Essas receberam as palavras de António Barreto em silêncio. Como o país em geral. Compreende-se. António Barreto faz parte daquele pequeno grupo de pessoas que não pode ser atacado pelo carácter ou pela incoerência. Convém que sobre o que diz se não alimentem grandes polémicas. Para que o efeito passe depressa. E se há questão com que a esquerda lida mal é com o exemplo. Historicamente foi sempre por aí que a doutrina se fragilizou. E que os ideais se esvaneceram. A questão é devastadora.
Mas com uma parte da esquerda “socrática” o problema é de outra natureza. E mais grave. É uma esquerda de pressas. E de ajustes de contas. Ressentida, arrogante, ressabiada e cheia de azedumes. Julga-se possuída de uma superioridade ética e de uma inteligência que só ela tem. O mistério é saber porque assim pensa. Porque não teve escola? Porque nunca leu Antero ou Sérgio? Porque dominar o aparelho do Estado cega? Tudo parece funcionar em função de um único objectivo: o poder. E, embora o não aceite, é profundamente conservadora. Purifica o seu progressismo nas causas fracturantes. Uma parte dela nunca soube o que era lutar pela liberdade. E por isso gosta de prescutar, como no passado, tudo o que há para saber sobre as pessoas. E, qual big brother, de colocar etiquetas. Defende a liberdade de expressão. Mas odeia a responsabilidade cívica do uso da liberdade. E, por isso, quando é preciso, ataca em regime de anonimato. Deseja ter tudo controlado. Adora as soluções de engenharia social. O fracasso é o seu tabu. E não lhe peçam bons exemplos. É uma afronta. É uma esquerda que só pelo facto de assim se apresentar dispensa qualquer outra prova. Julga-se possuída de dom divino.
É esta esquerda que, supostamente, seria republicana e socialista (?), que é capaz de em qualquer gabinete, de endireitar o desporto. É um propósito sempre renovado quando chega ao poder. E chega tantas vezes que se vê obrigada a ter uma amnésia selectiva. Melhor dito :a programar a memória. De tal maneira que cada vez que regressa é como se fosse a primeira. E acredita piamente nesse calendário. Faz diariamente a sua prece. Com muito copy past à mistura. Sobretudo francófono. E com um tema de eleição: as federações e os dirigentes desportivos. O busílis é mesmo os dirigentes. Excepção feita aos períodos e campanhas eleitorais, em que os dirigentes são precisos para aumentar as listas de apoiantes, colocá-los na ordem faz parte do menu principal. Não fossem os dirigentes desportivos e outro galo cantaria!
Esta esquerda teima em não perceber que o seu reactivismo - aos dirigentes e às federações - é do mesmo tipo que uma parte significativa das pessoas tem em relação aos políticos e aos partidos.Com um problema. Sobra em retórica o que falta em bons exemplos. E aqui reside o verdadeiro problema. Á legitimidade política de controlo dos recursos públicos não corresponde uma exemplaridade moral no respectivo uso.
Os males de que padece o dirigismo desportivo, no uso dos chamados “dinheiros públicos” e outro tipo de recursos são comuns aos agentes políticos. Não há uma massa distinta. E também se não dividem entre os bons à esquerda e os maus à direita. Não há uns- os dirigentes políticos- a gastar bem e os outros - os desportivos- a gastar mal. Não existem os primeiros com elevado sentido da causa pública. E os outros a servirem-se dela. As engenharias financeiras a que se entregam muitos dos organismos desportivos são idênticas às da administração pública e dos gabinetes ministeriais. É uma ilusão pensar que nestas instâncias a gestão da coisa pública é feita sem truques, sem opacidade e às claras. Que não existe um peculato disfarçado de serviço público. Que existe parcimónia nas despesas de representação. Nas ajudas de custo. Nas despesas apresentadas. Nos fundos permanentes. Nos almoços, que são sempre de trabalho. Nas aquisições de serviços que nunca são às empresas amigas. Nos camaradas que se vão colocando na administração pública. Na valorização do mérito que é sempre exclusivo dos “nossos”
O silêncio e a cumplicidade políticas querem fazer passar os outros por parvos. E é sempre fácil culpar os dirigentes desportivos pelo mau uso dos recursos públicos. Mas o mal não ocorre dentro da própria casa? Ou o que é mal nos outros é em nós virtude?

