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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

"Quando não se sabe para onde vamos, qualquer caminho serve"

Sobre a representação olímpica em Pequim e os rocambolescos episódios ocorridos antes, durante e após o evento já muito se falou e escreveu.

Foi também nesta colectividade desportiva um tema candente, analisado sob diversos ângulos no tempo próprio. Não se pretende voltar a ele, nem tão-pouco recensear posições pró e contra a definição de objectivos desportivos, mas tão só relembrar os ensinamentos recolhidos por quem mais activamente participou na contratualização com o Estado da participação portuguesa em Pequim 2008 e, neste ano, em Londres 2012:

«Depois do fracasso em Pequim2008 quanto às metas traçadas para a conquista de quatro a cinco medalhas -- o que chegou a estar escrito e contratualizado com o Instituto do Desporto de Portugal -- Vicente Moura diz que já não comete o mesmo erro.
“Desta vez isso não acontece: o programa que assumi com o governo não prevê lugares de pódio, prevê boa representação, condigna, etc... mais atletas, talvez mais modalidades, mas não mais do que isso”, justificou o presidente do COP.
O passado foi pedagógico e Vicente Moura referiu que não cairá no mesmo erro, depois da experiência em Pequim, onde acabou por ver apenas Nélson Évora (medalha de ouro no triplo salto) e Vanessa Fernandes (prata no Triatlo) conquistar medalhas.»


As palavras prudentes parecem reter a aprendizagem dos tempos vividos. Não repetir o mesmo erro (!?). Não mais falar em medalhas ou qualquer outro objectivo desportivo. Apenas uma “representação condigna”. Foi esse o compromisso assumido com o Estado português num valor global de 14,6 milhões de euros.

“Quando não se sabe para onde vamos, qualquer caminho serve”.

Este célebre adágio popular não é qualquer critica sobre uma aprendizagem que tende a renunciar a objectivos desportivos precisos sobre a nossa participação em Londres, antes consta da recente proposta de um Plano Integrado de Desenvolvimento Desportivo 2012 -2022 apresentada ao Governo.

Nela se pode ler:

“Este desiderato estratégico deve constituir o eixo central da política desportiva para a legislatura, implicando o envolvimento colectivo de diversas entidades intervenientes no sector ou com este relacionadas, desde federações desportivas aos Municípios e ao Sistema Educativo, a fim de promover estudos técnicos que garantam um verdadeiro e credível diagnóstico da realidade actual e estabeleçam objectivos de médio e longo prazo para aproximar Portugal da vanguarda do conhecimento e do valor ambicionados pela comunidade”

Continua assertivamente:

“Nestas circunstâncias, anima-nos a convicção segundo a qual é decisivo que o Governo assuma o compromisso de encetar estudos e alocar os recursos susceptíveis de enformarem os objectivos do desporto português para a próxima década…”.

Concluindo firme:

“Estabelecido o Plano Integrado do Desenvolvimento Desportivo 2012-2022, onde se encontrassem vertidos os objectivos gerais e intermédios, dando-lhes ampla divulgação junto da opinião pública, importaria que todos os intervenientes assumissem o compromisso de concretizar as metas traçadas”

Ah! Esta proposta, por certo fruto de uma profícua aprendizagem com os erros do passado, foi apresentada ao Governo Português pelo COP, e assinada por alguém que em tempos formalizou um compromisso com o Estado de concretizar os objectivos desportivos expressos num contrato programa, e que, não repetindo duas vezes o mesmo erro, define agora para metas em Londres 2012 a objectivável “representação condigna”.

De facto, “quando não se sabe para onde vamos, qualquer caminho serve”…

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Desporto na república

Hoje, dia 5 de Outubro, Portugal festeja 101 anos de Implantação da República, palavra que vem do latim Res publica e que quer dizer "coisa pública", mais ou menos uma forma de governo na qual um representante, em regra apelidado de Presidente, é escolhido pelo povo para ser o Chefe do País. No caso de Portugal, tal como em outros países, a República rege-se por uma constituição que define os princípios fundamentais para a construção de um país justo e solidário assegurando uma série de direitos e liberdades aos seus cidadãos.
Como é do conhecimento geral, no Capitulo III da nossa Constituição da República, Direitos e Deveres Culturais, o Artigo 79.º (Cultura física e desporto), refere que “Todos têm direito à cultura física e ao desporto” e que “Incumbe ao Estado, em colaboração com as escolas e as associações e colectividades desportivas, promover, estimular, orientar e apoiar a prática e a difusão da cultura física e do desporto, bem como prevenir a violência no desporto.”.
Para uma República bastante madura, com mais de 100 anos (embora muitos considerem o período da Ditadura fora deste conceito, desta ideia) pode-se afirmar com alguma sustentação que o artigo 79º está de certa forma longe de se cumprido, pelo menos estamos longe dessa tão desejada “difusão da cultura física”.
A verdade é que o nosso país continua no fim do pelotão dos países da União Europeia em termos de taxa de participação desportiva e hábitos de actividade física. Pouco mais de 20% da população portuguesa pratica actividade física e desporto de forma regular, estando muito longe, dos países “exemplo”, como a Noruega, Finlândia, Suécia, Reino Unido, Irlanda e Holanda onde se registam os mais elevados índices de participação desportiva, variando entre os 60 e 80%.
Destes países, onde a cultura física faz parte da vida da maioria dos cidadãos e famílias, 4 são Monarquias e temos apenas 2 Repúblicas, o que nos leva a pensar que os monarcas organizam melhor a participação desportiva dos seus cidadãos.
O Desporto representa no imaginário de muitos pensadores e investigadores um espaço de liberdade, de afirmação individual e colectiva, de participação cívica, de inúmeros valores lembrados quando se comemora o dia de implementação da República, mas cujo sistema político parece não trazer grande vantagem para a actividade física e desportiva dos cidadãos, pelo menos no nosso país.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

A cidadania como negócio

A Colectividade Desportiva tem contado com contributos que reflectem sob a natureza nacional de equipas e que, em última instância, se focalizam na afirmação de uma certa falsidade no apresentar do desporto nacional, em particular dos seus êxitos.
A oportunidade de um período de menor labor, conduziu-nos à leitura – e muito dela andávamos afastados – de um artigo de Ayelet Shachar, professor da University of Toronto Faculty of Law, publicado recentemente na prestigiada The Yale Law Journal.

“Picking Winners: Olympic Citizenship and the Global Race for Talent” é o bem sugestivo título do texto.
O autor, neste extenso artigo, coloca-nos, de forma simples, perante um conjunto de «evidências» que vão brotando do mundo do desporto, pegando na cidadania olímpica – isto é, num dos requisitos de elegibilidade dos atletas para participar nos Jogos (ser nacional de um país) –, como um dos exemplos mais expressivos da actual transformação da noção de cidadania: a cidadania (ou a «oferta» da cidadania) como elemento de recrutamento de pessoas e factor fundamental na competitividade entre países.

Citando um outro investigador, o autor adianta que o elemento essencial da competitividade a nível global não é mais a troca de bens e serviços ou os fluxos de capitais, mas a competitividade “for people”.
Os Estados Unidos da América são um dos mais enérgicos exemplos na «troca» de passaportes por medalhas olímpicas.

Mas o que cativa uma pessoa do Direito ou uma pessoa do Desporto, é a postura do autor que vê na cidadania olímpica – ou mesmo na cidadania desportiva – um campo de análise preferencial para o estudo do futuro da cidadania num mundo globalizado e interconectado.

