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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

J.Paralímpicos: "Os nossos mais válidos..." (II)


Há 4 anos foi com este título que me dirigi à participação da nossa delegação nos jogos paralímpicos.
Volvido este tempo, assistimos à constituição ex-legis do Comité Paralímpico de Portugal (CPP) em 2008 (vide a sua imposição antes da sua criação na Lei de Bases da Actividade Física e do Desporto), e consequentemente ao primeiro ciclo paralímpico organizado e liderado sob a sua responsabilidade, missão anteriormente assumida pela Federação Portuguesa de Desporto para Pessoas com Deficiência. Não poderemos assim exigir da delegação portuguesa muito para além do já excelente desempenho obtido em Pequim:  representação de 33 atletas, em sete modalidades, com a conquista de sete medalhas - uma de ouro, quatro de prata e duas de bronze -, nas modalidades de atletismo, boccia e natação.

Na verdade o CPP está a construir o seu edifício organizacional e a estabelecer as suas pontes para dar cumprimento ao seu lema “Igualdade, Inclusão e Excelência Desportiva”, entendendo, contudo, que cabe aos clubes e federações desportivas o papel decisivo na massificação da prática desportiva para deficientes. Na verdade, esta não pode estar dependente apenas das suas organizações especializadas, daí a nota positiva para o projeto inovador do andebol em cadeira de rodas levado a cabo pela Federação de Andebol de Portugal.

Destaca-se na atividade do CPP, para além do contrato-programa tripartido a quatro anos, que envolveu os Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ) e o Instituto Nacional da Reabilitação (INR), a manutenção do principal patrocínio com a Fundação Galp Energia, o patrocínio institucional com a Câmara Municipal de Loures, a parceria com a Transportadora Aérea Nacional e com a Autoridade Antidopagem de Portugal, a aprovação do Regulamento de Apoio ao Desenvolvimento Desportivo (inédito na história do desporto paralímpico e surdolímpico português), a realização do Campeonato Mundial de Boccia em 2010 (Lisboa) e a candidatura à organização do Campeonato do Mundo de Atletismo de 2015. Registo ainda os protocolos de cooperação com a Universidade de Évora e com a Faculdade de Motricidade Humana e para a Revista bilingue “Paralympic News” com a primeira edição em julho de 2010.

Fazemos votos para que quem acompanha este blogue e tão ferverosamente contribuiu para as últimas discussões (uns com registos e contribuições muito enriquecedoras, outros, principalmente alguns dos anónimos, com propósitos de maledicência gratuita e escabrosa), não olvide a participação paralímpica que decorrerá até ao próximo dia 6 de setembro. A Simone Fragoso, 7.º classificada na final dos 50m livres S5, e todos os demais merecem que exaltemos os mais nobres sentimentos humanos em detrimento das declarações que nos aviltam, envergonham e estupidificam.


segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Em tempo de nova visibilidade

