terça-feira, 22 de junho de 2010

Olhar para dentro da própria casa

António Barreto, no discurso comemorativo do 10 de Junho, enalteceu as virtudes do exemplo. Da necessidade da moralização da vida pública ser feita pelos bons exemplos e não pela retórica e o beatismo das grandes proclamações. Das palavras e dos discursos terem habitualmente muita propaganda e darem origem a pouca acção. José Sócrates e o seu pessoal de apoio não devem ter gostado do que ouviram. Quando as coisas são ditas por alguém que não é propriamente de “direita” a ferida é maior. E as restantes esquerdas?
Essas receberam as palavras de António Barreto em silêncio. Como o país em geral. Compreende-se. António Barreto faz parte daquele pequeno grupo de pessoas que não pode ser atacado pelo carácter ou pela incoerência. Convém que sobre o que diz se não alimentem grandes polémicas. Para que o efeito passe depressa. E se há questão com que a esquerda lida mal é com o exemplo. Historicamente foi sempre por aí que a doutrina se fragilizou. E que os ideais se esvaneceram. A questão é devastadora.
Mas com uma parte da esquerda “socrática” o problema é de outra natureza. E mais grave. É uma esquerda de pressas. E de ajustes de contas. Ressentida, arrogante, ressabiada e cheia de azedumes. Julga-se possuída de uma superioridade ética e de uma inteligência que só ela tem. O mistério é saber porque assim pensa. Porque não teve escola? Porque nunca leu Antero ou Sérgio? Porque dominar o aparelho do Estado cega? Tudo parece funcionar em função de um único objectivo: o poder. E, embora o não aceite, é profundamente conservadora. Purifica o seu progressismo nas causas fracturantes. Uma parte dela nunca soube o que era lutar pela liberdade. E por isso gosta de prescutar, como no passado, tudo o que há para saber sobre as pessoas. E, qual big brother, de colocar etiquetas. Defende a liberdade de expressão. Mas odeia a responsabilidade cívica do uso da liberdade. E, por isso, quando é preciso, ataca em regime de anonimato. Deseja ter tudo controlado. Adora as soluções de engenharia social. O fracasso é o seu tabu. E não lhe peçam bons exemplos. É uma afronta. É uma esquerda que só pelo facto de assim se apresentar dispensa qualquer outra prova. Julga-se possuída de dom divino.
É esta esquerda que, supostamente, seria republicana e socialista (?), que é capaz de em qualquer gabinete, de endireitar o desporto. É um propósito sempre renovado quando chega ao poder. E chega tantas vezes que se vê obrigada a ter uma amnésia selectiva. Melhor dito :a programar a memória. De tal maneira que cada vez que regressa é como se fosse a primeira. E acredita piamente nesse calendário. Faz diariamente a sua prece. Com muito copy past à mistura. Sobretudo francófono. E com um tema de eleição: as federações e os dirigentes desportivos. O busílis é mesmo os dirigentes. Excepção feita aos períodos e campanhas eleitorais, em que os dirigentes são precisos para aumentar as listas de apoiantes, colocá-los na ordem faz parte do menu principal. Não fossem os dirigentes desportivos e outro galo cantaria!
Esta esquerda teima em não perceber que o seu reactivismo - aos dirigentes e às federações - é do mesmo tipo que uma parte significativa das pessoas tem em relação aos políticos e aos partidos.Com um problema. Sobra em retórica o que falta em bons exemplos. E aqui reside o verdadeiro problema. Á legitimidade política de controlo dos recursos públicos não corresponde uma exemplaridade moral no respectivo uso.
Os males de que padece o dirigismo desportivo, no uso dos chamados “dinheiros públicos” e outro tipo de recursos são comuns aos agentes políticos. Não há uma massa distinta. E também se não dividem entre os bons à esquerda e os maus à direita. Não há uns- os dirigentes políticos- a gastar bem e os outros - os desportivos- a gastar mal. Não existem os primeiros com elevado sentido da causa pública. E os outros a servirem-se dela. As engenharias financeiras a que se entregam muitos dos organismos desportivos são idênticas às da administração pública e dos gabinetes ministeriais. É uma ilusão pensar que nestas instâncias a gestão da coisa pública é feita sem truques, sem opacidade e às claras. Que não existe um peculato disfarçado de serviço público. Que existe parcimónia nas despesas de representação. Nas ajudas de custo. Nas despesas apresentadas. Nos fundos permanentes. Nos almoços, que são sempre de trabalho. Nas aquisições de serviços que nunca são às empresas amigas. Nos camaradas que se vão colocando na administração pública. Na valorização do mérito que é sempre exclusivo dos “nossos”
O silêncio e a cumplicidade políticas querem fazer passar os outros por parvos. E é sempre fácil culpar os dirigentes desportivos pelo mau uso dos recursos públicos. Mas o mal não ocorre dentro da própria casa? Ou o que é mal nos outros é em nós virtude?