Somente como uma «deixa» para aguçar o apetite pelo excelente texto, refira-se o grande paradoxo registado por Ayelet Shachar:

“É em nome do sentimento de orgulho nacional e da reputação nacional que os funcionários governamentais agilizam a aquisição da cidadania àqueles dotados de talento excepcional. Esta prática leva a situações potenciais em que indivíduos servem como embaixadores desportivos de uma nação relativamente à qual não têm se não ténues ligações e em certos casos, em cujo território nunca colocaram o pé”.
Todavia, esta erosão da cidadania como parte de uma comunidade, via esperança de um país, é levada a cabo em nome da promoção do interesse nacional do país recrutador.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Souto de Moura

Na qualidade de português fico sempre orgulhoso quando um compatriota vence uma competição ou ganha um prémio de prestígio e mérito internacional, seja no desporto ou em outra área qualquer. A semana que passou trouxe-nos a notícia que o arquitecto Souto de Moura foi distinguido com o Prémio Pritzker 2011, o mesmo que já tinha sido alcançado anteriormente por outro português, o arquitecto Siza Vieira.


Considerado como o “galardão” mais importante da arquitectura a nível mundial é de facto um orgulho para Portugal ter cidadãos que se destacam ao mais alto nível internacional na sua profissão. O conceituadíssimo Júri Internacional deste prémio considerou que a “arquitectura de Souto de Moura não é óbvia, frívola ou pitoresca”, referenciando obras que vão desde a escala doméstica à urbana, apontando os exemplos da Casa nº 2 do Bom Jesus e do incontornável Estádio de Braga inaugurado em 2003. De facto, poderemos considerar que o Arquitecto Souto de Moura, para além de excepcional, desenvolve ainda um trabalho de “banda larga”.


Mas um trabalho de banda larga em arquitectura não pode resumir-se única e exclusivamente a um produto acabado do ponto de vista estético. Seja de uso privado ou comunitário, uma edificação tem que estar preparada para responder a determinados objectivos e finalidades. No caso do Estádio de Futebol de Braga, não se discutindo a sua qualidade e inovação estética, deveria este, ter sido melhor planeado e executado para a funcionalidade que um equipamento colectivo deste género deve possuir.


O Estádio de Braga, uma instalação vocacionada fundamentalmente para o espectáculo desportivo, tem do ponto de vista funcional muitos pontos negativos, dos quais se destacam entre outros: a difícil acessibilidade ao local a pé ou em veículo; a distribuição e locais de estacionamento; as bancadas com acesso ou inferior ou superior e que exigem uma grande deslocação por parte de quem quer chegar ao seu lugar; poucos elevadores para as pessoas de mobilidade reduzida ou idosos; espaço muito frio devido à sua localização; e áreas administrativas sem luz natural ou inadequada. Quando o estado da arte sobre localização, construção e funcionalidade de Estádios de Futebol está tão desenvolvido e divulgado há mais de três décadas, é de certa forma inconcebível cometerem-se alguns destes erros básicos, facilmente detectados por todos os destinatários finais deste “produto”, nomeadamente os adeptos de Futebol.


É claro que os arquitectos, embora sejam pessoas tradicionalmente “difíceis” quando se trata de Instalações Desportivas, não são os únicos responsáveis por este tipo de situações. Os donos e promotores das obras têm também o dever de garantir um bom planeamento dos objectivos e do tipo de equipamento desportivo que se pretende. Isto torna-se ainda mais importante quanto mais elevado é o custo da obra e quando é o Estado a pagar.


Quando Souto de Moura receber pela mão do presidente norte-americano, Barack Obama, no próximo dia 2 de Junho, em Washington, esse tão prestigiado Prémio Pritzker, que seja também uma oportunidade para reconhecer o Estado Português, enquanto grande criador de oportunidades para que os arquitectos mostrem a sua obra e se afirmem como prodígios internacionais na sua profissão. Que este momento seja também importante para se reflectir que a glória e o reconhecimento internacional, nomeadamente por parte dos seus pares é importante, mas que é fundamental colocar a genialidade e ética profissional ao serviço da comunidade, assegurando-se desta forma, funcionalidade, sustentabilidade e justificação social para que determinadas obras se edifiquem, principalmente quando é o Estado e o cidadão a pagar.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Partilhar boas práticas

Ao procurarmos o significado do verbo/acto de partilhar, encontramos exemplos como repartir, dividir algo com alguém, compartilhar, etc.

Foco-me na atitude e comportamento de partilhar algo com alguém. Alguém esse que não conheço e partilho boas práticas, algo que teoricamente me coloca em vantagem em alguns contextos. Mas partilhar o quê? Boas práticas!

Boas práticas? Mas o quê? Responderei: Sim, boas práticas, conteúdos de acções, ferramentas, sabedoria, conhecimentos, soluções. Apostaria que alguns dos pensamentos serão “Mas se são coisas boas e tuas, ao dares…os outros podem copiar!”.

Acredito que algumas culturas, bem próximas de ‘nós’, a partilha faz parte do comportamento diário e de uma definição de bom senso. A partilha de boas práticas. De bons comportamentos. A partilha de acções que potenciem e façam aumentar comportamentos como a empatia, empreendorismo, tolerância, escuta activa, dedicação! Ao partilhar apresentações passa-se mensagens, ideias, acrescenta-se valor. Claro que existe sempre a hipótese (e o receio?) de serem aproveitadas por outros, fazendo-se passar por ideias deles. Claro que sim. É um risco que tem de ser medido e calculado. Quando, o quê e como?

Mas a partilha deve basear-se na ideia que não é (só) o conteúdo do conhecimento que faz a diferença, mas a aplicação do mesmo. Muito mais no processo que apenas o resultado de uma palavra ou acção. A visualização de uma acção feita por quem sabe e por quem acha que sabe tem de ser diferente e precisamos também de um público que saiba diferenciar e queira essa diferença.

Sei que pode ser uma ideia visionária, mas temos de começar por algum lado.
Também sei que podem existir inúmeras razões para o não fazer: experiências passadas, a nossa cultura, colegas que nos rodeiam, etc. Mas acredito que apenas a razão de a partilha de boas práticas fazer parte de uma sociedade melhor é mais do que suficiente para superar qualquer desconfiança. Com o risco calculado do quando, o que se partilha, como, onde, para quem, etc.

Na pergunta se estamos preparados para partilharmos e não sermos prejudicados, responderia com um “Talvez”. Como em tudo, muitos aproveitarão para crescer com ideias dos outros, criticar quem o faz ou copiar.


Em Portugal, na sociedade em geral, do desporto em específico, em alguns dos sectores no desporto, precisa-se urgentemente de crescer em termos qualitativos e nos projectos apresentados e dinamizados. A partilha de ideias com o intuito de melhorar e dinamizar algo...é quase uma obrigação, enquanto não for um comportamento naturalmente...natural.

sábado, 4 de setembro de 2010

Seguir a corrente ou navegar à bolina?


A utilização indiscriminada e avulsa do adjectivo “desportivo” generalizou um termo com uma amplitude polissémica cada vez mais lata. Hoje assistem-se a manifestações cuja pressurosa catalogação, pelos ditames do marketing comunicacional, de “desportivas” ou “culturais” seriam impensáveis há bem pouco tempo atrás. Sinais dos tempos? Expressão das dinâmicas de uma sociedade global e pós-moderna? Banalização de conceitos? Estas inquietações e questões não se projectam apenas na esfera da construção de um quadro conceptual de análise da realidade social por quem se dedica a investigar o desporto, mas são determinantes na estrutura de valores que compõem o acervo civilizacional que é o desporto.

O desporto reproduz, difunde, preserva e transmite, como qualquer outro fenómeno social e cultural, os seus valores. Aprofundar como se desenvolve este processo é um elemento decisivo quando se pretende clarificar uma estratégia de desenvolvimento social através do desporto. Poder-se-à considerar, em ultima instância, que são os públicos/destinatários que determinam os valores vigentes em qualquer domínio cultural e estético, onde o desporto não é excepção, e assim se retirarem responsabilidades políticas desta equação. Poder-se-à, em sentido contrário, considerar que os públicos se educam.