Volto ao assunto já aqui tratado por outros companheiros: o anúncio por parte de Federação Portuguesa de Desporto para Deficientes e do governo (!) da criação do Comité Paralímpico de Portugal. Mas para reflectir para alem do facto anunciado.
É consensual que a problemática dos cidadãos portadores de deficiência pede à sociedade, politicas de discriminação positiva, que atendam à sua situação especial e que procurem reduzir os factores de desigualdade de oportunidades quanto à sua vida em sociedade. É um problema complexo porque a população portadora de deficiência é extremamente heterogénea, com graus de autonomia diversos e colocando tipos de problemas distintos. Mas é também um problema que tem tido soluções satisfatórias em outros países. Aprender com eles não custa muito.
O desporto e as actividades físicas em geral são reconhecidamente um meio excepcional no contributo ao trabalho com cidadãos portadores de deficiência. Ajudam à sua integração enquanto pessoas, mas também são um meio preventivo e terapêutico na redução de algumas das sequelas resultantes de patologias existentes. É, por isso, uma questão que está para além do problema do rendimento desportivo. O caso dos jogos paralimpicos e o aproveitamento que é habitualmente feito, corre o sério risco de secundarizar as razões fundamentais para a presença do desporto junto destes cidadãos. As organizações representativas dos cidadãos portadores de deficiência são as primeiras a aproveitar o balanço dos “paralimpicos”.É natural. Sabem que ao fazê-lo ganham uma visibilidade que jamais alcançariam, mesmo que o seu trabalho fosse, como o é na grande maioria dos casos, socialmente relevante. Mas, a prazo, os possíveis efeitos perversos desta situação impõem-nos prudência e algum distanciamento crítico.
O reconhecimento da importância das práticas do desporto para os cidadãos portadores de deficiência coloca um quadro de exigências que pede responsabilidades a todos. Poderes públicos, associativos e privados devem caminhar no sentido de se criarem condições que permitam aproveitar as enormes potencialidades do desporto a favor dos cidadãos portadores de deficiência. Mas também a reduzir os factores que impedem uma adequada assunção do princípio da igualdade de oportunidades perante o direito de todo o cidadão ao exercício da prática do desporto. O que requer, não apenas a aceitação da diferença entre indivíduos, mas também a aceitação de diferenças perante as várias dimensões da prática do desporto.
A adopção de modelos de desenvolvimento desportivo centrados prioritariamente na dimensão competitiva do desporto, corre o sério risco de acentuar novas formas de discriminação. Ao se acolher os melhores numa lógica selectiva, rejeitam-se a grande maioria, porventura, e apesar de tudo, os mais necessitados de usufruírem de uma prática desportiva sistemática. As políticas desportivas construídas e centradas predominantemente na obtenção de resultados em competições, serão sempre poucas em relação aos restantes, que são muitos.
Uma atenção especial à prática desportiva de competição não deve prejudicar o objectivo essencial de generalizar e democratizar a prática do desporto. Não apenas no plano da competição, mas também nos domínios da recuperação, da recreação e do lazer. Pede-se, neste particular, uma nova cultura e sensibilidade desportivas, percebendo que também no desporto para cidadãos portadores de deficiência muito se decide no domínio da dimensão cultural do desporto e do entendimento que ele deve estar ao serviço de todos.
Na situação actual sabemos que não é fácil às organizações representativas evitarem uma prática do desporto que procura copiar os modelos dominantes. É este modelo que as mobiliza porque é um modelo que, apesar de tudo, lhes dá visibilidade. Mas a prazo serão confrontados com objectivos alcançados, que não corresponderão aos interesses daqueles que representam. Os vícios e os excessos que passam pelo desporto contemporâneo transportar-se-ão para o desporto para deficientes agravando a sua própria possibilidade de desenvolvimento. O que agora é um ganho ( o aumento da visibilidade)pode transformar-se a prazo num problema maior ( o aumento da exclusão).E esse é um risco que deve ser evitado. Dando atenção aos que pretendem competir ao mais elevado nível desportivo mas nunca esquecendo o desporto para os restantes. Que são afinal a maioria.

domingo, 7 de setembro de 2008

J.Paralímpicos: Os nossos mais válidos...

Deficiências

“Deficiente” é aquele que não consegue modificar a sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino.

“Louco” é quem não procura ser feliz com o que possui.

“Cego” é aquele que não vé seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria e só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.

“Surdo” é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês.

“Mudo” é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia.

“Paralítico” é quem não consegue andar na direcção daqueles que precisam de sua ajuda.

“Diabético” é quem não consegue ser doce.

“Anão” é quem não sabe deixar o amor crescer. E, finalmente, a pior das deficiências é ser miserável, pois:

“Miseráveis” são todos que não conseguem falar com Deus.

Mário Quintana (1906-1994)


Já em diversos textos abordei o "desporto adaptado", as suas vicissitudes e as duplas ou múltiplas discriminações de que são alvo as pessoas ou, neste caso, os praticantes desportivos "mais válidos", fazendo uso da expressão utilizada por uma aluna italiana de Erasmus.
Acompanharei, como fiz com os Jogos Olímpicos, com ansiedade e muito entusiasmo, entre 6 e 17 de Setembro, a participação da delegação portuguesa em mais uma edição dos Jogos Paralímpicos e hoje, neste espaço, privilegio as palavras sábias e os depoimentos esclarecedores de alguns protagonistas dos nossos e das nossas melhores atletas. Por ora, palavras para quê com narrativas e imagens como as que se seguem?







quarta-feira, 21 de maio de 2008

Haja o que houver...

- Ainda que Óscar Pistorius não consiga os resultados desportivos que lhe permitam participar nos Jogos Olímpicos de Pequim, a sua maior vitória está escrita na sentença de 16 de Maio do Tribunal Arbitral do Desporto.


- Independentemente das decisões do Conselho de Justiça da FPF relativamente a recursos pendentes, das futuras sentenças dos tribunais comuns relativamente ao caso “Apito Dourado” ou das decisões da UEFA no que respeita ao acesso às competições europeias, entre muitos outros aspectos atinentes ao futebol profissional luso, parece-nos iniludível que esta realidade desportiva passa maus bocados e está em depressão profunda. Contudo, tudo é passageiro, mesmo os piores males, e assistiremos (?) nos próximos dias e até finais de Junho a toda a pujança mediática, comercial e desportiva da modalidade rainha. E como Portugal está necessitado de um campeonato da Europa de futebol…


- Tanto o
apuramento de Marco Vasconcelos como o de Ana Moura para os Jogos Olímpicos de Pequim constituem factos históricos no desporto nacional e em particular no badminton. Merece destaque, respectivamente, a 3.ª qualificação seguida e o recurso ganho em sede da Badminton World Federation (BWF), da decisão que havia penalizado a atleta portuguesa de alcançar o seu sonho. Sublinhe-se que esta jovem é a 1.ª mulher portuguesa no badminton a qualificar-se e a rumar até Pequim.