domingo, 20 de junho de 2010

Alto rendimento ou alto compromisso?

No passado dia 16 o Diário da República ofereceu-nos três textos relacionados com a prática desportiva de alto rendimento.
Assim, a Portaria nº 325/2010 veio definir os critérios gerais que permitam qualificar como sendo de elevado nível certas competições desportivas para efeitos de integração no nível C (o mais baixo) dos praticantes de alto rendimento que nelas participam.
Todavia, vai bem mais longe o regulamento.
Por um lado, o artigo 5º vem adiantar algo sobre outros níveis de praticantes: para as modalidades e disciplinas com competições que não integrem campeonatos do mundo ou da Europa são definidos, no primeiro ano de cada ciclo olímpico, por despacho do membro do Governo responsável pela área do desporto, após solicitação das respectivas federações, resultados desportivos relevantes ou posicionamentos nos rankings das modalidades para efeitos da integração dos seus praticantes nos níveis A a C.
E, como convém “à certeza das normas e da sua aplicação”, o artigo 8º vem enquadrar os casos excepcionais: para além das competições e resultados referidos nos artigos anteriores, mediante requerimento fundamentado da respectiva federação desportiva, ouvido o Instituto do Desporto de Portugal, I. P., e o Conselho Nacional do Desporto, poderão ainda ser considerados, para efeitos da presente portaria, outras competições desportivas ou resultados que como tal vierem a ser considerados por despacho do membro do Governo que tutela a área do desporto.

Depois contamos com o Despacho n.º 10125/2010, de 9 de Junho, do Secretário de Estado da Juventude e do Desporto que determina os critérios de qualificação (de alto rendimento) para os praticantes de ténis. Vale a pena conhecer o regime verdadeiramente excepcional que o Governo estabeleceu para esta modalidade desportiva. Há quem goste muito de ténis.

Por fim, temos o Despacho n.º 10124/2010, de 9 de Junho, do Secretário de Estado da Juventude e do Desporto, que aprovou o modelo-tipo de contrato a outorgar com os praticantes desportivos de alto rendimento.
Os contratos são outorgados entre o praticante, o Instituto
do Desporto de Portugal e a federação da respectiva modalidade ou, no caso dos praticantes integrantes dos Projectos Olímpico ou Paralímpico, com os respectivos Comités Olímpico ou Paralímpico, respectivamente, com as necessárias adaptações.
Este modelo pode ser completado com outras cláusulas propostas pela respectiva federação (ou, nos casos em que tal deva suceder, pelos Comités Olímpico ou Paralímpico), desde que tais cláusulas não alterem a letra ou o espírito das que constam deste modelo-tipo.

O contrato tem três partes, mas dir-se-ia, que de um lado está o IDP e a federação e, do outro lado, o praticante.
As obrigações do IDP são, por assim dizer, as naturais, pois decorrem das suas incumbências legais. Obriga-se a fazer aquilo que a lei o obriga a fazer. O mesmo se pode adiantar quanto às obrigações da federação, embora seja de não esquecer um segmento da alínea f) cláusula 4ª: assegurar o exercício dos direitos do praticante.
No que concerne ao praticante, nada se me afigura especialmente de registar.

Onde as coisas se desequilibram por inteiro, seguindo a lógica de um contrato, é nas sanções previstas (e também inexistentes) em caso de «incumprimento» do clausulado. Deste modelo-tipo e ainda, o que se revela mais perigoso, das cláusulas que venham a ser propostas e adoptadas pelas federações desportivas.
Com efeito, a cláusula 10ª só prevê sanções para o praticante desportivo.
Nem uma palavra para o que resulta de eventual incumprimento por parte dos outros outorgantes.
Bem vistas as coisas, estamos mais perante um regulamento, coberto com uma vertente sancionatória, do que um verdadeiro acordo.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago



“O fim duma viagem é apenas o começo de outra.