Num contexto onde a cultura de massas contaminou os modos de vida das populações por um entretenimento de satisfação imediata, prático, ligeiro e com o maior showbizz possível, baixando significativamente os patamares de exigência dos públicos do desporto - na condição de praticantes, mas principalmente de espectadores e consumidores - na justa medida em que se foram alargando e aumentando a sua iliteracia desportiva, é decisivo para quem assume funções de direcção técnica ou de decisão política saber claramente quais os valores a preservar. Quais os percursos de desenvolvimento desportivo a trilhar através dos instrumentos que dispõem (financiamento, regulação, mobilização política, etc)?

O desporto, como outros, é um bem de mérito, ou seja, a comunidade beneficia do valor intrínseco que este gera em cada cidadão, pelo que se justifica que a colectividade (Governo/Autarquias) apoie aquilo que todos beneficiam e não se esgota apenas no indivíduo. São iniludíveis as competências públicas na salvaguarda e desenvolvimento deste bem.

Porém, ao colmatar as disfuncionalidades do mercado que naturalmente replica o contexto social dominante em que se insere, onde sobre a proteiforme definição de desporto cabe tudo - desde o apoio ao movimento associativo tradicional, à programação de uma rede de infra-estruturas desportivas de base ou instalações destinadas ao espectáculo, passando pelos programas de activismo físico em 30 minutos, até aos mega-eventos e produções desportivas, da animação desportiva em praias, áreas naturais ou espaços públicos, dos torneios e competições internacionais até às práticas recreativas de bairro - cumpre à gestão pública, seja ela central ou local, identificar quais destes e de muitos outros elementos têm um valor desportivo intrínseco, e como tal susceptíveis de subvenção pública, daqueles cujo desporto é apenas um mero componente instrumental para se atingir outros objectivos, por certo legítimos, mas estranhos ao desenvolvimento desportivo. É isso que se exige a quem administra fundos públicos, com maior premência em sectores de actividade onde o seu peso é decisivo.

Há que saber transmitir à comunidade e aos agentes desportivos estas diferenças entre o que é essencial e o que é despiciendo para a construção sustentada de uma estratégia de desenvolvimento desportivo. E esse é um caminho que inevitavelmente se ancora em valores que por vezes colidem com os timings do processo político, pelo que raramente a mensagem é passada de forma cristalina à sociedade, com o que isso gera em depredação de dinheiros públicos e desintegração do tecido desportivo.

Aprendemos que as políticas medem-se pelos resultados e não pelas intenções. Medem-se pelo valor criado a partir do que se investe e não apenas pelo montante das verbas que se despendem. Medem-se pelo número e fidelização de praticantes e pela qualidade dos resultados alcançados e não apenas pelas eventuais oportunidades que se constroem para que isso aconteça. Mede-se também pela forma como se nobilita o espaço público desportivo e se credibilizam as suas instituições.

Mas que valores importa então suportar, preservar e desenvolver quando a comunidade, ela própria, se revê numa cultura desportiva de massas e alimenta as suas formas de expressão desportiva? Seguir a corrente ou navegar à bolina?


quinta-feira, 15 de julho de 2010

Gerações. Um atraso de 20 anos

No dia nacional de França Sérgio Paulinho confirma-se como o melhor ciclista português da actualidade e vence uma etapa do Tour declarando ter sido mais importante para a sua carreira do que a medalha de prata obtida nos Jogos Olímpicos de Atenas.

Neste dia, há 31 anos, o "Quim de Brejenjas" assinava aquele que, pessoalmente, considero ser o momento mais marcante do desporto português. Em muito devido à carga simbólica que a figura de Joaquim Agostinho ostenta. Como que saído das páginas de um romance de Redol, um homem simples e cândido do mundo rural, profundamente telúrico e obstinado nos seus propósitos, tentava a sorte na década de 70 em França, tal como milhares de seus conterrâneos, que comungavam os seus sucessos numa singular relação de identidade projectada para além das vitórias desportivas. Agostinho encarnou, como nenhum outro atleta, o sonho de uma geração de emigrantes.

Chegou tarde ao ciclismo, não era tecnicamente dotado, pelo contrário, tudo era conquistado a pulso pelo ardor combativo na forja, que tomava a forma de um selim com duas rodas. A sua carreira é marcada por inúmeras lesões e quedas graves, a última das quais, num estúpido acidente, viria a ser-lhe fatal.

Nessa tarde de 1979, sofrendo as mazelas de uma queda brutal na 9.ª etapa no empedrado de Roubaix, atacou a 10 quilómetros do fim, deixou a mais de três minutos Hinault, Zoetemelk e outros nomes lendários numa tremenda demonstração de força, e chegou isolado ao ponto mais alto da prova no final da 17.ª etapa, numa escalada com mais de 13 km e uma inclinação média de 8%. Foi o único português a vencer a mítica etapa dos Alpes e a figurar, por duas vezes, no pódio da maior prova do ciclismo mundial.

É também a 17.ª das 21 curvas da subida para o Alpe d'Huez que ostenta o seu nome. Joaquim Agostinho foi ainda o primeiro desportista nacional a ser imortalizado com um monumento no estrangeiro, com um busto em bronze na 14.ª curva desta subida.

Carlos Miranda que o acompanhou ao longo da sua carreira no estrangeiro, num tempo onde o ciclismo ocupava páginas nos jornais desportivos, não viveu para registar este momento póstumo para a posteridade.

Neste tempo presente não deixa de ser preocupante a ignorância de pessoas da minha geração - aquela que, nascida após a Revolução, um ex cineasta, ex jornalista e ex deputado rotulou de “geração rasca”- sobre a história do desporto português. Pessoas com uma informação milimétrica sobre os mais ínfimos contornos do mercado de transferências e currículos desportivos de atletas e equipas, no âmbito das suas responsabilidades pedagógicas e de formação desportiva, mas para quem Agostinho e outros nomes do passado, supostamente incontornáveis, já nem memórias são…

Mas para o responsável político pelo desporto neste país sem memória, talvez não seja assim tão importante cuidar dela: “Não me preocupa muito. Afinal, depois de todos os anúncios feitos pelas entidades oficiais ao longo do tempo, o museu está com um atraso de 20 anos”.




domingo, 4 de julho de 2010

2018

Mais um texto de Luís Leite que a Colectividade Desportiva agradece.

Chegados ao ponto em que estamos, isto é:
um país completamente endividado tanto no sector público como no privado;
em que os políticos responsáveis e irresponsáveis mentem sempre que lhes dá jeito a eles e ao partido;
em que as gerações futuras estão completamente hipotecadas;
em que o empobrecimento da classe média é o único futuro credível;
em que não existe uma única ideia dos políticos para efectivamente desenvolver os sectores primário e secundário para nos tornarmos mais produtivos;
em que a Justiça e a Educação não funcionam ou são a fingir, o grande desígnio nacional é a candidatura conjunta com a Espanha ao Mundial de Futebol de 2018.
Pergunta-se: Para quê?
Responde-se: para dar visibilidade e prestígio à Pátria (leia-se: para poder obter-se financiamento público para a remodelação dos Estádios do Euro 2004, que com 14 anos de vida estarão a precisar de grandes obras de manutenção e adaptação funcional e tecnológica às novas exigências da “verdade desportiva”).
Lembra-se que, por essa altura, os clubes/SADs portugueses estarão (já estão) completamente falidos e inviáveis, tal como o próprio país e provavelmente a dita União Europeia.
Mas teremos o TGV, para os lisboetas e madrilenos se poderem deslocar em 2 horas e meia a fim de assistirem ao vivo aos jogos do Mundial e regressarem a casa no mesmo dia.
Viva Portugal!

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Mais futebol e menos conversa

Por vezes somos tentados – incluindo-me naturalmente no colectivo – a olhar a localização do futebol no todo desportivo nacional como algo que, em alguma medida, só nos afecta.
Em meu abono devo dizer que, em todas as matérias, sempre vou adiantando – particularmente aos alunos – que a nossa vivência não é positiva mas (sempre este mas) não estamos isolados e o vírus percorre um número bem significativo de sociedades e países.
As peripécias nacionalistas deste Campeonato do Mundo de Futebol têm tido contornos quase esquizofrénicos.
De todo o modo, há algo que deve ser dito, em abono de uma verdade (?) sociológica: é assim que as pessoas o sentem, quer queiramos, quer não, e os políticos acabam por reforçar esse sentir.