- Haja o que houver… ele será sempre um Homem do Desporto, que serve o Desporto e que ama o Desporto. Parabéns pelo seu aniversário, JMC!

sexta-feira, 16 de maio de 2008

E estas, hem?


Quatro notas curtas, surpreendentes e/ou fascinantes: eleja a melhor

1. Ler os escritos de Jorge Araújo, actual presidente da Team Work Consultores, para quem vai acompanhando o seu percurso e os seus feitos há mais de vinte anos, é sempre um prazer e uma grande fonte de ensinamento. Ontem, em mais um dos seus artigos, bebemos sábias noções e citações:
“Liderar, exige concentração numa visão forte e em objectivos ambiciosos, tal como preocupação com as pessoas que dirigimos e com os resultados a alcançar.”
“Liderar a um nível superior, é um processo para alcançar os resultados pretendidos, agindo ao mesmo tempo com justiça, respeito e preocupação com o bem-estar de todos os envolvidos.”

2. Actividade física e saúde pública
“Sócrates: só falta ser chicoteado por fumar”
Moral da história: “Cumpre o que eu legislo e não olhes para o que eu faço”. Este País virou um regabofe.

3. «FC Porto bem representado no Parlamento»
No mesmo dia em que, pela manhã, se conheciam decisões judiciais relativas ao caso “apito dourado”, pelo fim da tarde, no restaurante do novo edifício da Assembleia da República, jantavam deputados e representantes do FCPorto: Haja alegria e paz na terra.

4. Natalie Du Toit, a quem já tínhamos dedicado a nossa atenção neste espaço, realizou um sonho antigo. Mensagem amiga, que muito agradeço, fez-me chegar este vídeo, emocionei-me profundamente ao vê-lo e ao relembrar o meu encontro em 2003 com esta fabulosa mulher nadadora. Por vezes, a vida é bela!

Nadadora sem uma perna consegue índice para Pequim


segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

O sonho de Oscar Pistorius

Se do poema de António Gedeão retiramos a mensagem sublime de que sempre que o homem sonha o mundo pula e avança, é duro quando enfrentamos organizações, regras e acontecimentos que aniquilam os sonhos de quem neles deposita a sua história de vida.
Em 2003, num congresso internacional partilhei três dias com atletas olímpicas que haviam participado por diversas vezes nas maiores competições internacionais. Entre elas, Natalie du Toit acalentava o sonho de, sem uma perna, conseguir os mínimos para competir nos Jogos de Atenas. Fiquei rendida à bravura e à capacidade hedonística desta jovem sul-africana de 19 anos e passei a estar mais atenta e apaixonada pelo desporto adaptado.
Entre outros atletas portadores de deficiência, fui acompanhando o percurso de Oscar Pistorius e foi com grande decepção que hoje li o comunicado da Federação Internacional de Atletismo (IAAF). Andamos nós a apregoar a inclusão dos deficientes para uma sociedade mais justa e equitativa, a comemorar anos internacionais e europeus da deficiência, a clamar por políticas sociais que combatam a discriminação em razão da deficiência e eis que surge a decisão da IAAF, assente em argumentos técnicos de um determinada investigação biomecânica, que inviabiliza a participação de Oscar Pistorius, um amputado às pernas dos joelhos para baixo desde os onze meses de vida, nos próximos Jogos Olímpicos.
Naturalmente, não será o estudo invocado que colocamos em causa, apesar do atleta apresentar dados contrários fruto de outros estudos, o que nos parece inverosímil é reduzir toda a argumentação, e aniquilar o sonho do Oscar, a restritivos e não conclusivos resultados de ordem biomecânica, quando o ATLETA e a sua performance desportiva apelam e resultam de múltiplas condicionantes, sejam de ordem fisiológica, técnico-táctica, psicológica ou social.
Contudo, como dizia um dos treinadores da Natalie, a tragédia da vida não está em não alcançarmos os objectivos, mas sim em não termos objectivos para alcançar, e destes não desistirá Oscar Pistorius que certamente irá recorrer da decisão da IAAF e continuar a sua carreira desportiva, nem tantos outros com tantas outras histórias de vida exemplares.