É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que já se viu no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava.

É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e traçar caminhos novos ao lado deles.

É preciso recomeçar a viagem. Sempre.

O viajante volta já.”

José Saramago (1922-2010), in Viagem a Portugal

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Dos defeitos do corpo

Tem tanta pressa o corpo! E já passou, quando um de nós ou quando o amor chegou.

Jorge de Sena, 1919-1978

As férias na praia já não são o que eram. Pouco a pouco, a praia vai perdendo clientes, como resultado de mutações no grau de satisfação com o corpo. Vou procurar explicar-me melhor.
A praia foi durante muito tempo um lugar da liturgia do encontro e da admiração, facilitador de integração e interacção social. Um palco privilegiado de exibição do macho latino, de ombros largos, de musculatura hipertrofiada e de órgãos genitais a porem à prova a elasticidade dos calções. E foi ainda a passarela de desfile das louraças, feitas de água oxigenada e com peitos confeccionados sem ajuda de silicone, que nos deixavam com cara de basbaque e a escorrer baba e ranho. No areal de atracções e aproximações travavam-se cotejos e conhecimentos e iniciavam-se namoros que favoreceram o incremento dos correios e telefones e, não raras vezes, acabaram em casamentos.

Hoje já não é mais assim. A estupidez ganhou novos disfarces e versões e não são apenas as loiras que têm falta de neurónios. Os padrões de beleza correntes, patrocinados pela moda e pela publicidade, assumem cada vez mais a função de marcadores sócio-culturais, tornando-se, em medida crescente, agentes de discriminação e de empobrecimento do contacto social. Ao imporem e universalizarem o ideal da beleza esguia, para não dizer escanzelada, famélica e esquelética, originam uma onda de insatisfação e de descontentamento em face dos desvios das bitolas em voga. Ou seja, levam as pessoas a descobrir defeitos no seu corpo e a ficar seriamente afectadas com isso, a ponto de desenvolverem sentimentos de culpa, de inferioridade e vergonha.
Talvez seja também por isso que a frequência da praia vai perdendo atracção. Às razões e advertências de ordem ambiental somam-se agora receios e complexos de natureza psicológica a recomendarem restrições na exposição da nudez corporal, sobretudo quando esta se desdobra em abundâncias e protuberâncias adiposas e é pobre em cabedais, tecidos e courelas musculares. A hora parece ser de esconder o corpo e não tanto de o mostrar, pelo menos quando antes não se procurou fazê-lo ou modificá-lo segundo a severidade das exigências vigentes.

A gordura está nitidamente fora de moda e encontra-se diabolizada. Os modelos de outrora não resistiram ao avanço dos tempos. O conceito de santidade, representado nas estátuas de um Buda deitado ou sentado com banhas de bonomia e docilidade, há muito que foi suplantado por exercícios castigadores e expiadores das culpas do corpo, vinculados ao culto da ascese corporal. E o lema de que "gordura é formosura", bem expresso nos quadros de pintores famosos (como a Madona de Miguel Ângelo), não vigora mais; valeu outrora e apenas para noivos incautos e gananciosos e ficou circunscrito a tempos de míngua, miséria e fome (que estão de volta).
Perante isto nem sei bem o que lhe diga, caro leitor. Eu continuo a ir à praia, embora já não o faça com o fervor, com o alvoroço e com a frequência de antigamente. Nem coisa que se pareça! Gosto das praias do ‘meu’ querido Brasil, onde a água é quente e a extensão dos areais me permitem caminhadas a preceito.
Porém mentiria se lhe dissesse que não ligo às normas de beleza e que não olho de soslaio para o meu corpo. Reconheço, sem custo, que ele me inquieta e provoca algum desconforto. Realmente não tenho o morfotipo que gostaria de patentear; falta-me sobretudo a musculatura peitoral ideal, aquela dos artistas de cinema, que me daria tanto jeito para poses de masculinidade e para encher bem as camisas do meu tamanho, já que me são justas no pescoço e me sobram nos ombros.
Mas que hei-de eu fazer? Ir para ginásios de musculação, à procura do que me falta e para não deixar adormecer e amolecer o sistema de músculos, tendões, ossos e articulações?! Eu sei que devia ir e que esse era o passo certo. Mas não vou; e por três óbvias razões. Em primeiro lugar, porque há quem diga que ao exagero muscular corresponde algo de castração funcional. Logo não me parece sensato deitar fora uma coisa tão estimável e que é motivo de franco e tão sentido orgulho. Em segundo lugar, porque não creio que, na minha madura e sábia idade, os defeitos possam ser eliminados e os ganhos compensem a dureza nua e crua do investimento. Em terceiro lugar – e é aí que bate o ponto! -, porque toda aquela parafernália de máquinas me lembra uma câmara de tortura. Quando lá vou – faço-o algumas vezes! – aqueles exercícios dóiem até dizer chega. Ora não me parece feliz corolário de uma vida continuar a macerá-la, isto é, a marcá-la com o esforço, com a falta de prazer e até com a dor. Já bastam os pesadelos de terror, que me invadem nas horas acordadas, quando me lembro (apesar dos anos que já lá vão!) do sofrimento que foi fazer a cadeira de ginástica no curso do INEF.