Por cá, o responsável (?) governamental pelo desporto tem acompanhado intensamente a performance da selecção.
A respeito das declarações de Deco sobre as opções tácticas e técnicas do seleccionador, foi lesto a ditar: «Mais futebol e menos conversa».
Intervenção decisiva para a nossa robusta vitória sobre a Coreia do Norte.
Já antes tinha adiantado que o resultado do primeiro jogo tinha «sabido a pouco».
E rematou: “os portugueses têm que confiar no trabalho do Sr. Queirós e dos 23 jogadores que ele escolheu para representar o país neste grande certame internacional”.
Para ontem o mote estava dado por Laurentino Dias: Cristiano Ronaldo é o maior trunfo da selecção portuguesa e, por outro lado, espera que Portugal e Espanha façam “um grande jogo de futebol” na próxima terça-feira, até porque concorrem juntos à organização do Mundial2018.

A verdade é que a «participação no jogo» de Laurentino fica muito aquém do que se passou (e ainda se passa) em França.
Nesse país, o Mundial é – literal e materialmente – assunto de Estado.
Nicolas Sarkozy recebe Henry, de urgência, no retorno a França (o jogador deixou o aeroporto num carro da presidência). Para garantir a audiência, Sarkozy cancelou mesmo uma reunião com as organizações não governamentais (ONG) que tinha sido convocada para debater as posições francesas nas reuniões do G8 e do G20. Foi de imediato criticado por dar "mais importância" ao futebol do que à "situação de três mil milhões de pobres nos países em desenvolvimento".

O presidente exige responsabilidades e anunciou “uma futura reflexão mais profunda e completa sobre o futebol na França”.
Exigiu ao seu executivo "garantias aos ministros para que os responsáveis assumam rapidamente as consequências pelo desastre". O presidente da federação francesa já se demitiu.
Haverá uma reflexão conjunta sobre o futebol francês – mais Estados Gerais – e a partir das conclusões, o Governo empreenderá uma reflexão mais geral sobre a governança das federações desportivas (porquê de todas?).

E em Itália?
Berlusconi, conhecido treinado da AC Milan, parece estar mais calmo. Numa conferência de imprensa, durante a reunião do G-8 (grupo dos países mais industrializados do mundo), no Canadá, afirmou que “ninguém ousou” falar no G-8 sobre derrota da Itália.
Mas, sem demoras, o Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Tarcisio Bertone, falou sobre a eliminação da Itália:"agora há muitos acusadores, mas nós devemos procurar uma nova equipa e um novo treinador".

Parece-me difícil negar a força do poder do futebol, em particular, restringindo-nos à Europa, nos países do sul.
Tal poder, convivendo com os outros (o político, o económico e o dos media), assume uma natureza transversal e, dessa forma, redobrando o seu vigor, vai determinando parte substancial da nossa vida colectiva.

domingo, 4 de abril de 2010

Maputo e Obesidade Sarcopénica

Dias antes de viajar para Maputo tinha visto uma excelente reportagem da jornalista Cândida Pinto intitulada "Eu e os Meus Irmãos" que relata as vidas dos órfãos de vítimas de sida em Moçambique. Despertou-me, ainda mais, a curiosidade para a realidade social que me esperaria neste país tão longínquo, mas tão familiar devido às recordações e memórias invocadas por vários amigos que lá viveram.

Foi, por conseguinte, o XIII Congresso de Ciências do Desporto e de Educação Física dos Países de Língua Portuguesa, realizado no Centro de Conferências Joaquim Chissano, designadamente algumas das intervenções deste evento, assim como alguns recortes da vida moçambicana, que me inspiraram uma ou duas ideias para partilhar nesta colectividade. A primeira prende-se efectivamente com a cidade de Maputo e as suas gentes. Estar no estrangeiro e ouvir e falar português proporciona um bem-estar, uma serenidade e uma felicidade incomensuráveis, ainda muito mais acrescidos quando os anfitriões são doces no trato e nos olham meigamente como é o caso dos moçambicanos. Neste particular, também a reportagem acima invocada evidencia bem esse olhar sublime de candura e doçura deste povo.
Porém, apesar dos progressos, continuam bem evidentes nas casas, nos transportes, nos hábitos, nos comércios de rua, no salário mínimo (a rondar os 30 euros), os sinais que reflectem uma realidade pobre e que persistem em colocar Moçambique na cauda dos países mais pobres do mundo (posição 172 de 177 no Índice de Desenvolvimento Humano de 2007/2008).
Dados relativos à esperança média de vida dos Países de Língua Portuguesa indicam Moçambique com os valores mais baixos (cerca de 43 anos), aumentando na cidade de Maputo para valores médios de 62 anos para os homens e de 55 anos para as mulheres.

Daí que algumas intervenções neste congresso, nomeadamente as que incidiam sobre o envelhecimento e ainda por cima associados à obesidade sarcopénica (aumento da massa gorda e redução da quantidade e da qualidade muscular que conduz a uma baixa qualidade muscular e aptidão física geral reduzida), tenham sido um dos paradoxos patentes entre a investigação e a vida real dos Moçambicanos. Porém, os temas, os trabalhos e investigações apresentados neste congresso patentearam bem o espaço diferenciado que é a lusofonia e que reclama, necessariamente, reflexões e estudos específicos e não apenas os que sobrelevam das academias americana e europeia.

Por fim, um último registo para nomes de desportistas, dirigentes e técnicos invocados em conversas amenas com diversos Moçambicanos e que perduram na nossa história desportiva, tais como Mário Coluna, Eusébio, Fernando Adrião, Dulce Gouveia, Mirandela da Costa, João Boaventura, Hermínio Barreto. E como eles continuam a ser referências, estimados e queridos…lá como cá!

quinta-feira, 25 de março de 2010

"Experiência não é o que acontece com um homem; é o que um homem faz com o que lhe acontece"

As primeiras duas leis promulgadas por Luiz Inácio Lula da Silva quando chegou ao poder referiam-se ao desporto. Com este gesto simbólico a "Lei da Moralização do Futebol” e o “Estatuto do Torcedor” serviram ao presidente brasileiro para clarificar a visão do seu governo sobre o impacto do desporto na sociedade. O desporto é um elemento - ainda que limitado - de mudança e transformação social, cujo potencial reside nas oportunidades que confere à melhoria das condições de vida e redução das desigualdades entre grupos sociais, em aspectos concretos como a esperança de vida, a pobreza ou as tensões entre comunidades locais através da capacitação dos cidadãos. A rotura com o discurso politicamente correcto sobre os valores promovidos pelo desporto assumia lugar a uma visão lúcida e pragmática sobre o seu contributo para o desenvolvimento do país.

Foi com esta visão que a candidatura do Rio se apresentou nos mais diversos documentos oficiais ciente que o desporto, e em particular os seus grandes eventos, não se pode medir apenas pelo valor de mercado, existindo todo um conjunto de benefícios intangíveis a explorar. Mas também sem ignorar desvantagens usualmente atenuadas como as derrapagens orçamentais, mau uso do solo, planeamento inadequado e instalações subaproveitadas, conforme, aliás, o FMI alerta no seu recente boletim num artigo que desmistifica várias das quimeras lançadas por muitos dos que pretendem promover estas realizações. Existem relativamente poucas evidencias objectivas sobre o impacto económico de grandes eventos desportivos quando analisados em investigações académicas, revistas por pares, à margem dos interesses das candidaturas. “Os ganhos económicos são modestos, ou talvez inexistentes”.

