores competições mundiais e europeias. Contudo, tal não obsta a que os dirigentes responsáveis por estas e outras situações análogas, sejam galardoados e recebidos pela tutela do Desporto com pompa e circunstância.

Isto para dizer que sem planos de ação de médio e longo prazo, assim como de medidas concretas específicas, que esbatam as mencionadas desigualdades de oportunidades (a nível financeiro, logístico, material, de recursos humanos, entre outros) não saímos da estagnação e de níveis organizacionais que, por vezes, em tom de brincadeira digo que são próprios da idade da pedra e muito visiveis na modalidade do futebol/futsal feminino.

Neste sentido destaque para o Projeto “O Jogo das Raparigas” que tem o objetivo de “contribuir para o aumento da participação das raparigas e mulheres no futebol/futsal através de três eixos interligados e complementares de intervenção:

1.º o combate à invisibilidade, às barreiras culturais e aos estereótipos, através de uma campanha centrada na apropriação e na prática deste desporto pelas raparigas, procurando influenciar positivamente as jovens adolescentes, mas sobretudo as suas famílias, os órgãos de comunicação social e agentes desportivos, nomeadamente do futebol/futsal;
2.º o empoderamento das raparigas e mulheres, numa perspetiva de consciencialização dos seus direitos, promovendo oportunidades de participação, de organização e de desenvolvimento das suas competências de liderança, bem como o aumento da prática desportiva;
3.º a sensibilização de públicos estratégicos: dirigentes de clubes, de associações distritais de futebol, de eleitas/os do poder local, para a necessidade de promover medidas e programas específicos que apliquem o princípio da igualdade e da não- discriminação; o projeto é também dirigido às escolas e docentes de Educação Física para a necessidade de apoiar as jovens alunas na aprendizagem do futebol/ futsal e apoiar a sua prática continuada."

E não deixem de ver e, se possível, se solidarizarem com os votos deste projeto para 2012:

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Requiem

Mais do que uma língua que nos une...

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A bater no fundo


«Beckham em Paris seria certamente bom para os centros comerciais. Gosto muito dele como jogador, mas já não é o futebolista que era. Se ele vier para Paris irá fazer outra coisa que não futebol»

Platini (Presidente da UEFA)



Vicente Moura (Presidente do COP)

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O interesse público

Nos últimos tempos tem sido frequentemente invocado o interesse público associado às seleções nacionais. Que nos diz a lei e os regulamentos neste domínio?

A participação nas seleções ou em outras representações nacionais é classificada de missão de interesse público, e como tal, objeto de apoio e de garantia especial por parte do Estado. É esta a redação do artigo 45.º da Lei de Bases da Actividade Física e do Desporto (LBAFD-Lei n.º 5/2007, de 16 de Janeiro), que não oferece dúvidas de interpretação, pois ao estar em causa a equipa representativa da nação, quem nela participar está a prestar um serviço relevante e do interesse da comunidade em geral, daí o invocado interesse público. Dever acrescido para os atletas a quem é atribuído o estatuto de praticantes desportivos de alto rendimento, como veremos de seguida.

O principal problema está no valor que cada modalidade atribui ao famigerado interesse público. Naturalmente não é na LBAFD que encontramos cominação para quem infringe o tal dever de, regularmente convocado, integrar os trabalhos da seleção nacional.

Consultando o diploma que regula as medidas de apoio ao alto rendimento (Decreto-Lei n.º 272/2009, de 1 de Outubro), deparamo-nos, no seu artigo 35.º, n.º 4, com o dever destes praticantes integrarem as selecções nacionais quando para elas foram convocados. Logo no artigo seguinte surge consignada a eventual sanção de suspensão das medidas de apoio a que tiver direito, precedida de procedimento adequado, com garantia dos direitos de defesa e de recurso. Sendo que tais sanções serão aplicadas por despacho do membro do Governo responsável pelo Desporto.

Curioso é que, na verdade, o valor do interesse público é assumido de forma diferenciada pelas modalidades desportivas, como uma pequena pesquisa nos regulamentos disciplinares federativos nos propicia.

Assim no andebol, o agente que falte injustificadamente aos trabalhos da Selecção Nacional será punido com suspensão de 20 dias a 12 meses e multa de € 2.500,00 a € 15.000,00. Sendo que se se tratar de um praticante em regime de alta competição, as penas previstas no número anterior serão elevadas para o dobro e poderão ser suspensos, por igual período de tempo, os benefícios decorrentes de tal estatuto.

Contudo, se estivermos no domínio da canoagem, o praticante que, tendo aceite a convocatória, falte aos trabalhos, treinos, estágios ou concentração da selecção nacional será punido com pena de suspensão de 3 a 5 provas ou de 2 a 3 meses. Se se tratar de um atleta com estatuto de alto rendimento será punido nos mesmos termos.

E por fim se a modalidade em causa for o futebol, o praticante que, tendo aceite a convocatória, falte aos trabalhos, treinos, estágios ou concentração da selecção nacional será punido com pena de suspensão de 3 a 5 provas ou de 2 a 3 meses (mais estranho ainda se configure a última sanção que ocorreu no futebol, acrescido do fato de não ter havido qualquer procedimento disciplinar).

Enfim, sanções e graduações para todos os gostos fazem com que o interesse público seja matizado e balizado por critérios diferenciadores consoante as modalidades, quando o que está em causa é justamente a salvaguarda do mesmo bem ou valor, o de integrar a “equipa de todos nós”.