Claro que não deixo de me exercitar. Privilegio os exercícios que metem corrida, como é o caso do futebol (em que se joga e afia a língua). E assim alcanço uma boa dose de compensação: é certo que o sex-appeal não me favorece no peito, mas transborda a olhos vistos nas pernas. Como não ir à praia mostrá-las?! E depois há também os braços que, embora não dando nas vistas pela grossura da massa muscular, irradiam fluidos de carícias, sobretudo pela insinuação que se desprende das mãos ágeis, leves e delgadas. Para não falar nos olhos, de uma mescla de tons de verde e azul, carregados de mensagens e promessas de amor e felicidade em cenários de romantismo!
Vejo-me, pois, entre Édipo e Narciso, a descontar nos defeitos do corpo. Concluo que eles não se notam, nem me oprimem sobremaneira, em comparação com a riqueza e a expressividade dos sonhos, desejos e imaginários que o corpo desencadeia. No fundo todos temos alguma coisa de belo e de interessante para exibir e para ser cobiçado. Por isso irei à praia nestas férias e continuarei a ir nas outras que ainda estão por vir.

terça-feira, 15 de junho de 2010

As paredes não são de vidro

Existe o direito do Direito impor limitações aos mandatos dos presidentes das federações desportivas? É admissível que defina um limite às remunerações dos respectivos órgãos sociais?
O Estado, tratando-se de entidades que têm delegação de competências públicas e que, em certas situações, dependem em larga medida do financiamento público não pode ignorar as matérias que pela sua importância requerem um regulação/intervenção pública. A duração dos mandatos e as remunerações dos dirigentes incluem-se nesse lote de matérias? Parece que sim, atendendo a que se legislou nesse sentido.
Mas se em relação a cada uma das questões o governo entendeu que a situação carecia de uma regulação pública só ganharia em a explicitar. Devia dizer porque o que fazia. A dimensão que o problema assumia. Expor os motivos de interesse público que justificavam a intervenção. E porque apostava pela via normativa e não em outra.
Podemos colocar na discussão uma questão prévia: porque intervém em relação ao desporto e o não o faz em relação a certo tipo de outras entidades que têm problema similares (ipss, organizações culturais, juvenis, fundações, clubes desportivos, etc. ) e até a entidades dele directamente dependentes. E porquê só aos dirigentes? Que anátema existe? Mas isso não responde à questão de fundo.
A via normativa era uma das medidas que estava ao alcance do governo. Mas não era a única. Mas foi a primeira. Poderia sobre o assunto ter optado por previamente exercer alguma magistratura de moderação. De ter emitido uma censura pública. De marcar uma posição política. De ajudar a criar um escrutínio público e uma pressão ou censura social que condicionasse os comportamentos dos dirigentes. Optou pela via da norma. Porventura porque face ao fim em vista considera ser o meio mais eficiente. E outra eventual via, pura perda de tempo. Só que abriu um precedente. É um caminho que não tem fim. E em que se não pode começar e depois parar, sob pena de incoerência. A tendência será sempre a de verter norma sobre norma.
Hoje são os dirigentes, amanhã serão os técnicos, a seguir os seleccionadores e depois as viagens, as acumulações, as ajudas de custo, os telemóveis, as viaturas, os motoristas e tudo quanto consome recursos públicos. Naturalmente que isto só ocorre porque, em muitas organizações desportivas, não há capacidade de regulação. Nem bom senso. A limitação de mandatos poderia estar estatutariamente previsto. A fixação de remunerações ser clara, transparente e não auto-determinada (embora aqui não seja diferente do que ocorre em empresas públicas ou privadas mesmo as que têm comissões de remunerações). Mas a obsessão normativa da actual equipa governamental é uma crença. Assim pensam endireitar o desporto. E as federações e os dirigentes desportivos são um dos temas de eleição.
As organizações desportivas aceitam, em silêncio, estes “puxões de orelhas”. Porque o respeitinho é uma coisa muito bonita. E porque, porventura, receiam abordar matérias que, em termos públicos, não sabem, por responsabilidade própria, como lidar. Quando até não era muito difícil. Bastaria, em matéria de transparência, isenção e bom uso de recursos e património públicos, usar o exemplo do legislador. E comparar. E depois concluir o modo como se definem as prioridades. Que o são para uns e o não são para outros.
O problema é que temos em excesso de legislação e regulação o que nos falta em bons exemplos. Que, como se costume dizer, devem vir de cima. E é deles que o país carece.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Exigência ou certeza?