Os valores, princípios e direitos universais que as autoridades desportivas professam ao serviço do desenvolvimento humano nos seus códigos de ética, a começar na Carta Olímpica, aos quais se ancora o poder político e as organizações intergovernamentais, traduzem-se num percurso que os contradiz em diversos momentos ao longo da história. O legado de um grande evento tanto pode ser um catalisador como um depressor do desenvolvimento local.

O recente relatório da brasileira Raquel Rolnik para o Conselho de Direitos Humanos da ONU - que não se furta a apontar falhas à organização do seu país -, ilustra a deterioração das condições de vida e o aumento da discriminação em relação a franjas sociais desfavorecidas na realização de Jogos Olímpicos e Campeonatos do Mundo de Futebol. A redistribuição das eventuais mais-valias e benefícios é fracturante e contribui em inúmeras ocasiões para agravar as desigualdades existentes.

O desporto, o recreio e a actividade física que sempre se assumiram como elementos fundamentais no direito à cidade e à valorização do espaço público em várias escolas de planeamento urbano, no entanto, é também o precursor, através destas competições, de processos de gentrificação e deslocalização, com as profundas consequências de desfragmentação social da malha urbana que isso acarreta, comprometendo desde logo um direito essencial como é o direito à habitação. Acresce que o discurso em torno do potencial económico do desenvolvimento de infra-estruturas, de redes de transportes e comunicações e de outros investimentos – públicos claro está –, pressurosamente rotulados de enormes benefícios, ajuda a esbater estes fenómenos, bem actuais.

Esta é uma realidade, e objecto de estudo, que preocupa o COI no âmbito da vertente social do desenvolvimento sustentável, tal como os aspectos ambientais abordados no post anterior. As oportunidades oferecidas ao acolher os Jogos Olímpicos devem ser optimizadas não apenas para responder aos requisitos necessários a receber o evento, mas também às necessidades e expectativas das futuras gerações. Esse é um elemento vital nos procedimentos e questionário lançado em 2008 paras as candidaturas às olimpíadas de 2016 e seguintes. Qual o contributo e de que forma se insere o desporto no planeamento estratégico da cidade e da região a longo prazo?

Responder a semelhante desafio passa por assumir o diagnóstico, o planeamento e a avaliação do impacto de grandes eventos desportivos para além de meros requisitos e procedimentos funcionais de monitorização, controlo e ajuste que normalmente se esgotam após as competições. São processos incrementais - disseminados pela comunidade e negociados com os seus representantes - envolvendo múltiplas dimensões e equacionando o contributo do desporto em outras políticas públicas, focalizados na criação de valor para a cidade/região/país em torno de uma visão clara sobre o seu futuro e resumida em breves palavras e padrões objectivos.

Não são as barreiras que nos separam de interiorizar esta lógica nos mais diversos sectores da sociedade portuguesa, a começar pelo desporto, nem tão pouco a ausência de um vínculo claro nesse sentido pelas elites que preocupam. Algo que se manifesta na aversão de responsáveis políticos e desportivos em situações tão pacíficas em contextos desportivos mais evoluídos, como seja a definição de objectivos desportivos para os Jogos , bem como a avaliação do impacto do desporto e o seu valor (não o seu custo) para a sociedade.

Inúmeros países há que mantendo estas mesmas debilidades, e com recursos equiparados aos nossos, conseguiram incrementar a sua situação desportiva em diversos indicadores, quer ao nível da procura desportiva de base, como em níveis de competição, rendimento e excelência. O inverso – países com mais recursos sociais e económicos, mas com indicadores desportivos mais débeis – é um exercício semelhante a encontrar uma agulha no palheiro e coloca-nos em níveis de iliteracia desportiva no panorama europeu.

Aquilo que hoje se apelida de planeamento estratégico mais não foi nos seus primórdios do que sistematizar processos em algo tão simples como recolher e reflectir sobre os ensinamentos da experiência a partir da tentativa/erro. Ainda que longe dos instrumentos, potencialidades e competências de outros para desenvolver este mecanismo, existe um capital acumulado de experiências no país desportivo - com sucessos e insucessos - suficiente para os seus responsáveis perceberem, no mínimo, e sem necessidade de suporte científico, que tentar igual é persistir no erro e que a política de pequenos passos traz resultados mais duradouros do que efémeras ambições desmedidas desligadas da realidade.

Quantas mais repetições são necessárias até se corrigir o erro? Preocupa não vislumbrar resposta a esta questão.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Plano Integrado para a Actividade Física e Desporto

Como é que um governo pode melhorar a promoção da actividade física e do desporto no seu país? Como é que todos os agentes de desenvolvimento deste sector podem trabalhar na mesma direcção? Como coordenar este processo à escala nacional?

Estas foram as três questões centrais a que o Governo de Espanha deu resposta no documento “Plano Integrado para a Actividade Física e Desporto”, recentemente divulgado na página Web do Conselho Superior de Desporto de Espanha e que pode ser consultado em http://www.csd.gob.es/csd/noticias/plan-integral/. Neste documento estiveram envolvidos mais de 100 investigadores e especialistas de Universidades, Comunidades Autónomas, Municípios, Federações, Clubes, Ministérios e Entidades Privadas. O referido documento pretende ser um instrumento de trabalho para os próximos 10 anos e define objectivos, eixos estratégicos, programas, medidas e indicadores de para o desempenho do desporto e da actividade física no País vizinho.

Em termos estratégicos, a coordenação geral, a necessidade de colaboração e lealdade institucional entre todos os agentes envolvidos, são considerados factores críticos de sucesso do Plano. A visão dos Espanhóis está assente numa co-responsabilização de todos os agentes envolvidos no processo de desenvolvimento desportivo, com a finalidade de alcançar metas que foram definidas para uma década.

No âmbito dos Programas a desenvolver, é notória uma segmentação da população, dando-se grande importância a determinados públicos alvo, que por norma, são esquecidos nas políticas e programas de desenvolvimento da actividade física e desportiva. É também dada grande importância aos grupos escolares, quer seja no ensino básico quer seja no ensino universitário. Por fim, o documento elenca e identifica 100 medidas enquadradas em 14 programas.

O Plano torna-se ainda mais valioso pelo facto de quantificar metas a longo prazo, ou seja, está registado onde é que Espanha quer estar em 2020. Fixam desta forma uma série de metas, comparando-as com os índices actuais. Estabelece-se uma meta central neste Plano, ter 50% da sua população entre os 15 e 75 anos a praticar actividade física e desporto de forma regular face aos actuais 37%.

Era excelente que este tipo de acções nos pudesse influenciar em termos de aprendizagem, e sobretudo, dar-nos a coragem de escrever o que queremos da actividade física e do desporto para o nosso País, fixando metas para nos podermos medir e alterar o que for necessário em benefício de toda a população.

Todos sabemos que problema do desenvolvimento desportivo em Portugal não é certamente uma questão de dinheiro, mas sim, da falta de coordenação e de coerência entre os diferentes agentes que actuam no desporto e da ausência de objectivos e metas a alcançar. Temos em Portugal gente capaz de analisar o nosso cenário de forma séria, que conhecem exemplos de sucesso noutros países e que são capazes de elaborar um plano à medida da nossa realidade. Temos que definitivamente acabar com um sistema, quase sempre perverso, que poucos favorece e do qual a maioria não beneficia.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Uma Equipa, uma Nação

Humanismo, Política e Desporto – a trilogia perfeita para os comentários dos que forem ver o filme, para as emoções daqueles que conseguem arrepiar-se com o poder e a magia do desporto, para as estratégias de quem consegue ver o desporto mais além, ou para além, do simples entretenimento ou da actividade física.