No discurso de tomada de posse, o novo presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional exigiu (!) a criação de um Tribunal Desportivo.
Nas suas palavras:

"Não esperem que fique quieto. Vou ter um papel interventivo.
Quero um futebol limpo, livre, transparente e democrático. Sem estes quatro pilares não há modelo de negócio que resista.
A autonomia destes órgãos é uma exigência de base, mas o Estado pode ajudar-nos a ir mais além.
Podemos, sem hesitações e sem medo, avançar, num curto espaço de tempo, para a criação de um Tribunal Desportivo que seja a instância máxima de defesa dos agentes desta e de outras modalidades.
Mas não conseguiremos sozinhos este objectivo.
O Estado e o Governo não podem dizer que não.
O futebol profissional exige a criação de um tribunal desportivo em Portugal."

Laurentino Dias – como se fosse Laurentino Dias –, garantiu o "apoio" do Governo português ao "programa" de Fernando Gomes: "Pode contar connosco porque temos consciência da importância do futebol. O trabalho para a credibilidade do futebol é um esforço colectivo".
Assim sendo, não é abusivo presumir que esse apoio se estende àquela exigência.

Estas palavras dizem mais do que nós – comuns mortais – nos podemos aperceber. É sempre assim, dentro e fora do desporto.
A forma da comunicação tem um substrato material que só os intervenientes conhecem.

Usando mão da futurologia, o que nos parece estar a ser construído, sem cuidar, agora, de julgar do mérito ou demérito da solução.

Para tal há que regressar a um passado, dir-se-ia já «bem passado.
Relembre-se então a constituição de uma comissão, por iniciativa do Comité Olímpico de Portugal, com o objectivo de levantar um Tribunal arbitral do desporto. Em 14 de Dezembro de 2007, o COP solicitou ao Ministro da Justiça autorização para criar Centro de Arbitragem Desportiva do Comité Olímpico, pretendendo promover com carácter institucionalizado a realização de arbitragens voluntárias.
A partir dessa data gerou-se um silêncio público sobre esta questão, não tendo recebido o COP qualquer resposta positiva.
Ainda no passado dia 7 de Abril (Rádio Renascença), o presidente do Comité Olímpico de Portugal aguardava pela resposta do Ministério da Justiça. Noticiava-se que, “mesmo desalentado, Vicente de Moura mantém a esperança de sediar no Comité Olímpico de Portugal, o Tribunal Arbitral do Desporto, dando seguimento a uma pretensão antiga, que na teoria tem sido atendida pelo Secretário de Estado, Laurentino Dias”.
Um outro passado (este mal passado) conduz-nos à proposta de lei, aprovada em Conselho de Ministros de 22 de Abril do corrente ano, que cria o tribunal de competência especializada para a propriedade intelectual e o tribunal de competência especializada para a concorrência, regulação e supervisão.

Que caminho seguirá o Governo, se é que seguirá algum?
Eu, se jogasse numa casa de apostas on line, apostava numa terceira via, a saber, a instituição de um tribunal arbitral necessário.
Mas isto é, manifestamente, um disparate meu.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Questões de timbre

Os indicadores que regularmente têm vindo a lume sobre a saúde financeira do futebol profissional na Europa são tudo menos animadores: Com 65% das receitas destinadas a salários e prejuízos globais de 578 milhões de euros, num total de 5,5 mil milhões de euros, de acordo com a UEFA 47% dos principais clubes europeus têm prejuízos declarados. Só a Premier League inglesa representa 56% das dívidas totais.

No actual contexto não surpreende que o Comité Executivo do organismo máximo de governação do futebol europeu tenha reforçado o sistema de licenciamento das suas competições com um novo quadro regulamentar de medidas de fair-play financeiro aprovado no passado dia 28 de Maio - há longa data anunciadas, e bem acolhidas pela UE em diversos documentos de política desportiva -, as quais assentam em três pilares:

  • Requisito de equilíbrio financeiro segundo o qual os clubes não podem gastar mais do que as receitas que geram ao longo de um período de tempo;
  • Inexistência de dividas vencidas por pagar durante a época (em relação a outros clubes, empregados e/ou autoridades fiscais e de segurança social);
  • Fornecer à UEFA informações financeiras necessárias para o efeito: de modo a garantir que os clubes possam cumprir as suas obrigações futuras.

Cumprirá ao Painel Independente de Controlo Financeiro dos Clubes, presidido pelo deputado europeu e antigo primeiro-ministro belga Jean-Luc Dehaene, monitorizar e avaliar todo o processo, e definir o regime sancionatório, a apurar caso a caso, podendo os clubes ser impedidos de participar em competições como a Liga Europa ou a Liga dos Campeões, ainda que a elas tenham acedido por mérito desportivo. Relembre-se que no passado 49 clubes nestas condições não foram admitidos nas competições da UEFA por incumprimento dos critérios de licenciamento.

Tendo como objectivo primordial garantir maior sustentabilidade nas opções financeiras ao nível do futebol profissional e estancar a acumulação de dívidas, os investimentos em infra-estruturas e formação desportiva caiem fora deste âmbito, o que limita as verbas disponíveis para o mercado de transferências em despesas de curto prazo e incentiva o investimento em programas de desenvolvimento ao nível da formação, ainda que susceptível de apontamentos críticos, nomeadamente em relação às infra-estruturas, como repararam os deputados na apresentação feita no Parlamento Europeu.

O perigo de eventuais abusos de posição dominante e de comprometimento das competições abertas baseadas no mérito desportivo – pilar essencial do modelo europeu de desporto, que habilmente o mundo do futebol gere como instrumento político para reclamar a especificidade do desporto –, suscita necessárias cautelas na abordagem a ter com estas medidas, em particular quando o registo da UEFA neste domínio em nada abona a sua autoridade, dado o histórico de desequilíbrios financeiros gerados pelas opções que tomou na repartição de receitas das suas competições, cuja reforma na Liga dos Campeões é o exemplo acabado.

A falta de competência para impor estas regras a nível das ligas nacionais e o facto das receitas televisivas advirem fundamentalmente das competições internas do que das competições europeias, carece de uma resposta no plano interno, a nível político e desportivo. Com efeito, tem-se assistido a diversos estudos e debates com propostas para a reforma do desporto profissional e dos seus mecanismos de financiamento em países como a França, a Espanha (onde se empossou uma Subcomissão parlamentar para o efeito), o Reino Unido e outros.

Por cá o “saneamento financeiro” tem sido uma prioridade das diversas direcções da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, com os resultados que são conhecidos… Questões como a regulação do mercado de apostas desportiva online, dos direitos de propriedade intelectual dos organizadores de competições desportivas e da venda de direitos televisivos (caso Espanha siga a actual inclinação do seu Congresso para um modelo colectivo Portugal será o único país onde a negociação destes direitos é feita individualmente pelos clubes) permanecem uma miragem no horizonte, sem um diagnóstico sério e rigoroso sobre as opções a tomar.