Invictus
Do fundo da noite que me envolve
Escura como o inferno de ponta a ponta
Agradeço a qualquer Deus que seja
Pela minha alma inconquistável

Nas garras do destino
Eu não vacilei nem chorei
Sob as pancadas do acaso
Minha cabeça está sangrenta, mas erecta

Além deste lugar tenebroso
Só se percebe o horror das trevas
E ainda assim, o tempo,
Encontra, e há-de encontrar-me, destemido

Não importa quão estreito o portão
Nem quão pesado os ensinamentos
Eu sou o mestre do meu destino
Eu sou o comandante da minha alma

(William Ernest Henley - 1849-1903)

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Os uns e os outros

Tenho o gosto - por motivos técnicos que não domino - de publicar o primeiro texto do João Gonçalves, um dos novos associados que, espero que em breve, surgirá pelos seus próprios passos informáticos. Bem vindo João.
Entre o hábito e o vício, talvez mesmo perdido ou até dividido na definição dada por um velho, mas grande disco dos Doobie Brothers, de título “o que em tempo foram vícios são agora hábitos” (what once were vices are now habits), confesso que gosto de quase tudo o que se pode considerar “desporto”. Se este termo já começa a ter um peso tão lato e disforme que é quase crime ou asneira utilizá-lo solto de outros apêndices qualitativos, aqui o chamo ao disparate para o dito me ajudar no comentar da minha dependência, presencial ou televisiva, de muitas coisas que se “mexem” pela área descrita. Por agora, debato, entre mim e quem me lê, um desses tantos e peculiares aspectos do fenómeno.
Por cima das justificadas queixas da minha dedicada parceira de vida que, com piada sofrida, afirma amiúde que “a televisão lá de casa é verde”, entre o futebol, o râguebi, o snooker e afins, é uma realidade palpável e nada exagerada esta desaforada apetência desportiva, sempre mais virada para a acção concreta do que propriamente para os vários programas de debate temático sobre a causa. Por ai, com sinceridade o digo, já dei para essa enfadonha matéria, percebendo que, mesmo com tantos canais, pouco ou nada a televisão portuguesa evoluiu nas últimas duas décadas. Sem olho choroso nem saudade bacoca, basta recuperar um qualquer “ Domingo Desportivo” dos muitos em que colaborei em década e meio de serviço na RTP para ilustrar a preceito o que afirmo. Mas esse é outro assunto, a merecer reflexão diversa e alongada.

Em regresso à minha dedicada atenção pela imensa panóplia de matérias e modalidades que admiro, em capítulo particular do tema, como qualquer outro fã, tenho os meus ídolos e… os “outros”. Quanto a estes últimos, falo de atletas que foram longe no seu espaço ou ainda por lá andam, mas que não colhem a nossa simpatia, mesmo que, obrigatoriamente se lhes deva respeito ou até admiração. O que move cada um de nós nesta escolha tão pessoal é, bastas vezes, matéria a roçar o irracional ou mesmo o “politicamente incorrecto”, em apetites de engenho duvidoso e justificação ainda mais penosa. Ao jeito de criança, quase diria: porque sim! Se me custa ser claro na explicação, diria, com exemplo “na ponta do lápis”, que adorei o grande Michael Jordan e não posso com o Kobe Bryant; que tantas vezes torci pelo Carl Lewis, fosse contra quem fosse; que o Maradona é o meu ídolo futebolístico e que pouco me agradava o Zidane ou deslumbra o Kaká; que preferi quase sempre o Mike Tyson a Lennox Lewis ou Evander Hollyfield; que Tiger Woods me deslumbra e, para não me perder por mais exemplos que, há poucos dias me torci durante mais de quatro horas no sofá, para que Roger Federer acabasse de uma vez por todas com o “rei do martelo” que é o norte-americano Andy Roddick. E cá estou eu a ser injusto para um adversário que jogou muito e bem!

Se passarmos os olhos pelos nomes e preferências que referi, reconhecendo que por ali estão bons rapazes, mas também “bad boys”, deduz-se a inconstância da escolha, sem parâmetros de regra fixa, sejam estes de ordem moral ou ética desportiva.
Comecei pela música e termino pelo cinema, Como sugere o título de Lelouch, entre “os uns e os outros” preferidos por cada um de nós, talvez, na verdade, pouco ou nada com frieza se explique. Ou não fosse esse um dos sortilégios da vida que nos leva à paixão por coisas que, às vezes, nem sequer deviam merecer a nossa atenção. Por tudo isto, viva o CR 9! Só para quem gosta…

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Para muitos, nada. Para poucos, quase tudo

A propósito do ultimo post que aqui deixei e dos seus diversos comentários não posso deixar de voltar ao tema - ainda que numa outra perspectiva - tendo também em conta acontecimentos recentes no desporto e na sociedade nacional, bem como o falecimento e o octogésimo aniversário de duas referências do moderno pensamento sociológico. Refiro-me a Ralf Dahrendorf e Jürgen Habermas.

O leitor desinteressado de uma apologia teórica, ou cansado de retórica sobre desenvolvimento, pode apear-se aqui.

O desenvolvimento é dominantemente visto como um processo comandado pela economia, competindo ao Estado e à sociedade minorar os danos e proteger os excluídos. Amiúde se confunde desenvolvimento com crescimento económico.

Ora, aqueles autores moldaram a minha formação intelectual para me distanciar desta perspectiva. O desenvolvimento só faz sentido na medida em que seja inclusivo e propiciador da liberdade em todo o seu percurso. O exercício da liberdade, enquanto bem e ordem geral, é mediado e mediatizado por valores e praticas sociais cristalizadas em instituições, pelo que, da qualidade do debate público e mobilização cívica se molda o capital social, expresso nos valores e instituições.

Infelizmente em momento algum da nossa história democrática conseguimos transformar a liberdade em desenvolvimento, sustentável e sustentado, e o desenvolvimento na valorização de liberdades pessoais e consolidação da cultura cívica democrática.

O cidadão, enquanto agente portador de direitos, liberdades e garantias mobilizáveis através do seu envolvimento sócio-politico no espaço público, cada vez mais se transforma num mero consumidor acrítico de factos mediáticos superficiais e simplificados pela voragem do imediato.

A esfera pública cívica foi engolida por uma comunicação social que não é mais do que um repositório de “produtos políticos” e produtos de mercado personalizados, campanhas de interesses e promoção da imagem pessoal, marcada pelo ritmo das audiências, das modas e das tiragens. O desporto é exemplar nesta tendência. A “linguagem do poder” sobrepõe-se ao “poder da linguagem”, com todos os condicionalismos que isso gera no desenvolvimento da sociedade.

Assim, discutem-se projectos e ideias - quando se discutem - a partir do mero ataque pessoal. Desrespeitam-se instituições e processo democráticos elementares. Confunde-se a ética com a lei. Confunde-se desenvolvimento com modernização económica. Confunde-se a mudança e a reforma institucional com modernização legislativa, discricionariamente desenvolvida, implementada e fiscalizada.

As politicas públicas navegam ao sabor destes circunstancialismos, numa lógica técnico-burocrática gerida por políticos profissionais formados em gabinetes e aparelhos partidários, sem o suporte de um quadro ideológico sólido sobre um projecto de sociedade. Tendência reforçada pela afirmação de concepções funcionalistas do sistema de governação da União Europeia.

O desenvolvimento e a sua lógica de mudança não se coadunam com um tempo imediato, personalizado e simplificado “just in time”, sem uma visão de futuro emergente das estruturas e corpos sociais. Não deve processar desigualdades sociais, placidamente encardas como meras externalidades residuais, mas potenciar a valorização da diversidade social.

Por mais voltas que se queiram dar, as reformas e as politicas não se implementam à margem dos direitos e deveres de cidadania, expressos na sua prática diária democrática. Ainda que este seja um caminho árduo, tortuoso e lento, não existem politicas públicas e processos de desenvolvimento sustentável sem validação expressa no domínio das liberdades concretas e da responsabilidade cívica. Tudo o mais não passa de uma imposição dos interesses do momento face aos interesses do Estado. Ou se preferirem, dos interesses de políticos em relação aos interesses de estadistas. Dos interesses de dirigentes em relação aos interesses de lideres.