Por certo a nova direcção da Liga, que também se comprometeu com aquela prioridade, está ciente da necessidade de adoptar atitude díspar da que tem marcado a actuação política nesta vertente – bem mais preocupada com o nobre tema da “verdade desportiva” por via electrónica –, caso queira liderar uma agenda reguladora do futebol profissional sem ficar refém de uma concepção normativista, cujo timbre tem sido a mera replicação de soluções adoptadas noutros ordenamentos jurídico-desportivos. Um timbre frequentemente intempestivo e desajustado da estrutura e dinâmica do nosso sistema desportivo.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A contra-dependência das entidades

(Interdependência é um conceito que rege as relações entre os indivíduos onde, um único indivíduo é capaz de, através de seus actos, causar efeitos positivos e/ou negativos, em toda a sociedade. Ao mesmo tempo, esse mesmo indivíduo, por sua vez, é influenciado pelo todo.

Ao pensar no imenso impacto que pequenos gestos podem causar, chega-se à conclusão de que cada pequeno acto é importante. Essa é a relação de interdependência: a consciência de que o todo depende de um único indivíduo. E cada indivíduo depende do todo para existir. Sendo assim podemos dizer: a interdependência pode ser compreendida em termos da mútua dependência que existe entre as partes e o todo. Sem as partes, não pode haver o todo e, sem o todo, o conceito de parte não tem sentido. A ideia de todo implica partes, mas cada uma dessas partes precisa ser considerada como um todo composto de suas próprias partes.)


O ciclo de dependência nas equipas e organizações apresenta teoricamente 4 fases: Inicia-se com a fase de sermos 'dependentes', passado algum tempo chegamos à fase da 'contra-dependência' e posteriormente, atingimos (?) à independência. A 4.ª fase e última fase e mais desejada, é a interdependência. Fase que muitas organizações não chegam (provocando grandes obstáculos aos seus elementos constituintes) a atingir, quer por factores intrínsecos quer por factores colectivos e extrínsecos.

O que se constata nos organismos, quer estejamos a falar de uma organização constituída por 50 elementos, quer estejamos a falar de um sistema que agrega 50 federações, empresas, organismos, é que a relação das entidades usualmente tem uma duração de estabilidade curta e que estranhamente estabiliza na 2.ª fase e fica por aí, salvo muitíssimas raras excepções.

Observar a forma como as diversas entidades, por exemplo, que compõem um organismo desportivo que congrega várias Federações. Ou uma Federação que congrega várias Associações ou Clubes, é perceber como funcionam as pessoas numa organização, numa primeira instância, a ‘luta’ pela sua identidade, pelo seu espaço, e após tudo isso, um possível alinhamento colectivo, quer com os outros parceiros quer com a entidade principal que concentra as Federações, Associações ou Clubes.

A incapacidade de um IDP ou outra entidade que de alguma forma deveria concentrar esforços, interesses e um alinhamento de uma grande maioria dos seus membros é uma das principais razões para a inexistência de uma estratégia em que os membros se identificam e estejam dispostos a embarcar nos seus desafios e objectivos.

A liderança de pessoas ou entidades, passa para além das fases do ciclo de dependência pelas fases de construção de uma equipa, e aqui, é notório, e diversas vezes assumido no blog, nos comentários, na imprensa, na bibliografia, como um factor a ultrapassar para que de uma vez por todas, se consiga ter uma linha orientadora, com o compromisso de (quase) todos e assumida como um objectivo desafiante, exequível e para embarcar no mesmo.

Iremos mais uma vez aguardar, tentando perceber quando e como é que as ‘umbrellas’ conseguirão alinhar um conjunto de membros, todos eles com os seus interesses, objectivos individuais, bússolas, faróis, valores estratégicos e operacionais, etc. Não é fácil, principalmente num País onde quase todas as pirâmides de prática desportiva, organizações e procedimentos estão subvertidos ou desproporcionados relativamente à realidade dos outros países europeus.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Discorrendo sobre as elites II

Hoje tomou posse, como membro da Comissão Disciplinar da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, a nossa associada Maria José Carvalho.
Não lhe invejo o cargo, não o aconselho e confesso que nunca aceitaria o exercício de tais funções em solo pátrio.
De todo o modo, a mulher ganha um espaço de afirmação com a Maria José Carvalho como parte integrante desse órgão.
Para ela, como se retirará de alguns textos publicados na Colectividade Desportiva, tal facto representa, em si mesmo, um valor próprio.
E, porventura sendo suspeito - talvez menos no entender da própria - , deixem-me registar o seu trajecto como desportista, dirigente, jurista e professora de uma Escola de Desporto.
E isso conta muito para credibilizar as elites.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Discorrendo sobre as elites