Num país com o atraso estrutural de Portugal, adiar a afirmação dos valores democráticos na organização social, económica e política dos vários domínios da vida do país significa condicionar o seu desenvolvimento à partida, uma vez que as opções individuais se aprisionam no défice de capital social.

Aqui chegado o leitor poderá questionar muita coisa. Nomeadamente o que tem isto a ver com o desporto. Diria: Para muitos, nada. Para poucos, quase tudo.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

A serendipidade de uma boa digestão

"Anuncios sao as unicas coisas verdadeiras que os jornais publicam."
Thomas Jefferson, em carta de 1819 a Nathaniel Macon
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Neste momento histórico da vida americana evoco esta frase de um dos primeiros políticos a terem a noção do papel da comunicação social, não só na informação prestada aos cidadãos, mas também na vigilância sobre os poderes que governam a sociedade - perdõem-me os puristas da língua materna – o que se designa de watchdog role.

A dimensão de vigilância constitui um mecanismo cada vez mais preponderante na afirmação do 4.º poder. Neste contexto o jornalismo de investigação, que ficou célebre em diversos momentos da política americana, assume particular destaque.

Também no actual momento desportivo deste país ocorrem diversas situações, nomeadamente no desporto profissional - ou seja, no sector desportivo comercialmente mais apelativo à comunicação social – que requerem pela sua gravidade uma maior atenção e vigilância jornalística.

Trata-se de informar os cidadãos com rigor, isenção e imparcialidade sobre casos que configuram atropelos aos mais elementares direitos cívicos, normas reguladoras da actividades desportiva e respeito pela dignidade de atletas profissionais, em modalidades como o basquetebol e o futebol, que vão bem além dos problemas salariais que emergem na espuma dos dias. E estas são situações sobre as quais não é necessário ter um grande envolvimento ou proximidade com os actores envolvidos para se ter um quadro de informação mais completo do que aquele que é publicado.

Quem trabalha com o desporto profissional sabe que a relação entre os jornalistas e os clubes se baseia na intermediação da figura do director desportivo, ou no caso de alguns clubes do director de comunicação. Este elemento facilita informações às redacções da vida do clube e proporciona o contacto dos jornalistas com os atletas. Gere assim a agenda noticiosa.

O jornalismo de investigação no desporto é, deste modo, cada vez mais reactivo e menos proactivo. Os jornalistas, por motivos diversos de gestão das redacções, têm fortes limitações para realizarem um trabalho amplo de cobertura jornalística, o qual lhes permita ter uma visão distanciada e plural dos problemas a abordar, recolhendo informações de fontes diversas e assegurando o contraditório. Este tipo de jornalismo não se coaduna com as pressões para concluírem as suas peças. Está fora da voragem noticiosa que dá forma aos nossos dias.
É evidente que a superficialidade como são expostas as noticias condicionam a formação da opinião pública desportiva. E aqui apenas me refiro ao desporto profissional, que, como sabemos, é o mais acolhido – e venal - nos nossos media.

Por outro lado, os agentes desportivos instrumentalizam os media como arma de arremesso para marcarem a sua posição. No desporto, como em qualquer outro domínio social, amiúde se assiste às ameaças de “chamar a televisão” para expor casos menos dignos, ou a convocar uma conferência de imprensa para anunciar mais um “escândalo”, ou ainda a convidar a comunicação social a assistir a um importante “happening” desportivo.

Recolhe-se um punhado de declarações de circunstância, monta-se a peça jornalística e está feito. Passados alguns dias tudo se desvanece e os eventuais casos perdem “interesse jornalístico”. Como diria António Guterres: “É da vida!”. Não há tempo para mais.

Não é por haver cada vez mais informação desportiva, que há uma melhor informação desportiva, e muito menos uma opinião pública desportiva mais informada e vigilante sobre a forma como se (des)governa o desporto profissional neste país.

Não é apenas uma questão de estilo, como recentemente invocou o sindicato dos jornalistas, ou uma perda das grandes referências que criaram muitos dos nossos heróis desportivos como notou António Lobo Antunes numa recente entrevista ao jornal “A Bola”. É um problema de saber o que informar, como informar e a quem informar.

Com a aceleração do tempo e a deslocalização do espaço que dão hoje forma à vida em sociedade, a informação desportiva também se ajustou a estes desígnios e assim chega ao leitor, ao espectador e ao ouvinte um produto noticioso pronto-a-comer. De preferência bem condimentado de emoção e polemica.

Cabe a este assimilar acriticamente o conteúdo que lhe é oferecido ou gastar algum tempo a confrontar, comparar, digerir e reflectir. E, com a devida atenção, verá que, por vezes, e talvez não por mero acaso, se descobrem factos e contradições bem interessantes que merecem ser questionados.

Porque o jornalismo desportivo se pronuncia sobre fenómenos sociais, o jornalista será sempre observador e sujeito no seu próprio trabalho, uma vez que não consegue ter uma perspectiva de completa exterioridade em relação aos factos que reporta, como T. Jefferson salientou. O problema ocorre quando nem se procuram os caminhos e os métodos para o necessário distanciamento e neutralidade, e se toma por adquirido e verdadeiro muito do que se diz sem cuidar de atestar a sua validade.

sábado, 14 de junho de 2008

A Heidi, o avozinho e os nossos emigrantes

Apenas conheci e convivi os meus primeiros 12 anos de vida com uma avó paterna, de nome Ana Teixeira. Mulher empresária que exercia tal função sem ser qualificada como tal e mãe de 16 filhos nos tempos da 1.ª Guerra Mundial. Oriunda de um concelho então paupérrimo, e que certamente ainda hoje continua carenciado, mas com muito mais notoriedade desde que o Professor Marcelo Rebelo de Sousa se dedicou política e culturalmente ao mesmo, a minha avó e respectivos filhos/as rumaram, como aliás muitos outros portugueses na época, para outras bandas à procura de melhor vida. Por estas e outras circunstâncias, ora felizes ora menos felizes, foi na companhia da avó Ana que vivi e imaginei momentos impares da nossa vida, como por exemplo, a primeira vez que o Homem (Neal Armstrong) foi à Lua, a transição do regime político em Abril de 1974 e as primeiras séries de banda desenhada televisonadas. Assim, abreviando devido às exigências de espaço, sublinho que com a Heidi, o seu avozinho e a minha avozinha percorri mundo, voei nas nuvens desse filme e conheci pela primeira vez a Suiça. Que encanto! Provavelmente, ainda possuo, na casa da minha mãe, o meu primeiro LP com a musica desta banda desenhada.
Serve esta pequena história apenas salientar que em pleno mês do Euro 2008 o que me tem verdadeiramente prendido a atenção neste campeonato de futebol são os milhares de emigrantes portugueses na Suiça e arredores (como me lembro de alguns queridos amigos que por lá labutam), a sua história emigratória e sua estreita, inequivoca e sempre incondicional ligação à nossa nacionalidade e à selecção portuguesa.
Nunca tive a coragem de emigrar, apesar de alguns convites e pensamentos tentadores, mas invejo e admiro a valentia e o espírito de sacrifico de todos (e todas) que além fronteiras lutam com tantas adversidades, conquistam méritos e se afirmam pessoal e profissionalmente.
Bem sei, recordando por exemplo os tempos da minha prática desportiva, a alegria mútua que sentiamos quando em qualquer País, por mais recôndito que fosse, nos visitavam os/as emigrantes sempre com um sorriso, com um estimulo, com um grito e a bandeira portuguesa.
Apesar de não ser uma incondicional adepta e apaixonada pelo futebol vou acompanhando, por diversos motivos, e friso, sobretudo pelos nossos emigrantes, a prestação e os acontecimentos deste Europeu e obviamente os da selecção nacional.Remato com uma constatação que me pertubou e não entendi cabalmente. Pode ser que os leitores e as leitoras me elucidem melhor.
Em pleno Euro 2004 quem não se recorda do rompimento de negociações por parte do treinador Filipe Scolari com a federação inglesa, (e até com SLBenfica), provavelmente devido a fugas de informação. Quem tiver curiosidade basta investigar as suas declarações de então. Passados 4 anos vemos a mesma face da moeda, ainda por cima inglesa, só que desta vez em pleno europeu o treinador e a FPF anunciam a não continuidade do contrato após esta competição o e Chelsea comunica que Scolari será o treinador da próxima época. Estranho, hem?
Melhor será continuarmos com a esperança dos stocks se reporem nas prateleiras e gasolineiras, e dos agricultores não se enfurecerem, alhearmo-nos das consequências do não da Irlanda ao Tratado de Lisboa, rezarmos para que se nos levaram o DECO nos levem também a ASAE e deliciar-nos com as montanhas da Heidi.
Esperamos, sinceramente que a afirmação e identidade portuguesa dos nossos emigrantes na Suíça continue em ascenção. Força Portugal!