As elites, ao nível do dirigismo desportivo, sempre viveram em sobressaltos. As suas tarefas nunca se revelaram fáceis. Com dificuldades de afirmação e de renovação. Com défices de esclarecimento e de capacidade de intervenção. Com uma cultura desportiva muito centrada nas suas modaliades.Com incapacidade em contextualizar o desporto no âmbito das dinâmicas sociais. E tradicionalmente muito dependentes do poder/financiamento públicos. Que, na esmagadora maioria dos casos, criou medos e receios de um posicionamento critico.
A disseminação desta situação pelo contexto associativo e federativo foi sempre, e apesar de tudo, muito distinta. Os desportos motorizados sempre viveram noutra dimensão, claramente comercial, e outras modalidades (golfe, hipismo, ski, esqui, etc .) uma dinâmica diferente do movimento associativo tradicional .E outras, pela sua pequena expressão, contam pouco
Se sempre assim foi, agora, em tempos de crise, escrever ou falar mal dos dirigentes (desportivos ou políticos) tem um efeito catártico. Mas não resolve nada. Só complica. Mete tudo no mesmo saco. Dilacera e enfraquece as organizações. Acentua a deriva e o desencanto democráticos. .
Durante muitos anos houve um dirigente desportivo que sobressaiu da mediania geral: Fernando Mota. Anos a fio puxou pelo desporto português. Quando era necessário criticar o poder politico lá estava ele na linha da frente. Quando era preciso ver para além do imediato apontava caminhos. A sua preparação técnica, intelectual e capacidade argumentativa impunham respeito. E a valia dos resultados que internacionalmente a sua modalidade alcançava, alguma inveja. Muitos viam apenas uma forma de puxar pelo atletismo. E desconfiavam. Não me ocorre que a solidariedade que a sua modalidade manifestou a outras tenha tido igual correspondência quando o atletismo viveu momentos complicados. Mas adiante. O exercício continuado, e por muitos anos, criou, como seria inevitável, diferenças de opinião e de avaliação. Em alguns casos indisfarçáveis reservas. Cresceram os “casos”,os “ódios” e os “inimigos”. Mas nem isso obstou a que continuasse a obter resultados desportivos que nenhuma outra modalidade alcançava. E a ser respeitado mesmo pelos que o criticavam. E a ser armadilhado nos corredores do poder governamental e, ao mesmo tempo, publicamente elogiado. O que é revelador da qualidade e carácter dos que seus autores. Mas também do receio que inspira.
De um momento para o outro escolheu o silêncio. Fechou-se na sua modalidade. Não acredito que tenha perdido sentido crítico a um desporto que se revê nas galas ou nos discursos laudatórios ao poder. Ou na congénita incapacidade de quem lidera as instituições perceber que o seu papel é servir o país e não servir-se.
Cansou-se da falta de solidariedade? De uma lealdade que não é lealdade mas apenas calculismo tacticista? Não sei. Sem fazer qualquer exercício especulativo - ele saberá - interrogo-me num outro plano: o que ganhou o desporto português com um menor envolvimento de um dos seus dirigentes mais bem preparados, mais esclarecidos e mais capazes? Sem desprimor para ninguém, pode um país onde a qualidade dos recursos humanos é escassa desperdiçar os seus melhores?
Avaliações e análises estimáveis e respeitáveis não faltarão para contrariar este pensamento. O comentário não é, de resto, neutro. Pela pessoa em causa tenho, de há longos anos, amizade e estima pessoal. Mas que, como muitos o sabem, em nada mexeram no âmbito das relações profissionais e institucionais quando tiveram que ocorrer.
Um pais pequenino -na dimensão e na mentalidade – rói-se de inveja de quem tem sucesso. E também não aprecia quem elogia o mérito alheio E não se furtará a encontrar mil razões para o negar ou desvalorizar. Ou para encontrar defeitos. Ou para matar o mensageiro de modo a destruir a mensagem. Mas, isso, qualquer um está sujeito. Sobretudo os que têm exposição pública. Com uma outra importante diferença. Aquele dirigente deixa o que recebeu melhor que o que encontrou; deu o peito às balas sem assessores de imagem ou amigos na comunicação social. É pouco, dirão. Mas, nos tempos que correm, já é muito. Para o país. E para o desporto
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