terça-feira, 11 de março de 2008

O impacto social do desporto na comunidade

A responsabilidade social das empresas é um conceito que progressivamente vem penetrando no universo empresarial, ao alertar para as preocupações sociais na interacção entre clientes, fornecedores e agentes da comunidade local.

As actividades desportivas promovidas junto dos colaboradores, o apoio material em eventos e projectos desportivos de ONG’s e entidades públicas, ou até o voluntariado em manifestações desportivas são exemplos impressivos de como o desporto constitui um importante instrumento de afirmação de valores sociais no ethos empresarial, bem distinto do envolvimento no desporto em actividades de marketing, publicidade ou outras de natureza comercial.

Quem opera ao nível do desporto municipal - em particular junto de zonas com um tecido empresarial consolidado – por certo já se confrontou com o progressivo interesse e participação de empresas em projectos desportivos locais, em particular na área do desporto para todos, do exercício e condição física, ou desporto para populações especiais (idosos, cidadãos deficientes e comunidades étnicas socialmente excluídas).

Do enorme potencial de integração do desporto existem diversos estudos que o atestam. O recente relatório do International Business Leaders Forum acrescenta aqui um singular contributo ao apontar um conjunto de oportunidades por explorar na gestão do desporto como estratégia de valorização de objectivos de desenvolvimento social, com particular destaque na catalisação de sinergias entre empresas, ONG’s e autoridades governamentais, perspectivando o mundo empresarial para além de uma mera fonte de financiamento.

Estas responsabilidades sociais estão também bem presentes no mundo desportivo, em especial no desporto profissional, como dá nota o relatório lançado no passado dia 28 de Fevereiro pelo G-14, no qual se listam as inumeras intervenções sociais dos clubes daquele agrupamento, piscando o olho à bandeira política da especificidade dos valores sócio-culturais do desporto, disseminada no Livro Branco do Desporto.

Já outros casos - bem perto de nós - apelam à responsabilidade social da comunidade e espelham as inúmeras limitações de quem quotidianamente se confronta com a precaridade de condições de vida de alguns praticantes desportivos, ao realçar uma vez mais o papel estruturante e vital das autarquias locais no desenvolvimento desportivo nacional. Tudo isto bem longe das parangonas desportivas...

domingo, 13 de janeiro de 2008

Os Lobos e a disciplina

O Record retoma hoje o tema da declaração de indisponibilidade de jogadores do Direito para representar a selecção nacional de râguebi. Independentemente da valia das razões quanto aos factos que ditaram a intervenção do Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Râguebi e do acerto da sua decisão, a reacção destes Lobos apresenta-se como resposta ao facto de um seu colega poder vir a ser sancionado numa alargada suspensão de actividade, por alegada agressão "ao fiscal de linha da final da Taça Ibérica".
"É a única maneira que temos de chegar à FPR", afirma um dos atletas. "Alguma coisa tem que mudar" e o conteúdo do relatório do árbitro é "mentira, são outras afirmações que pretendem localizar o diferendo e justificar a indisponibilidade para a selecção nacional.
A atitude destes Lobos - «entidade» que, como se sabe, é um repositório de virtudes desportivas e de nacionalismo sem paralelo -, só pode ser entendida - frise-se de novo, sem avaliar agora o acerto ou não da actuação do árbitro e da instância de disciplina federativa -, de uma de duas maneiras: ou estamos perante um gravíssimo caso de fraude desportiva ou face a uma ilegítima pressão perante os órgãos federativos competentes.
Certo, no entanto, é que, se se mantiver a situação, o Hino nacional perderá algum fervor nos próximos confrontos internacionais.
Certo é, ainda, que se vigorasse já o projectado regime jurídico das federações desportivas, proposto pelo Governo, tudo seria bem mais fácil de resolver.
Alguma coisa mudaria ou poderia mudar, com relativa facilidade. Por exemplo,o presidente da FPR, no uso da suas competências, substituiria os membros do Conselho Disciplinar quantas vezes fosse necessário, até que esse (seu) órgão lhe fornecesse a decisão que mais lhe fosse conveniente, independentemente da sua conformidade com os regulamentos da FPR ou com a lei.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

O Nacionalismo Oval

Depois de mais um sorteio para mais uma fase de apuramento para mais uma grande competição internacional, logo surgiram vozes - o televisivo Rui Santos, por exemplo - a reclamarem a criação de duas divisões europeias que separassem o "trigo" do "joio", a fim de assim se evitar que as selecções de maior nomeada tivessem que realizar jogos cansativos que só servirão para cumprir calendário. Assim, a selecção de Portugal não deveria ter que jogar com os seleccionados da Albânia e de Malta.
Não vou discutir os méritos e os deméritos destas propostas. Mas vale assinalar que elas acompanham uma certa "sensibilidade geopolítica", sensibilidade que se mostra cada vez mais irritada com toda a conflituosidade política associada aos nacionalismos de leste e que começa agora a deixar para trás a euforia celebratória que antes brindara o estilhaçamento nacionalista da URSS e da Jugoslávia. (O mesmo, embora com contornos diferentes, sucede a respeito de Timor). Resta saber se estas propostas que defendem uma competição a "duas velocidades" têm cabimento no quadro das actuais tendências da economia mundial do futebol profissional, tendências marcadas pela lógica de expansão capitalista do jogo.
Acrescento, no entanto, um argumento que os patriotas lusitanos podem brandir a favor das "duas velocidades" e da tese da separação do "trigo" do "joio": é que assim sempre evitavam os empates entre o trigo e o joio, como aquele 1-1 obtido por Portugal na Arménia. Por outro lado, convém não menosprezarmos as vantagens das teses das "duas velocidades": seguindo estas teses, teríamos sido poupados, por exemplo, aos inúmeros elogios feitos à selecção portuguesa de rugby no recente mundial da modalidade.
Ressalvo, por fim, que nada me move contra o rugby. Pelo contrário. É porque a modalidade me interessa que ademais critico a onda nacionalista que sobre ela se abateu no Verão passado. Isto porque quer-me parecer que a forma como alguns jogadores e muitos propagandistas e marketeiros do rugby comentaram a performance da selecção portuguesa se limitou a reproduzir os estereótipos mais simplistas que pairam sobre uma modalidade complexa: a ênfase colocada em virtudes como a "honra", a "coragem" e a "bravura", cristalizadas no episódio da berraria do hino nacional, acabou por reduzir, uma e outra vez, a complexidade de um jogo inteligente à imagem primária da força bruta.
O cunho aristocrata da modalidade - sublinhado aqui e ali nos elogios ao amadorismo de grande parte dos jogadores - parece aliás dar-se bem com estas virtudes guerreiras. Assim é em Portugal mas também noutras paragens: pelas ruas de Buenos Aires, podia-se ver recentemente um outdoor da VolksWagen (que julgo também ter apoiado a selecção de rugby portuguesa) no qual se legendava a equipa de rugby argentina com um slogan que, mais coisa menos coisa, rezava assim: "animais que se comportam como cavalheiros".